Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
16 Capítulo 16 - Os Últimos de Nós
Notas iniciais
Uma gélida brisa corta o ar da autoestrada, que pode ser vista em sua amplitude de cima de um planalto, a vegetação nativa que brota a beira da estrada, já começa a ser escondida pelas primeiras camadas de neve, o outono se fora prematuramente antes do esperado. O vento se torna mais presente e constante, seu uivo em meio ao desértico silêncio mais parece um grito de socorro, flocos de neve começam a travestir o asfalto lentamente. A temperatura deveria estar entre 31 ou 32°F, um frio de travar articulações para quem não estiver bem protegido. A visão da estrada não mudou muito desde que o apocalipse se instaurara, os carros tombados e abandonados seguem na mesma posição, assim como as manchas de sangue seco e cadáveres das vítimas de sua própria covardia, todas com um semelhante e uníssono buraco de pequeno raio na testa.
A rodovia está à beira de Wild Folks, mais um dos inúmeros vilarejos fantasmas, o lugar não traz esperança, seus pequenos armazéns já foram esvaziados por saqueadores famintos. Na parte central da estrada, a cerca de duas milhas da entrada do vilarejo já citado, um trailer atravessado na horizontal, atrapalha qualquer um que queira prosseguir de carro por ali. Ele é pintado em tons alaranjados, chamando a atenção de qualquer um, é o típico veículo de casais de idosos que querem se aventurar viajando pelo meio oeste americano, porém por algum motivo, o mesmo fora abandonado.
Um homem com um casaco marrom com capuz, luvas pretas e um lenço cobrindo o rosto, deixando apenas os olhos de fora, caminha sorrateiramente ao lado do trailer, em suas mãos carrega um facão, nas costas um rifle. Ele observa por uma pequena fresta se ainda há resquício de alguém ou algo dentro do veículo, ao primeiro instante tudo parece tranquilo, porém ele obtém sua resposta em poucos segundos. Algo dentro do trailer começa a se debater, um som forte e alto é ouvido, seguido de um grunhido, provavelmente o mordedor que ali se encontra sentira o cheiro de carne fresca. O homem observa novamente pela fresta da pequena janela do veículo e vê que o autor do barulho se trata de uma mordedora, uma jovem.
Seus olhos se distanciam da fresta, ele afasta-se do trailer, retira o lenço do rosto e se revela, é Benjamin. Ele olha na direção de algumas árvores a cerca de cinco metros a beira da autoestrada e diz:
̶ Só tem um vadia aí dentro! Acho que vi um armário, talvez tenha alguma coisa pra comer!
Ao escutar a voz de Benjamin, a mordedora dentro do veículo passou a debater-se ainda mais, porém, Ben não ligara. De trás das árvores surgem os restantes dos sobreviventes, James ajuda Emily a caminhar, que além de um casaco, ainda é coberta por um cobertor, ela parece ser quem mais sente o frio. Kate, Deschen e Roxanne surgem logo atrás, todas igualmente bem cobertas.
̶ A porta tá trancada? Não tem a chance de sermos surpreendidos? – Pergunta James. Ele veste um gorro, seus cabelos estão soltos e os pelos de sua barba já se mesclam com os flocos de neve.
̶ Não é a primeira vez que fazemos isso... – Responde Benjamin brevemente dando as costas.
Benjamin se desloca até a porta do trailer, coloca a mão na maçaneta e faz sinal para que James se aproxime, em silêncio ele combina a partir de gestos como se dará a ação. James, que carrega uma barra de ferro, posiciona-se bem a frente da porta, Ben gira a maçaneta e abre, deixando a entrada livre. Os dois adentram o veículo, a mordedora que se encontrava lá dentro, desloca-se faminta até os dois. A mesma usa um shorts azul e uma blusa curta, provavelmente está há algum tempo ali dentro, pois suas roupas nada condizem com a atual temperatura.
Os braços esticados e os dentes trincados se aproximam com ferocidade dos dois. James empunha sua barra e acerta um violento golpe na perna da mordedora, quebrando-a e fazendo com que a mesma caísse ao chão. Benjamin então, empunha o seu facão e finaliza, cravando-o no rosto da criatura.
̶ Diz para as mulheres entrarem, eu vou ver se tem comida aqui dentro... – Diz Benjamin a James que concorda fazendo um movimento com a cabeça.
Ben começa a vasculhar dentro do veículo, olhando em um pequeno armário abaixo da pia.
̶ Meus dedos estão congelando! – Exclama Deschen enquanto adentra o trailer – Essas luvas que me deram são muito ruins! – Ela senta-se a mesa que se encontra em uma posição central dentro do veículo, a sua mão esquerda é protegida por uma luva e o coto direito apenas pela manga do casaco.
Kate e Emily também adentram o trailer, observando tudo a sua volta, o lugar ainda parece bem conservado, provavelmente não fora atacado por mordedores.
̶ Ela era a única aqui? – Indaga Roxanne, que fora a última a entrar. Seus cabelos amarrados também se encontram mesclados com a neve.
James puxa o corpo da mordedora, joga-o para o lado de fora e fecha a porta, verificando se a mesma estava segura, após isso ele diz:
̶ Vou ver se essa coisa ainda tá funcionando... Talvez possamos substituir o furgão!
̶ Por favor! Estou cansada de dormir com todos vocês por cima de mim! – Exclama Des.
̶ Podemos revezar, dessa vez eu te deixo ficar por cima! – Brinca Kate, as duas riem.
Roxanne caminha até a parte traseira do trailer, lá se encontra o banheiro e na lateral há uma cama retrátil. Ela abre a porta do banheiro e após adentrar, tapa as narinas rapidamente. Ela é atingida por um odor tão forte que mais parece um soco na cara. Roxanne recua um passo e exclama:
̶ Achamos os donos desse trailer!
Dois corpos se encontram sentados ao chão, um casal de idosos, talvez setenta anos, os dois atiraram na própria cabeça, um suicídio duplo.
̶ Alguém me ajuda a tirar isso daqui! – Exclama Roxanne, Kate se dirige até ela e as duas começam a retirar os corpos, que se encontram rodeados por moscas e em um avançado estado de decomposição.
̶ O que encontrou? – Pergunta Emily a Benjamin que prossegue com sua busca. Ela segue protegida pelo cobertor e senta-se de frente para ele.
̶ Comida de gato, barras de cereais e duas latas de atum! – Responde Benjamin, ele parece insatisfeito – Nenhuma água! Merda!
̶ Gasolina! – Exclama James do banco do motorista – Aparentemente o único problema do trailer é que o tanque tá vazio! – Complementa.
̶ Isso pode ser uma solução para o nosso transporte, mais ainda assim vamos ter que encontrar comida, o que temos mal vai dar para essa noite! – Diz Benjamin.
O grupo decide passar a noite dentro do trailer, com toda a certeza era mais seguro que ficar exposto na estrada, além de ter bem mais espaço que o furgão. Todos se sentam juntos, praticamente formando um círculo, o frio só parece aumentar. Olhando pela pequena janela do veículo é possível ver que a nevasca do lado de fora se ampliara, caindo com bastante intensidade. James olha para um pequeno termômetro na parede, o mesmo marca agora 25°F.
A noite já se torna presente, e isso parece deixar o tempo ainda mais frio. Encolhida e praticamente abraçada a Roxanne, Kate fala com os lábios um tanto trêmulos:
̶ Esse caralho não tem aquecedor?! – Assim como Benjamin, ela amarrara um lenço cobrindo o rosto, para tentar amenizar os efeitos desse começo de inverno.
̶ Nada aqui parece funcionar... – Lamenta James.
Benjamin coloca sobre a mesa três barras de cereais, que provavelmente já perderam o prazo de validade, e uma lata de atum.
̶ Esse é o jantar de hoje! – Diz Benjamin sem animação na voz – A lata de atum é sua, você precisa comer por dois! – Completa ele entregando o enlatado a Emily.
Ela toma a lata nas mãos e agradece com um breve sorriso, um dos poucos movimentos faciais que ela consegue fazer por conta do frio. Benjamin entrega uma barrinha a Kate, outra a Roxanne e a terceira divide ao meio com James, aquilo realmente viria a ser o jantar de todos naquela noite.
É visível que a situação do grupo não é das melhores, na verdade eles devem estar passando pelo pior momento desde que perderam tudo a mais ou menos quatro meses atrás. Passaram-se oito dias desde o incidente no galpão, a tragédia que ocorrera deixou-os sem rumo, sem chão, foi muito difícil tentar erguer-se, e isso é algo que todos ainda estão tentando fazer.
Amontoados dentro do furgão, o grupo decidira partir rumo a Green Bay, seguindo pela autoestrada, porém o frio que chegara de repente fez com que os planos mudassem um pouco. Três dias após fugirem do galpão em meio a mata, um acidente por conta da estrada escorregadia fez com que o furgão tivesse que ser abandonado, deixando-os no meio do nada e sem um meio de transporte. Uma casamata serviu como abrigo por três dias, porém o lugar mostrou-se instável e o melhor foi seguir procurando por um veículo, foi aí então que encontraram o trailer. Durante esse tempo que vagaram, o grupo foi perdendo suprimentos e água, tornando sua jornada ainda mais complicada.
̶ O pior é que eu nem gosto de futebol americano! – Reclama Deschen enquanto arruma em sua cabeça um gorro com o símbolo do Jacksonville Jaguars.
̶ Eu nunca vi um inverno tão rigoroso quanto esse! – Exclama Roxanne. Ela encontra-se encolhida entre os próprios braços, como que tentando aquecer a si própria.
̶ Pode até ser um bom sinal, talvez estejamos perto de Green Bay... É um dos lugares mais frios da América! – Manifesta-se James enquanto termina de comer a sua metade da barrinha.
Emily comera boa parte do atum com as mãos, ela estava realmente com fome. Percebendo que todos ali permaneciam famintos, ela deixara um restante na lata e oferecera a todos. Kate e Deschen aceitaram, James, Benjamin e Roxanne preferiram deixar que elas aproveitassem o pouco que ainda restava naquela lata.
̶ Vocês acham que há alguma coisa lá? – Pergunta Emily, ela agora utiliza o cobertor para cobrir apenas a sua barriga.
̶ A tv falava sobre refúgios em escolas, universidades... Nada disso nunca se concretizou! – Diz Benjamin, que ainda prossegue – Talvez Green Bay seja só mais uma utopia, talvez não... – Ele parece frustrado – Só posso dizer que essa é a única solução que consigo enxergar!
Um barulho corta a conversa que todos mantinham, o som de algo motorizado se aproximando, olhando pela janela do trailer é possível ver a luz de um farol. Rapidamente Benjamin faz um sinal para que todos façam silêncio e se abaixem. A partir do momento em que o som se aproxima da sua localidade, é possível identificá-lo com sendo originário de uma moto, moto essa que para logo ao lado do trailer. Do chão, James arrasta-se até um ponto do veículo onde possa ter a visão da autoestrada. Olhando pela janela ao lado do banco do motorista, ele passa a observar um movimento que se inicia do lado de fora.
A moto, uma Harley Davidson estilo clássica, estacionara exatamente ao lado do veículo abrigo do grupo de James, dela saltaram dois homens, um deles carregando uma criança no colo. O primeiro é grande, deve ter quase dois metros e com certeza o seu peso se aproxima dos cem quilos, ele veste um casaco com capuz não sendo possível ver o seu rosto. O segundo homem que aportara junto à moto, deve ter entre um metro e setenta e cinco e um metro e oitenta, suas características não podem ser identificadas por conta de suas roupas próprias para proteger-se da neve que ainda persistia em cair. Nos braços esse homem carrega uma criança, que se protege do frio com uma roupa toda vermelha, talvez de hockey, provavelmente do Toronto Maple Leafs, mas tal detalhe é demais para que James possa ter certeza de onde se encontra.
̶ Tem certeza que não tem perigo? – Pergunta o menor homem do lado de fora.
̶ Se um cabeça oca aparecer não será problema, pelo menos para mim! – Exclama o homem maior, sua voz é imposta de forma firme em uma grossa tonalidade.
̶ Tio Matt, eu to congelando! – Exclama a garota que se encontra no colo do menor homem, sua voz é um tanto chorosa. Matt então responde.
̶ Eu sei meu amor, vamos dar um jeito...
̶ Vamos entrar aqui! – Exclama o maior homem – Vai dar para passar a noite!
Os três começam a se aproximar ainda mais e passam agora a caminhar na direção da porta do trailer. James olha para Benjamin aguardando alguma ordem, porém ele faz sinal para que permaneçam da mesma maneira, talvez assim nada ocorra.
O maior homem é quem primeiro chega até a porta, ao girar a maçaneta ele percebe que a mesma encontra-se trancada, ele tenta outras vezes, porém com o mesmo insucesso. A porta então começa a ser chutada, o homem impõe sua força na tentativa de adentrar o lugar, após três tentativas a mesma cede, e ele enfim pode entrar. Ao dar os três primeiros passos dentro do trailer, o maior homem escuta o ‘click’ de um rifle sendo preparado para o disparo, seguido de uma voz em meio à escuridão:
̶ Se você respirar, acredite, eu atiro!
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