Antares
1 Capítulo Um - Ela tem o seu nome
Notas iniciais
— Vê aquela estrela? — Perguntei apontando para a estrela mais brilhante no céu estrelado — Ela tem o seu nome.
xXx
— O universo é maior do que qualquer coisa que cabe na sua cabeça.
Antares descansava a cabeça sobre a pedra, o longo cabelo liso espalhado ao seu redor. Tinha os olhos de um guerreiro Quéchua, sempre alerta, mas naquele momento ele parecia se perder nas minhas palavras e nas histórias que eu lhe apresentava.
— Às vezes olho para o céu e me pergunto o que aconteceria se pudéssemos virar o mundo de cabeça para baixo — sorri, perdidamente encantado com as possibilidades — Poderíamos nadar entre as estrelas, atravessar as nuvens e... mergulhar no universo.
Antares ergueu o tronco e me encarou sem apresentar nenhum esboço de entusiasmo.
— E como sobreviveríamos?
— Nos alimentaríamos de conhecimento, saciaríamos nossa sede de conhecer.
— Alguns morreriam de fome.
— Mas já não é isso que acontece?
Antares ficou parado, não movia nem mesmo os olhos. Eu conhecia aquela expressão. Ele estava confuso e pensativo.
— Mas e o mar? Não é bom o suficiente para você? A terra não lhe dá o que você precisa?
— Mas não estou procurando no céu o que eu preciso, eu só me sinto menos sozinho na presença delas.
— Delas? — Antares continuava confuso.
Abri um largo sorriso enquanto analisava sua expressão, era simples e me encantava. O brilho nos olhos negros mostrava confusão e fascínio, e eu sabia muito bem como era lidar com aquelas duas emoções ao mesmo tempo. De repente me vi com meu avô há muito falecido. Fazia muito frio e estávamos numa montanha alta, observando as estrelas. Ele sempre me dizia que elas queriam nos dizer algo e que um dia eu entenderia a mensagem. Meu avô era um índio forte que viveu até os seus setenta e oito anos e sempre que se via doente dizia aos céus que ainda não era sua hora, ainda não havia visto o seu menino crescer. Eu era esse menino. Sem meus pais e meu avô, eu só tinha as estrelas.
— As estrelas. — Bradei — Elas conseguem ver todas as outras de onde estão e querem falar com elas, mas não conseguem pois estão distantes demais, por isso brilham suas luzes à distância. Elas brilham umas para as outras e para quem consiga admirá-las.
— Acha que seriam boas amigas?
— Acho que se apaixonariam umas pelas outras — me arrependi no momento em que disse isso, podia sentir o meu coração acelerar e o meu rosto corar. Notei que Antares olhava para baixo, escondendo o rosto da minha avaliação, e uma chama se acendeu no meu peito.
— Porquê diz isso? — Perguntou ainda muito tímido.
— Sei lá. Esquece, é só uma ideia boba.
— O que é uma ideia boba?
— Nada, eu só pensei que... bom... eu pensei em como deve ser difícil estar longe da pessoa amada... e... — Antares concordou com um aceno, concentrado nas minhas palavras. Eu remoía minhas mãos, uma na outra, nervoso com a situação e com o que eu desejava falar — ... e como deve ser mais difícil ainda quando se está muito perto e, ainda assim, longe.
Antares abriu um sorriso largo e imediatamente senti que ele havia me entendido, mas o que ele disse logo a seguir me causou um mal-estar repentino.
— Está falando sobre a Amana? Porque não diz a ela como se sente?
Antes que pudesse desistir, disse:
— Não estou apaixonado por ela.
Antares cerrou as sobrancelhas, confuso.
— Não? Então de quem está falando?
— Você não daria a mínima — disse e me levantei, não poderia passar mais tempo ao lado dele sem me expor demais, então dei meia volta e saí andado entre os galhos das árvores. Embora a luz da lua ultrapassasse o espaço entre as folhas, não se podia enxergar nada, entretanto eu havia nascido naquelas florestas, sabia o caminho.
Eu podia ouvir passos me seguindo e sabia que era Antares, mas não me virei nenhuma vez. Chegando à aldeia, passei por grupos de criancinhas envoltos em cobertores ao redor das fogueiras para adentrar minha oca. Era quente e confortável ali dentro e eu podia finalmente me deitar e pensar no que fazer para esquecer Antares de vez, mas antes que o fizesse, uma fresta de luz adentrou quando a portinha abriu e se fechou atrás de alguém. Era Antares e ele parecia furioso.
— O que pensa que está fazendo? — Ele perguntou um tom acima do que geralmente usava, o que me deixou um pouco assustado.
Olhei para o cobertor em minhas mãos e pensei em relatar o ato de me cobrir, mas seus olhos de índio guerreiro brilhavam com um ódio que eu não sabia de onde havia vindo.
— Do que você está falando?
— Não finja que não me entendeu, Caubi. Lá na floresta, eu sei que você estava se referindo...
— E-eu...
— ...à minha irmã.
Parei por um instante e o olhei fixamente. Um sorriso aliviado escapou dos meus lábios quando entendi que ele não havia realmente compreendido.
— Do que você está rindo? — Perguntou com mais brutalidade.
— Você não entendeu — disse sem me importar muito à forma como ele reagiria à verdade.
— Não? Se não está apaixonado pela minha irmã, então por quem?
Dei de ombros.
— Por você.
Antares pareceu mais surpreso do que nervoso, e ainda mais atordoado do que confuso. Seus olhos fixos aos meus pareciam transmitir emoções, eu já podia sentir medo e angústia e, quando ele se virou de costas e saiu da minha oca, um tremendo alívio.
xXx
Passaram dias desde a última vez que vi Antares. Fomos criados juntos e há muito tempo não ficávamos tão distantes, mas a verdade é que não havia sinal dele em nenhuma parte da aldeia. Também é verdade que não o procurei exatamente, apenas passava os olhos pelas pessoas e esperava vê-lo. Tudo corria bem e isso me deixou feliz, de alguma forma ele ainda se importava comigo.
Passei a visitar a encosta da montanha que antes visitávamos juntos com bastante frequência, mas destas vezes, sozinho. Ficava deitado, olhando para o céu, sem me concentrar totalmente no que as estrelas me diziam. Ainda me sentia acompanhado por elas, mas não podia enxergar a estrela mais brilhante do meu céu. Até que um dia decidi que iria pescar, precisava esvaziar a cabeça. Me aproximei do rio com uma lança e molhei meus pés na água gelada. Observei as águas, pareciam calmas.
Tudo aconteceu muito rápido. Uma hora eu estava com os pés na água e noutra estava jogado ao chão, sentindo dores na espinha. Meu raio de visão captou um peixe com dentes enormes pulando de um lado ao outro do rio e meu coração acelerou, nunca havia visto um daquele.
— Levanta — uma mão pesada envolveu o meu braço e me puxou para cima, olhos negros como a noite me observavam de perto, possuíam um brilho diferente — O que está fazendo aqui?
— Antares — sussurrei feliz em vê-lo — Você... está bem?
— Se eu estou bem? Você quase foi comido por uma piranha, sabe disso, né? — Revirou os olhos — Sabe, Caubi, eu aprendi que nem tudo precisa mudar, mas algumas coisas necessitam de mudanças.
Olhei ao meu redor. Havia baldes de madeira com água dentro, algumas frutas e um resquício de fogueira há poucos metros. Organizadamente limpo. Então entendi o que havia acontecido com Antares.
— Você abandonou a aldeia?
Ele deu de ombros e se sentou numa pedra, pegou um pedaço grande de pau e começou a raspar uma das pontas para fazer uma lança.
— Esta agora é a minha casa — olhou ao redor e, por fim, para mim — E você não é bem-vindo aqui.
Assenti. Meu coração batia forte e eu me sentia aliviado por ele estar bem, mas algo em mim queria gritar com ele por ter sumido sem dizer nada. Éramos amigos desde crianças e ele não podia me deixar preocupado daquela forma. Senti minhas mãos fechando em punho e um sentimento peculiar percorrer minhas veias. Eu sentia raiva e não era pouca. Disse a ele que o amava e tudo o que ele conseguiu fazer foi fugir. Antes que pudesse me virar e voltar para a aldeia, que era o que eu deveria ter feito, andei até ele e tirei o pedaço de madeira da sua mão, jogando-o no chão com toda a força que consegui. Ele me olhou sem entender e eu podia ver nos olhos dele o quanto estava cansado.
— O que você pensa que está fazendo? — Sua voz o denunciava.
— Eu deveria fazer essa pergunta, não acha? — Retruquei — Eu realmente entendo o que você queria ao sair da aldeia, mas sabe de uma coisa? Não era preciso. Você quis fugir de mim? Está bem, posso entender, mas não era necessário. Tudo o que precisava fazer era me dizer que nós nunca daríamos certo, mas preferiu fugir e colocar a sua vida em risco. Mas... — Sacudi a cabeça, revoltado com ele e com a situação — ... não, quer saber? Vá se danar. Você não tem mais nada a perder, certo?
Virei-me de costas e comecei a voltar pelo caminho que havia passado para chegar ali, foi quando ele disse:
— Não, eu não tenho — sua voz era chorosa — Já perdi você.
Parei onde estava, podia sentir a tensão dos meus braços e meu coração pulsar forte próximo ao meu ouvido.
— Você acha mesmo que eu fugi de você? — Parecia rir — Não, idiota. Eu fugi do que eu sinto por você. Acha que eu gosto de estar aqui sozinho? Sem ninguém? Sem você? Então, escuta só, eu não gosto. Mas eu gosto menos ainda de ser o diferentão. Não podemos ficar juntos porque não somos compatíveis, somos homens, Caubi, nós dois somos — suspirou, eu podia ouvir seus passos estalando as folhas secas sob seus pés — Como isso funciona? Como acha que a aldeia vai reagir a isso? Como nós vamos fazer isso? Eu não sei você, mas eu não sei se quero descobrir. Podemos ser expulsos.
— Que sejamos — gritei — Vai se negar a ser feliz porque nossas famílias não nos aceitariam?
— E iríamos para onde? Para o seu céu? — Debochava.
— Não importa para onde iríamos, só o que importa é que estaríamos juntos.
Ele não respondeu, só o que eu podia ouvir eram os seus passos cansados o levando para longe. De repente senti ainda mais raiva e antes que pudesse dizer ou fazer alguma coisa, subi correndo a encosta. Eu o deixaria para trás, deixaria para trás aquele sentimento que me acompanhou desde que me entendia por gente, deixaria para trás o seu sorriso e os seus longos cabelos lisos, os olhos negros brilhantes, deixaria para trás o guerreiro que não lutou pelo meu coração.
xXx
Fazia uma semana desde o meu confronto com Antares e as coisas iam de mal a pior. Eu estava sentado em uma pedra alta, a mesma pedra que ele e eu nos sentávamos desde meninos, observando as estrelas, a mesma pedra que meu avô me ensinara tudo o que sabia. Era fim do Crepúsculo e o tom alaranjado sumia no horizonte. Já dava para se ver os inúmeros pontos brilhantes no céu de inverno e aquilo ainda de certa forma me acalmava, elas ainda estavam lá, sempre estariam. De um lado pude ver as Três Marias formando o centurião de Órion, o gigante caçador. Era a minha constelação preferida antes de conhecer Antares e me apaixonar perdidamente pela constelação de Escorpião. E lá estava a estrela mais brilhante do céu, Antares, sobre minha cabeça, quilômetros e quilômetros de distância, talvez mais distante que o meu Antares. Senti uma lágrima lutar para escorrer dos meus olhos e a limpei, respirando profundamente. Antares tinha razão em uma coisa, às vezes é necessário mudar, e eu precisava mudar o que sentia por ele.
— Pensei que o encontraria aqui.
Pulei com aquele som. De pé ao lado da pedra, não acreditava no que via. Era Antares. Ele carregava duas lanças em uma das mãos enquanto a outra sacudia uma espécie de peixe piranha. Suor escorria do seu rosto fino e era ainda mais claro o seu cansaço.
— Eu pensei que... pensei que poderia fugir — engoliu em seco — Pensei que quanto mais longe eu fosse, mais eu me esqueceria de você. Aos poucos eu conseguiria. Mas não consegui —suspirou profundamente, o ar escapando dos seus pulmões com certa força — Então resolvi voltar e no caminho pude me lembrar de tudo o que passamos juntos e... e da última vez que nos vimos. Você poderia ter morrido se eu não estivesse lá, poderia ter sido comido vivo e a culpa seria minha, porque, afinal, eu não estaria lá se tivesse resolvido sair dos arredores da aldeia mais cedo. E então voltei àquele rio e a matei — jogou o peixe no chão, vendo-o cair com um baque surdo — Percebi que não me perdoaria se tivesse acontecido alguma coisa com você e foi aí que eu percebi que não poderia te esquecer, afinal, eu nem mesmo parava de pensar o que seria de mim caso você não tivesse escapado — sorriu de lado — Então eu vim perguntar se você gostaria de receber algumas aulas de pesca.
Sorri de lado, minhas pernas desejando que eu estivesse sentado. Alguma coisa me dizia que aquilo não acontecia de verdade, que era coisa da minha cabeça. Desejei até mesmo andar alguns passos e tocá-lo, não só porque era o que eu vinha desejando há muito tempo, mas para ter certeza de que era real. Antares pareceu entender o que acontecia e andou até mim, um sorriso estampado nos lábios.
Largando as lanças no chão, ele me segurou pela cintura e se aproximou até não haver mais distância. Estávamos tão próximos que eu podia sentir sua respiração se misturar com a minha. De repente não havia mais nada além de nós dois e um calor intenso que me consumia de dentro para fora. Quando seus lábios tocaram os meus foi como uma explosão de sensações. Sua boca, o seu gosto, o seu toque. Eu podia sentir tudo, como se todos os meus sentidos fossem realçados de uma só vez. Me entreguei completamente àquele beijo quente e ardente, desejando me sentir como uma pluma para o resto da vida, mas então ele parou, os olhos ainda fechados, os pulmões trabalhando exaustivamente. Quando voltou a abri-los, sorriu abertamente.
— Podemos fazer uma troca — disse como se nada tivesse acontecido — Eu te ensino a pescar e você me ensina a contar estrelas.
Não pude deixar de sorrir e ele me acompanhou. Quando dei conta de mim estávamos sentados à pedra, lado a lado, os ombros se encostando, olhando para o horizonte, para um grupo de estrelas um pouco distantes, mas visível. Respirei profundamente procurando me estabilizar e apontei para a constelação de Escorpião. Antares a olhou com curiosidade, mas não falou nada, e eu soube imediatamente que ele esperava uma continuação.
— Vê aquela estrela? — Perguntei apontando para a estrela mais brilhante no céu estrelado — Ela tem o seu nome.
Ele sorriu e voltou o seu olhar para mim.
— Desculpe pelo o que falei.
Dei de ombros.
— Não importa mais.
— O que vamos fazer agora?
Olhei para o céu, Antares brilhava lá em cima.
— Vamos descobrir o que elas querem nos dizer. Elas vão nos mostrar o caminho.
Antares assentiu e sorriu, segurando minha mão por sobre sua coxa. Observei nossas mãos juntas e novamente duvidei que fosse verdade, então encontrei o brilho da verdadeira Antares nos olhos dele e entendi o que elas queriam me dizer.
Eu não precisava virar o mundo de cabeça para baixo para mergulhar no céu, pois eu estava nele mesmo com os pés no chão e, o mais importante, agora eu possuía minha própria estrela.
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