Anteros - Tratie
1 They meet
Notas iniciais
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
"Amor" — eu disse — e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim. Carlos Drummond de Andrade — Amor 1985 — Amar se Aprende Amando.
Katie/Travis — 11 anos.
Connor — 10 anos.
Ano de 2004
Primeiro Verão no Acampamento
Era esperado que Katie Gardner e Travis Stoll não se dessem bem por vários motivos, mas principalmente porque os dois pareciam completamente opostos. Por um lado, Katie poderia ser sinônimo de organização, mansidão e paz. Enquanto Travis representava a bagunça, a intensidade e o conflito.
Aparentemente o caminho traçado por eles foi tudo menos esperado. Da rivalidade infantil para a amizade verdadeira e, então, para o amor avassalador. Talvez Eros tivesse os acertado por engano. Afrodite, no entanto, tinha certeza que aquele era serviço de Anteros, porque só ele poderia ser tão teimoso em formar um casal inesperado como Katie e Travis. Uma outra hipótese era de talvez as Parcas estivessem muito entediadas para o convencional. É certo que quem quer que tenha sido o responsável por “Tratie” acertou quando tudo dizia ao contrário.
No verão de 2004, Travis e Connor chegaram no Acampamento Meio-Sangue alguns dias antes das férias oficiais. O dia seguinte à chegada deles marcou uma primeira pegadinha: os filhos de Apolo acordaram com pasta de dente no rosto. Todos descobriram que eles tinham sido os autores da pegadinha ainda no café da manhã quando suas cabeças ficaram brilhando com o símbolo do pai, Hermes. Pode-se dizer que ninguém ficou chocado com a informação.
Uma semana depois, Katie Gardner teve o mesmo prazer de conhecer o Acampamento Meio-Sangue. O dia 3 de julho de 2004, dia exato em que Katie chegou, foi um caos para os campistas. Todos andavam de um lado para o outro fazendo planos para o dia seguinte, que não era só um dia livre, como também o dia dos fogos de artifícios, evento importante para todos eles.
Katie chegou com seu pai pouco antes do almoço naquele dia. Do outro lado da fronteira, a garota estava acanhada, não queria entrar sem seu pai. Pelo que parecia aos olhos dela, ninguém tinha notado sua presença, todos muito absortos em suas próprias tarefas e preparativos, o que só podia significar que ela não era bem-vinda ali. Ela implorou para o seu pai para que voltassem para casa deles, do outro lado do país.
O que Katie não viu é que, na verdade, sua chegada foi percebida rapidamente por um garoto, Travis. Uma nova campista em pleno verão não era novidade para o menino recém-chegado. No entanto, a figura de Katie, por algum motivo desconhecido (somente) por ele o instigou.
Ele correu até a Casa Grande para avisar Quíron da chegada de uma nova menina.
— Quíron, tem uma menina que eu não conheço na barreira. — fez uma pausa momentânea. — Quer dizer, ela deve ser nova porque eu não a conheço e parece estar com vergonha.
— Ótimo! Deve ser Katie Gardner. — respondeu o centauro, deixando o menino com um olhar confuso. — Seu pai ligou mais cedo confirmando o endereço e avisando sua chegada.
Ele não respondeu.
— Será que você pode chamar o Luke? Ele tem sido um ótimo entusiasta do acampamento para os novatos.
— Eu mesmo posso apresentar o acampamento. — disse ele com um olhar orgulhoso.
— Travis, você não sabe nada além do que viu na última semana. — observou Quíron. — Chame Luke e apresentem os dois.
O garoto fez o que ele pediu e chamou Luke Castellan, seu meio-irmão e conselheiro chefe do Chalé de Hermes. Todos os novatos ficavam no Chalé 11 até serem proclamados por seus pais olimpianos.
Ambos caminharam até a barreira para abordar a jovem. Travis foi o primeiro a dizer algo:
— Vai ficar grudada na barra da camisa do seu pai ou vai entrar? — sorrindo travesso e observando-a com seus olhos curiosos e brilhantes.
Os olhos verdes da menina se arregalaram e ela ficou vermelha até parecer um tomate. Felizmente, a reação de Luke foi rápida, deu-lhe logo uma cotovelada.
— Opa! Travis é brincalhão mesmo. — o loiro riu, o que fez a garota ficar ainda mais vermelha, mas menos tensa.
Travis revirou os olhos com toda aquela reação.
— De qualquer forma, você deve ser a Katie, eu sou Luke Castellan muito prazer. — ele estendeu a mão até ela, que aceitou de bom grado e confirmou. — E esse é Travis Stoll.
Travis também estendeu a mão, mas não foi tão bem recebido como seu meio-irmão. Na verdade, Katie fez até uma cara feia ao cumprimentá-lo.
— E o senhor é? — Luke apontou para o homem com os braços sobre os ombros da jovem.
— Sou Nick Gardner, prazer. — estendeu a mão para ambos. — Venho trazer minha filha para o seu primeiro verão aqui no acampamento. Percebi que não consigo entrar.
— Oh, sim, desculpa. — o filho mais velho de Hermes deu um sorriso sincero. — Acho que já temos tudo o que precisamos saber sobre Katie. Ela está em boas mãos.
O homem parecia tranquilo, agachou até que ficasse da altura da filha e sussurrou algo em seu ouvido que a fez rir.
“Lembre-se do que combinamos, nada de namoro ou violência.”
Os dois se despediram e ele prometeu que voltaria no fim do verão, antes de seu aniversário e, ainda pediu que ela aproveitasse e se divertisse.
A garota não pareceu muito feliz com a ida do pai, mas não chorou ou esperneou. Ao menos olhou para trás depois de sua entrada no acampamento. Ela já era bem grandinha, tinha seus 11 anos, não precisava de nada disso.
Os três caminhavam ainda na entrada do acampamento para seu núcleo. Então acabou com seu silêncio direcionando suas primeiras palavras para os dois garotos:
— Então, me digam o que preciso saber.
Travis se apressou para responder:
— Você é uma semideusa, filha de algum olimpiano. — Luke achou estranho que o garoto estivesse respondendo com tanta urgência, claro.
Então, Katie parou de caminhar e direcionou seu olhar diretamente para ele. Seus olhos verdes brilhando diante do sol pareciam fuzis prestes a explodir. Seu cabelo castanho escuro ondulado caia em seus ombros e alcançava o nível de sua escápula, sua franja longa separada do resto do cabelo por uma bandana preta. A pele negra estava adornada com um vestido florido nos tons verde e rosa. “Ela é bonita”, pensou ele.
— Isso eu sei, idiota.
Talvez se qualquer outro garoto estivesse no lugar dele teria desistido ainda naquele momento, mas para Travis, sua resposta azeda foi o combustível para que ele quisesse sua amizade e aprovação.
E ele insistiu até que todas as defesas da Gardner caíssem.
— Então crianças. — Luke pigarreou até que ganhasse a atenção dos garotos novamente.
O olhar fuzilante da garota suavizou quando encontrou o olhar do loiro.
— Bem vinda ao Acampamento Meio-Sangue. — ele sorriu e movimentou as mãos para que mostrassem o acampamento. — Como Travis apontou muito docemente, você é uma semideusa assim como todos nós. Você sabe quem é seu pai Olimpiano?
A garota sinalizou que não com a cabeça.
— Certo, então você ficará no nosso Chalé até ser reclamada por seu parente olimpiano. — assim como todos os novos campistas, Katie fez uma expressão desapontada.
— Quanto tempo demora até ser reclamada? – curvou os lábios em um bico involuntário e enrolou seu próprio cabelo em seus dedos.
— Tempo indeterminado, desculpa. — ele colocou a mão no ombro desnudo da garota, o que quase fez com que ela se encolhesse. — No geral todos nós somos reclamados, mas alguns campistas passam anos por aqui, descobrem quem são seus pais pelas suas próprias habilidades e não são reclamados.
— E vocês são meio-irmãos, então? — ela perguntou olhando para ambos como se fizesse uma piada, ambos assentiram. — Filhos de...?
— Hermes. — o sorrisinho maquiavélico de Travis apareceu em seu rosto.
— Certo... — ela olhou ao redor.
— Vamos continuar nossa caminhada, você vai ver todo o acampamento ainda hoje. — Luke os conduziu para as profundezas do acampamento. — Hoje estão todos na correria para completar as atividades porque amanhã é nosso dia totalmente livre, por isso estão todos correndo de um lado pro outro.
— Mas nos dias normais é sempre assim também, todos correndo de um lado para o outro. — Travis complementou, esperando que Katie fosse interagir com ele.
— E o que vocês fazem aqui o verão todo? Papai não me deu muitos detalhes.
— Fazemos atividades para melhorar nossas habilidades de luta e raciocínio em campo, praticamos uma gama de coisas que tem a ver com nossas aptidões e talentos, cantamos, comemos e nos divertimos.
— E além do verão muitas pessoas ficam aqui o ano todo. — o filho mais novo de Hermes disse.
— Entendi. — respondeu a garota olhando somente para Luke. — E tudo aqui fica organizado em Chalés?
— Basicamente. — disse o conselheiro-chefe do chalé. — Ficamos em chalés e fazemos a maior parte das nossas atividades junto aos nossos irmãos, mas temos várias atividades mistas com outros chalés e tempo livre. Os mais novos, como vocês dois, fazem tudo o que está programado para o dia segundo o que o conselheiro-chefe, eu, decidir para o dia.
— A não ser que você seja eu. — respondeu o garoto mais novo.
Katie quase revirou os olhos e Luke apenas assentiu e complementou:
— Você vai perceber que nada aqui é 100% restrito, a maioria dos campistas consegue balancear o que querem fazer no verão e ninguém leva bronca por não fazer algo.
— A não ser o toque de recolher, ele é bem sério. — Travis adicionou. — E a limpeza dos chalés.
— É. Vocês voltam para o chalé oito horas e os mais velhos às nove horas.
Luke fez um pequeno tour com os dois campistas mostrando tudo aquilo que deveria ser visto no primeiro dia. Ele respondeu as mais variadas perguntas para ela com o auxílio de Travis.
— Onde os deuses moram?
— Por mais engraçado que possa soar, no Empire State Building. — Luke respondeu, conduzindo-os para o último lugar do tour.
— E eles nos visitam? — Luke quase se engasgou com a pergunta, o que deu tempo à Travis responder.
— Não estou aqui há muito tempo, mas acho que eles nunca vêm. — respondeu com um dar de ombros.
— A maioria de nós nunca conhece nossos pais olimpianos, mas depende. — Luke faz uma careta. — No geral, nunca os vemos.
Então os três chegaram nos campos de morangos. Katie ficou um tempo parada, admirando o vasto campo cheio de morangos e crianças correndo. Seus olhos brilhavam observando tudo aquilo. Todos os morangos eram brilhantes e pareciam deliciosos, provavelmente estavam sendo muito bem cuidados diariamente.
— Isso é lindo. — disse admirada. — Vocês têm uma dieta baseada em morangos?
Ambos riram.
— Nós vendemos para pagar as despesas. — Travis respondeu, observando-a.
A garota se agachou, observando atentamente um dos morangos.
— Eles parecem perfeitos.
— Os filhos de Deméter cuidam deles todos os dias com muita cautela, eu não ousaria tocar em um deles sem o aval de um deles.
Katie se levantou totalmente envergonhada, se afastando um pouco dos morangos tentadores. Uma garota próxima ouviu e se aproximou do grupo, parando ao lado de Luke
— Luke, pare de assustar os novatos. — ela bateu no braço do garoto, rindo.
Os dois mais novos observaram a cena.
— Você pode pegar um deles e experimentar se quiser, querida. — ela sorriu e entregou um dos morangos para a garota mais nova. — Sou Alexia, filha de Deméter e conselheira-chefe do nosso Chalé. Espero que Luke tenha explicado tudo direito para você,
— Ah sim, por enquanto já aprendi muitas coisas. — ela sorriu docemente, aceitando o morango.
Para Travis era quase assustadora a maneira como a menina conseguia ir de brava à totalmente adorável em minutos.
— Será que eu mereço um morango também? — Travis estendeu a mão travesso, o que resultou em um tapa relativamente forte e uma careta feia de Alexia.
— Não, Stoll, você e seu irmão Connor não merecem morangos. — ela cruzou os braços. — E se quer saber, temos notado um assalto em larga escala nessa safra de morango, espero não ter que descobrir que foi você ou seus irmãos.
Luke sorriu e colocou o braço sob os ombros da garota. Eles pareciam ter a mesma idade.
— Lexi! Sabe como são os novatos. — ele piscou para ela.
Travis bufou observando o meio-irmão mais velho. Ele quase desejava crescer e se parecer com ele. O Castellan tinha porte atlético, um cabelo loiro cor de areia e um sorriso branco e travesso, como o dele, mas bem mais aceitável. A única coisa em seu rosto que não era harmônica era sua cicatriz. Ele era um completo flerte, todas as garotas pareciam atraídas por ele. Não que fosse isso que Travis desejasse.
Luke se despediu da amiga ou o que quer que fossem e conduziu os mais novos até o chalé. Ele passou os braços longos e tonificados nos ombros das crianças, ficando entre eles.
— Você vai adorar o acampamento, Katie. — ele suspirou. — Somos uma família, não somos?
Mesmo não conhecendo o irmão direito, Travis achou aquela atitude bem estranha.
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