Não era uma viagem em grupo. Mas o que aconteceu em seguida mudou para sempre o curso da vida de Olivia Castle. A moça de cabelos castanhos, sempre de camisa regata e bem folgada que levantava com qualquer bater do vento. Era assim que seus amigos a conheciam.

“Tudo bem, eu já chego”, ela falou ao telefone.

Da última vez que você falou isso, eu já tinha andado em todos os brinquedos”, a voz do outro lado — uma mulher — respondeu. “Venha logo, se não eu vou aí e te puxo pelo cabelo.

“Eu não me atraso, você sempre está adiantada.”

Virtude que nem todos têm.

Olivia ergueu as sobrancelhas, visivelmente ofendida. Mas sua voz ficou inalterada, sua noite não seria estragada pelo mau-humor da pessoa do outro lado da linha. Agarrou a bolsa com pressa, derrubando seu conteúdo no chão. Mas que droga!, sibilou, mas queria gritar. O destino parecia querer atrasá-la de propósito.

“Eu entendi, me espera.”

Seu tempo tá correndo agora.

Essa noite prometia, ela pensou consigo mesma, enquanto colocava todos os objetos de volta na sua bolsa. Foi quando notou uma lata de refrigerante rolando até o seu pé. Pegou-a e olhando em volta, se perguntou o que estava acontecendo, pois estava sozinha. Colocou-a sobre a mesa, perto da TV, onde estava antes visto pela marca de água que a lata havia deixado.

Sentiu-se momentaneamente perturbada, pois sua mente devia estar lhe pregando uma peça. Decidiu então, sair dali o mais rápido possível, pois alguém esperava por ela. Pegou as chaves em cima do sofá, e lá estava o ursinho de pelúcia que ela amava, caído e olhando para ela. Estava velhinho, com um olho descolado, mas Olivia o amava demais e não se livraria dele. Ela sorriu e o colocou na posição correta. Guardaria depois.

Ela saiu apressada pela porta. O ursinho, até então imóvel, voltou a cair, desta vez de cara na superfície do sofá.

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Olivia cumprimentou sua amiga com um abraço. Um bem forte, daqueles que apenas amigos próximos são capazes de dar. A outra garota correspondeu ao abraço, rindo e eliminando a breve tensão que ambas tiveram anteriormente ao telefone.

“Cheguei! Sei que você sentiu minha falta.”

“Oh, não, amorzinho. Não senti sua falta”, a amiga respondeu brincalhona. Olivia respondeu com um leve tapinha no ombro.

Hey, Cynthia! Vamos logo!”, um rapaz com cabelo grande gritou do outro lado do parque.

As duas garotas viraram para o rapaz, que acenava como um louco. Parecia estar com pressa. Ele sumiu na multidão, empurrando as pessoas à sua frente, fazendo as garotas rirem. Considerando que ambas já tinham enrolado o bastante, Olivia puxou Cynthia pelo braço.

“Vamos!”, ela berrou.

Atravessaram uma grande linha de carros que separavam o parque do pavimento. Um dos carros acendeu as luzes, e um alarme começou a apitar, mas seu som era abafado pela movimentação geral. As duas garotas deram um salto pra trás. O motorista acenou para que elas saíssem da frente.

“Ei, calma aí!”, Olivia berrou. “Vamos.”

“Qual é o problema desse homem?”, Cynthia sussurrou no ouvido de Olivia, que estava ocupada demais procurando algo na sua bolsa pra responder.

“Eu...”, ela respondeu, pausadamente. Ainda mexia na bolsa quando chegaram à fila pra comprar o ingresso. “... não sei, mas com certeza o processaríamos caso tentasse passar por cima da gente.”

“Algumas pessoas são loucas.”

Cynthia pegou algumas moedas do bolso da calça e começou a contá-las.

“Olivia, o que você está procurando?”

“Eu quero a minha câmera, mas minha bolsa está bagunçada.”

“Que surpresa.”

O vento bateu, levantando os cabelos das duas garotas. Olivia sentiu um arrepio subir pela sua espinha. Um arrepio anormal, uma sensação ruim. Ela deu de ombros e voltou a mexer na bolsa, tirando finalmente a câmera de dentro. Ela emitiu um grunhido de impaciência.

“Finalmente.”

Cynthia deu uma risadinha.

“O que é tão engraçado?”

“Suas botas, você não tem como ser mais exagerada, não é? E se ficássemos a noite inteira aqui? Tenho certeza que você não aguentaria.”

Olivia fez uma pose, provocando risada das duas.

“Você gosta de duvidar das minhas capacidades.”

Ela mirou a câmera para a montanha-russa, no mesmo momento em que os carrinhos passavam por uma caída de tirar o fôlego. Ela suspirou em êxtase, olhando a fotografia.

“Cynthia, aliás, onde está o seu amigo?”

“Aquele fodido já deve ter ido para outro lugar. Ele nunca me espera.”

Cynthia a puxou pelo braço para que se apressasse. Era a vez de elas comprarem os ingressos.

“Bem-vindas ao Voo do Diabo!”, o vendedor exclamou com um sorriso obviamente forçado. Olivia notou a expressão do homem de imediato, mas tomou a iniciativa de falar antes de Cynthia.

“Dois ingressos, por favor.”

“Três dólares.” O homem puxou dois ingressos do rolo e passou para as meninas pela abertura da cabine. Cynthia pegou os ingressos, enquanto Olivia se enrolava para arrumar as notas.

“Por cinco dólares, vocês ganham um passaporte para irem a todas as atrações sem precisar pagar.”

“Obrigada, mas vamos apenas experimentar a montanha-russa”, Cynthia respondeu com indiferença. Ela olhou para Olivia e durante um breve momento elas olharam para o vendedor. Por fim, elas sorriram e saíram.

“Eu sei que você é obrigado a falar essa frase de efeito para todos que vem aqui. É uma droga, eu sei que você acha isso”, Olivia falou. Cynthia deu uma gargalhada.

“Você é maligna!”

“Apenas realista. Agora vamos.”

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A subida era aterrorizante. Olivia gostava de coisas que desafiavam sua coragem. Ela olhava para todos no chão, conforme o carrinho ia subindo mais e mais. Muitas pessoas assistindo a atração. Por um momento se perguntou se aquilo tinha sido uma boa ideia. Cynthia, por sua vez, apertava os olhos com força, ela não parecia estar preparada.

O carrinho finalmente desceu e por mais que Olivia quisesse gritar, ela não faria aquilo. Não era um grito de excitação, mas de medo. O carrinho deu voltas, piruetas, a toda velocidade. Cynthia sentiu que fosse desmaiar, mas se manteve firme.

Uma garota nos bancos de trás berrou “DEUS TENHA PIEDADE!” enquanto outro garoto berrou “ESSE É O VOO DO DIABO, PIEDADE PRA QUEM?”. Olivia soltou uma risada, acompanhada por todos os outros passageiros que fizeram o mesmo.

Foi uma volta eletrizante.

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“Eu jurei que ia desmaiar”, Cynthia ofegou, levantando a trava do carrinho.

“Foi uma volta divertida, eu gostei. Iria de novo.”

“Você é louca? Eu não sei por que ainda me presto a fazer isso.”

“Bem, nós saímos vivas.”

Olivia saiu do carrinho, ajudada por um funcionário. Seu salto se partiu assim que ela pisou de volta na plataforma.

“Mas que droga!”

Ela se desequilibrou, sendo apoiada por Cynthia. Ela se recompôs e envolveu seu braço no da amiga. Um homem passou por elas. Tinha cabelos grisalhos mas não aparentava ter mais de 45 anos. Olivia o reconheceu.

“Esse homem é o oftalmologista que atendeu o Isaac semana passada”, ela sussurrou para Cynthia. “Ele é bem responsável.”

“Oftalmologistas também vêm ao parque, afinal.”

“Certo, mas a minha única preocupação aqui é o meu salto.”

“Eu te avisei para não vir de salto.”

Olivia não estava disposta a ouvir mais uma bronca da sua amiga, ela só queria saber como andar pelo resto da noite nesta situação. As duas sentaram-se num dos bancos na saída do brinquedo. Olivia pegou os óculos da bolsa e os colocou de volta. Um rápido flash a assustou. Cynthia olhou para a câmera, sorrindo.

“Você poderia ao menos esperar que eu me arrumasse.”

“Ok, tira você então.”

Olivia tomou a câmera das mãos da amiga. Cynthia deitou a cabeça no ombro de Olivia. Flash.

“Essa é boa. Eu vou revelá-la e colocar em um retrato.” Olivia disse, olhando em volta. “Agora vamos levantar, temos muito a fazer hoje.”

“Quer andar mesmo com um salto quebrado?”

“Um salto é o menor dos problemas.”

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A manhã surgiu agradável. Olivia sentou-se na cama, colocando os óculos. Estavam sujos, portanto ela os higienizou com o líquido que estava bem próximo ao despertador. Pegou o controle remoto, como de costume. Lembrou que tinha que fazer algo naquela manhã, mas ainda estava sonolenta. A TV emitiu um som agudo antes de ligar.

“Eu preciso comprar outra”, disse, arrumando o cabelo e colocando uma parte atrás das orelhas. Olhou para a TV.

Cirurgias a laser, uma oportunidade pra enxergar bem de novo.

Dizia o texto escrito na tela.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!