Ante Mortem / Post Mortem - Interativa

20 Capítulo 20 - Planos Interrompidos II


Notas iniciais
Planos Interrompidos (02/06)...

̶ Eu sei que as coisas não tem sido como nós esperávamos... Eu fiz muitas coisas erradas nesse meio tempo... – James dá um breve sorriso – Talvez eu só tenha feito coisas erradas... Eu não estava presente quando tudo aconteceu e sei que você precisava de mim – James abaixa a cabeça brevemente – Não... Não adianta tentar me convencer, eu sei que foi minha culpa, espero que consiga me perdoar algum dia...

James encontra-se sentado no chão há cerca de dez metros do trailer, ele olha para o horizonte e conversa sozinho, pelo menos aparentemente. Já se passaram dois dias desde que O’Donnell salvara Lisa ao coletar o medicamento que a menina precisava. Nesse meio tempo, James passara a ‘escutar vozes’, ele acredita que pode conversar com a esposa falecida, provavelmente uma forma preencher o vazio que ficara após a perda, uma forma de não enlouquecer enlouquecendo.

O grupo decidira seguir rumo ao condado vizinho, se iriam mesmo pegar a estrada à Green Bay, precisariam estar bem supridos, por isso eles decidiram pegar o que fosse possível e partir em dois dias no máximo. A paisagem a frente de James se resume a neve e alguns pinheiros ao longe, obviamente não há sol naquela tarde e tudo tem parecido muito soturno, talvez esse seja o clima perfeito para o mundo fudido em que se vive agora.

̶ Você não vem? – Matt pergunta enquanto se aproxima de James, ele parece melhor desde que sua sobrinha curou-se da alergia.

̶ Nos falamos depois querida... – Sussurra James tentando fazer Matt não ouvir, ele então levanta-se, limpa sua calça com alguns tapas e responde – Vou sim, eu só estava... Bom, é melhor irmos logo!

̶ A Deschen disse para eu te chamar, sabe... Já é tarde, é bom irmos antes que anoiteça... – Volta a dizer Matt.

̶ Quem vai conosco?

̶ A própria Deschen eu e você!

James parece intrigar-se.

̶ Nada da Kate ou do Ben?

̶ O Benjamin disse que vai cuidar da segurança do trailer, o O’Donnell só faz algo quando quer e as sapas... – James o interrompe:

̶ Por favor Matt, não fale assim das duas!

̶ Me desculpe... – Matt parece um pouco desconcertado – Eu não sabia que isso iria te ofender, foi só uma brincadeira!

̶ Mas ofendeu... Olha só cara, as duas parecem não estar passando por um bom momento... Caralho, quem aqui está passando por um bom momento? É melhor evitar essas brincadeiras perto das duas...

̶ Ok, pode deixar...

Os dois seguiram rumo ao trailer, dessa vez em silêncio, James não conseguia entender o humor de Matt, para ele, tais piadas maliciosas não se encaixam mais, é complicado tentar rir como antes na situação em que se encontram. Matt pensa o contrário, se tudo já está destruído, por que não tentar transformar um pouco do rancor em sorrisos por pelo menos alguns segundos?

̶ Oi... – Diz Deschen ao encontrar com os dois, ela já se preparava para sair, colocando sua mochila nas costas e um facão em sua única mão.

̶ Pronta? – Pergunta James.

̶ Sempre... – Responde ela.

̶ É melhor irmos, vamos a pé para economizar combustível! Nossa missão é coletar o máximo de mantimentos e água que conseguirmos, nossa viagem será longa... – Diz James com autoridade na voz.

Os três partem a pé pelas ruas do condado, o lugar é um pouco maior que o seu vizinho, porém – talvez por isso – encontra-se em uma situação mais precária. As casas do lugar são muito parecidas e umas coladas às outras, geralmente pintadas em salmão, os estabelecimentos têm todos dois andares e parecem ter sido projetados pelo mesmo profissional, além disso, as ruas são largas e o asfalto é de boa qualidade. O lugar mais parece uma cidade teste de bomba nuclear, porém, depois da bomba ser detonada. As alinhadas casas encontram-se com suas fachadas ensanguentadas, há corpos cobertos por panos no meio da rua, além de um posto de gasolina visivelmente explodido, restando apenas seus escombros.

Os vidros quebrados das casas e os muros pichados, desenham na mente de quem observa o que se sucedera ali por conta do apocalipse, muito provavelmente houveram diversas mortes por conta de fugas atordoadas e precipitadas. O desespero humano fora mais perigoso que os próprios mordedores, e talvez tenha até matado mais que as horrendas criaturas.

̶ Talvez o momento não seja oportuno... – Começa a dizer Matt – Mas talvez eu queira saber quais tipos de pessoas estão convivendo comigo... O que vocês faziam da vida?

James o olha brevemente e responde ainda atento a qualquer movimentação hostil:

̶ Economista...

Matt balança a cabeça positivamente para a resposta dada por James, ele então vira-se para Deschen que caminha a seu lado e pergunta:

̶ E você?

Ela o olha nos olhos e diz:

̶ Prostituta! – Matt engole a seco, está visivelmente espantado. James e Deschen riem e ela retoma:

̶ Eu era advogada recém formada...

James e Deschen retomam o seu olhar para o caminho, ninguém se importou em perguntar a profissão de Matt, na verdade acharam aquele papo bastante trivial. Vendo que havia sido ignorado, ele próprio começa a falar:

̶ Bombeiro... Eu era bombeiro! Estava começando na carreira... – Ninguém parece dar atenção – Mas acho que isso não importa...

James faz um sinal para os dois parem de andar, após isso ele aponta para a sua esquerda dizendo:

̶ Mercearia! Já deve ter sido invadida pelo estado em que está, vamos ver se ainda há algo aí! O que tiver pegamos!

O estabelecimento é de porte médio, sua entrada principal está parcialmente destruída, os vidros estão quebrados, assim como parte do concreto, sua fachada está bem deteriorada. Os três começam a se dirigir até o local, Matt empunha o seu machado e nesse momento parece centrar-se na missão atual. Tudo segue em silêncio, a abertura de cacos de vidro e sangue é ultrapassada e eles passam a lentamente observar o lugar por dentro.

As prateleiras estão praticamente vazias, uma grande ‘limpa’ fora feita por lá, e noventa por cento dos mantimentos já foram saqueados. O lugar está sujo, há poeira e restos de alimentos pelo chão, assim como um forte cheiro de fezes e sangue, ninguém conseguiria ficar ali dentro por um grande período de tempo. James pega uma garra de suco de uva que se encontrava solitária em uma estante a sua frente, a abre, cheira o seu líquido e dá um longo gole.

̶ Estragado! – Ele faz uma cara feia, mas em seguida dá outro gole, após isso volta a falar – Ainda assim é melhor que qualquer outra coisa que já bebi nas últimas semanas!

Matt começa a andar de um lado a outro dentro do lugar, chuta uma lata de ervilhas jogada ao chão e exclama:

̶ Não vamos encontrar nada nessa cidade! Essa merda já foi saqueada completamente!

̶ Talvez não! – Diz Deschen.

De dentro da mercearia ela aponta para fora, do outro lado rua há um bar de grande porte, o lugar tem belas luminárias a sua frente e uma placa anunciando um show que deveria ter ocorrido há cinco meses. Master Of Puppets Bar N’ Grill é o que diz em seu anuncio principal.

̶ Boa ideia Des! – Anima-se James – Esses grandes estabelecimentos eram bem protegidos, talvez encontremos alguma arma por lá!

̶ Eu prefiro ir pelo álcool! – Exclama Matt com um sorriso no rosto – Tenho certeza que lá deve ter algum uísque que seja mais caro que a hipoteca da minha avó!

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̶ Mostra a língua... – Diz Emily a Lisa, as duas estão sentadas dento do trailer e a estudante de enfermagem examina a pequena garotinha.

̶ Eu já to boa! – Diz a menina sorrindo.

Emily passa as mãos nos cabelos da garotinha e diz:

̶ Tá sim lindinha! Você já está bem melhor...

A menina ainda veste a mesma roupa que usara quando ela, o seu tio e O’Donnell trombaram com o grupo de Benjamin. O casaquinho dos Leafs já está bastante sujo e surrado.

̶ Tenho certeza o seu tio vai trazer pra você um casaquinho novo! – Diz Emily enquanto tenta alinhar a roupinha da garota.

̶ O seu bebê já vai nascer?

̶ Sim querida, logo logo! – Diz Emily respirando fundo como se estivesse preocupada.

Lisa direciona o seu olhar para o solo de repente, pareceu entristecer-se. Percebendo esse singelo gesto, Emily indaga enquanto toca de leve o queixo da menina:

̶ O que foi?

̶ Será que o meu papai foi para o céu? – Emily arregala os olhos.

̶ O seu papai?

Lisa volta a olhar para cima.

̶ O meu papai morreu... O tio Matt disse que ele foi para o céu, junto com Deus e os anjinhos...

Um nó tomou conta da garganta de Emily, uma emoção passou a visitar o seu corpo. Ver a inocência de uma criança em meio a todo lixo do mundo, era algo que ela não esperava mais. A real vontade dela era dizer que Matt estava errado, que não há Deus ou anjinhos, que todos estão por si, e que os mordedores são só mais uma prova disso. Porém, é claro que ela não destruiria as convicções e alguém tão puro, portanto ela decidiu apenas dizer:

̶ Sim bebê... O seu tio Matt está certo!

̶ E essas pessoas doentes também vão para o céu? – Emily faz uma nova pausa, puxa uma grande quantidade de ar para os pulmões e responde mais uma vez:

̶ Depois de tudo o que aconteceu, acho que todos nós vamos!

Nesse mesmo instante, porém do lado de fora do trailer, Benjamin verificava os pneus do veículo, tentando atestar se tudo estava nos conformes, seria um grande problema ter algum imprevisto durante o longo trajeto até Green Bay. Perto dele, apenas observando, O’Donnell fumava mais um cigarro, parecia ter o olhar perdido e seguia com o estilo calado, reservado e relaxado.

̶ A neve tá acabando com os pneus! – Lamenta Ben – Não vi nenhum carro com pneu para neve... Às vezes me esqueço que já se passaram quase seis meses...

̶ É, deve ser... – Responde O’Donnell enquanto dá mais uma tragada.

̶ A gravação, o que exatamente ouviram dentro daquele táxi? – Pergunta Benjamin.

̶ “Somos um grupo de Resistência ao vírus, estamos localizados em Green Bay, aceitamos os vivos, os mortos não nos alcançam”... – Responde O’Donnell, repetindo exatamente a mensagem que ouvira há tempos atrás.

̶ Acredita mesmo que isso é real?

̶ Eu só estou levando a minha vida, não me importa se vou encontrar o castelo da Disney ou só mais uma horda... Todos sabemos que um dia essa merda vai nos puxar tão para baixo que não dará mais para levantar! – Responde o motoqueiro, que em um tom descompromissado pergunta a Ben – E você?

̶ Talvez não sejamos tão diferentes assim...

Ao fundo, do lado de dentro do trailer, Kate e Roxanne ainda se encontravam juntas, aquecendo uma a outra. Kate puxara Roxy para perto de si e começou a beijá-la, passando a mão por seu corpo, sem se importar com as presenças de Emily e Lisa à frente. Roxanne tentava impedi-la, mas sua parceira parecia estar com a libido em níveis máximos, completamente libertina.

Roxanne tentava cessar os movimentos de Kate, por receio de que alguém as visse, porém a outra seguia tentando transar com ela ali mesmo. Procurando dar um basta na situação, Roxy segura os dois braços da libertina e diz em seguida com uma certa rispidez na voz:

̶ O que você tá fazendo? Eu te falei, nada vai rolar na frente dos outros! – Kate seguiu olhando-a, utilizando-se de um olhar bem diferente do habitual.

̶ Fodam-se os outros, eu te quero agora! – Roxanne espantou-se, soltou os braços dela e após levantar-se voltou a exclamar:

̶ Que porra tá acontecendo com você?!

̶ Eu não sei até quando vamos sobreviver! – Kate exclama enquanto também se levanta – Pra que esperar, pra que seguir qualquer norma... Como eu vou saber se amanhã nós não vamos ser pegas pela porra de uma horda?! Eu quero fazer o que tenho vontade, no instante em que tenho vontade, porque se deixar para depois, talvez nunca seja feito! Talvez não haja depois!

Roxanne ainda encontra-se pasma, ela não encontra palavras para rebater o que Kate acabara de dizer, tudo ocorrera de forma espantosa, com toda a certeza aquela não era a Kate que ela conhecera há tempos. Sem muito o que fazer, ela apenas deu as costa, saiu do trailer e fechou a porta com ferocidade.

Emily que apenas assistira a tudo, levantou-se do lugar onde estava e tentou impedir Roxanne de deixar o local, em uma tentativa de apaziguar a situação. Ao erguer o corpo, ela sentira uma forte contração que fez o mesmo curvar-se, levou a mão à barriga e sem conseguir se reerguer, disse com uma cara de dor:

̶ Meu Deus...

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̶ Master of puppets? – Indagou Matt ao olhar bem de perto a placa de nomenclatura do bar – Essa não é aquela música do Metallica?

Os três estão de fronte a entrada, apenas a observando, o local não encontra-se destruído como os outros estabelecimentos, talvez ainda haja algo lá dentro para eles.

̶ Talvez houvesse shows de fantoches aqui! – Diz Deschen em tom de piada, Matt dá um breve sorriso.

Um barulho é ouvido do lado de dentro, porém por conta da espessura da parede, não é possível identificar ao certo do que se trata.

̶ Deve haver algum mordedor aí dentro! Fiquem atentos e com as armas a postos! – Diz James.

Deschen segura firmemente o facão em sua mão, assim como Matt com o machado e James com sua barra de ferro, todos preparados para qualquer ação que pudesse ocorrer. A curtos passos todos se dirigem a entrada do bar, a porta, revestida em tonalidades escuras, encontrava-se destrancada, porém sua fechadura estava estourada, significando que alguém anteriormente já havia arrombado o lugar. A porta é empurrada levemente, os três entram e para as suas surpresas, não são grunhidos que eles escutam, e sim vozes, vozes humanas.

̶ Larguem as armas! Agora! – Exclama um homem, ele é branco tem cerca de quarenta anos, é forte, usa um casaco preto e é careca. Nas mãos ele carrega um rifle calibre doze, que nesse momento se encontra apontado para os três que acabaram de adentrar.

Ao lado do homem estão outros três. O primeiro deles é baixo, aparentemente deve ter trinta anos, é magro e usa um gorro na cabeça, porém é possível observar os seus cabelos enrolados e longos transpassando a proteção para o frio.

O segundo homem é negro, tem uma longa barba grisalha e aparenta ter mais sessenta anos. Por último, o terceiro homem que lá se encontra é loiro, tem cabelos longos e mal tratados, um pouco abaixo dos ombros, no rosto ele carrega um sorriso direcionado a Deschen, enquanto a olha de cima a baixo.

̶ Eu já disse, larguem as suas armas! – Exclama novamente o careca, dessa vez empunhando ainda mais a sua doze.

James, Deschen e Matt obedecem à ordem recebida, largando o machado, facão e a barra de ferro. Os quatro homens passam a sorrir quase que simultaneamente, seus olhares de dirigem como um scanner a Deschen, todos observando-a e imaginando quais seriam os seus próximo passos. O careca ainda com a arma a mão, volta a falar mais uma vez:

̶ Parece que nos demos bem rapazes... Parece que nos demos muito bem!

Notas finais
Não tenho muito o que falar hoje, bom, nos vemos nos comentários!