Ante Mortem / Post Mortem - Interativa

19 Capítulo 19 - Planos Interrompidos


Notas iniciais
Planos Interrompidos (01/06)

̶ Essa porcaria não anda mais rápido?! – Diz Matt enquanto segura sua sobrinha nos braços, ela ainda tem o rosto bem inchado.

̶ Se eu for mais rápido do que isso, corremos um sério risco de sofrer um acidente! Já viu como a estrada tá tomada pela neve? – Responde James enquanto dirige o trailer rumo à cidadezinha mais próxima.

̶ Não se preocupe, o O’Donnell está de moto mais a frente, iremos conseguir o remédio dela! – Responde Emily de forma otimista.

O trailer segue a uma velocidade constante, tomando muito cuidado com as nuanças da estrada, a frente do veículo, acelerando em sua Davidson está O’Donnell, que não parece estar muito preocupado com um possível acidente que possa vir a sofrer. A temperatura subiu um pouco com o decorrer do início da manhã, os ventos diminuíram e isso fez com que o dia ficasse um pouco menos insuportável.

Lance O’Donnell, notoriamente conhecido apenas por seu sobrenome, parece dominar inteiramente sua moto, a tem como uma donzela, muito bem zelada e quista. O caminho por sobre o agora asfalto branco, é feito por ele sem dificuldades, inclusive afastando-se gradativamente do trailer. Um gesto com o braço é feito por ele, sinalizando para quem vem atrás que se deve pegar a primeira entrada a direita, é por ela que o grupo chegará ao condado de Yeovil, um lugarzinho com cerca de dois mil habitantes.

O’Donnell nunca foi do tipo que se importava com alguém, na verdade sua crosta nunca lhe permitiu isso. Ele nascera em Dalton, no Estado da Geórgia, e desde criança já demonstrava que seria alguém com personalidade forte. Aos cinco anos já frequentava junto com o pai o The Pagan’s Motorcicle Club, um clube de motoqueiros barra pesada, que não viam o garoto como uma criança, e sim como um membro efetivo do grupo. Sua paixão por motos nasceu aí, aprendendo com o pai sobre mecânica e outras artimanhas. Até a sua adolescência, O’Donnell costumava levar toda essa coisa de membro de gangue como uma brincadeira, uma forma de se impor sobre os mais fracos, porém, após ser jogado em um reformatório, sua mente começou a se modificar, tornando-se mais sério e objetivo. Ele passou a participar de brigas entre gangues de motoqueiros, sem se importar em massacrar alguém com um taco de baseball ou mutilá-lo usando sua machete, o importante era impor a supremacia do The Pagan’s. Obviamente ele fora preso algumas vezes, a última e mais grave se sucedera após uma briga envolvendo cerca de trinta motoqueiros, sete foram mortos, e O’Donnell fora condenado a vinte anos de prisão como cúmplice.

Após ser solto, bom, ele com certeza não seria o tipo de cara a se redimir, e é claro que voltara ao grupo de motoqueiros, exercendo uma função mais “diplomática” por assim dizer. Quando o apocalipse se iniciou, O’Donnell não tinha mais família, seu pai havia sido morto na cadeia, sua mãe falecera há muito tempo atrás por conta de um câncer de garganta e sua irmã estava sumida no mundo. O caos fez com que ele e o seu grupo de marginais, partissem de moto pelas estradas, se aproveitando de motoristas enguiçados e/ou desesperados. Assaltos, agressões e estupros, essa é uma breve lista do que os Pagan’s realizaram nesse período. Tudo cessou quando o grupo sofrera um grande ataque, as motos foram cercadas e quase todos foram mortos, os poucos que sobreviveram acabaram se separando, entre eles estava, é claro, Lance O’Donnell.

Ele já estava decidido a vagar sozinho, na verdade, o seu espírito livre parecia clamar por isso. A cada cidade fantasma pela qual passava, imaginava que talvez fosse o último cara vivo dos EUA, isso de certa forma mexia com sua mente, o fazia refletir sobre tudo o que já havia feito em sua insignificante existência. Tudo mudou quando ele topou com Matt e Lisa, os dois estavam escondidos em uma loja de conveniências, encurralados por conta de alguns mordedores que tentavam abrir a porta. O’Donnell os salvara, contudo, por algum motivo que ele próprio desconhece, acabou ligando-se a Lisa, não conseguiu deixá-la para trás, principalmente por saber que Matt não conseguiria resguardar a vida dela sozinho. A partir daí os três começaram a vagar juntos.

Lisa parece exercer uma função que nunca fora feita por nenhum membro da família do duro motoqueiro, ela não se importa com sua aparência ou o jeito de falar, apenas o vê como um ‘tio grande’. É por ela que ele transpassa sua moto pela estradinha de asfalto vagabundo, nas proximidades de Yeovil, o remédio para sua alergia é muito importante para que a doce criança sobreviva.

̶ Ele conhece esse lugar? – Pergunta Benjamin.

̶ Ele é motoqueiro, deve conhecer todas as estradas americanas... – Responde Deschen olhando fixamente para o trajeto que percorrem.

̶ Olha só para ela, é muito grave? – A voz de Matt sai um tanto embargada, ele precisa de respostas positivas vindas de Emily. Ela responde:

̶ A alergia obstruiu a chegada do ar aos pulmões, além dessas reações no tecido... – Ela aponta para as manchas no rosto da menininha – Isso significa que ela está respirando com dificuldades... Se encontrarmos o remédio, ela ficará bem! – Sua última exclamação fora direcionada para os olhos de Matt, em uma tentativa de reconfortá-lo.

̶ Você vai ficar bem... Vai ficar bem... – Repete Matt enquanto acaricia os cabelos de Lisa.

No fundo do trailer Kate sentara-se, não parecia querer compartilhar dos momentos de compaixão a Matt e nem tentar inutilmente ajudar a garotinha doente, na verdade, ela não se importava muito com isso, e talvez tivesse os seus motivos. Kate estava mais reclusa nos últimos dias, parece ter sido afetada com as mortes a beira do furgão quando ainda estavam no galpão. Seu único conforto no momento era Roxanne, as duas vêm levando um relacionamento bem particular; dormem juntas, transam ocasionalmente, mas nenhuma das duas admite ou fala sobre o que seria essa relação. A mente de Kate encontra-se revirada por muitas coisas, ela tem consciência de que está enlouquecendo, ao mesmo tempo em que imagina: quem não estaria em uma situação dessas?

Roxanne se aproxima de sua ‘amiga’, senta-se a seu lado, ela reparara que a mesma não se encontrava em sua normalidade, estava um tanto deprimida, sem a atitude de liderança e até intromissão sobre os assuntos mais importantes do grupo. As mãos de Kate estão colocadas sobre a coxa, Roxanne repousa as suas mãos sobre as dela e diz, tentando entende-la:

̶ O que tá acontecendo? Você tá meio pra baixo... – Kate a olha, não consegue mudar suas feições e responde:

̶ Acho que todo mundo passou por uma fase dessas... Talvez a minha tenha demorado um pouco a acontecer...

̶ Tá falando do que? – Indaga Roxanne.

̶ Eu não chorei as perdas como vocês, não lamentei... Estou me sentindo rasgada por dentro, uma angústia inexplicável... – Roxanne nada diz, Kate retoma – Sabe que eu gosto de você, não é?

̶ É claro, mas por... – Kate a interrompe mais uma vez:

̶ Uma vez dentro do galpão, você me disse que eu nunca havia falado sobre o meu passado... Acho que chegou a hora de falar, talvez isso faça com que eu me sinta melhor! -- Roxanne apenas aguarda que ela prossiga – Eu não tinha um trabalho como você... Eu era uma fugitiva, matei o meu padrasto quando ele tentou abusar de mim, fui denunciada por minha própria mãe, eu... – Dessa vez é Roxanne que interrompe:

̶ Não precisa falar mais nada... – Ela aproxima o rosto de Kate e lhe dá um breve beijo – Todos nós passamos por essa espécie de ‘depressão’, o mundo acabou, isso é uma droga, mas infelizmente é a verdade! Ninguém aqui vai te julgar ou condenar por qualquer coisa que tenha feito... A maioria de nós deve estar condenada ao inferno!

O’Donnell seguiu em sua motocicleta pelo trajeto conector entre a interestadual e o pequeno condado do qual estavam se aproximando. O lugarejo é realmente pequeno, porém como a maioria das cidadezinhas, aparenta ter sido um local bem acolhedor. Pouquíssimos carros abandonados, todos cobertos pela neve, alguns estabelecimentos comerciais que aparentemente não foram saqueados, o lugar mais parece um presente ainda lacrado.

Um sinal com a mão espalmada, dado pelo motoqueiro, faz com que o trailer pare logo que adentra as primeiras vielas de Yeovil. Lance desce de sua motocicleta, retira o pequeno capacete que cobre apenas o topo de sua cabeça, coloca o capuz de seu casaco e passa a observar o lugar atentamente, enquanto deixa sua machete a postos.

O trailer para alguns metros atrás, Matt desce rapidamente com sua filha nos braços, Emily, James, Benjamin, Deschen e Roxanne também deixam o veículo, acomodando muito bem as suas roupas para protegerem-se do frio. Ao ver o tio de Lisa correr até ele, O’Donnell faz um novo sinal com a mão, dessa vez para que ele não se aproxime.

̶ Tira ela daqui seu idiota, leva pra dentro do trailer!

Matt espanta-se com a atitude do homem.

̶ Eu vou com você, conheço o remédio que vai... – Emily começara a falar, mas fora interrompida pelo motoqueiro:

̶ Você também fica! Com toda essa barriga, só vai me atrapalhar! Eu vou sozinho, conheço a porra do remédio, trago pra ela e tudo fica bem...

O homem que vociferara tais palavras seguiu caminhando por sobre o solo frio de concreto da calçada na qual estavam, Emily apenas os observara, Deschen foi até ela e pediu para que a mesma adentrasse o veículo. Matt ainda se encontrava desnorteado, demorou um pouco para captar e sintonizar tudo o que O’Donnell dissera, após alguns segundos, James se dirigiu até ele e dando um leve tapa em seu ombro, fez com que o homem saísse do frio para retornar ao trailer.

Roxanne apenas observara a tudo, simplesmente não quis se intrometer em um assunto que parecia estar muito longe de sua alçada, decidida a retornar ao veículo, a moça fora impedida por Ben, que a segurara pelo braço esquerdo.

̶ O que foi... – Disse ela um tanto espantada.

̶ O que tá acontecendo com a Kate? Ela nunca esteve assim, parece que se isolou de repente...

̶ Eu falei com ela, ela está triste...

̶ Ela mais parece estar deprimida, isso não é bom para o grupo! – Volta a falar Benjamin – Quero me assegurar que nenhum passo nosso possa ser atrapalhado por...

̶ Eu ganhei um desgosto muito grande por você! – Refuta Roxanne – Achei que as perdas no galpão fariam de você uma pessoa melhor... Não sei se sinto desprezo ou pena!

O momento de tensão é interrompido por James, que sinaliza com um assovio a visualização de um mordedor solitário que se aproxima lentamente do grupo. O próprio James toma na mão sua barra de ferro e com tranquilos passos, se aproxima da criatura. Ele já foi um homem, hoje é um esqueleto ambulante, sua acinzentada pele é complementada por seu corpo em avançado estado de decomposição, o mordedor se encontra tão lento que James não encontra dificuldades em acertá-lo três vezes com sua barra de ferro, exterminando a criatura.

̶ Acho que o frio afasta eles... – Diz James após realizar o seu feito – Se não afastar, pelo menos os deixa mais lentos...

Ele ajeita o seu gorro e olha para todos, ninguém ali parece ter ligado para o mordedor ou o fato de James tê-lo eliminado. Cada um em particular parece preso em seu interior com suas preocupações pessoais, a mente é o que mais tem prejudicado os integrantes desse grupo de sobreviventes.

Benjamin adentrou o trailer antes do ‘ato de heroísmo’ de James, ele estava realmente preocupado com Kate, ela nunca se comportara daquela maneira, sempre fora ativa, talvez até demais de certo modo. Ben ainda pensava muito no grupo, não queria que alguém enlouquecesse ou se tornasse um fardo de alguma maneira. Ela se encontra sentada, na mesma posição em que conversava com Roxanne, ele se aproxima, senta-se a seu lado e puxa assunto:

̶ O que tá acontecendo? Você não é assim!

̶ Como você se sentiu? – O questionamento de Kate deixa Benjamin confuso, ela continua – Como se sentiu ao matar o Rich?

̶ Onde quer chegar?

̶ Eu tenho certeza que você fez aquilo por prazer! – Ela fala com seriedade – Aposto que gostou de matá-lo, assim como gostou de atirar no Kanato!

̶ Você é louca! – Refuta Benjamin – Você e sua namoradinha, duas loucas!

̶ Você não passa de um animal! É o que todos somos agora... Animais...

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O’Donnell caminhara por um beco, o som de seus passos era o único som presente naquelas redondezas, isso e o vento que parece ter voltado. Ele ajeita a proteção que utiliza em seu rosto, deixando apenas os olhos descobertos e segue a sua procura pelo bendito medicamente de Lisa. Após deixar a viela, uma rua mais larga é avistada, nela há alguns estabelecimentos comerciais, um posto de gasolina, uma igreja e finalmente, uma farmácia. Lance recosta-se em um poste, puxa um cigarro do bolso, o acende e começa a fumar ali, sem aparentar ter muitas preocupações.

̶ Eu deveria ter ido embora a muito tempo... – Diz ele falando consigo mesmo – Não nasci pra viver na porra de uma sociedade – Ele solta fumaça – Sou sozinho, sempre fui...

Ele olha para a farmácia e lembra-se novamente de Lisa, um grande conflito o ronda, já que ao mesmo tempo em que gosta da garotinha e quer protegê-la, outro lado seu refuta piamente esses sentimentos. O’Donnell tira o cigarro da boca, o joga ao chão e com a machete na mão dirige-se até a farmácia, decidido.

A porta não estava trancada, ao ser aberta uma pequena sinetinha tocara, porém, é claro, na há ninguém lá para atender, nunca mais terá. O estabelecimento é pequeno, porém suas poucas prateleiras se encontram lotadas por todos os tipos de medicamentos. Sua busca se inicia com ele recolhendo alguns antidepressivos e tarjas pretas, talvez para que ele usasse como droga. Seus olhos percorrem com rapidez o nome dos remédios, até parar em uma caixinha vermelha. Ele reconhecera o medicamento no mesmo instante, principalmente pelo fato de sua irmã ter tido alergia a amendoim na infância.

Ao sair do local, dois mordedores começam a se aproximar, o caminhar é mais lento que o normal, eles parecem prender os pés no gelo, além de escorregarem. Um deles é um garoto de aproximadamente treze anos, veste uma camisa dos Ramones manchada de sangue, seu abdome apresenta uma grande perfuração e o seu cheiro atinge as narinas de O’Donnell como uma facada. O segundo é uma mulher, também jovem, seu rosto é desfigurado e o seu estado é visivelmente pior que o do outro mordedor, assim como o seu cheiro.

O motoqueiro se aproxima e após guardar os medicamentos recolhidos no casaco, ergue sua machete e prepara-se para o bote. O garoto se aproximara com os braços esticados, Lance acerta-o de baixo para cima, partindo seu queixo e o jogando ao solo. Aproveitando esse movimento, sua machete fora imediatamente cravada na cabeça do segundo mordedor, entrando no meio do osso temporal.

O’Donnell limpa o sangue de sua arma, tira outro cigarro e o acende novamente, tudo isso enquanto caminha de volta para o trailer com o medicamento de Lisa em mãos. Se um mordedor não o matar algum dia, provavelmente o câncer se tratará de fazê-lo.

Notas finais
Dedico esse capítulo a Pandora, muito obrigado pela recomendação, suas palavras foram incentivadoras para mim, prometo que sempre buscarei melhoras para tornar a fic mais agradável a vocês. Muito Obrigado! Opinem sobre o capítulo nos comentários, nos vemos por lá!