Através da cúpula cristalina, a luz pálida da manhã banhava o salão. Na Torre de Merthrell, retiro dos clérigos de Valkor, o silêncio se desfazia. Décadas haviam se passado desde que a última grande guerra fora vencida, mas os líderes ainda temiam que a barbárie trouxesse de volta o pesadelo regado a sangue dos Anos da Fúria.

Sentado à longa mesa de mogno entre os demais monarcas, Vance ajustou a postura, tentando suavizar o desconforto em sua coluna já saturada por permanecer naquela posição desde o nascer do dia.

— Se cedermos, abriremos precedentes para que a magia corra desenfreada. — Rammir se debruçou sobre a mesa, o suor brilhando na cabeça calva. — A lei protege as famílias reais há três décadas. Essa concessão destrói tudo o que reconstruímos sobre as cinzas dos dragões.

Vance observou o nervosismo do rei de Kiros.

— A lei que restringe o uso da magia não nos protege, Rammir. — O rei de Nohragoh encarou cada líder. — Um novo legado desse poder, controlado por recrutamentos e sob a disciplina dos Sacerdotes, vai apaziguar os ânimos.

Diferentemente dos outros, cuja sede de comando desafiava a paciência de Vance, Helvek parecia acreditar verdadeiramente na própria eloquência.

Desde o final da guerra contra os Dragões Dourados, uma medida ditou que livros, pergaminhos, objetos e poções — tudo que equivalesse ao místico — fossem mantidos sob a proteção dos Sacerdotes dos Deuses. Os estudos da magia ficaram, assim, restritos àqueles com aptidão dentro das famílias reais e seus descendentes. Não houve comoção do povo que, oprimido pelos Anos da Fúria, empenhou seus esforços na reconstrução dos reinos.

Em meio à nova estabilidade do mundo pacificado, os questionamentos que outrora não despertaram interesse brotavam e agora se espalhavam como ervas daninhas.

— Holtzer? — a voz da rainha Yensa cortou o pensamento de Vance.

— Ele sequer está aqui — desdenhou Senon, o soberano de Arnsthern, com um sorriso de canto.

— Estou atento — Vance rebateu, estreitando os olhos verdes para Senon. — Apenas acho inútil debater contra o inevitável. Sem o aval dos Sete, o descontentamento vai virar desforra. E sangue é a última coisa de que Renlohk precisa agora.

O silêncio tomou o salão, e o peso do julgamento dos outros seis líderes recaiu sobre ele.

— Está sugerindo que a restrição deve ser abolida? — inquiriu Rammir, os olhos pequenos fixos em Vance.

— Estou dizendo que ela tem de ser. — Vance disse com firmeza. — O fanatismo chegou a Qhesz'ra. Ou esqueceram que os faes não respondem ao nosso Legado? Eles têm a magia no sangue e um acordo que nos custou caro. Se esse equilíbrio quebrar, o pesadelo volta.

Qhesz'ra, o reino dos faes em Hammiah, era uma ferida aberta na política do Reinado. Desde que abandonaram seus irmãos elfos e ajudaram os humanos a aniquilar Candara, os faes viviam sob uma autonomia vigiada — um privilégio que agora despertava um ódio a ser contido o quanto antes.

— Os homens que lideraram o ataque a Qhesz'ra estão nas masmorras — informou Ragor, o senhor das terras que cercavam o reino dos faes. — Eles alegam que, se aqueles seres são Inatos, devem ser selados ou banidos.

— Qhesz'ra não mandará um segundo aviso — Vance os advertiu. — O trato será rasgado e a magia deles não respeitará as nossas leis.

— Manteremos nossa parte — assegurou Ragor. — Posso garantir a segurança do perímetro de Qhesz'ra.

— Até quando? — Vance cruzou os braços, sentindo o cheiro da chuva que se aproximava.

— Até que seja preciso usar outra medida — Senon encerrou o assunto.

Vance contemplou para o espaço vazio à mesa — um lembrete que evocava a oitava nação aniquilada no passado —, e suspirou, abandonando uma causa já perdida.

***

— Holtzer?

Vance se virou ao chamado da rainha de Talon.

Os outros líderes conversavam em frente às portas do salão. A mulher, em seus mais de sessenta anos, esbanjava simpatia com seu sorriso maternal. Dona de cabelos grisalhos curtos e enfeitados por uma discreta tiara de ouro, Soriander vinha em sua direção com um longo vestido azul fluindo a cada passo elegante.

— Soriander — cumprimentou.

A rainha ofereceu um sorriso mais aberto, acenando com a mão para que continuassem a caminhar pelo corredor.

— Esses velhos tolos estão flertando com o que essa decisão pode desencadear.

A revogação da lei mostrou-se inviável, pois os Sete operavam sob um consenso rígido. Seus governos, embora separados, agiam em harmonia para garantir que as resoluções mútuas fossem respeitadas, evitando assim o surgimento de conflitos entre as nações.

Soriander votou contra a vigência da lei, junto a ele e Helvek. Vance queria acreditar que a rainha partilhava de sua frustração. Entretanto, a serenidade dela, mesmo com palavras de contrariedade, não o convencia.

— Minha opinião não vale muito, neste momento — expôs Vance, observando a luz morta que adentrava pelos vitrais.

— Você é um líder jovem, e vem cuidando de seu povo admiravelmente. Acredite, os outros soberanos o subestimam — falou com o timbre manso e a ternura que nunca abandonava os olhos castanhos.

— Acatarei a ordem, se é isso o que a preocupa. — Vance sorriu.

— Sua mãe se orgulharia de sua postura. Já tivemos uma perda enorme com a quebra do Código no passado.

O arrependimento de Soriander beirava a melancolia. Vance estudara muito os conceitos adotados pelos Sete, assim como conhecia a história do oitavo líder — Nëeven, rei dos elfos de Candara — que se rebelara logo após a guerra contra a lei de banimento da magia e a destruição dos dragões remanescentes. Ele pagou pela quebra do Código, assim como todo o seu povo.

— Foi necessário, não deveria se ressentir.

— Exato. Mas vidas são vidas, e muitos inocentes pereceram por culpa de decisões erradas no passado.

A ameaça estava embutida nas entrelinhas daquelas palavras — o futuro de Cérix, acaso ousasse contradizer a decisão, seria o mesmo que o do oitavo líder.

— Não tomo decisões erradas. — Vance manteve o sorriso ameno.

— Tranquiliza-me ouvir isso, Holtzer. — Soriander tocou o queixo do soberano, motivando-o a abaixar a cabeça, e beijou-lhe a testa. — Tenha um retorno seguro a Cérix.

Os conselheiros de Vance diriam que foi impecável. Mas dentro dele persistia a impressão de que sequer se aproximara de ser suficiente.

***

Vance saiu pelo acesso menos movimentado da Torre. Os pingos da garoa molharam seu rosto e ele fechou os olhos por um instante, aproveitando a sensação fresca. Atravessou o pátio. As botas repercutiam um ruído áspero no piso de pedras marfins que desenhavam o símbolo de Valkor, os religiosos vestidos com túnicas azul-escuro o reverenciavam em sua passagem.

Contornando um dos jardins, adentrou o estábulo. O lugar era pequeno se comparado aos do palácio em Cérix. Vance aproximou-se de um tordilho negro. O animal o encarou e não refugou quando Vance tocou-lhe a fronte com a mão coberta pela grossa luva preta.

— Corja pútrida de abutres! — Um rapaz irrompeu pela porteira. — Mereciam nadar no ácido mais d...

O jovem estacou. O cavalo bufou e recuou na baia.

— Majestade, aceite as minhas desculpas. — O reconhecimento levou o recém-chegado a se curvar. — Posso servi-lo em algo?

— Não se incomode. Estou admirando as montarias da Ilha antes de partir.

O rapaz repetiu o pedido de desculpa, curvou-se mais uma vez antes de passar por ele.

Os trajes do jovem — uma calça e um corselete de cores escuras confeccionados em couro com o brasão de Valkor e a insígnia dos vigilantes do exército de Dal-Lanier — mostravam que ele servia na Torre. Com um linguajar como o apresentado em sua chegada, Vance duvidava que ele fosse um religioso fervoroso.

Merthrell, além de ser um local de retiro e adoração, funcionava como posto de vigilância. Em tempos remotos, a ilha destacou-se durante a guerra contra a Casta do Sul. Toda ameaça que surgia, os vigilantes alertavam aos exércitos para que enfrentassem os ataques ferozes dos dragões dourados. Era um lugar longe de ser seguro, mas, nos dias atuais, os únicos desordeiros temidos eram os piratas.

— É um vigia? — Vance reparou no serpentear da grossa trança castanha ao longo das costas do rapaz que subia em uma das muretas das baias, tateando em cima de uma das vigas do telhado.

— Era, Majestade — ele respondeu, a voz estrangulada em meio ao esticar do braço para alcançar seu intento.

— Não é muito novo para estar nessa função, ...? — Vance deixou a frase no ar, reticente, indicando que desejaria saber o nome dele.

— Jorern, Majestade. Me chamo Jorern. — Ele pulou da mureta com uma agilidade graciosa e um objeto nas mãos. Sorriu fitando o rei com seus grandes olhos de um azul-cobalto forte. — Garanto que tenho idade suficiente para estar nessa função. O trabalho aqui é fácil, não há um problema sequer desde muito tempo. Acho que esse lugar é mantido apenas para abrigar esse monte de gente que só sabe rezar e comer.

Vance deixou um riso escapar enquanto admirava os talhos esculpidos na curvatura acentuada do arco que Jorern tinha nas mãos.

— Tem uma bela peça. Um Arco de Phry'ra é bem raro.

— Comprei de um viajante que me jurou com os dois pés juntos que pertenceu a um elfo de Candara.

Vance não duvidava. Os entalhes da curvatura eram precisos demais para uma imitação. Os elfos projetavam arcos de qualidade ímpar e especialidades diversas, e a peculiaridade dos Arcos de Phry'ra era a de oferecer ao arqueiro condições de realizar um disparo com uma tensão muito maior do que um arco convencional, além de precisão e alcance superiores. O arqueiro podia controlar a aceleração da flecha, variando de disparos suaves até os mais agressivos, sendo também mais silencioso quando a corda era liberada.

Vendo Jorern ajeitar o arco nas costas junto à aljava, Vance se impediu de mergulhar nas lembranças que aquele tipo de arma evocava.

— Por que está indo embora?

— Incompatibilidade de pensamentos. Eu não penso como eles, eles não pensam como eu. — Jorern gesticulou de um lado para o outro com as mãos. — Me pediram para que eu caçasse outro rumo.

Um jeito enrolado de explicar que desacatou algum superior, concluiu Vance.

— Voltará para sua família?

— Que família, Majestade? — Jorern deu uma risada. — Vou viajar atrás de trabalho, de outros ares e, quem sabe, de uma aventura ou outra.

A risada de Jorern ficou ecoando em seus ouvidos enquanto Vance o via partir.

***

Corria colina acima. O sol do final da tarde aquecia seu rosto risonho e o vento levava seus cabelos pretos para trás como se o congratulasse por sua fuga. Sawlnier nunca mais o colocaria sentado, estudando pela eternidade; não receberia mais os olhares reprovadores de seu pai e...

— Estou livre!!

A colisão tirou o ar de Vance e fez doer seu nariz. Uma mão em seu pulso firmou seu equilíbrio e evitou que caísse de bunda no chão.

— Tome cuidado, menino! — a voz risonha o repreendeu.

Vance ergueu o queixo para quem ousara se interpor em seu caminho.

Bonito.

Foi o primeiro pensamento que surgiu ao ver aquele adolescente.

Ele era muito... bonito.

Mas não era uma menina. Poderia tê-lo confundido com uma, se não fosse pela voz grave e as vestimentas masculinas.

Massageando o nariz dolorido, escondeu a vergonha que esquentou suas bochechas.

— Você que tinha de tomar mais cuidado! Se enfiou na minha frente!

O jovem riu. Vance ficou escutando aquele som e pensando no calor que vinha dele. Sua fúria infantil se esvaiu e o desconhecido bagunçou seus cabelos escuros.

Ruborizou.

Não estava acostumado ao contato com estranhos, muito menos com um que fazia parte das classes mais baixas do povo de Cérix. Vance empertigou-se e citou seu título para mostrar o quão importante era, querendo ganhar o respeito do desconhecido.

— Sou o príncipe Vance Eliander Holtzer, herdeiro da rainha Verena de Cérix! Você deveria se curvar a mim!

Os olhos azuis do garoto pareciam duas safiras. Vance sorriu orgulhoso quando ele o reverenciou.

— Mil perdões, pequena Alteza. — Ele se agachou para nivelar suas alturas. — Vou contar um segredo. Se continuar por essa trilha, vai arrumar encrenca.

— Eu não tenho medo de nada!

— Nem mesmo de alados que têm uma baba gosmenta que derrete até metal?

Vance jamais vira um alado. As lendas sobre aquele povo traziam imagens de calamidades, pura agonia e destruição. Seu pai dizia que seu tutor exagerava nos contos, mas nunca explicara o porquê ou se dispusera a lhe narrar de forma diferente.

— Tem alados lá embaixo? — Espichou os olhos para a descida da colina que era margeada por uma densa floresta de eucaliptos.

— Enormes — ressaltou o adolescente, enfatizando a altura com os braços abertos.

Vance ponderou. Se o garoto tinha visto os alados e viera daquele lado, significava que era muito corajoso. Não querendo ser visto como covarde, bateu um dos pés na terra gramada.

— Vou enfrentar todos!

— Você deve voltar para o palácio e proteger seus pais. Não acha que seria um feito notável?

Mesmo com seus poucos sete anos, Vance percebeu lógica no que lhe era dito. As fábulas que sua mãe lia para ele sempre exaltavam um bravo guerreiro que ajudava seu povo e defendia sua amada. A seu ver, não existia outra pessoa mais querida a quem gostaria de proteger.

— Eu vou defender a mamãe!

— Mas, para isso, Vossa Alteza tem de crescer e se tornar um homem muito forte.

— Eu serei! — Vance deu-lhe as costas e voltou correndo para o palácio enquanto bradava ao vento. — Vou ser o maior herói do mundo inteiro!

***

Seu entusiasmo infantil se perdera no cotidiano. Não concretizara o que prometera àquele garoto. A mãe havia sido assassinada, anos depois.

Jorern o lembrou daquele rapaz na colina. Pensou na ironia de que o sonho de criança de ser reconhecido como um herói colidia com sua falta de competência como rei.

Aquele garoto, onde quer que ele estivesse, detinha o que Vance jamais pudera segurar nas mãos.

A liberdade para ser quem desejasse.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.