Antes da Meia-Noite
1 Parte 1 -
Notas iniciais
Eram quase oito horas da manhã quando o avião decolou no Aeroporto Internacional de Londres. Eu estava me preparando para essa viagem já havia meses. Certamente muito antes da Jane me ligar na na sexta passada com o convite. Eu sabia que ela ia se atolar de tarefas no trabalho e se esquecer de mim. Quer dizer... da Páscoa.
Eu estava evitando ligar, mandar mensagens e emails, pois sabia que ela ainda guardava mágoas do ano passado. Sempre que eu tocava no nome New York, sentia ela suspirar e se controlar para não tocar no nome dele. Admirava seu esforço, afinal eu sabia que fazia bem para ela e o tio Eric conversarem sobre o assunto. Eu só não estava preparada ─ ainda ─ para falar sobre aquele dia. Ainda tinha pesadelos com o momento em que olhei para o céu e vi aquela fenda se abrir... Enfim. Não queria falar sobre o assunto com eles.
Principalmente quando Jane tenta conversar e colher informações sobre aquele cara. Tudo bem. Eu estava no meio da multidão. Eu vi, fui salva e sorri para aquele cara. Dei uma entrevista elogiando o cara. Mas não significa que ela pode começar a inventar histórias sobre momentos no Novo México com o tal deus nórdico, pode? É. Foi exatamente a mesma coisa que pensei. Não, ela não pode.
E o pior de tudo nessa história foi o tio Eric. Nossa, ele pirou de vez depois de New York. Começou a falar sobre um tal de Tesseren, Tesseracio... Não sei. Só sei que ele não parou de falar comigo sobre isso no hospital até que eu inventasse uma desculpa qualquer sobre voltar ao trabalho na lanchonete e ajudar na limpeza.
E foi naquele mesmo dia em que eu os vi.
Meu olhos quase pularam para fora da órbita quando entrei na lanchonete destruída, cumprimentei a Julie, vesti meu avental e fui começar limpeza no salão. Eles estavam lá, sentados em uma única mesa posta de pé. Comendo. "Minha nossa" Foi a única coisa que consegui dizer. Isso despertou um deles que saboreava o que quer que fosse o prato compartilhado entre eles. Era o mesmo homem que tio Eric falou no hospital. O mesmo homem que havia me salvado e o mesmo homem que a Jane teimava em dizer que havia conhecido no Novo México. Só que aquela cena... Os heróis do planeta sentados ali, na minha frente... Foi demais para um dia só.
E então me internei, usando a assinatura da minha tia Ester como auxílio. Durante as três primeiras semanas, sonhei com o mesmo par de olhos, acordei com o mesmo calafrio que senti no momento em que o dono dos olhos verdes e gelados tocou em meus braços e sorriu friamente para mim, chamando-me de mortal repugnante. Os médicos diziam que era muito comum esse tipo de ilusão quando alguém passa por um momento perturbador como o que passei. Comecei a tomar calmantes para dormir e viver dopada dentro da clínica, me recusando a aceitar a oferta de Jane e me mudar para Londres e trabalhar em uma clínica hospitalar por lá.
Foi então que duas semanas atrás, tia Ester resolveu acabar com a palhaçada (palavras dela, não minha) e resolveu me tirar da clínica. Taylor havia me oferecido o emprego de volta na lanchonete, mas minha tia Ester fez ameaças terríveis dizendo que se eu continuasse a jogar meu talento fora, iria me colocar para fora de casa e me deixar viver em baixo da ponte do Central Park. Por isso voltei a trabalhar no hospital como enfermeira do Dr. Ponts ─ vulgo ex-namorado que se casou com uma modelo parisiense gatíssima ─ .
E cá estou eu. Agora dentro de um metrô, incrivelmente quase vazio, esperando minha parada chegar para que eu pudesse pegar um táxi e me encontrar com a Jane em seu apartamento. Um garoto, sendo ele uma das poucas pessoas ali, estava me olhavam com curiosidade. Olhei para o que vestia para ver se havia algo de errado. Minhas botas de couro sintético estavam perfeitamente alinhadas em minha perna subindo até os joelhos, assim como minha calça jeans escura que moldava meu corpo, quase conseguindo criar a ilusão de que eu tinha uma coxa malhada e nem um pouco magrela e sem sal. Meu sobretudo preto de caxemira estava escondendo minha camisa de lã branca e estava sob meu cachecol e, olhando meu reflexo na janela, vi que meu gorro estava no lugar, escondendo a cascata de cabelos castanhos que eu possuía. Meus óculos estavam no lugar, tentando esconder meus olhos azuis e meus lábios... Oh droga! Meu batom. Eu havia me esquecido completamente que passara um batom cereja quando decidi comer um sanduíche no caminho do aeroporto até o metrô. Meus lábios estavam com farelos de pão grudados em toda parte e um risco vermelho atravessava minha face direita. Então era isso. Eu devia gostar de ser humilhada em público, não era possível!
Depois de usar o banheiro do metrô para retocar a maquiagem ─ também poderia dizer: retirar os farelos de pão da boca ─, peguei um táxi e entreguei ao motorista o endereço de Jane. Conversamos brevemente sobre o tempo bipolar de Londres e, quando a corrida acabou, entreguei o dinheiro e uma barra de chocolate com creme de amendoim feita pela tia Ester para ele. Nunca vi olhos brilharem com tanta intensidade como os do homem ─ a não ser os olhos do sonho... mas não quero falar sobre isso.
Conferi novamente o endereço que a Jane me enviara por e-mail e toquei o interfone.
─ Que é? ─ a amiga de Jane, Darcy, gritou rabugenta pelo interfone.
─ Oi... ─ não sabia bem o que dizer ─ Sou eu, Sarah.
─ Quem? ─ Darcy perguntou, surpresa. E com a boca fora do fone ela gritou ─ Jane, sua irmã está lá embaixo.
Pude ouvir alguém gritar algo do tipo: Me esqueci completamente! Fiquem aqui enquanto vou lá falar com ela.
─ Ei, Sarah... A Jane já está descendo, o.k.? ─ e desligou na minha cara.
Ótimo. Ela realmente se esqueceu de mim.
Joguei minha mala em cima de um dos degraus do prédio e comecei a contar até dez mentalmente, mantendo a calma e recusando-me a dar meia volta e embarcar no primeiro voo para casa.
A porta se abriu e Jane saiu.
─ Ei, Sarah! ─ ela estava bem diferente desde a ultima vez que nos vimos na clínica. Se cabelo castanho médio estava um pouco mais curto, sua pele ainda mais pálida por conta da falta de sol de Londres, usava uma roupa que aparentava ser bem confortável ─ calça de moletom cinza, camisa de listras em azul e preta e um casaco de caxemira.
─ Você se esqueceu, não foi? ─ resolvi soltar a bomba, me recusando a aceitar o abraço que ela oferecia.
─ Claro que não! ─ ela agiu como se estivesse ofendida ─ Só... Não esperava você hoje.
─ Hã... ─ franzi o cenho ─ Você me convidou. Então... depois que confirmei na sexta, imaginei que você já sabia que eu chegaria hoje.
Jane molhou os lábios procurando uma forma de se explicar melhor, fazendo exatamente como a mamãe fazia enquanto buscava respostas para perguntas loucas que nós costumávamos fazer quando criança.
─ Está frio aqui fora, será que podemos entrar? ─ pedi enquanto pegava minha mala novamente e dava um passo a frente.
Percebi que Jane estava um pouco incerta quanto a me deixar entrar, ficando brevemente na frente da porta, impedindo minha passagem.
─ Jane? ─ ergui as sobrancelhas, perplexa com a atitude dela.
─ Ah, claro! ─ ela soltou o ar e sorriu. Puxou-me para dentro, deu-me um abraço e fechou a porta atrás de mim.
A Jane contou que morava no terceiro andar, por isso ofereceu-se para carregar minha mala, pensando estar muito pesada. Expliquei que não havia trazido muita coisa, pois pretendo voltar para casa no dia seguinte.
Quando chegamos ao apartamento 3C, Jane abriu a porta e, antes que eu entrasse, me encarou com seu olhar pidão brevemente.
─ Sarah, eu só quero que você saiba que...
─ Eu quase consegui! Faltou pouco, mas eu quase consegui levantar o martelo! ─ ouvi Darcy gritar de dentro do apartamento, interrompendo a frase de Jane.
Avancei aos poucos, tirei meu cachecol e pendurei no cabideiro, mas antes percebi que havia uma... capa? Uma capa vermelha estava pendurada ao lado de uma esmeralda.
─ Mas o que... ─ sussurrei, surpresa. Será que Jane resolveu brincar de chapeuzinho vermelho?
Quando entrei na sala eu os vi.
Não acreditei, no inicio. Parecia uma cena de filme que passava lentamente logo a minha frente em 3D.
A primeira coisa que percebi foi a desordem do minúsculo apartamento de Jane. Haviam folhas e mais folhas penduradas pelas paredes entre quadros e fotografias, grandes equipamentos científicos que não fazia ideia de como funcionavam, a TV ligada em um canal de esporte qualquer e uma série de pessoas amontoadas ali no meio.
Na mesa de centro da sala da Jane estava um martelo grande, com aparência impotente, desenhos estranhos e a Darcy e seus longos cabelos negros, calça jeans e camisa preta com alguns dizeres em francês estampados na frente, logo em cima dele tentando arrancá-lo da mesa. Ao lado dela estava uma criatura alta, musculosa, usando trajes de batalha medieval, cabelos loiros e barba por fazer. Olhos incrivelmente azuis, de um tom puro surpreendente. Ele sorriu para mim, condescendente enquanto eu continuava a passar o olho pela sala. E então tudo travou quando eu vi o outro visitante. Ele estava ali! berrei mentalmente, eu acho. Não era possível! Esse tipo de coisa não existe. Olhei em volta buscando algum sinal de perigo. Sua idiota! Ele é o perigo. Briguei comigo mentalmente.
Ninguém disse nada enquanto eu encarava a todos perturbada, mas foi só eu olhar para Jane que o mundo despencou.
─ Sarah... Quero que conheça Thor e Loki. Eles vieram passar a Páscoa conosco.
E tudo a minha volta ficou turvo e depois negro.
Eu desmaiei.
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