Antes das Chamas - Suécia, 1872
3 Pequenos Incidentes
Notas iniciais
Luci pegou a bandeja que Milene disse para que levasse e começou a andar pelo salão oferecendo drinques para os convidados do baile. Rezava em silêncio para não derramar o conteúdo de nenhuma das taças, ao mesmo tempo em que criava reclamações que poderia fazer para Milene depois que elas estivessem no quarto no fim da festa, ela entedia que havia ficado encarregada de servir as mesas, mas tinha que ser justamente as bebidas?
Quatro bandejas foram levadas e trazidas para a cozinha sem nenhum desastre ter ocorrido, mas ao estar com as últimas taças de sua quinta bandeja, durante um segundo de distração, Luci tropeçou em uma das toalhas de mesa e estava preste a cair quando sentiu um braço a segurando pela cintura, impedindo que ela caísse.
Ela já estava completamente vermelha e pedindo desculpas quando levantou o olhar e deu de cara com os mais brilhantes olhos esmeralda que ela veria em toda a vida. Luci não esqueceria aqueles olhos nem se olhasse para outros milhões de rostos e encontrasse com milhões de pares de olhos. Os olhos eram lindos, o dono também e Luci talvez estivesse um pouco encrencada.
Depois que por algum milagre conseguiu desviar o olhar dos olhos dele, Luci pode constatar que não havia derrubado nada, ou melhor, ele não havia derrubado nada, o rapaz havia segurado a bandeja com uma mão e com a outra segurado a garota, impedindo que tudo fosse ao chão.
– Obrigada, muito obrigada — Luci disse se desprendendo dos braços dele.
– Não há de que — ele devolveu para ela sua bandeja enquanto analisava Luci da cabeça aos pés algo que a fez ficar ainda mais envergonhada.
Ela olhou para os lados para conferir se mais alguém havia percebido todo aquele desastre que acabará de acontecer, mas parecia que além deles dois ninguém mais saberia do ocorrido.
– D-Desculpe pelo inconveniente, mas tenho que voltar ao trabalho, será que pode manter tudo isso em segredo? Eu não deveria derrubar nenhuma bandeja ou cair por cima dos convidados.
Ele sorriu e podia se notar que segurou uma risada.
– Claro que sim — ele disse mantendo o sorriso no rosto.
– Tenho que voltar ao trabalho.
– Espere! — ele a chamou assim que ela virou de costas para ele.
Ela se virou novamente e ele pareceu analisar toda a situação, por fim, pegou duas taças da bandeja que ela estava segurando.
– Beba comigo — ele convidou.
– O que? — ela perguntou surpresa.
– Beba algo comigo — ele repetiu.
– Me perdoe, mas não posso.
– Não pode? — ele pareceu pensar por um segundo — Claro! Seu trabalho — ele sorriu parecendo perceber a bobagem que havia dito — eu guardarei uma taça para você.
Sem dizer ou explicar mais nada ele deixou Luci sozinha sem entender nada da situação. Luci voltou para cozinha e no meio de caminho viu Müller olhando para ela com um olhar nada satisfeito. Ela provavelmente havia visto tudo.
– Luci? — a garota ouviu a voz de Greta chamá-la enquanto servia algumas mesas próximas a que ela estava com o pai.
– Olá senhorita — Luci a cumprimentou — gostaria de alguma bebida?
– Não, obrigada, só fiquei surpresa em encontrá-la aqui e não na cozinha.
– A senhorita Müller ficou um pouco... Chateada com os comentários de Karin sobre ela e decidiu punir nós duas.
– Karin está na cozinha? — Greta sorriu.
– Sim, está.
– Ela deve estar planejando envenenar toda a comida — ela brincou — vou ter que tomar cuidado.
– Provavelmente sim — Luci disse com um sorriso no rosto.
– Greta? — o pai dela se aproximou — Está conversando com os criados? — ele pareceu insatisfeito.
– Só estava pegando algo para Ian.
Ele olhou desconfiado.
– Não demore — comentou antes de voltar para onde estava.
– Eu tenho que ir agora — ela disse pegando uma das taças que Luci ainda carregava — espero que Karin já tenha começado a envenenar as bebidas — deu um sorriso maroto — até logo Luci.
– Até logo senhorita.
Greta voltou para próximo de seu pai e outros homens enquanto Luci voltava à servir.
O restante da noite prosseguiu como o planejado de Müller, danças, apresentações, discursos, tudo ocorreu perfeitamente bem. Luci não derrubou mais nenhuma bandeja, nem caiu sobre nenhum outro convidado, ainda conseguiu ver o garoto de olhos esmeralda algumas vezes durante o baile, conversando e dançando. Sem que ela percebesse, toda vez que voltava da cozinha, seus próprios olhos percorriam o salão procurando por ele e sempre o encontravam, muitas dessas vezes ele retribuía o olhar.
No final do baile, quando todos os convidados já haviam ido embora ou se recolhido em seus quartos Müller liberou todos os criados para dormirem, pois de manhã cedo arrumariam o palácio.
– Exceto você Luci — ela anunciou ao fim.
Todos os outros criados se direcionaram para seus quartos enquanto Luci aguardava as ordens da governanta.
– O senhor Briel pediu que ao final do baile você fosse até os aposentos dele — ela disse séria — me acompanhe.
Müller começou a andar em direção as escadas e Luci a seguiu.
– Espero que não seja nada relacionado com o incidente em que ele a livrou de uma catástrofe no meio do baile, — ela falou enquanto andava — não quero ouvir nenhuma reclamação sobre você, ou eu farei com que limpe todos os quartos do palácio sozinha.
– Sim, senhorita Müller.
Luci acompanhou Müller pelos corredores da mansão e pôde perceber que durante alguns momentos a governanta olhava para ela e se ela não a conhecesse bem poderia dizer que se tratava de preocupação.
Depois de subirem duas escadas, Müller parou em frente a uma porta e bateu, após alguns segundos ele abriu a porta.
– Senhor Briel eu trouxe Luci, a criada que o senhor disse querer conversar.
– Já disse que poderia me chamar apenas de Cameron, não gosto de formalidades — ele falou sorrindo — e obrigado por sempre fazer seu trabalho com tanta dedicação.
– É um prazer — ela respondeu dando um pequeno sorriso.
– Poderia nos deixar a sós? Gostaria que a conversa fosse particular.
– Claro — Müller pareceu surpresa com o pedido.
Müller percorreu o caminho que havia feito com Luci momentos antes e os dois ficaram observando até ela dobrar em um dos corredores em direção a escada.
– Você gostaria de entrar? — ele abriu mais um pouco a porta para que ela pudesse passar se quisesse.
– Eu deveria?
– A senhorita decide.
Luci ponderou por um momento, não fazia ideia do que alguém como ele a queria no seu quarto, mas estava curiosa o suficiente para querer descobrir, então ela passou por ele e entrou. Cameron apenas sorriu e fechou a porta depois que ela entrou.
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