Antagônica.
1 Merecedor.
Notas iniciais
O relógio denunciava que a manhã estava começando, apitava sem parar que já era seis horas, o jornal exibe as primeiras notícias, entre elas o assassinato do gerente do Banco Santana.
“Nessa madrugada, foi encontrado morto em sua residência um secretário do Banco Santana. Às únicas informações que nós tivemos é que, Jorge Oliveira, o gerente, foi brutalmente asfixiado, a polícia contatou…”
Enquanto bebericava meu café, decidi desligar a televisão, puxei meu celular, várias mensagens recebidas e ligações perdidas. Respirei fundo mais uma vez e esperei a ligação. Antes que meu telefone começasse a fazer barulho, eu atendi.
—Acabei de ver, me desculpa, eu estava em meu dia de folga e bebi muito durante a madrugada, quem iria imaginar que alguém seria morto dessa forma? — antes que o chefe do departamento da polícia começasse a xingar, expliquei a situação.
—Olha, não quero conversas, esteja aqui em vinte minutos! — a voz do João estava calma, mas autoritária, antes que eu dissesse que vinte minutos era pouco, ele desligou o telefone.
Caminhei até o quarto e vesti meu uniforme, que se resumia a um terninho, calcei um salto preto, mas na bolsa coloquei um sapato, não iria suportar ficar para lá e para cá o dia todo com dez centímetros a mais em meu pé.
Voltei para a cozinha quando estava pronta e pedi um Uber, o aplicativo mostrou que estava à dois minutos de distância, nas pressas coloquei o resto do café que estava na cafeteira em meu copo térmico e saí do apartamento às pressas, o elevador já estava aberto, o casal que mora do meu lado estavam acabando de entrar.
—Bom dia. — desejei aos dois que me cumprimentaram de volta em um uníssono.
—O dia hoje vai ser cansativo, hein Eduarda? — o rapaz já tinha visto a notícia no jornal.
—Bem, espero resolver de maneira rápida e encontrar quem fez isso. — respondi otimista.
—Não foi o que aconteceu no caso de três meses atrás. — a moça me alfinetou e percebi o rapaz dando um beliscão, ela fez cara feia.
Sorri sem graça e tentei não lembrar do caso anterior naquele momento.
—Cada um com seus limites! Às vezes é difícil descobrir o autor de caso mesmo ele acontecendo debaixo do seu nariz.
Não deixei de graça, a porta do elevador abriu e eu saí, os dois ficaram desconcertados e eles sabiam que eu estava fazendo referência ao escândalo que aconteceu no mês passado, em que ela saiu no tapa com a mulher que fazia faxina em sua casa, após chegar mais cedo e ver que o marido estava tendo um caso. Essa situação me fez pensar como as coisas acontecem por comodidade e a humilhação que o ser humano gosta de passar e continuar sem fazer nada.
—Bem, tenham um bom dia! — sorri e fui correndo para a portaria, meu Uber já me esperava.
**
Cheguei na delegacia e todos estavam loucos, era o segundo crime em menos de três meses.
—EDUARDA! — Gritou a policial Olívia, veio em minha direção em passos rápidos. — O chefe quer você agora na sala dele, já pediu que fosse com quem você vai escolher trabalhar.
—Chama o Tadeu, você tem dois minutos para encontrá-lo.
—Quem é o outro? —questionou, mas ela já sabia a resposta.
—Pensei que estava óbvio! Vamos, os dois lá em dois minutos.
Apertei os passos e fui para a sala do chefe, ele estava em ligação, provavelmente recebendo informações sobre o caso, assim que eu cheguei ele desligou o telefone.
—Sua cara está horrível, mas continua linda.
—Tenho certeza que você não quer falar da minha cara, vamos lá, me passe as informações. —caminhei até o banheiro e tinha esquecido de pentear o cabelo e os olhos com olheiras.
— Não começamos a investigação, estava esperando você para liderar o caso, só conseguimos isolar a área e a polícia que está por lá me mandou a informação de que o rapaz foi asfixiado.
Enquanto ele falava isso, eu penteava o cabelo com o pente que sempre trago na bolsa e bebendo o café que estava no copo térmico.
— Para esse caso eu vou precisar, primeiramente de comida, minha dupla já foi escolhida e ligue imediatamente para os policiais que se encontram lá, não quero nenhuma informação dada aos jornais e que faça perguntas a vizinhança em um raio de cinco quilômetros.
— Você acha que tem alguma ligação com o caso anterior?
Lembrei da jovem assassinada, foi encontrada em sua casa com a barriga costurada e mostrava sinais de afogamento, o seu pulmão foi perfeitamente retirado e ainda estava colocada em sua cama como se estivesse dormindo, como se nada tivesse acontecido.
— O que um homem teria a ver com uma mulher? Para mim, não existe nenhuma ligação, mas nunca se sabe, irei descobrir hoje.
Saí da sala sem dizer mais nada e já estava caminhando para a saída da delegacia, meus companheiros vieram correndo, um estava com uma sacola do subway na mão e o outro com uma água com gás.
—Já começaram bem, meninos! Vamos lá.
Um carro já estava a minha espera na porta da delegacia.
—Eu espero chegar lá depois de vocês. — disse impondo e eles foram correndo para a viatura.
***
O rapaz dirigia rápido, durante todo o percurso fui comendo e me atualizando das notícias que rodavam na internet sobre o caso.
“Secretário é assassinado. Os donos da empresa possuem alguma ligação?”
Ao ler essa notícia sabia que alguém importante do banco entraria em contato pedindo que eu provasse logo que isso não tinha nada a ver com a gestão do Santana.
Desci do carro e fui rapidamente colocar as luvas nas mãos e calçar os pés adequadamente.
Tadeu e Olívia já estavam lá, ordenei que verificasse se os policiais já tinha começado a questionar a vizinhança e pedi que depois entrassem na cena do crime e coletadas possíveis provas na região do banheiro e da sala.
Fui até a cena principal e cruzei os braços, olhei ao redor e nenhum sinal de luta, o espaço ao lado dele na cama estava organizado, como se ninguém tivesse passado por ali. Cheguei mais próximo e o pescoço exibia hematomas. Seu corpo estava despido, apenas com um lençol branco na altura do quadril, posicionado de lado, sua mão esquerda estava sobre o travesseiro, quem olhasse de longe parecia um corpo descansando após mais um dia de trabalho.
—A noite foi divertida. — afirmei.
O quarto parecia impecável, chamei por Olívia e pedi por mais informações.
—Quem ligou para a polícia?
—A mulher, estava passando o final de semana na casa da mãe, ao chegar se deparou com a situação.
—Que horas ela chegou? — perguntei curiosa e averiguando o corpo com o olhar, que pela minha experiência parece que foi morto no início da madrugada.
—De madrugada, diz ela que teve discussões com um de seus tios e ficou preocupada com o marido que não respondia as ligações desde o dia anterior.
—Vou querer conversar com ela, diga para me encontrar no melhor horário amanhã na delegacia.
Olívia assentiu e eu pedi que chamasse a equipe para que levasse o corpo dali.
— Achou algo no banheiro?
—Apenas olhei na cozinha, dois copos que estavam sobre a bancada, mas acredito que quem fez isso foi muito cuidadoso. Tadeu ficou responsável pelo banheiro.
Balancei a cabeça e saí do cômodo, olhei todos os cômodos da casa. No escritório encontrava-se duas taças de vinho, tudo em par, quem passou por ali preferiu deixar claro que já existia um intimidade e que houve traição.
Caminhei até o Tadeu e perguntei a situação do banheiro novamente.
—Parecia intacto, até eu perceber que tinham duas toalhas, uma parecia estar úmida e a outra seca.
—Alguma camisinha?
Ele negou e eu confirmei, minha teoria foi confirmada, quem estava ali decidiu deixar claro que houve traição.
—Peça que os vizinhos mais próximos compareçam a delegacia ainda hoje, se ele veio com alguém, um desses deve ter visto algo. Ou são suspeitos.
Tadeu anotou a informação e saiu, a cena deixava óbvio que aquela procura seria um tiro no escuro. Saí da casa e mais jornalistas cercaram o local, pedi que informasse que não existia nenhuma informação para ser divulgada nesse momento, mas que a equipe faria o máximo para resolver o caso.
O motorista me esperava na rua lateral, fui acompanhada de alguns polícias para evitar os repórteres.
—Alguma relação com o caso antigo, senhorita Sobral? — Yuri, o motorista perguntou e como sempre tínhamos costume de debater sobre os caso, respondi.
—Não, a mulher assassinada tinha por volta de uns 25 anos, morena, cabelos escuros, olhos verdes, corpo atlético, esse provavelmente tinha uma intenção só com ela ou vai voltar a atacar novamente. O rapaz, estava um pouco acima do peso, por volta dos quarenta anos, branco e posso afirmar que esse assassinato foi mais bem feito que o da mulher.
O moreno, suspirou e apertou o volante.
—Eu acredito que a senhorita pode resolver, não desista.
Sorri carismática e agradeci. Yuri sempre escutou meus desabafos pós derrotas e vitórias no caso, está comigo desde que iniciei a trabalhar, sempre foi muito calado mas aos poucos passou a exibir confiança. Sua aparência mostra ser um homem extremamente sério, alto, moreno, cabelo raspado, está sempre formal e uma voz grave.
—Bem Yuri, obrigada mais uma vez, até amanhã.
Desci do carro e fui para delegacia, antes que eu começasse a pensar em algo, meu telefone toca, um número desconhecido, atendo e não foi surpresa.
—Olha, você precisa mostrar a mídia que nós não temos nada a ver com isso.
—Vou dar o meu máximo. Mas com quem eu falo?
—Com o diretor, Ulisses Abravanel. Você precisa trabalhar fervorosamente nesse caso, nossos acionistas estão loucos e as pessoas estão nos perguntando se matamos um de nossos funcionários só por causa de uma discussão no ano passado.
—Ah, Ulisses, aqui é a senhorita Sobral, como já disse, irei me esforçar, mas não prometo milagres.
—Nós estamos dispostos a ajudar nas investigações com o máximo que pudermos.
—Repetindo, darei o meu máximo, agora preciso desligar.
Antes mesmo que recebesse mais uma ligação, desliguei o celular, fui até o chefe passar as informações.
—Esse caso precisa ser resolvido, não é um homem qualquer, é gerente de um dos maiores bancos do país. — sua compostura era séria, seus olhos me encaravam, parecia estar com raiva. — Você viu que você é notícia no maior site de jornalismo?
Respirei fundo e o rapaz virou a tela do computador para mim.
“Será que podemos confiar? Sem dar nenhuma informação, Eduarda Sobral pode estar indo para o segundo caso consecutivo sem uma conclusão”
—Eu recebi uma ligação do Ulisses Abravanel, parece impor que seja descoberto quem foi o assassino.
—Pelas informações passadas, tudo indica que foi uma mulher.
—Não ignoro essa hipótese, mas foi preciso força para executar tudo que aconteceu.
—Está querendo me dizer que ele estava tendo relações homoafetivas? — o senhor parecia incrédulo.
— Não podemos excluir nada, só iremos descobrir futuramente.
— Bem, vou verificar se os vizinhos chegaram, preciso fazer perguntas e coletar o máximo de informações possíveis.
Ele confirmou e eu saí indo até a sala de espera, apenas uma senhora, com a raiz grisalha e o resto loiro preso em um coque, vestida de forma simples, sua pele era cinzenta e cheia de sinais.
—Por aqui, senhora. — a orientei até a sala de perguntas, seu passo era lento e me olhava com um sorriso no rosto.
Após começar com a velhinha, só saí da delegacia depois das 23 horas, reunindo informações, quase ninguém viu nada, mas alguns perceberam uma movimentação estranha no período entre uma e três horas da manhã, poderia ser relevante, mas não naquele momento. Escaneei todos que levei em consideração e deixei sobre a mesa de Rodrigo, o chefe, que já tinha saído desde as 6 horas. Na delegacia encontrava-se eu e alguns policiais que faziam ronda pela noite.
Levei alguns depoimentos na bolsa e novamente chamei um Uber, estava cansada e estressada, meus olhos imploravam que eu dormisse, mas só poderia fazer isso no conforto da minha cama.
As ruas estavam silenciosas, poucos carros trafegando, o motorista foi o tempo todo em silêncio.
Na portaria, tinha um rapaz de braços cruzados que ao me avistar pareceu ficar empolgado
Ao pagar, saí do Uber e o homem que aparentava ter uns trinta anos, vestia uma calça jeans e uma jaqueta de couro se aproximou, possuía um porte atlético, até que seria uma boa opção para essa noite cansativa, mas concluí que fosse um jornalista.
—Eduarda Sobral? — seus olhos ativos e castanhos me analisava de cima à baixo.
—Olha, não falo com jornalistas, poderia me dar privacidade? — já estava prestes a gritar pelo porteiro, a essa hora, eu merecia tudo, menos um repórter me azucrinando.
—Calma, sou formado em psicologia, estou investindo em uma pós na área forense, fui indicado pelo seu chefe, Rodrigo. — seu sorriso era amigável, passou a mão nos cabelos castanhos, jogando para trás e o semblante de felicidade se desfez ao eu soltar uma gargalhada.
—Eu não preciso de sua ajuda e fala sério, não vem com essa historinha inventada, repetindo, não preciso de sua ajuda e nunca que o Rodrigo colocaria alguém para me atrapalhar, ele sabe que não preciso disso. Estou há 3 anos nesse cargo, sou uma das mulheres mais novas e que já solucionou, não venha ser uma pedra no meu sapato. — estava histérica, minha raiva só aumentou.
— Aqui está meu número, quando falar com ele terá a confirmação, ele pediu que eu falasse com você logo hoje.
Puxei o papel da mão do rapaz e rasguei, virei as costas e fui para o apartamento, tudo que eu precisava agora era de alguém inexperiente dando palpites no meu caso?
— Até amanhã, senhorita Sobral. —em meio a um tom irônico era perceptível uma mistura com o desapontamento.
Ainda andando, de costas para o rapaz levantei o dedo sem olhar para trás. Quem assistiu tudo aquilo foi o porteiro.
— Dia difícil, Sobral? — o senhor raquítico, com um sorriso de sempre no rosto, sua careca brilhante me fez rir um pouco. — Briga com namorado?
— Não sei oque é isso, senhor José. Ele até que é bonito, mas a única coisa que preciso é dormir.
—Ah, Senhorita Sobral, o que você tem de menina difícil, tem de beleza.
Dei um sorriso rápido e fui pegar o elevador.
No espelho comecei a me encarar, meu rosto estava horrível, as olheiras faziam um degradê com o tom branco da minha pele, meu cabelo estava oleoso, já se passava do terceiro dia sem lavar, seu castanho estava mais escuro, provavelmente por causa da sujeira, minha barriga roncava e caí na real de que só tinha comido uma vez hoje. No elevador mesmo, fui tirando o sapato e percebi que meus pés doíam por ter passado o dia todo de salto, folguei a calça e desabotoei a blusa.
O vizinho, que sua esposa me deu uma alfinetada pela manhã, entrou no elevador, estava no segundo andar. Seus olhos pairam sobre mim e blusa por estar desabotoada.
—Eu sei, eu sou muito gostosa. — afirmei, checando meu corpo no espelho, para quem só comia besteira, mas frequentava aulas de crossfit quatro vezes na semana, estava muito bem. — Você escolhe, continua só olhando ou aparece amanhã por volta das oito horas da noite, a porta vai estar aberta.
Dei um sorriso e a porta do elevador abriu, saí e ele permaneceu calado e provavelmente tinha esquecido que ali também era seu andar. Eu sempre soube que o rapaz não prestava, mas depois de hoje, sua esposa merecia mais uma consideração pelo que me disse no elevador. Valia a pena, não tinha um rosto tão bonito, o que salvava era a barba e os olhos verdes, mas o corpo malhado valia a pena.
Entrei no apartamento e queria dormir, mas algo me manteve ativa, o meu descuido.
A senhora, a primeira a ter chegado para que eu fizesse perguntas, afirmou ter ouvido uma voz feminina junto com o rapaz por volta das dez horas da noite. Segundo o que tinha me dito, ela estava olhando para rua como de costume quando não consegue dormir, a janela do quarto estava aberta e como a rua estava silenciosa, ouviu risos e um falando com o outro e afirmou que era uma mulher.
Fui até o segundo quarto, que uso como escritório e puxei a gaveta da escrivaninha, dentro de um saquinho estava a camisinha e parte de seu cabelo.
—Você merecia mais que isso. — sussurrei abraçando os objetos em minha mão.
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