Ante Mortem / Post Mortem - Interativa

6 Capítulo 6 - Um Porto de Insegurança III


Notas iniciais
E aí pessoal, beleza? Aqui vai mais um capítulo... Essa é a última parte de Um Porto de Insegurança...

Aquela manhã estava fadada ao luto, até mesmo a natureza parecia compactuar com isso. Uma fina chuva começou a cair, deixando o tempo frio e escuro. A cerca de quinze metros do galpão, uma cova fora cavada, nela o corpo de Dave fora depositado, para o ‘descanso eterno’. Pedras cinzas foram colocadas por cima da úmida terra, selando ali tal túmulo. Algumas flores também foram depositadas, ao redor, os integrantes do acampamento despediam-se de um de seus membros.

̶ Alguém quer falar algo? – Pergunta Benjamin a seu grupo que rodeia a sepultura, suas mãos encontram-se enfaixadas por conta do ferimento que seus socos em Rich causaram em si mesmo.

̶ O Dave... – Issa começa a falar – Ele sempre nos apoiou, sempre... – Ela ainda encontra-se emocionada – Ele salvou a minha vida quando ainda estávamos na estrada, quando ainda achávamos que tudo se resolveria... Eu nunca vou esquecê-lo! – Conclui ela com lágrimas nos olhos.

̶ Ele era como um sábio, sempre... Sempre que tínhamos um problema ele aparecia com uma palavra de alento... – Desta vez quem se manifesta é Deschen – Parecia que apesar de tudo estar na merda, ele era quem melhor lidava com as situações...

̶ Ele ia me ensinar a caçar... Eu sei que as broncas que ele me dava eram para o meu bem... Eu sempre vou lembrar-me das coisas que você me dizia! – Diz Nae.

̶ Vou sentir saudade das nossas caçada... – Lamenta Kate – Espero que você realmente tenha ido para um lugar melhor!

̶ É melhor entrarmos... Aquele mordedor mais cedo pode não ter sido o único a ouvir o disparo, precisamos nos proteger caso outros apareçam... – Diz Benjamim, que em seguida caminha em direção ao galpão.

̶ Vamos, hoje eu vou te ajudar a preparar o almoço! – Diz Kanato a Issa, que ainda enxuga as lágrimas de seu rosto.

Aos poucos todos começam a se retirar do local, o fato ocorrido durante a madrugada abalara muito o grupo, com toda a certeza nenhum deles permanecerá o mesmo após tudo isso.

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A porta do dormitório é aberta com ferocidade, por ela adentra Benjamin, ele saca sua arma e exclama:

̶ James, levanta! Vamos dar um passeio!

James que estava sentado ao lado da cama levanta-se enquanto toca a mão de sua amada suavemente, como se dissesse que nada de ruim irá acontecer. Ben tem nas mãos um pano, ele o usa para vendar James e em seguida se utiliza de uma corda para amarrar suas mãos, imobilizando-o. Juliet desespera-se e chega a implorar:

̶ O que você vai fazer com ele, não o mate! Por favor não o mate!

̶ Querida, tudo vai ficar bem... – Diz James tentando manter-se impassível.

̶ Vem, vamos! – Vocifera Benjamim puxando-o para fora do dormitório.

Do lado de fora está Nae, ele segura uma arma e parece nervoso, olha para Ben e aguarda as ordens:

̶ Ninguém pode entrar ou sair desse quarto, me ouviu? – Nae balança a cabeça positivamente – Daqui a duas horas a Issa vai trazer comida para as duas... Somente ela poderá entrar e você deve apontar a armas para as duas, não deixe elas pegarem em facas ou qualquer coisa que possa ser usado como arma! Não sabemos quem essas pessoas são, precisamos de cuidado! Está me entendendo? – Nae aparentemente nervoso balança novamente a cabeça positivamente, Ben repete – Nae, você está me entendendo? Eu confio em você garoto!

̶ Tudo bem... Pode confiar! – Diz Nae agora com mais firmeza.

̶ Onde você... O que vai fazer? – Pergunta Roxanne a Benjamin ao vê-lo conduzindo James amarrado e vendado.

̶ Vamos conversar...

̶ Quer que eu vá com você, ou chame a Kate? – Indaga ela novamente.

̶ Não, eu preciso fazer isso sozinho... – Respondeu Ben já virando-se e se dirigindo até o furgão enquanto conduz James para o mesmo. Ele fecha a porta do carro e sai dirigindo rapidamente.

Nae olha para Roxanne e indaga-a:

̶ O que vai acontecer agora? Como vai ser daqui pra frente?

̶ Não sei Nae... Queria saber, mas não sei... – Responde ela olhando para o nada.

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̶ E então, o que vai ser hoje? – Pergunta Deschen a Issa.

Elas encontram-se na cozinha, uma sala de tamanho mediano, menor que os dormitórios, é repleto de armários nas paredes e algumas panelas penduradas em ganchos, há uma grande pia e um fogão das mesmas proporções, lá Issa começa a organizar o que se tornará o almoço logo mais.

̶ Kanato estava me ajudando até agora pouco... Bom, pelo visto ele já caiu fora... – Responde Issa.

̶ É bem do perfil dele, mas não podemos julgar, quem não enlouqueceria em uma situação dessas... – Diz novamente Des.

̶ Não temos muitas coisas... Tirando os enlatados... – Issa respira fundo – Eu to tentando agir de forma natural, mas não consigo... Ainda to pensando na morte do Dave... – Ela suspira novamente ao terminar a frase.

̶ A Kate tá organizando uma caçada, acho que é uma maneira de fazer as pessoas espairecerem um pouco... Quer vir?

̶ Não, eu vou ficar por aqui mesmo... Não podemos deixar esse lugar vazio, ainda mais agora que o Ben saiu... Pode ir lá, eu vou ficar bem! – Diz Issa exibindo um breve sorriso.

̶ Tudo bem então, se cuida... – Des se retira após isso.

Do lado de fora do galpão, Kate, Roxanne, Kanato e Des que acabara de se juntar a eles, preparam-se para a caçada, como uma porta voz, Kate exprime-se:

̶ Todos devem estar com suas armas brancas preparadas! Eu sei que nós nuca fazemos caçadas com tanta gente, mas acho que vai ser benéfico para o grupo depois desse baque! Temos que permanecer unidos! Só assim continuaremos vivos...

Kate é surpreendida por Kanato que levanta a voz e indaga-a:

̶ O Benjamin vai matar eles?

Todos congelam, aquela questão colocada daquela forma realmente surpreendera o grupo. Tentando manter-se da mesma maneira, Kate encara Kanato e responde também dirigindo-se a todos:

̶ Seja o que for que o Ben decida, será o melhor a se fazer! Ele sempre prezou e fez de tudo que para que permanecêssemos em segurança... Ele não falhou antes e não vai falhar agora!

Kate vira-se e passa a guiar todos na direção na floresta fechada, em sua mente essa caçada coletiva pode ser realmente benéfica para eles, talvez os faça esquecer por pelo menos poucos instantes toda essa merda pela qual estão vivendo, não só o apocalipse em si, mas também a questão interna de cada um, já que de uma forma ou de outra todos ali passam por algum tipo de conflito dentro de si mesmo.

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̶ Onde... Onde estamos? – As vendas de James são retiradas, ele que passara quase quarenta minutos na inteira escuridão, ainda tenta acostumar as pálpebras a iluminação do dia que ainda se mostra nublado.

̶ Condado de Notts Forest... Não é muito longe... É aqui que coletamos nossos suprimentos... Bom, coletávamos pelo menos! – Responde Benjamin, ele está recostado no furgão, de frente para James que encontra-se amarrado em um poste no humilde lugar.

O local é realmente simples, há alguns bares e estabelecimentos a beira da calçada lembrando o velho oeste, as casas são de madeira e tudo parece estar abandonado, desértico, é notável que a maioria das pessoas ali ou fugiu, buscando abrigo nas maiores cidades, ou acabou sucumbindo diante dos mordedores.

̶ Vai me matar? Me deixar aqui? – Questiona James.

Benjamin encontra-se com sua pistola nas mãos, mas não faz postura para disparo, ele olha de forma firme para James e pergunta:

̶ Quem são vocês?

̶ Já dissemos Benjamin, fomos apresentados ontem...

̶ Porque mataram o Dave?

̶ Olha só, eu não sei o que aconteceu ontem... Eu estava dormindo quando o tiro foi disparado, eu... – Benjamin o interrompe e questiona-o elevando o tom de voz:

̶ Porque escondeu a porra da arma de mim?! Era esse o plano?!

̶ Eu só queria proteger a minha esposa! Eu só deixei o Rich ficar com a pistola, porque me sentiria mais seguro se um de nós ficasse com uma arma! Eu só penso na minha esposa cara... Se eu soubesse que isso iria acontecer...

̶ Porque então o Rich mataria o Dave?

̶ Eu não sei cara... – James balança a cabeça enquanto expressa-se – As pessoas têm surtado... Eu ainda não consigo acreditar que ele fez isso... Mas peço que me escute... Eu, minha esposa e Emily não têm nada haver com isso! Olha para nós, acha que parecemos assassinos?

̶ ‘Olha para nós?’ Olha... – Ben aproxima-se ainda mais de James – Quando estávamos na estrada, há sei lá quanto tempo atrás... O nosso grupo era maior, andávamos em comboio... Ainda tínhamos a esperança de que o governo fosse resolver tudo ou que as inúmeras orações teriam resposta! – Ele faz uma breve pausa – Tinha outro garoto asiático, uma família de mexicanos e o Loui... É, o Loui... Ele era um sociólogo, daquele tipo arrumadinho, sabe? Usava óculos inclusive... O cara parecia o exemplo dos bons moços... Em uma certa noite ele foi até onde a família mexicana estava e degolou os mais velhos enquanto dormiam... O casal que ele matou tinha uma filha, uns quatorze anos de idade. Ele levou a menina para a floresta e... Estuprou não á a palavra certa a se usar nesse caso... Ele barbarizou com ela! Abusou de todas as maneiras existentes! A menina era inocente ainda, não... Quando nos demos conta do que tinha acontecido, já era tarde, a garota já tava morta e o Loui havia sumido, levando parte dos nossos suprimentos! Depois desse dia James, eu parei de olhar as aparências... Pra mim qualquer um pode ser uma ameaça!

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̶ Precisam se manter calmos e tentar não fazer barulho, além de não espantar os animais, não chama a atenção dos mordedores. – Diz Kate a seu grupo já emaranhado floresta a dentro.

̶ Acha que tem mordedores por aqui? – Pergunta Roxanne.

̶ Nunca se sabe... Já vimos alguns aqui antes, é bom sempre ter cuidado!

Roxanne olha para Kanato e o alerta:

̶ Tenta ficar perto de mim, é sério, não sai de perto de mim!

̶ Pode deixar! – Responde ele mostrando que estará atento a qualquer coisa que ocorrer.

̶ Ouviram isso? – Pergunta Des deixando todos em alerta.

O grupo está cercado por árvores e mata mais fechada, na altura da cintura dos mesmos, a visão ao redor está bastante prejudicado por conta disso. Kate posiciona o seu rifle e com um gesto pede silêncio a todos. Seu pedido é atendido, ninguém mais se move ou emite qualquer som, até a respiração é controlada.

Outro som é ouvido, o mato ao redor se move e agora é possível ver a origem do mesmo. Um cervo alimenta-se ali perto, Kate se abaixa e com movimentos calculados reposiciona sua arma, deixando a mira no abdome do animal. Antes que o mesmo pudesse esboçar qualquer reação de fuga, ela dispara, acertando em cheio seu alvo, que cai sem vida.

̶ Hoje nós vamos comer carne! – Diz Kate um tanto quanto eufórica.

Todos riem, por aqueles poucos segundos eles parecem realmente ter esquecido ou pelo menos camuflado a morte de Dave, naquele breve instante a única coisa que importava era a alegria por ter conseguido abater o cervo.

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̶ O que você acha que eu vou fazer, hein? – Pergunta Benjamin após coçar a barba.

̶ Matar o Rich... – James parece responder com frieza – Me matar e talvez matar a Juliet, quanto a isso eu não tenho certeza... A Emily, bom, acho que ela você não vai ter coragem de matar, talvez a abandone na estrada...

̶ Você diz em tom de crítica, quase um deboche... – Benjamin parece incomodado com a forma de se expressar vinda de James – O que você faria no meu lugar? O que faria se um estranho tivesse matado alguém do seu grupo?!

James abaixa a cabeça e depois a levanta novamente, a chuva fraca insiste em seguir caindo sobre suas cabeças.

̶ É claro que eu... Faria a mesma coisa que provavelmente está passando pela sua cabeça! Eu apenas acho que não foi o Rich quem fez aquilo...

̶ Não? Você acha que alguém do meu grupo, que convivia todos os dias com ele foi lá e... – Ben é interrompido por James:

̶ Você acabou de me contar a história do Loui... Isso se aplica aqui também... Presta atenção, eu acho que você ainda não matou o Rich, então, seja lá onde você tá mantendo ele preso... – James parece hesitar – Vai lá e ouve o garoto, dê a ele uma chance de se defender...

Benjamin apenas o observa falar, parece analisar a fundo suas palavras, sua mente ainda está muito bagunçada com os recentes acontecimentos e todas as decisões que estão em suas mãos. No momento ele avalia se esse sangue é realmente necessário de se derramar. James volta a falar:

̶ Presta atenção... Nessa madrugada, quando todo mundo acordou e correu para o corredor para saber o que tinha acontecido, não era apenas o Rich que estava fora da cama! O garoto japonês e a italiana... A Des! Os dois chegaram depois do ocorrido, eu prestei atenção...

Benjamin arqueia uma das sobrancelhas e com o indicador apontado para James, refuta um tanto quanto espantado:

̶ O que? Você quer dizer que...

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̶ E então? Vocês ainda querem pegar mais alguma coisa? – Diz Kate enquanto arrasta o cervo morto pelas patas – Aqui tem carne o suficiente para todos nós!

̶ Sabe quem vai gostar disso? – Diz Des sorridente – A Issa, aquela maluca vai pegar...

Deschen é interrompida pelo som de um grunhido, a mesma é surpreendida por um morto vivo, uma mulher com o rosto deformado, em avançado estado de decomposição, vindo por trás e agarrando seu braço. Des tenta correr desvencilhar-se, porém a criatura faminta puxa o seu braço em direção à boca, mordendo-o.

Ela grita de dor e tenta se livrar da mordedora, Kate empunha seu rifle e se posiciona para atirar, porém não consegue por conta da falta de mira, um erro e ela poderia acertar a própria Des.

Roxanne puxa um facão e se dirige até a mordedora, acertando um golpe em seu pescoço e fazendo-a cair ao solo, após isso feito, Kanato e a própria Roxanne passaram a desferir chutes no crânio do monstro, destruindo-o.

̶ Meu Deus Des! – Kate corre na direção de Deschen, ela está deitada no chão, o seu braço direito está com uma enorme mordida, seu tecido epitelial está completamente repuxado de seu antebraço e o sangue escorre com muita frequência.

̶ O que vamos fazer?! Ela foi mordida! – Exclama Roxanne, Des segue gritando de dor.

̶ Ela vai virar um deles! – Exclama Kanato.

̶ Não, ela não vai! – Kate olha para Des – Me desculpa!

Kate toma o facão que Roxanne segurava e sem pensar, de súbito, passa a desferir diversos golpes em seu antebraço, um pouco acima da mordida, decepando sua mão e parte de seu antebraço direito. Deschen gritou nos primeiros golpes, porém desmaiou logo em seguida. O sangue passou a jorrar ainda mais.

̶ O que você fez?! – Exclamou Roxanne.

̶ Eu salvei a vida dela! – Vociferou Kate como resposta, a mesma retirou sua blusa ficando apenas de sutiã, e passou a usá-la para tentar estancar o sangramento do coto de Des. Kate volta a dizer – Temos que voltar para o galpão, precisamos tentar cuidar desse ferimento lá! – Roxanne segue olhando-a assustada, Kate volta a falar, dessa vez em um tom alto – Roxanne vamos, porra!

Notas finais
Bom, espero que tenham curtido! O grupo tem cada vez mais problemas para lidarem, será que o Benjamin resolverá tudo sozinho? Será que ele deve resolver tudo sozinho? Nos vemos nos comentários!