A faca afiada estava apontada para o chão e refletia a imagem de Flowey. Uma criança segurava a arma. Uma criança que a flor acreditava que era a única pessoa que a entendia. A única que poderia fazer a planta resgatar os sentimentos de amor e de compaixão, a vontade de cuidar de alguém. Chara.

Mas Chara era como Flowey. Sem piedade, sem laços.

E se as pessoas não tem uma a outra, matar é fácil.

Matar Flowey seria fácil.

— Volte! Pare agora mesmo! — A flor dizia em pânico enquanto a criança se aproximava.

Naquele momento, Flowey sentiu muito medo. A criança a agarrou pela haste e mostrou um sorriso sádico. Arrancou as pétalas uma a uma. A dor foi surreal. Flowey começou a chorar e se contorcer.

— Eu ainda sou seu melhor amigo... — A flor dizia com a voz trêmula de dor — Chara...

A criança arrancou a última pétala, e a flor sentiu seu fim mais próximo.

~oOo~

— ARH!

Flowey acordou dentro de um vaso de planta que ficava ao lado do computador e perto da janela.

Era só um sonho. E dos bem ruins.

De repente ouviu um barulho vindo da cama. Frisk havia acordado em meio à escuridão.

Mesmo depois de um ano, Frisk continuava com a mesma cara inexpressiva de sempre. A criança — que Flowey nunca se importou em saber se era menino ou menina — se aproximou e, antes que a flor pudesse usar algum sarcasmo, afagou a cabeça da planta, desarmando-a.

— Pesadelo?

— Hnf. Foi... Aquele fertilizante novo que Papyrus comprou.

— Durma comigo. Não vai ter pesadelo.

— Essa teoria é muito muito estúpida. Quem a inventou?

— Toriel.

— Isso só funcionava quando eu... Quando Asriel era um bebezinho.

Frisk coçou a própria bochecha por um momento.

Algo estava inquietando Flowey desde que a barreira foi rompida e desde que sentiu o êxtase de emoções diante da absorção de tantas almas. No fundo sentia que havia uma realidade em que Frisk não era a pessoa boazinha que aceitava refeições saudáveis de vegetóides aleatórios, mas sim uma criança medonha que não poupava a vida de ninguém.

Isso era o que mostrava seus pesadelos. Neles, a flor não conseguia mais ver Frisk, e sim Chara. Uma Chara que não hesitava em matar.

O problema era que não sabia se aquelas imagens eram sonhos ou se em algum momento Frisk fez tudo aquilo e resetou. Esse último pensamento causava um estremecer nas folhas. Era como se o rosto de Chara fosse aparecer a qualquer momento na face de Frisk e arrancar pétala por pétala.

A criança fez menção de tocar na flor mais uma vez, mas Flowey usou um ramo para dar uma tapa nos dedos humanos.

— Hei! Não puxe as pétalas!

— Não precisa ter medo.

— E-eu não estou com medo! Você não é estúpido o suficiente pra fazer mal a mim. Não depois de ter me poupado quando tinha todos os motivos para me matar. Abriu um sorriso sarcástico e se alongou o suficiente para ficar próxima ao rosto da criança Você também poderia ter feito isso ao invés de me trazer. Teria resolvido todos os meus problemas.

— Não teria.

— Huh?

— Você não quer morrer.

— E-Er…

— Tem determinação, então quer viver.

— ...

As pétalas murcharam como sempre murchavam quando Flowey se via desmascarada. Era um corpo vazio. Não tinha alma, então o que aconteceria a ela quando morresse?

Frisk pegou o vaso e o colocou no criado-mudo ao lado da cama.

— Você... Não me machucaria, certo? Murmurou a flor.

— Só se você virar uma TV monstro.

— Arg. Você teria que apagar minha memória pra isso.

A criança sorriu e se deitou na cama.

— Eu não machucaria você. Boa noite, Flowey.

~oOo~

— Papyrus, querido, vire a esqueda agora. Dizia Mettaton no banco da frente. E evite a via principal. Está engarrafada.

O carro de Papyrus subia pela estrada da montanha e enfrentava um trânsito bastante conturbado a caminho da praia. Ao lado do motorista, Mettaton servia como GPS e já estava bastante entediado. Atrás, Alphys aproveitava para ver o novo episódio de Duper Gatinhas 3 e Sans enchia a mão de Frisk com protetor solar.

— Eu não entendo o porquê disso, mas Tori falou que a pele dos humanos é sensível, pirralho.

— Nós não temos muitos pelos. E não somos só osso.

— É por isso que é bom ser um esqueleto! Papyrus exclamou orgulhoso Não temos pele e nem vasos sanguíneos! Nyehehehe!

Alphys guardou o celular quando o episódio acabou e olhou preocupada para o vaso com terra no colo da criança.

— Hei, Frisk, sua flor está bem? Não apareceu desde que saiu de casa.

— Flowey teve uma noite ruim. Tem que descansar.

— Quer que eu segure isso pra você?

Alphys fez menção de pegar o vaso, mas um ramo verde brotou da terra e deu uma chicotada na mão da cientista, que a afastou subitamente.

— Oh... Acho que ela não gosta muito de mim.

— Ela não gosta de ninguém Sans deu de ombros Hei, pirralho, eu tenho uma pra você. Toc toc.

— Quem é?

— A divina.

— A divina quem?

— Adivina quem vai praticar as novas piadas de toc toc?

Mettaton bateu na própria cara, enquanto Papyrus bufava algo como “Ah, não, Sans, de novo não!”.

— Oh, Sans, querido, ainda vai levar uma hora até descermos a montanha Mettaton cruzava os braços com ar de lamento. Vamos escutar músicas ao invés dessas ridículas piadas de toc toc?

— Relaxe, Mettaton. Hei, você sabe qual é a loja que vende óculos pra robôs?

— Ah, não, por favor não...

— A RobÓtica. Hehehehehe!

— Papyrus, faça-o parar.

— É mais fácil fazer ele arrumar a cama do que parar com isso. Papyrus advertiu Mas não tema! Eu, o grande Papyrus, achei um atalho que vai nos poupar tempo!

— Uh?! Sério?

— Epa. Apertem os cintos. Sans avisou apertando os seus e os de Frisk.

No segundo seguinte, Papyrus virou o carro bruscamente para fora da rota e o automóvel caiu montanha abaixo. A cena teve como trilha sonora os berros de Alphys, de Frisk e de uma flor que saiu da terra usando dezesseis sinônimos de “idiota” para se referir a Papyrus enquanto o som de Megalovania saia do sistema de áudio de Mettaton. A visão do chão cheio de areia branca se aproximando fazia Alphys choramingar “é o fim” e Flowey querer transformar Papyrus e vários pedacinhos sorridentes.

De repente os irmãos Esqueleto usaram suas habilidades gravitacionais para amortecer a queda, e o carro pousou suavemente no chão do estacionamento, junto dos outros.

— Wowie! O esqueleto erguia os braços. Conseguimos!

— SEU SACO DE OSSOS, EU VOU MATAR VOCÊ!! Flowey só não avançou no motorista porque Frisk estava segurando a sua cabeça.

Alphys foi a primeira a sair do carro e teve certeza de que iria desmaiar ou vomitar — o que viesse primeiro — mas foi surpreendida por uma mulher peixe que praticamente pulou em suas costas para abraçá-la:

— Minha nerd fofa!!

— U-Undyne!

Enquanto a cientista se virava para abraçar a namorada, o restante saía do carro e via Asgore tentando puxar assunto com Toriel e receber respostas monossilábicas. Uma cena que deixou Sans um pouco nervoso.

Frisk deixou o vaso no chão e correu para abraçar a cabra.

— Mamãe!

— Oh, minha criança! Vocês chegaram mais rápido do que eu pensei.

— Eu usei uma manobra de mestre! Nyehehehe! Papyrus posava como um herói Tudo para não chegarmos atrasados.

— Sempre se chega atrasado ou adiantado. Oh… Isso me lembra… Imagine se chovessem relógios? Seria da hora.

Toriel começou a gargalhar sozinha com a própria piada enquanto Asgore massageava o cenho, Undyne e Papyrus faziam careta e Sans suspirava encantado... Pelo menos até levar uma cotovelada de Mettaton e voltar a si.

— Querido, você é tão discreto quanto um macaco numa fazenda de hamsters. Satirizou o robô.

— Frisk vai crescer traumatizada se conviver muito tempo com você. Papyrus reclamou fazendo careta.

Todos tiraram do carro a cesta de piquenique, os guarda-sóis, os brinquedos infláveis e os cantis com água e caminharam em direção à praia.

— Como foi na secretaria de educação, Toriel? Perguntou Aphys.

— Foi bom. Depois de muito... Er... Diálogo por parte de Undyne, aceitaram o currículo da escola de monstro, e os humanos poderão continuar frequentando ela também.

— Beleza! Chega de papo chato! Undyne fechou o punho cheia de energia Vamos nadar!

— Sim! Papyrus ergueu uma boia em forma de osso E depois eu mostrarei minha nova receita!

— Isso! Quem chegar por último é um Jerry!!

Os dois correram em direção à praia.

— Vamos lá, majestade! Alphys empurrava Asgore para a água Precisa se divertir também!

— Oh! Er… Claro...

Frisk, Sans e Toriel ficaram para trás, arrumando os guarda-sóis e a toalha do piquenique enquanto Mettaton checava o próprio celular.

— Meus seguidores devem estar loucos pra verem minha imagem neste belo dia de Sol, então hora de uma selfie na praia para os meus fãs. O robô chegou perto de Flowey e esticou a câmera para focá-los Querida, sorria!

“Clic!” Na foto, Mettaton mostrava um sorriso glamuroso ao lado de uma flor com cara de assassino psicopata sem alma aguardando para estripar a próxima vítima.

— ... Oh. Isso vai causar pesadelos nas crianças.

A flor mostrou-se orgulhosa.

— Hei, Flowey! Frisk já estava com uma boia com estampa de carneirinhos na cintura Vamos nadar?

— Flores e água salgada não é a melhor combinação, sabe? Eu vou ficar aqui.

— Eu cuido dela, minha criança. Dizia Toriel amarrando a saída de banho na cintura. Vá brincar com os outros.

— Eu sei me cuidar só. Replicou a planta usando um tentáculo para abrir a mochila de Frisk e tirar um game portátil de lá de dentro. Vá logo, antes que a peixona venha aqui lhe sequestrar.

A criança acenou para todos e saiu correndo em direção à água.

Enquanto isso, Sans colocou óculos escuro e se deitou numa das toalhas, soltando um bocejo. Toriel o mirou pensativa.

— Frisk lhe deu trabalho?

— Não se preocupe. Ele é mais comportado que o Papyrus quando tinha essa idade.

— Mas você não dormiu bem pelo visto.

— É que passei a noite em claro.

— Por que?

— Esqueci de apagar a luz.

Toriel abriu mais os olhos e em seguida, caiu na risada:

— Oh, essa foi demais!

— Eu disse pra ele dormir mais. Mettaton se meteu na conversa enquanto postava a foto no Subnet Mas ele preferiu passar a madrugada mandando piadas pra v...

BONC!” Uma bolada de Undyne quase arrancou a cabeça de Mettaton do pescoço, e afundou a cara do robô na areia.

— Mettaton!!! Alphys gritou de longe.

— Uhuuu! Ponto!

— Undyne, isso não é volei! Papyrus atraia a bola para si Você não precisava lançar tão forte!

— Ops! Hehe! Foi mal aí, Metta! Acho que eu não conheço o tamanho da minha força!

Com um sorrisão, Sans assistiu ao robô se recuperar do choque enquanto Flowey olhava para o esqueleto com desprezo:

— Você controlou aquela bola pra vir na direção dele, não foi?

— Quem sabe? É um mistério. Hm... Quer saber? Acho que seria bom tomar um banho afinal de contas.

A planta não ligou. Ficou mais entretida em seu jogo e nem viu quando o esqueleto se juntou aos outros.

Toriel foi para perto dela.

— Tome. A maga passou uma caixinha de suco para a planta e furou com o canudinho Você precisa se hidratar, minha pequena.

Flowey não respondeu. Apenas inclinou-se na direção do canudo para beber o suco enquanto ficava olhando Frisk ser lançado na água por Undyne.

— Eu me lembro de você, Flowey. Foi até o meu jardim há muitos anos, não? Eu não sei o que você queria, mas acho que não consegui lhe ajudar.

— Não dava pra me ajudar. Eu nasci com um defeito que não pode ser consertado.

— Você não nasceu com defeito, minha criança. Você é apenas diferente.

— Pff. Você não me conhece.

— Eu tenho observado você durante todos esses dias. Quando vai à escola... Quando brinca... Quando está com fome... Quando está de mal humor... Quando reclama... Você me parece como qualquer outra criatura. Apenas precisa se acostumar com o seu jeito de ser. E se deixar as pessoas se aproximarem, será mais fácil achar o que procura.

"Se ela se lembrasse do que eu fiz não pensaria assim" a flor dizia pra si mesma com certo desprezo.

— Por que você não está na água com os outros, Toriel?

— Oh, é que eu comprei um livro de piadas novo. Quer ouvir?

— Não!

— Hahaha! Estou brincando. Só quero tomar um Sol mesmo. É sempre bom aproveitar as coisas que o subterrâneo nos privava.

— Hnf. Flowey desviou a atenção do jogo e olhou para o céu.

"Será que ela tem razão?"

~oOo~

Flowey estava assustado.

A criança se aproximava com a faca em punho depois de ter sido recebida em seu antigo lar. Era Frisk e ao mesmo tempo... Era Chara. Na verdade, era mais Chara do que Frisk, e ainda fazia aquela cara assustadora.

— Ha... Ha... O-o que é isso? — A flor tremia e sentia algo comprimir seus filamentos — Esse sentimento... P-por que estou tão… Agitado?

Chara abriu um sorriso assassino, se aproximando cada vez mais da planta.

— H-hei, Chara... S-sem ressentimentos, certo? H-hei, o que está fazendo? Recue!!

A criança riu deliciada pelo medo de Flowey. Sim, a flor era capaz de sentir medo. Pavor. Pânico.

— E-eu mudei de ideia sobre tudo isso!! — Flowey começava a sentir lágrimas brotarem de seus olhos, enquanto tentava recuar cada vez mais — I-isso não é mais uma boa ideia! V-você deve voltar, Chara! Esse lugar está muito bem do jeito que está!

A faca se ergueu para o alto.

— P-pare de fazer essa cara assustadora, Chara! Isso não tem graça! Você tem um péssimo senso de humor!!

“Não!!"

~oOo~

— ARH!

Flowey se espantou com o banho de água doce que recebia do regador de Frisk. Havia dormido? Já se passaram quantas horas? Bem, provavelmente o suficiente para ela se desidratar em razão do calor e do sal.

Frisk se acocorou na frente dele e largou o regador:

— Estava dormindo?

— Devo ter cochilado.

— Você estava secando.

— Estava?

Uma olhada panorâmica foi suficiente para identificar Undyne e Alphys andando na beira da praia, tomando sorvete, Asgore lendo um livro de botânica, Mettaton lendo uma revista com a própria cara estampada, e Papyrus, Sans e Toriel jogando um jogo de rebater a bola.

— Hm… Frisk.

— Sim?

— Tem uma pergunta que eu quero fazer pra você.

— Huh?

— Você por acaso já foi um... Um assassin…?

“FRISK, CUIDADO!” Asgore gritou.

Frisk mal teve tempo de raciocinar quando sentiu um tentáculo de Flowey amarrar seu tronco e puxá-lo para o chão enquanto outras vinhas bloqueavam a tempo a bola de futebol que viajava a uma velocidade surpreendente em direção à nuca da criança.

Todos os monstros pararam o que estavam fazendo. A bola veio de dois homens que jogavam na praia.

— Hei, desculpem aí! Gritava um dos banhistas Pode jogar a bola de volta?

Foi Sans que usou sua magia com tanta potência que arremessou o objeto nos dois banhistas fazendo — no mínimo — o nariz de cada um sangrar. Eles encararam o esqueleto numa mistura de raiva com medo e saíram correndo

— Isso deve dar um jeito neles. Sans estalava os ossos.

Toriel correu até Frisk e a flor, sendo acompanhada de todos os outros.

— Oh, céus... Vocês duas estão bem?

Ela abraçava Frisk, que estava mais de olho num tentáculo quase partido de Flowey, resultado da tentativa de aparar a bolada.

— Wowie, Flowey! Papyrus acenou Você mandou bem!

— Está tudo bem, garota? Undyne se sentou ao lado de Frisk.

— Sim.

— Ótimo. Praias parecem algo bem perigoso. A próxima guerra entre monstros e humanos poderia acontecer numa.

— Frisk, querida, fique parada pra foto. Mettaton deu um "clic" em seu celular Preciso twittar isso.

— Mettaton, agora não. Alphys torcia o nariz.

— Hei, esse susto me deixou com fome. Sans zoou Vamos comer?

— Eu não tenho essas necessidades, Sans, querido. Mettaton lembrou.

— Que seja. Vamos comer mesmo assim.

Os demais concordaram e tiraram todos os itens que não tinham consumido da cesta. Mettaton voltou a ler sua revista e Flowey resolveu jogar no seu game portátil sem perceber que Frisk a encarava de um jeito estranho e amuado.

~oOo~

A noite havia chegado.

A cabana de Undyne e Alphys, na praia, continha uma cozinha que agora estava repleta de massa, molho de tomate e doces, fora um grude que queimou no fundo da panela e ficou intragável.

— Alô? É da pizza? Mettaton, no auge da sua impaciência, fazia uma ligação.

Asgore e Alphys se jogaram no sofá quase choramingando por terem que esperar no mínimo mais meia hora pra conseguirem comer enquanto Undyne e Papyrus cumpriam a tarefa de limpar tudo.

Toriel foi para perto da janela da frente para esperar o entregador. Apoiou os cotovelos no parapeito e o queixo em uma das mãos, já sentindo o estômago emitir um ruído. Estava na hora de dar aulas de culinária pra Papyrus e Undyne por uma questão de saúde pública.

— Hey, Tori.

— Hn?

Sans havia se aproximado dela, já com um cachorro quente na mão.

— Eu sabia que tinha que comprar um desses. Tome. Frisk está na varanda e já dei um -quente pra ele.

— Mas e você?

— Não se preocupe. Eu já comi. Uso a mesma estratégia desde que Papyrus aprendeu a cozinhar.

Toriel deu uma risada soluçada:

— Bom, eu estava justamente pensando em dar aulas de culinária pra eles.

— Com uma professora como você, até Papyrus aprenderia essas coisas.

— Hm... E você seria meu aluno?

Sans sentiu-se desconsertado:

— Talvez. Eu preciso aprender a fazer... Ahn... Coisas com ketchup.

O esqueleto foi para o lado dela e também se apoiou na borda da janela.

— Tudo está bem, não é? — Ele sibilou pensativo — Nosso maior problema esta noite foi substituir o jantar.

— Isso inquieta você?

— Mais ou menos. Você sabe, passamos por muita coisa até a barreira ser quebrada.

A voz de Sans foi ganhando um timbre sombrio e cauteloso:

— Mas... Você já teve a sensação de que... Tudo poderia estar pior? De que isso pode ser tirado de nós como se nada tivesse acontecido?

— Eu vivo com esse medo desde quando perdi meus filhos. E perdurou a medida que Asgore estimulava os monstros a matarem cada uma daquelas crianças.

— ... Oh.

— Por isso acho que devemos aproveitar esses bons momentos. Nossas recordações mais fortes nunca são esquecidas, não é mesmo? Uma hora elas sempre vem a tona. Asriel, Chara... E todas aquelas crianças estão livres agora.

— Hehe... Você está certa.

— E você? Por acaso virou um espelho?

— Espelho?

— Está tão reflexivo.

Sans soltou uma risada espontânea e contemplou a paisagem pelo vidro da janela.

Talvez as possibilidades pessimistas não passassem de coisas da sua cabeça.

~oOo~

Na varanda, Frisk encarava com melancolia seu cachorro quente intacto.

(Ou seja lá que bicho foi aquele que virou salsicha)

Tomando cuidado pra não tombar no banco que servia de suporte para o vaso da flor que estava entretida no seu game portátil, a criança usava a ponta do pé para se embalar fracamente na rede, e o sanduíche na sua mão começava a ficar frio. Algo rodava em seu estômago. Uma sensação ruim. Um sentimento de culpa.

Algo que precisava desabafar.

E só havia uma criatura que podia lhe entender.

— Flowey?

— Hn? O que foi? Esse cachorro quente tá ruim?

— Não. É que... Qual era a pergunta que você ia me fazer na praia?

— …Oh. A flor voltou a olhar para o game, que agora estava pausado Não era nada.

— Por favor.

— ...

Flowey suspirou e fechou o jogo:

— Você resetou só uma vez?

Silêncio. Isso, por si só, era um mal sinal. Frisk não era o tipo de humano que demorava para dar uma resposta simples, a menos que fosse...

... A menos que fosse uma resposta ruim.

— Não.

— ... Oh.

Flowey começava a ter uma sensação ruim sobre a conversa que estavam preste a ter:

— Então por que eu só me lembro de uma?

— Porque você pediu para eu apagar sua memória. E depois... Você ficou muito assustado.

Frisk baixou a cabeça com tristeza:

— Nós tínhamos conseguido quebrar a barreira. Você conseguiu. Os monstros ficaram livres, as seis almas foram libertadas e nós seguimos nossa própria vida. Mas eu... Resolvi voltar pro subterrâneo. Resetei a linha do tempo e comecei a matar todos. Mamãe, Papyrus, Undyne, Mettaton... Você estava se divertindo. Estava gostando... Mas aí, você ficou com medo e implorou pra eu parar.

— M-mas... Você tinha o seu final feliz! Por que resetou?

— Tudo ficou... Entediante.

Normalmente Flowey abriria seu sorriso mais sádico e zombaria da criança. Afinal, Frisk não era tão bonzinho assim. Também se entediava, também sentia raiva, também sentia que alguma coisa não estava bem. Entretanto, a ciência de que os pesadelos eram na verdade resquícios de suas lembranças despertavam na flor um sentimento estranho, parecido com a angústia.

— Eu senti falta do subterrâneo. Frisk continuou a confissão Então eu voltei pra lá. Foi quando eu vi Chara. Ela foi enterrada de baixo da cama de flores que eu caí e estava comigo o tempo todo. Por isso que as vezes você me confundia com ela.

"Vamos matar todos? Aposto que você está morrendo de curiosidade!”

“Vamos, depois você reseta. Só pra ver como é”

“Não é como se eles sempre gostassem de você. Metade deles nem se arrepende de ter lhe matado."

"E eles foram responsáveis pelas mortes das outras crianças. Eles não merecem tanta bondade assim.”

"As seis almas concordariam comigo."

“Vamos fazer uma história diferente. Só por curiosidade.”

Os olhos de Frisk ficaram escondidos na sombra de sua franja e, segundos depois, as lágrimas escorreram de seus olhos, sendo possível ouvir gemidos abafados vindo da criança.

— F-Frisk?

— Eu matei a mamãe... E... Papyrus morreu acreditando em mim... E Sans... Eu nunca tinha visto Sans com tanta raiva.

Frisk cobriu os olhos com um dos braços, levando a flor a sentir uma súbita vontade de confortá-lo.

— Eu não conseguia mais controlar meu corpo... Era... Mais forte do que eu... E Sans... Eu tirei dele o que ele tinha de mais importante... Ele tentava vingar todos os outros. Eu morri várias vezes... Mas sempre voltava porque queria vencê-lo... Até que ele morreu chamando por Papyrus.

Frisk soluçava em meio ao choro. Quando foi que Flowey viu a criança chorar daquele jeito? Nunca! Nem mesmo quando sua vida estava por um fio.

E agora precisava fazer alguma coisa para aparar aquelas lágrimas.

— Eu não consegui continuar depois disso... A criança prosseguiu Chara me disse que só faltava Asgore e você... E tudo ia acabar bem... Mas... Eu sabia que mesmo que resetasse... E fizesse tudo direito... Eu jamais esqueceria o que eu fiz.

Flowey suspirou e não sabia dizer o que mais doía: Chara ser capaz de lhe matar, Frisk ser capaz de traçar um caminho genocida ou todos os seus pesadelos terem um fundo de verdade. Não era como se tivesse decepcionado com Frisk. Não podia culpar ninguém, afinal a própria flor nutriu esses pensamentos sádicos um dia.

Aliais, a criança tinha bem mais motivos para agir assim. Pelo menos na mente de Flowey.

— Por que não se vingou de mim, Frisk? Ou de Asgore? De todos os monstros, ele e eu éramos os que menos mereciam piedade. Por que... Resetou?

— Eu fiz isso por mim. Eu... Não conseguia mais continuar com isso. Frisk limpou as lágrimas com a manga da roupa e fungou Eu só queria esquecer que tudo aquilo tinha acontecido.

Surpreendentemente, Flowey estendeu um fino tentáculo até a mão do humano e enrolou-a nos dedos enquanto suas pétalas murchavam.

— Flowey...?

— Pare de se culpar. Você consertou tudo.

— Eu sou uma farsa. Eles não sabem o que fui capaz de fazer com eles.

— Eles não precisam saber. Nenhum deles tem poder pra lhe julgar. Eu vi o que aconteceu com algumas crianças que caíram no submundo. Eu... Sei o que estou falando.

Frisk ergueu as sobrencelhas com interesse durante a pausa, mas ao invés de lhe encarar, Flowey apenas desviou o olhar:

— Você os perdoou por terem lhe matado. Você me perdoou. Você não é uma farsa. Você é...

Essa era a primeira vez, depois de um ano, que a criança e a flor se abriam dessa forma. Passavam boa parte do tempo juntas, as vezes em silêncio, as vezes fazendo dever de casa, as vezes jogando videogame, cozinhando... Mas nunca conversaram sobre o passado ou o combate que tiveram. Nem mesmo quando a flor dizia que devia ter morrido ou permanecido no subsolo.

— ... Você é o amigo que eu sempre quis ter.

A criança inclinou um pouco a cabeça para o lado. Flowey ainda era incapaz de olhar em seus olhos, ainda mais porque ainda havia lágrimas no canto deles.

— Flowey...

Frisk sorriu com certa melancolia. A flor soltou sua mão e respirou fundo.

— Nunca mais resete.

A criança assentiu, trazendo o vaso pra junto de si, abraçando-o e afagando a flor, tomando cuidado com as pétalas:

— Nada de resets. Nunca mais.

— Bebê chorão. Murmurou a flor achando graça de si mesma.

E por mais que Flowey não conseguisse sentir toda a felicidade que queria, naquele momento sentia um estranho bem estar.

FIM

Notas finais
Sim, trata-se de uma rota genocida abortada depois de matar Sans (ou seja, Flowey teve a epifania, então não se lembra da rota depois do reset). Primeira fic de Undertale. Espero que tenham curtido.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!