Antes Que Fosse
1 Prólogo
A parte ruim de viajar com amigas solteiras? Elas somem depois de meia-noite e só aparecem no dia seguinte. Quando aparecem.
Demetria e Saoirse haviam saído na noite anterior para desbravar Montmartre e, incrivelmente, fora Saoirse quem obrigou Demetria a se controlar sob o pretexto de precisarem estar descansadas para fazer o tour pelos pontos turísticos de Paris – algo pelo qual a americana não estava exatamente animada. Acontecia é que depois de três taças de Kir Royale, Saoirse decidiu desbravar os homens franceses também. Demetria não a impediu, afinal, ela mesmo já havia sido aquela pessoa em todas as noites anteriores desde que chegaram à França. Somente quando Saoirse achou ser um boa ideia sumir no meio da noite com um nativo trouxa é que Demetria se arrependeu de tê-la deixado se divertir tanto.
Na manhã seguinte, Demetria acordou para não encontrar Saoirse na cama ao lado da sua no quarto do hotel onde estavam hospedadas. Apesar de não ser o tipo de pessoa que entra em combustão por preocupação, Demetria jogou as cobertas para longe ainda sonolenta e procurou pelo celular. Ao desbloquear a tela viu a mensagem:
antes q me ligue, tô bem
vamos deixar o passeio pra amanhã? xx
━ Uma ova ━ murmurou, levemente chateada ao prever que teria que dividir a amiga com quem quer que esteja com ela à essa altura.
Se Demetria, pelo menos, tivesse arranjado uma companhia na noite anterior, hoje ela não teria que ficar apenas com a própria. A loira agarrou-se à esse pensamento enquanto atravessava o quarto em direção ao pequeno balcão ensolarado, o calor a abraçando assim que deixou a sombra no interior do quarto. Tão rápido quanto considerou procurar por uma companhia exatamente como a de sua amiga, lembrou-se também que não era como se não conhecesse absolutamente ninguém naquele país estrangeiro.
Demetria conhecia sim um francês, talvez não tão charmoso quanto o de sua amiga e muito menos, trouxa. Por longos minutos considerou a opção que tão logo se transformou na única alternativa; sem ter uma coruja para facilitar o contato, pela primeira vez em quatro dias – que era exatamente o tempo que estava na França –, a loira vestiu a primeira coisa que encontrou pela frente. Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, correu para a recepção do hotel.
━ Pode me emprestar uma caneta? ━ pediu com os dentes aparentes para o recepcionista. ━ Um pedaço de perg... Papel também, por favor.
Assim que em posse de caneta e papel, Demetria se acomodou numa das poltronas do lobby e usando uma revista como apoio, escreveu.
Quem é vivo sempre aparece, não é?
Vim visitar seu país pra ver se é isso tudo mesmo que falam
e até agora não me surpreendi.
Se quiser me fazer mudar de ideia estarei no La Tour d'Argent
à uma hora da tarde, em ponto.
Cascudos, (porque não sou de abraços),
a Howard mais ̶b̶o̶n̶i̶t̶a̶ loira.
p.s.: É sério. Minha amiga me largou e eu preciso de companhia.
Mesmo que seja a sua...
Deu uma olhada e mesmo rabiscado parecia bom. Devolveu a caneta para o recepcionista com o mesmo sorriso que a pegou e saiu à procura da Passage Hébrard, rua que ficava uma quadra após o La Planque Hotel, conhecida por ser a passagem de acesso ao principal centro comercial bruxo parisiense — algo bem parecido com o Beco Diagonal, em Londres -, motivo pelo qual haviam escolhido justamente aquele hotel trouxa para ficar durante as pequenas férias. Lá Demetria encontraria um correio-coruja, com toda certeza.
Algum tempo depois, a sonserina estava de volta ao quarto do hotel. Se olhava no espelho de corpo inteiro, analisando as escolhas: um jeans lavado de cintura alta e uma camisa de seda listrada em tons de rosa, aberta o suficiente pra ser possível ver o top de mesma cor por dentro. Achou demais por um momento. Fechou os botões, mas achou horrível.
"Ah, pelo amor de Merlin!", abriu os botões de novo.
Era o Chevrin. Não era como se ela precisasse se preocupar com o que ele ia pensar. O cabelo já estava preso em um coque bagunçado, e uma vez com os acessórios todos no lugar, calçou os tênis impecavelmente brancos e jogou tudo o que achou importante dentro da bolsa. Olhou o relógio na parede; eram meio dia e quarenta e seis. Talvez não chegasse tão em ponto assim. Se olhou no espelho uma última vez e com um sorriso de aprovação deixou o quarto de hotel.
Demetria havia conseguido convencer Lauren a alugar um carro assim que chegaram em Paris, afinal, quando que elas usariam um carro de novo? Era um dos poucos prazeres da vida trouxa que não custava apreciar, além dos benefícios que traziam para a americana, particularmente. A mini cooper conversível branca estava estacionada em uma das ruas próximas ao hotel e apesar de Demetria ter feito algumas aulas de direção antes da viagem – e confundido o professor para aprová-la no teste –, estacionar definitivamente não era o seu forte e por isso, quando chegou até o carro, foi recebida por um senhor francês rabugento que ralhava em voz alta. O carro estava pegando o lugar de duas vagas; era disso que o homem reclamava.
━ Oui, oui! Merci! ━ Ela respondeu sonsa, enquanto entrava no carro.
Assim que conseguiu chegar a uma distância segura, ergueu o dedo do meio para o velho antes de perdê-lo de vista virando à esquerda.
━━━━━ ⌛ ━━━━━
A imprevisibilidade da vida era, provavelmente, uma das coisas mais controversas que podia existir. Às vezes muito boa, às vezes muito ruim, mas certamente sempre surpreendente.
Benjamin estava no quarto naquela manhã, meio sujo de tinta guache e cheio de desenhos ao redor, quando uma coruja aterrissou no parapeito da janela no segundo andar.
━ Eu pego! ━ Falou Nina, a garota de seis anos que o havia convencido, com pouquíssimo esforço, a brincar de pintar.
━ Nem pensar! Não com essas mãos ━ Chevrin a impediu antes que os dedos sujos de tinta azul agarrassem a correspondência, ao mesmo tempo que se levantava da cama, amassando algumas obras de arte no processo e limpando a mão na camisa branca antes de tirar o envelope da coruja.
━ Vovó disse pra não sujar a roupa! ━ Nina disse, ainda que não tivesse nenhuma moral para tal coisa.
━ Tá, tá. Eu vou limpar ━ Respondeu ao abrir o papel, ouvindo de fundo a sobrinha demonstrar certa descrença com o fato dele se livrar da bronca da avó, afinal ela própria nunca se safava das que a mãe lhe dava quando aprontava alguma coisa.
Sem prestar muita atenção na sobrinha, que apesar de curiosa logo retornou à pintura, Benjamin leu as poucas linhas da carta umas duas vezes para tentar entender corretamente. Não que a caligrafia fosse ruim, mas o conteúdo era, no mínimo, curioso. Um convite? De uma Howard? Certamente não era Aria, então só sobrava Demetria — considerando que Jasper nunca escreveria uma carta como aquela. Mas isso não ajudava em nada. Desde quando era opção de companhia para a irmã da ex-namorada? Pelo contrário, quando dividiam algum tempo no passado, geralmente usavam os segundos mais para perturbar um ao outro do que para ser civilizados. Não que tal perturbação fosse de fato séria, mas era uma ênfase sobre o motivo daquele convite soar tão fora da linha.
"Ela deve estar mesmo desesperada" ele pensou, quase rindo da situação.
Era engraçado de certa forma, isso não podia negar. Ainda assim, era estranho ser convidado ao La Tour d'Argent, ainda mais com tão pouco tempo para se preparar. Isso lhe dava ainda mais certeza de que era mesmo a única opção no país inteiro. Que sina. É claro que Chevrin podia enviar uma carta dizendo que não iria, mas pelo que sabia Demetria nunca estivera ali antes e ele próprio se lembrava como era estar em outro país sozinho. Seria de bom tom que fosse... Mesmo que o tempo não estivesse a seu favor.
━ Bom, agora você vai ter que continuar sozinha as pinturas pra nossa exposição ━ Benjamin sorriu calmo e dobrou os joelhos para diminuir a distância entre ele e a garota com uma expressão surpresa sentada no chão. — Tenho um compromisso agora e nós dois sabemos que você é uma artista muito melhor que eu. Quando eu chegar, pode me mostrar tudo!
Piscou numa tentativa de convencê-la. Funcionou. Nina se mostrou determinada a continuar sua coleção de arte no jardim e o rapaz seguiu para o banheiro na intenção de um banho rápido.
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