IV

Rebecca apanhou o receptor do telefone com a mão direita bastante trêmula. Era difícil ocultar seu nervosismo. Do lado de fora da cabine, o tenente Goldfield aguardava paciente. Fora idéia dele utilizar um telefone público. A linha do apartamento poderia estar grampeada. Existia o risco de a Umbrella também ter acesso a todos os telefones da cidade – o que tornaria aquela precaução inútil – mas achavam melhor prevenir.

Inserindo uma ficha no aparelho, Chambers verificou mais uma vez, de forma rápida, o número cravado por Billy no verso de uma de suas dogtags. A jovem hesitou por um instante, imaginando quais conseqüências poderiam advir, tanto para Coen quanto para si, se o contatasse. Era uma oportunidade de limpar o nome do fuzileiro, afinal. Valia a pena tentar.

Discou, seu dedo suado girando o mecanismo numérico e a fazendo se lembrar dos sádicos quebra-cabeças desvendados meses antes. Perto deles, ligar para um número desconhecido, do qual não se tinha certeza pertencer a Billy, era um passeio no parque. Concluída a discagem, os bipes de espera fizeram o coração de Rebecca saltar extremamente ansioso no peito, a expectativa lhe vertendo pelos poros a cada segundo. E quase entrou em colapso quando, do outro lado, ouviu uma voz bastante familiar atender:

— Alô?

Ela não conseguiu replicar de imediato, alguns instantes mudos se passando antes de gaguejar:

— B-Billy?

O silêncio agora se fez do lado oposto, entrecortado por um suspiro de surpresa.

— Rebecca, é mesmo você?

A ex-integrante do S.T.A.R.S. assentiu com a cabeça enquanto respondia, mesmo sem que Coen pudesse vê-la:

— Sim, sou eu. Só hoje descobri o número gravado numa das placas de metal, acredita? De qualquer modo, esse meio de contato veio na hora certa. Billy... preciso conversar a respeito de algo com você.

— Que seria? – ele riu. – Espero que não tenha mudado de idéia em deixar que eu fugisse!

— Não, muito pelo contrário... – ela também riu, vendo que a brincadeira servira para quebrar a tensão. – Conhece o tenente Louis Goldfield, correto?

— Ele me defendeu na corte marcial... – a voz do fuzileiro demonstrou certa compreensão. – Procurou-a?

— Sim, hoje pela manhã. Está aqui comigo ainda, na verdade. Parece que houve pressão sobre seus antigos companheiros de pelotão e há chance de surgir evidência a seu favor, Billy. Mas para isso, é preciso que você volte a testemunhar.

Coen voltou a suspirar... porém agora não aparentava estar muito satisfeito.

— Isso não será suficiente... – afirmou.

— Não! – protestou Rebecca. – Temos de tentar! É sua liberdade, a chance de voltar a ter uma vida normal, que está em jogo!

— Carinha de boneca... Eu deixei esse número com você porque sabia que um dia precisaria de sua ajuda. Mas creio que não será muito nesse sentido... De qualquer modo, há algo sobre o que ocorreu na África que ainda não contei a ninguém. Nem a você. E talvez tenha chegado o momento de ouvir. E entender que nem com evidência a meu favor, eu escaparei da pena de morte se me pegarem...

— Como assim? – Chambers suava não mais de ansiedade, mas de um indesejado temor.

— Não posso contar por telefone. Não é seguro. Vou me encontrar com você, e pode trazer o Goldfield junto. Ele é confiável. Só tenho a agradecer por ter sido leal até o momento.

— Onde podemos nos encontrar então?

— Está morando no mesmo endereço? Eu pesquisei sobre você depois que fugi. Bem, se estiver, enviarei uma encomenda expressa com as instruções de que precisa. Podemos arranjar tudo para daqui dois ou três dias. Não estou tão longe.

— Certo!

— E Rebecca...

— Sim?

Após breve pausa, Coen complementou:

— Nada de trazer seus amigos do S.T.A.R.S., mesmo eles tendo passado pelo mesmo que nós. Este é um segredo nosso, OK?

Lançando um olhar incerto para Goldfield, que a fitava curioso do lado de fora, a jovem anuiu:

— Entendido.

* * *

Ela adentrou aturdida o laboratório. Pelo caminho até ali, os corredores de metal aos quais já estivera tão acostumada mostraram-se subitamente ameaçadores e opressivos, como se quisessem esmagá-la. Deu-se conta que precisaria acalmar a mente, caso quisesse ser clara ao reportar ao marido o que vira. Desacelerando o passo, colocou-se diante da última porta automática antes da sala em que William trabalhava, o obstáculo logo deslizando para cima e liberando passagem. Inserido em meio a microscópios e tubos de ensaio, o cientista virou levemente a cabeça para observar quem chegava.

— Oh, é você...

— Querido, eu tenho algo a contar...

— O chefe fazendo mais exigências impossíveis de cumprir? – Birkin deu um sutil sorriso. – Oh, o que estou falando... Ele diz o mesmo de mim, não é mesmo?

— Antes fosse Irons! Há algo mais grave!

O semblante de William tornou-se subitamente sério e, por que não, sombrio.

— Diga.

— A infecção chegou aos esgotos. Esbarrei num funcionário quase virando um espécime.

Birkin levou uma mão ao queixo, abandonando o trabalho. Afastou a cadeira de rodinhas da mesa impelindo os pés, mantendo a expressão pensativa. Era observado pela esposa com uma face ainda mais preocupada, mas aparentou ignorá-la ao murmurar:

— Desde o início do incidente viral, este complexo também se tornou condenado... Por mais que adiássemos a situação, não poderíamos escapar do inevitável. Maldito Marcus!

— O que pretende fazer agora?

William lançou um olhar para outra mesa próxima, sobre a qual havia dispostos alguns frascos contendo uma substância de coloração lilás.

— Estabeleça comunicação com nosso contato o quanto antes. Este lugar está comprometido. Chegou o momento de fugirmos. A Umbrella com certeza aproveitará a situação para agir.

— E quanto a Sherry? – alarmou-se ainda mais Annette, por mais que compreendesse a urgência da situação. – Temos de pensar nela! Vir buscá-la depois ou confiá-la a algum de nossos aliados está fora de cogitação. A epidemia pode estourar em Raccoon a qualquer momento!

— Dê-me dois dias. Sherry ficará bem. Apenas ligue para o contato e prepare o terreno. Avise-o que o encontrarei no ponto de encontro cogitado em Stoneville ainda esta semana. Sem atrasos.

— OK...

Abalada, e não conseguindo deixar de mostrar isso fisicamente devido a uma incômoda tremedeira que a dominara, Annette deixou a sala, a porta deslizando para baixo atrás de si. Retornando aos corredores, julgou até ter se esquecido do caminho até seu dormitório, onde deixara anotado o número do dito contato... quando viu algo se mover nas sombras, e não se tratava de um dos outros cientistas do laboratório. Gelando, a mulher estacou, tentando identificar a aparente silhueta que a espreitava...

Quando, numa segunda olhada, a mesma simplesmente desapareceu.

Ou estavam em sério risco, vigiados por espiões que se fundiam à penumbra... ou Annette realmente começava a perder a razão.