Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
13 Capítulo 13 - Dias de Agonia IV
Notas iniciais
Sua cabeça dói, mas não uma dor qualquer, como a de alguém com uma concussão ou ferimento no crânio. Essa dor é única, a dor de cabeça da primeira ressaca, que sempre trás consigo seus melhores amigos: o enjoo e o sentimento de remorso. Nae embebedara-se pela primeira vez, entornou sozinho duas das cinco garrafas de bebidas que Benjamin escondia em um depósito. Depósito tão seguro que todos conheciam desde o primeiro dia naquele galpão.
O garoto não prestou atenção nem em qual era o tipo de álcool que estava bebendo, talvez fosse uísque, talvez vodka, ou quem sabe até tequila, o que importava para ele é que aquela noite havia sido reservada para esquecer-se de todos os problemas. Nae dormira no corredor, fizera tudo às escondidas, levantando-se de madrugada e andando nas pontas dos pés.
Já se passaram quase duas semanas completas desde que Deschen recebera a transfusão, desde que Kanato atacara Roxanne e desde que Benjamin instituíra-se como déspota do grupo do galpão. Des conseguiu recuperar-se aos poucos, ainda encontra-se de cama, mas já consegue se alimentar sozinha, o único problema é sua autoestima, ela tem falado pouco, ainda não consegue aceitar o fato de ter perdido quase um braço inteiro, talvez ainda leve um pouco mais de tempo para que ela se acostume.
Benjamin tomou Kanato como um prisioneiro e principalmente como uma ameaça, deixou que Emily trata-se o seu ferimento, mas ainda o manteve preso no escritório. O garoto recebe comida três vezes ao dia, sempre acompanhado por ele próprio ou James. Roxanne é quem mais conversa com o garoto, que teve o número de surtos diminuído, porém ela passara a evitar Benjamin, ainda não consegue perdoa-lo ou entende-lo.
James, Juliet e Emily ganharam a confiança do sisudo líder, talvez pelos atos de ajuda a Deschen, quando Benjamin encontrava-se perdido em seus próprios devaneios, a beira da loucura. Nenhum dos três concordou com a execução de Rich a sangue frio, porém preferiram calar-se a adotar o modo de segurança, com receio de serem expulsos em mais um ataque de fúria de Ben. Até então, o pensamento de “destituir a república” vem dando certo, as decisões até agora tomadas por Benjamin vêm se mostrando benéficas. O mesmo instituiu uma vigília a noite, nas portas do galpão, com trocas de turnos, para que os mesmos se sentissem mais resguardados.
Apesar de todas as mudança e evoluções, nada disso fizera com que a cabeça de Nae parasse de doer, o garoto tenta abrir os olhos e percebe que está sobre uma poça de vômito, de seu próprio vômito. Sua cabeça gira, uma dor aguda como se um parafuso estivesse sendo atravessado em seu occipital. Ele deverá dar uma boa explicação a Benjamin quando encontrá-lo.
Com dificuldades ele começa a caminhar tateando as paredes, sente-se desidratado, é nesse instante que ele pensa que talvez a bebedeira não tenha valido tanto a pena assim. A forte e constante luz que ilumina o corredor entrega o horário aproximado daquela manhã, nove horas. Nae pisca constantemente quando sua íris começa a se digladiar com os raios solares, até os seus próprios passos o parecem incomodar.
̶ Onde você estava?
A voz de Emily soa como um alto-falante, Nae vira-se lentamente e com um sorriso amarelo no rosto, responde com os olhos entreabertos:
̶ Eu levantei cedo... Onde está a Issa?
Emily veste um vestidinho leve e florido que Kate trouxera há alguns dias quando esteve saqueando algumas lojas junto a Roxanne, que se tornara sua grande parceira depois de tudo o que passaram na clínica.
̶ Deve estar na cozinha... – Ela dá um breve sorriso – Nunca conheci ninguém que gostasse tanto daquele lugar!
Nae balança lentamente a cabeça em sinal de positivo, até esses breves movimentos provocam nele dor. Os dois se despedem e ele segue caminhando até a cozinha, precisa urgente de uma bebida quente e forte.
Ao chegar até a cozinha, vê Issa de costas, fazendo algo na pia, sua calça evidencia suas nádegas, que parecem ser muito bem apreciadas por Nae, já que o mesmo as observa atentamente por alguns segundos. Issa vira-se de repente, causando um susto em Nae, que pergunta desconversando:
̶ Você tem café? – Issa o olha como se já sabendo qual o seu problema, balança a cabeça negativamente e questiona-o:
̶ Você sabe o quanto ele regula aquelas garrafas! Reza pra ele não ter outro ataque de “Evil Ben”!
̶ Evil Ben? – Pergunta Nae, Issa sorri e volta a falar:
̶ Eu e a Kate colocamos esse apelido nele depois que ele surtou... Mas não deixe isso chegar aos ouvidos dele!
Nae passa as mãos nos arrepiados cabelos e volta a indagar:
̶ Mas você tem café?
̶ Não... Nada nem parecido com café... – Ela faz uma expressão como se tivesse lembrado de algo – Eu tenho essa ervas que a Juliet colheu aqui perto, se você quiser posso fazer um chá agora mesmo!
̶ Tudo bem, desde que seja forte! – Responde ele.
Issa sorri e toma nas mãos a chaleira para realizar o mimo pedido por Nae. Seus cabelos negros presos com uma fita evidenciam sua já natural beleza, que não parece ter sido ofuscada nem pelo apocalipse que ocorrera.
̶ Em todo esse tempo, acho que nunca te perguntei – Diz Nae – Você tem família aqui? Namorado?
Issa respira fundo e prosseguindo em suas tarefas, responde:
̶ Eu vim da Irlanda com dezessete anos, tinha ganhado uma bolsa de estudos... Estava só nos Estados Unidos... Meus pais, irmãos, tios, todos estão... Estavam na Irlanda... – Ela faz uma pausa, pensa em hesitar, mas conclui – Quanto a namorado, bom, eu sou casada – Issa puxa do decote da blusa o seu colar, revelando uma aliança – Luke era o nome dele... – Ela sorri ao mesmo tempo em que derrama lágrimas por conta das lembranças – Tínhamos um garotinho lindo, Tyler, ia fazer dois aninhos...
̶ Não me diga que...
̶ Luke estava com o Tyler nos braços... Eu não pude fazer nada... – Issa já chora quase que copiosamente.
̶ Eu sinto muito! Me desculpe, eu não queria ter tocado nesse assunto... – Issa o interrompe:
̶ Não, não tem problema! Acho que eu precisava falar disso com alguém...
A chaleira começa a gritar, avisando que a água está no ponto certo. Issa dirige-se até ela e a coloca a beira da pia, deslocando-se para buscar uma xícara. Enquanto o faz, ela aproveita para devolver a pergunta:
̶ E você Nae? Seus parentes são daqui?
̶ L.A.... Eu estava no colegial, havia acabado de entrar para o time de futebol americano da escola... Eu era um bom Receiver! – Exclama ele com orgulho – Acho que todo mundo do time morreu, principalmente o escroto do Finn! – Issa o olha e entrega a xícara, Nae retoma o pensamento após dar o primeiro gole – Finn era o popular da escolar, o ‘pegador’... Espero que algum mordedor tenha arrancado as bolas dele!
Issa sorri, as palavras de Nae parecem ter a animado novamente, ou pelo menos serviram como uma fuga das lembranças postas para fora outrora. Ela serve a si mesmo com o chá, senta-se em uma cadeira e continua a conversa:
̶ Acho que vou levar esse chá para a Des, talvez ela se anime um pouco...
̶ Ela ainda não está falando? – Indaga Nae.
̶ Desde que ela acordou... Só a vejo chorando! Ela troca uma ou outra palavra quando a Emily pergunta sobre dores ou seu estado de saúde, mas coversar acho que ela ainda não fez com ninguém... – Lamenta Issa.
̶ Pode deixar que eu levo o chá! – Oferece-se Nae – Eu aproveito e vejo como ela está, quem sabe comigo ela não fala!
Issa entrega o chá a Nae, que levanta-se e começa a se dirigir até os dormitórios. No caminho ele já passa a se sentir melhor, não sabendo ao certo se o motivo fora o chá de Issa ou a própria Issa, já que o garoto sempre tivera uma queda por ela.
A maçaneta da porta dos dormitórios é aberta com cuidado, Nae adentra-a e começa a caminhar na direção da cama de Deschen. A mesma encontra-se ainda deitada, porém com o corpo mais erguido, é perceptível que o seu curativo fora trocado há pouco tempo, já que a bandagem é visivelmente nova.
Com o chá nas mãos ele caminha até a cama, sentando no chão bem próximo a Deschen. Ela está acordada, seus cabelos castanho-escuro encontram-se presos para trás, seu olhos apesar de carregarem uma tristeza intrínseca, ainda reluzem em seu rosto. Suas feições estão sérias.
̶ Pra você! – Ele estende a mão direcionando a xícara a ela. Deschen olha brevemente, estende sua única mão e pega a xícara para si, dando um longo gole no líquido.
̶ Obrigado! – Afirma ela brevemente.
Nae encontra-se sem palavras diante da situação, não vê como fazer Deschen falar ou melhorar o seu humor, porém, para a sua surpresa, ela decide por si própria manifestar-se:
̶ Eu ainda sinto os meus dedos... – Ela levanta o coto – Ainda sinto como se estivesse abrindo e fechando a minha mão... – Ela começa a movimentar o coto, como se parecesse que ela realmente ainda tivesse essa mão.
̶ Emily já te liberou pra andar?
Deschen segue olhando para o antebraço decepado e responde:
̶ Ela disse que talvez essa tarde... Eu ainda me sinto fraca, é muito estranho ter ficado apagada todo esse tempo... Só que mais estranho ainda é lidar com isso... – Conclui ela referindo-se ao braço.
̶ Daqui a pouco você se acostuma... Sei que deve ser difícil, mas isso salvou a sua vida... Foi preciso! – Diz Nae que se levanta – Como eu vi que você gostou do chá, vou buscar pessoalmente essa erva para preparar mais pra você...
Dechen sorri, o primeiro sorriso em muito tempo. Apesar de um garoto, Nae parecia ter desenvolvido o dom de melhorar o astral daquele galpão, pareceu ter amadurecido, estava se tornando um homem, alguém de brio e de muita importância para aquela pequena ‘sociedade’.
Nae deixou os dormitórios e se dirigiu até a saída do galpão, do lado de fora, Juliet realizava uma breve limpeza no “quintal” de terra batida. Ele olhou para a mulher de James e após um breve cumprimento com as mãos, perguntou:
̶ Acha que vai conseguir plantar nesse chão? – Ela olha para o solo e responde:
̶ Não sei se vai dar certo, mas vamos tentar... Imagine só tomates, cenouras... Vai nos poupar um grande trabalho...
̶ Onde estão os outros?
̶ Ben e James estão caçando, Roxanne e Kate saíram com o furgão, não disseram muito bem o que iriam fazer... – Nae recebe todas as informações e volta a perguntar:
̶ Onde você conseguiu aquelas ervas do chá da Issa?
̶ Foram logo ali! – Juliet aponta para uma parte específica da mata, local onde o mato é mais alto e a visão fica mais encoberta.
Nae agradece e começa a caminhar na direção indicada por Juliet. O garoto sente-se feliz, parece que aquele dia em especial reservara coisas boas a ele. A boa conversa com Issa, o papo que parece ter feito Deschen sentir-se melhor, enfim, todos esses pequenos atos encheram o seu coração de esperança. Esperança de que talvez a vida seja retomada, que nenhuma outra tragédia ocorra, e que o grupo possa continuar unido nessa utopia criada.
Ele adentra a mata, deixando o campo de visão de Juliet, agacha-se ao solo e começa a procurar pela planta do chá que ele e Deschen tanto apreciaram. Ele concentra-se naquele momento, naquele ato em específico. Concentra-se tanto que não se atenta a uma aproximação lenta e perigosa.
O mato começa a remexer-se, Nae ergue o rosto, olha para os lados e nada vê, coloca a mão na cintura buscando sua faca. Vendo que nada ocorrera, volta a colher as ervas no solo, quando ouve o barulho mais uma vez no mato, dessa vez o vê se remexendo, mas não consegue identificar.
Nae vira o seu corpo para a direita, porém, para o seu desespero, o ataque ocorre pela esquerda. Três mordedores o agarram, caindo por sobre ele no solo. Seus gritos de desespero não representam nada contra os dentes das criaturas. Seu rosto é mordido, assim como seu abdome e perna. O garoto urra de dor, começa a cuspir sangue enquanto definha diante dos terríveis predadores. Em meio a dor imensa e indescritível, um gemido que se mistura a sangue é cuspido por seus lábios, um último suspiro de vida e agonia:
̶ Issa...
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