Antes Que Você Vá
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Espero que gostem! Adorei os comentários no capítulo anterior, adorei saber que vocês gostaram! Eu particularmente tenho a impressão de que ninguém lê essas notas, e as minhas são gigantes então apenas desejo
Boa leitura!
Capítulo Quatorze
Eu sorri de uma maneira tímida, olhando para baixo, para os nossos pés, tentando controlar o intenso rubor que eu sentia tingir minha face.
Droga, eu nunca corava. Eu não tinha vergonha, não era uma garota bobinha tímida. Mas Theo me fazia ficar daquele jeito.
Não neguei nem confirmei, apenas olhei para ele com muita dificuldade – mas parte de mim não queria parar de olhá-lo.
– Você é presunçoso, hein? – murmurei.
Theo riu e deu de ombros.
– Você está mudada. Digo… fisicamente.
Lembrar-me de minha imagem não me fez sentir confortável. Perguntei-me se Theo tinha gostado de minha mudança, e tentei imaginar o que ele falaria se soubesse que eu tinha deixado fazerem tudo aquilo comigo só por causa dele. Para vê-lo.
Nem eu mesma podia acreditar agora.
– Eu não quero falar sobre isso – falei com sinceridade.
Theo confirmou com a cabeça. Era tão incrível e bom – tão incrivelmente bom – tê-lo ali que eu não queria – não suportaria – gastar meu tempo com ele ficando chateada.
Começamos a andar pela praia em determinada direção, sem realmente decidir para onde era. O vento estava quente e o sol, alto, e fiquei me perguntando se Theo estava tão feliz por eu estar ali quanto eu estava por ele estar ali.
Eu só pensava, e me perguntava, e conjecturava… sem ter o que dizer a ele, sem encontrar palavras que definissem corretamente o que se passava dentro de meu coração – sem encontrar palavras para me mostrar o que eu estava sentindo…
– E você vem aqui todos os dias desde que eu não apareci?
– Castigo na escola – ele respondeu minha pergunta balançando a cabeça. – Sua amiga me disse.
– Luiza – eu corrigi. Ela não era minha amiga. Pelo menos, não diretamente. – Você simplesmente… foi falar com ela? Quando viu a foto…?
Era estranho tocar no assunto, mas não havia como fugir dele. Tínhamos de esclarecer algumas coisas antes – não que houvesse algo a ser explicado entre duas pessoas que se conheceram numa escalada.
– É, eu pensei em você na hora em que vi a pintura e simplesmente… agi. É estranha, quase mística, a maneira como você deixa sua alma no que pinta.
O que ele disse me revirou por dentro, mas eu apenas franzi a testa por fora.
– Como se você conhecesse a minha alma – murmurei.
Os meus olhos se encontraram com os olhos de safira dele, e me senti completamente errada em minhas palavras. Talvez ele conhecesse minha alma. Por que outro motivo eu me sentiria tão completamente conectada a ele?
– Por que ficou de castigo na escola? A Luiza não me disse – Theo mudou de assunto de uma maneira bem pouco sutil.
Eu suspirei e respondi a pergunta dele com outra.
– Onde estamos indo, exatamente?
Observei que o número de pessoas na calçada tinha rareado bastante, e eu não sabia direito onde estávamos; nunca tinha ido para aquela parte da praia. Mas Theo parecia seguro.
– Logo adiante – respondeu ele –, há um deque de pescadores. É vazio a essa hora. Por isso pensei em irmos para lá.
– Ok – murmurei.
As perguntas se perderam no silêncio e no vento, e só quando chegamos ao deque foi que me senti pronta para falar novamente.
O deque era um prolongamento da praia uns três ou quatro metros adentrando o mar. Eu imaginava que poucos pescadores ficassem ali, já que era melhor pegar barcos e ir para o meio do mar para pegar peixes maiores e de melhor qualidade. Provavelmente, a profundidade da água era maior ali, e o chão de madeira úmido lembrava o da marina, três dias antes. Mas o mar estava bem mais bonito do que naquele dia na marina; o sol brilhava, por isso ele estava azul-claro, como o céu. E como os olhos de Theo.
Olhei para ele; Theo estava mais lindo ainda naquela paisagem menos sufocada com pessoas. Havia apenas eu, ele, o deque, o sol… e mar sob o céu; os dois pareciam envolver tudo. Nada de pessoas; elas estavam longe. Nem de areia, nem de problemas, nem de nada… nada que me fizesse temer qualquer coisa.
Theo foi até a beirada do deque e se sentou. Fiquei um pouco atrás, apreensiva de uma maneira esquisita. Ele por fim me chamou com um gesto de mãos, e caminhei até ele, depois me sentei. Nossas pernas estavam um pouco acima da água – as minhas mais acima que as dele, porque eu era mais baixa – e o olhar que trocamos não teve nenhum significado expresso, apenas um pouco de constrangimento.
Para quê estávamos ali, afinal de contas? O pior é que eu tinha chamado Theo. Ele tinha me esperado, mas eu queria isso.
O que eu deveria dizer a ele? Não havia nada a dizer. Ele também sabia disso.
Talvez seja melhor não dizer nada…, uma vozinha em minha mente murmurou.
Aquilo soou de forma estranha, mas, meu Deus, era só minha consciência… ou alguma expressão da minha loucura. Não era um conselho, como “beije-o”. Mas eu interpretei assim. E isso era vergonhoso.
Por que era vergonhoso? Arthur ia me beijar. Eu ia beijá-lo. E também fora nosso primeiro “encontro”. Não era uma coisa horrível, nem reprovável.
Entretanto, de alguma forma, eu não queria que com Theo fosse daquela maneira.
Soltei um profundo suspiro.
Eu estava mudando por causa de Theo, e aquela era a única parte de tudo isso que eu odiava.
– E então, não vai me responder? – Theo falou de repente.
Eu tinha perdido completamente o fio de pensamento; a concentração. Demorei um minuto para me lembrar da pergunta de Theo.
– Ah – eu sacudi a cabeça. – É uma longa história. Mas eu basicamente fugi da escola e fui andar de jet-squi com um amigo. Me dedaram para a minha mãe e ela foi atrás de mim. Mas faz tempo que minha vida virou um inferno – acrescentei a última parte por algum motivo desconhecido a mim mesma.
Eu sentia os olhos de Theo em meu rosto, mas mantive os meus longe; no ponto mais distante do mar.
– Desde quando sua vida virou um inferno? – ele perguntou baixinho.
– Desde que…
“Desde que eu conheci você”, era o que eu queria responder. Só que o problema era que a culpa não era de Theo. Não era de ninguém. Eu simplesmente… tinha chegado ao final da linha. Com a polícia, com minhas amigas, com meus pais…
– Bom – eu recomecei, porque Theo me olhou como se me incitasse. Os olhos dele me questionando eram perturbadores. – Eu sou um pouco problemática. Pelo menos, é como todos pensam.
Theo sorriu com ironia.
– É, uma garota que quase morre numa escalada e ainda quer continuar realmente tem problemas.
Eu ri de leve. Se ele soubesse cada coisa que eu tinha passado depois daquele dia.
– Fiquei muito zangada com você – comentei. – Não gosto que mandem em mim.
– Eu salvei você; você me deve obediência.
– Em que conto de fadas está escrito isso?
– Não sei. Mas é sério… conte-me. Conte-me o restante.
O fato de ele querer saber o restante mexeu comigo. As pessoas não eram acostumadas a querer saber coisa alguma sobre mim.
– Bom, naquela noite, depois da escalada, fui dar um mergulho noturno. O mar estava forte e acabei me afogando…
A exclamação de Theo foi tão apavorada e indignada que me detive, assustada, pensando se talvez algum peixe gigante não tivesse mordido os pés dele.
Mas ele não estava preocupado com os pés; ele apenas me fitava como se eu fosse louca.
– Você o quê? – perguntou ele.
Eu dei de ombros.
– Me afoguei, mas um cara do carrinho de lanches me salvou e… – eu engoli em seco. – Por que você está tão assustado?
– Por que, Mianah? – Theo repetiu, e sua expressão tornou-se uma máscara de intensidade que me deixou hipnotizada. – Não imagina o quanto é difícil para mim… salvar você… salvar a sua vida em uma tarde, e à noite você simplesmente ir lá e colocá-la em risco novamente? Colocar-se em risco novamente… como se o que eu fiz por você não significasse nada?
O modo como ele disse tudo aquilo me fez me sentir realmente mal por ter me afogado. Mas o fato de ele se importar continuava sendo extraordinário.
– Talvez eu simplesmente devesse morrer… – falei com a garganta apertada – e você não deixou. Você interferiu.
– Ah, não me venha com essa. Ninguém simplesmente quer morrer. A não ser que tenha algum tipo de problema psicológico, o que talvez possa ser o seu caso.
– Garanto que não é o meu caso – respondi. – E não quero mais falar sobre isso. Gosto de fazer coisas diferentes, e você não. Somos diferentes, então não interfira no que quero ou não fazer. Fico grata por ter me salvado, assim como fiquei a quem me salvou do afogamento, mas não há uma lição nisso.
– Você não é grata coisa nenhuma.
– Você não sabe de nada – falei em tom rude.
Theo ficou me olhando de uma maneira que me fez ter vontade de me levantar e ir embora, mas não fiz isso.
Minha cabeça queria, mas não meu corpo.
– Muito bem, vamos falar de você – murmurei.
Theo ergueu uma sobrancelha para mim.
– Ah, tá. Eu. Prazer, eu sou eu – ele disse ainda azedo.
– Conte-me sobre você. Eu não vou surtar se você quase morreu, prometo – provoquei.
– Não, eu não “quase morri”. E não há nada sobre mim que seja importante.
Revirei os olhos.
– Nem sei seu sobrenome. E com certeza, o nome é um fator básico no convívio em sociedade.
Theo acabou sorrindo espontaneamente, e concluí que ele estava sendo chato só para eu precisar me esforçar e ser legal.
– Meu sobrenome é Albuquerque. Meu nome é Theo Albuquerque.
– Sem nome do meio, como eu – comentei.
– Qual o seu sobrenome? – ele perguntou.
Sacudi a cabeça.
– Fica quieto. É minha hora de perguntar.
Theo revirou os olhos e eu ergui as sobrancelhas. Ele suspirou e começou a falar.
– Tenho dezenove anos e estudo direito na UFRJ. Estou tentando entrar em um estágio, mas há mais gente cursando direito do que querendo ser jogador de futebol – ele sorriu quando eu sorri. – Quero ser juiz, adoro tocar violão e jogar vôlei. Tenho um irmão mais velho que mora em Vancouver, no Canadá. Meus pais se separaram quando eu tinha nove anos. Eu fiquei com meu pai e meu irmão, que tinha doze anos na época, ficou com minha mãe. Nós não nos falamos muito desde então por isso, eu acho. Minha mãe foi com ele para o Canadá, e meu pai ficou aqui comigo. Ele é pediatra, e eu amo crianças. Não sei por que eu quis ficar com ele, eu também amava a minha mãe. Mas eu simplesmente quis; sempre amei ficar com ele, e minha mãe guarda uma enorme mágoa por isso. Tenho poucos amigos e me dedico aos estudos, não gosto de esportes radicais – ele me deu uma olhada de soslaio – e ganhei a aposta aquele dia. Meus amigos se renderam ao meu ato de coragem ao ter salvado você – ele completou sorrindo.
Revirei os olhos. Por dentro, eu absorvia a história dele.
Pais separados. Irmão com quem mal falava. Pessoas amadas longe. Poucos amigos.
Provavelmente Theo também precisara ser bem corajoso na vida. Eu tinha certeza de que ele tinha deixado os fatos bem mais leves do que realmente foram.
– Por que seus pais se separaram? – falei sem querer. – Desculpe, estou sendo indelicada – acrescentei num tom envergonhado logo depois.
– Não… tudo bem, sério. – mesmo assim, ele parecia relutante em contar. – Meus pais se separaram porque minha mãe traiu o meu pai.
Eu não consegui esconder o espanto e deduzi todo o resto rapidamente.
– Seu irmão perdoou, mas não você.
– Não é que eu não perdoei… perdoei, sim. Mas não aceitei aquilo. Ela acabou ficando com o cara, canadense.
– Ah, por isso o Canadá.
– É. Ela escolheu acabar com nossa família ao trair o meu pai. Não fui eu que estraguei tudo quando não quis ficar com ela. Eu simplesmente… não suportaria ir embora para outro país, deixar o meu pai, que sempre foi o melhor homem do mundo, o homem que eu queria ser… e ir morar com um homem sujo que destruiu uma família se envolvendo com uma mulher casada. Eu tinha nove anos, mas sabia exatamente o que era aquilo. O que ela tinha feito. Só nunca entendi por que, mas hoje não me importo mais em saber o motivo. Já o meu irmão… ele não se importava com nada na época, e não se importa agora. O que só prova que ele pode trair a mulher dele assim como minha mãe traiu o meu pai.
Eu soltei o ar pela boca.
– Não é uma história de todo feliz.
– Tem razão, mas ela terá um final feliz, eu tenho certeza disso.
Notas finais
E eu queria agradecer MUITO, MUITO, MUITÍSSIMO, À LINDA LINDA LINDA JULIA VALENCA, PELA RECOMENDAÇÃO. Adorei, Julia, obrigada de coração!
Reviews, certo? Hahahaha até o próximo capítulo!
Fale com o autor