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1 Capítulo Único
Notas iniciais
“Izuku, eu sei que já é tarde, mas... pode reservar um tempinho para... falar com sua mãe?”
Essas foram as palavras enunciadas por Inko Midoriya, a mãe do jovem estudante Izuku Midoriya, com quem ela falava da porta do quarto que era dominado pela escuridão da noite.
Os ponteiros do relógio na parede do corredor chegavam perto de atingir o horário das 23hrs, e a esse ponto, o adolescente costumava já estar dormindo, devido ao período matinal da escola que ele frequentava exigir que ele tenha dormido tempo suficiente para estar inteiramente descansado e prestar atenção nas aulas. No entanto, esse não era o caso atual para o garoto, que mudara sua rotina do ‘melhor’ para o ‘pior’.
Desde que contou para sua mãe que adquiriu sua individualidade após anos de espera (mesmo ainda não tendo a demonstrado), Izuku passava a tarde toda treinando para a prova da U.A, uma das numerosas universidades para jovens que buscam a carreira de super-heróis. Devido ao prazo curto até o início da prova, o jovem precisava treinar o suficiente para estar totalmente pronto. Assim, entraria na universidade, e começaria a trilhar seu caminho para ser um super-herói. No entanto, essa rotina estabelecida pelo próprio garoto preocupava sua mãe.
“Okay, vou abrir a porta, mãe.” A voz de Izuku poderia ser ouvida, vindo de dentro do quarto. Era alta, mas ainda assim, um pouco sonolenta. Estava dormindo menos desde que iniciou seu treino vespertino diário.
Inko ouvira o som do interruptor sendo pressionado antes de Izuku ter aberto a porta, com um pequeno sorriso em sua boca, totalmente o oposto de sua mãe, que aparentava estar cabisbaixa. A mulher entrou no quarto, iluminado pela lâmpada recém-ligada, e deu uma olhada rápida no quarto inteiro. Nada havia mudado: seu filho ainda tinha objetos como brinquedos, pôsteres e afins, todos tratando do tema de super-heróis, com uma predominância maior de um herói em específico: All-Might, o ídolo de Midoriya desde infância. Inko sentara na cama desarrumada, enquanto Izuku apanhara e puxara sua cadeira para perto de si mesmo, e sentou-se.
“Do que precisa falar comigo, mãe?” Perguntou Midoriya, com um sorriso e olhar inocentes em seu rosto.
Por um período de segundos, Inko sentiu um pesar em seu coração. Vendo aquela aparência até alegre de seu filho, mesmo que estivesse cansado, deixou a mãe do garoto amedrontada devido ao que estava prestes a fazer. Nunca iria impedir seu filho de conquistar seu sonho de infância, ainda mais quando ele costumava estar distante da realidade. Izuku sempre quis ser um super-herói, um que nem seu ídolo. Inko se importava com os desejos de seu filho, mas se preocupava mais com seu bem estar. E por isso, arranjou coragem para dizer o que precisava ser dito.
“Izuku... eu sei que você deve estar muito alegre por finalmente ter uma individualidade após tantos anos de espera. Isso é tão anormal que eu ainda não consigo acreditar que realmente aconteceu, pra falar a verdade.” Inko falou, tentando preparar seu filho ao que ela falaria em breve. “Ser uma pessoa sem uma habilidade especial em um mundo onde quase todo mundo tem algo desse tipo realmente deve ser doloroso, e é pior ainda pra mim. Eu... sempre quis te ajudar de alguma forma em relação a isso, mas não havia nenhuma alternativa possível. Nada que eu pudesse fazer. Então... já deve estar bem claro que eu, sua mãe, sou a pessoa que mais ficou feliz com a notícia de sua individualidade ter surgido, e eu torço por sua entrada na U.A. Mas...”
De repente, Inko deu uma pausa douradora em suas palavras, deixando Midoriya em um estado de confusão.
“... Mas?” O garoto perguntou.
“... Izuku, você... não acha que está exagerando nesse treinamento para a prova da U.A?” Inko finalmente disse o que pensava desde o começo.
“O-o que?!” O jovem foi pego de surpresa.
Sem voltar atrás agora, Inko... Pensou a mãe do garoto.
“E-Eu não quero estragar seu sonho de ser um super-herói, Izuku... na verdade, n-nem pense assim! Eu só estou preocupada com você!” Disse Inko.
“Preocupada? M-Mas por quê? E-eu estou bem!” Izuku respondeu, com um medo intenso da possibilidade de sua mãe limitar seu treinamento.
“I-Izuku, desde que você mudou sua rotina para esses seus treinamentos misteriosos que você nem comenta direito sobre, você começou a chegar em casa mais tarde do que costumava, as vezes dolorido, e sempre cansado demais! Fica acordado até tarde fazendo lições que você esqueceu de fazer, e nem consegue dormir direito! Isso está te afetando demais... n-não acha que deve parar por um tempo? Pode ser alguns dias, até algumas semanas... eu só quero que você descanse.” Inko disse, esperando que seu filho a ouvisse.
“M-mãe...” O jovem ficou sem palavras.
“É só pelo seu próprio bem, Izuku...”
“E-eu entendo mãe, mas... e-eu não posso.” O garoto evitara contato visual com sua mãe enquanto falava, e também começara a ficar nervoso.
“É-é claro que pode, Izuku!” Inko começava a gaguejar, com medo de estar fazendo mal ao seu filho. “Eu não estou dizendo para nunca mais continuar seus treinos, jamais iria sugerir isso! Eu só quero que não perca o foco em seu bem estar, sua vida escolar... e-e também em sua confiança em mim.” A mãe disse, com as palavras muito sinceras.
Por curtos segundos, Midoriya ficou, novamente, sem palavras. Não apenas por não estar preparado para a situação em que ele se encontrava, mas também por entender a preocupação de sua mãe. Era inegável o fato de que ela estava falando a verdade. Seus treinos noturnos eram importantes, mas estavam o consumindo demais, e efeitos negativos surgiram com o passar do tempo. Sendo eles intensos, os exercícios de Midoriya poderiam fazê-lo colapsar a qualquer segundo. O esforço físico gastado nas tarefas era abundante. Se sua mãe soubesse deles, ela iria sem dúvida alguma restringir Izuku de seus treinos, e por isso o garoto não contara nada para sua mãe. No entanto, havia mais um motivo para Izuku não falar com sua mãe sobre seus treinos: ela não poderia saber de quem está o treinando.
“M-mãe...” procurava pelas palavras certas antes de dizer o que sentia sobre as ideias de sua mãe. “E-eu entendo o que quis dizer, e eu de fato c-concordo com o que está dizendo... mas, e-eu não posso parar com o treinamento. S-se eu quiser entrar na U.A...”
“Izuku, é só uma pequena pausa! Eu imploro...” Inko o interrompeu.
“Eu... não posso.”
“Por que não?”
“S-se eu parar agora, eu não vou conseguir passar na prova da U.A!”
“Mas por que você tem que treinar tanto assim?! Já não está com sua individualidade?”
“E-eu, uhm... t-tenho que desenvolvê-la mais!” Izuku começara a ficar mais amedrontado. Sua mãe estava começando a suspeitar de que havia algo errado.
“... Afinal, quando vai me mostrar a sua individualidade, Izuku? Você fala tanto dela, mas nunca a mostra!”
“A-algum dia eu mostro, primeiro tenho que...”
De repente, enquanto seu filho tentava explicar, o mundo parou para Inko Midoriya por breves milissegundos. Ao chegar a uma conclusão sobre a conversa que estava tendo com seu filho, ela não sabia como reagir. Deveria sentir raiva? Tristeza? Não sabia. A única coisa que Inko tinha certeza era de que seu filho estava mentindo para ela, esse tempo todo. O treinamento, a individualidade, tudo era uma mentira. Uma mentira que Inko não deixaria isso passar.
“Izuku, para.” A mãe interrompeu seu filho, desviando seu olhar e fechando seus olhos, com medo do que estava prestes a perguntar. Respirou fundo, e voltou a falar.
“O que você está escondendo de mim?”
Voltou a olhar para seu filho, com uma nova expressão em sua face: a de tristeza, misturada com a raiva, ambos os sentimentos sendo frutos de sua desconfiança nas palavras de Midoriya.
“M-mãe, e-eu não estou...”
“Pare de mentir, por favor, Izuku!” O garoto fora interrompido novamente pela mãe. “Você fala de algo impossível como desenvolver sua individualidade depois de anos, e nunca a demonstra. Diz que está começando a treinar toda tarde para a prova da U.A, e não comenta nada mais sobre. Na verdade, não comenta sobre nada com sua mãe! O-o que está acontecendo com você?!”
“N-nada está acontecendo comigo! E-eu estou falando a verdade, eu juro, mãe!”
“Então para de mentir, e me diga o que está acontecendo de verdade! Onde você está indo? Que treinos são esses?!” Inko se segurava para não mostrar como se sentia triste com as ‘mentiras’ de seu filho.
“M-mãe, eu não estou mentindo em nada!”
Izuku implorava para que sua mãe o ouvisse, mas não adiantava. Seu coração bombardeava rapidamente, o suor descia de sua testa, e estava começando a não respirar direito.
“Não é o que parece, Izuku! Por favor, me diz o que está acontecendo... s-seja lá o que esteja acontecendo, e-eu quero lhe aju...” A mãe trazia à tona o mesmo discurso de antes, mas foi interrompida.
“P-por favor, me escuta!” Izuku se segurara para não ter gritado naquele momento. Após respirar profundamente e tentar se acalmar voltou a falar. “Eu... sei que tudo parece estranho agora. Mas eu juro: está tudo bem, mãe. Não tem nada de errado acontecendo, e eu também não estou mentindo. Eu juro que não estou.”
“...” A mãe refletiu um pouco sobre o que seu filho disse, antes de respondê-lo. “... Como vou saber que você está falando a verdade?”
Midoriya se aproximou de sua mãe, e segurou a mão dela com ambas de suas mãos, enquanto a olhava nos olhos.
“É só confiar em mim.” Izuku disse, enquanto um sorriso brotava em seu rosto, um sorriso que ele esperava que acalmasse sua mãe, junto de suas palavras sinceras.
No entanto, a sinceridade do garoto não adiantou de nada.
Inko não estava mais agüentando esconder a profunda tristeza que sentia no momento. O sentimento apertava seu coração, fazendo parecer que ele explodiria a qualquer momento. A visão da mãe lentamente começava a ficar embaçada, enquanto sentia gotas d’água descendo de seus olhos, que passavam por suas bochechas, e caíam em cima de suas mãos, que seguravam as de seu filho. As gotas não permaneceram vivas por muito tempo, pois logo se uniram e uma pequena corrente d’água se formou.
“... Como eu posso fazer isso, se você não confia em mim?” Inko dizia com uma voz trêmula, enquanto seus olhos transbordavam.
Por impulso, Inko acabara abraçando seu filho, mesmo após ter expressado sua insatisfação com ele, deixando o garoto um pouco confuso. No entanto, seu entendimento da situação no importava. Foi apenas preciso do choro de sua mãe para que Midoriya sentisse, assim como Inko, um aperto em seu coração. Mas não pelos mesmos motivos, e sim porque ele sabia que aquela situação era culpa dele. Após abraçar sua mãe de volta, Izuku decidiu ficar quieto, e esperar sua mãe se acalmar. Afinal, após ver o que fez, estava com medo de piorar a situação.
Não demorou mais do que meio minuto para Inko voltar a falar, e soltar todas aquelas palavras que estava guardando em seu coração.
“Eu sou sua mãe Izuku... V-você pode confiar em mim.” Inko disse, em meio de suas lágrimas. “Não há ninguém que se importe mais com você do que eu. Por favor, nunca se esqueça disso.”
“... Eu nunca disse que me esqueci disso, mãe... mesmo que pareça o contrário.” Izuku respondeu, com um pesar em sua consciência.
Inko rompeu o abraço com seu filho, e enxugou seu rosto molhado com suas próprias mãos. Alguns segundos foram o suficiente para que ela recuperasse sua postura e voltasse a falar.
“Izuku... eu te amo, e você sabe disso. Eu só... estou preocupada com o que você anda fazendo. Não sei o que está acontecendo, mas eu só queria te ajudar, te dar suporte, impedir que faça as decisões erradas... qualquer coisa que fosse servir de auxílio. Eu só queria... que você confiasse mais em mim. E não adianta me dizer que eu não deveria me preocupar, e nada disso... estarei preocupada, e isso não vai mudar. Até quando você já estiver agindo como um super-herói, eu não vou parar de me preocupar. O fardo de ter pessoas ou até o mundo inteiro para salvar deve pôr uma grande pressão nos super-heróis... e eu também me preocupo com a possibilidade disso acontecer com você, Izuku... desculpe-me por ter causado esse escândalo todo... e-eu vou lhe deixar em paz agora... boa noite.” Essas foram as últimas palavras de Inko, antes de ela dar um leve beijo na testa de seu filho, e sair do local.
Inko apertara o interruptor e fechara a porta do quarto, deixando Izuku Midoriya sozinho na escuridão, sentado em sua confortável cama. O jovem respirava fundo, tentando se aliviar depois de ter enfrentando uma das situações mais tensas de sua vida até agora. No entanto, não conseguia. Nunca havia visto sua mãe tão brava, mas também tão preocupada e deprimida. O que fazia ele não conseguir se sentir calmo era o fato de que tudo isso foi fruto de sua ‘desconfiança’ nela. Não era que Izuku não confiava em sua mãe, pois ela é a pessoa que ele mais deposita sua confiança, mas sim porque há coisas que ele não deveria contar. Pelo menos, não agora.
Outra coisa que estava impedindo-o de conseguir ficar calmo eram as últimas palavras de sua mãe antes de partir. Ao expressar sua preocupação com seu filho, ela conseguiu, de alguma forma, acertar justamente uma das dúvidas que o preocupavam sobre seu futuro como um super-herói. Era uma pergunta se que fixara em sua cabeça há alguns dias, e não o abandonara até agora. Precisava desesperadamente ter respostas sobre sua dúvida, mas não sabia para quem perguntar. Talvez ele pudesse ajudá-lo... mas não tinha certeza se deveria perguntar isso para ele.
Com tantas coisas causando uma baderna em sua cabeça, Izuku se jogou na cama, e encarou o teto de seu quarto. Hoje, sabia que não iria dormir tão cedo. E não pelo cansaço provocado pelos seus treinos vespertinos. E sim pela culpa que carregava.
Um dia depois, à tarde...
O período de aulas já encerrara pelo dia, e o jovem Midoriya caminhava pelas ruas populosas após deixar sua escola. Vestindo apenas seu uniforme escolar comum enquanto segurava os braços de sua mochila que se penduravam em seus ombros, o garoto olhava apenas para o chão e carregava um olhar cansado em seu rosto, uma seqüela de certos ocorridos.
Conviver em um ambiente escolar onde todos têm uma individualidade exceto você nunca seria uma situação agradável, não importa as circunstâncias. As coisas não melhoram com um colega de classe lhe perturbando todo dia, utilizando de ameaças e insultos repentinos e sucessivos para tal fim. No entanto, Izuku na verdade conseguia superar todos esses problemas, e ter um dia-a-dia suportável. Não era um problema para ele. Afinal, se queria ser um herói, deveria estar acostumado com situações problemáticas. Era fácil concluir que não foi o período matutino que causou o cansaço em Midoriya, e sim os ocorridos de ontem à noite.
“Ei, ei, ei! Olha por onde anda!” O motorista de um taxi gritou junto de sua buzina quando quase atropelou Midoriya, que andava sem prestar atenção em seus arredores, fruto de sua mente bagunçada com os inúmeros pensamentos simultâneos.
O garoto tentava resistir contra o sono. Ele ficara acordado quase a noite inteira, repensando na discussão entre ele e sua mãe, e de como foi, em seu ponto de vista, o responsável por aquela situação ter acontecido. A culpa pesava em sua consciência mais do que tudo, mesmo que esse sentimento em particular não fosse limitado apenas a essa situação. Desde que acordara Izuku mal falara com sua mãe. Sentia-se envergonhado com si mesmo, principalmente ao notar que Inko ainda expressava insatisfação e tristeza, da mesma maneira que ontem. Agora, o garoto de cabelo esverdeado não sabia se deveria contar a verdade para sua mãe ou não. Deveria falar sobre seus treinamentos misteriosos, o seu mestre, e sobre sua individualidade, que ainda não tinha, de fato, desenvolvido?
O jovem não poderia começar a chegar em casa mais tarde do que o habitual devido aos seus treinos vespertinos sem uma devida explicação para sua mãe. Decidiu então contar a verdade pela metade, mudando um aspecto significativo dela. Sim, Midoriya estava treinando para a prova da U.A à tarde inteira, mas não era para aprimorar sua individualidade, e sim para aprimorar seu próprio corpo. Tudo isso para estar pronto para receber uma individualidade, o que era outra coisa que não havia contado pra sua mãe: ele iria ser o portador da individualidade dele.
Após um longo tempo de caminhada, Izuku chegara a sua destinação: uma praia que um dia já foi um local encantador, e nos tempos atuais era arruinada pela poluição extrema. Atrás da grande quantidade de tralha que se acumulara no ambiente, uma bela vista formada pelo contraste entre o mar e o horizonte poderia ser encontrada. Infelizmente, esse mesmo mar trazia todo o lixo jogado nele até essa praia, e com o passar dos anos, a praia municipal de Takoba acumulara todos os entulhos do oceano. Nem a prefeitura e nem os civis da cidade tomaram a iniciativa de limpar aquela praia de todo o lixo acumulado antes, até que Izuku Midoriya começou a fazer tal ato. Carregando todos os objetos ali presentes para lá e para cá diariamente, o garoto lentamente recuperava o ambiente que uma vez foi uma atração para muitas pessoas buscando por algum tipo de lazer. Essa prática era o tal treinamento que Midoriya andava praticando, e ele não fazia isso sozinho.
Apoiado suas costas em um grande refrigerador sujo e quebrado, um homem alto e musculoso com o cabelo loiro e com duas pontas esticadas para cima, vestindo uma camisa branca e uma calça de tonalidade verde, olhava para Midoriya com um enorme sorriso em seu rosto. Acenou com sua mão esquerda, que se soltara dos braços que se encontravam cruzados.
“Finalmente você chegou, jovem Midoriya! Pronto para mais um dia da operação... erm... eu... acho que não um nome pra esse treinamento.” O homem falou com simples palavras, mas foi o suficiente para trazer um pequeno brilho aos olhos de Izuku, junto de um pequeno sorriso.
“Heheh... é claro que estou, All Might.”
O homem que estava treinando Izuku Midoriya era ninguém menos do que o seu ídolo, o herói número um e o Símbolo da Paz, All Might. Além de estar sendo seu tutor na tarefa de limpar toda a tralha da praia até o dia da prova da U.A, ele também seria o responsável pela individualidade que Midoriya iria receber em breve, vindo do próprio super herói: o One For All, passada de geração em geração para os mais merecedores, pessoas com um coração puro, que brilhavam além do que poderiam imaginar; Um coração que Izuku demonstrara meses atrás, num ato impulsivo, mas heróico, para salvar seu colega de classe do perigo quando ninguém mais o fez, mesmo que não tivesse nenhum tipo de super poder. Desde então, All Might se encarregou de treinar Izuku para ser seu devido sucessor, e o novo Símbolo da Paz. Era o tempo perfeito para isso, afinal, seus dias de super-herói chegariam ao fim em breve.
Izuku não gastou tempo, e foi andando em direção a um caminhão guincho completamente quebrado, e sem uma única roda. Pegou duas cordas de sua mochila, antes de jogá-la para o lado, e começou a enrolar o caminhão inteiro com tais cordas. Após enrolar o automóvel inteiro, enrolou as cordas em seus ombros. O caminhão iria ser o primeiro objeto a tirar da praia antes de seguir para os outros, o que preocupou All Might um pouco. Afinal, o garoto poderia se machucar caso aplicasse um esforço físico exagerado.
“Midoriya... você não precisa começar com algo tão pesado de primeira.” Disse All Might, exclamando sua preocupação, mas ainda mantendo seu sorriso tradicional.
“Tá... tudo bem... All Might!” Disse Izuku, quando claramente não estava tudo bem.
“Não, não está.”
“E-está sim!” Insistiu, enquanto dolorosamente puxava o caminhão, fazendo pouco progresso ao passar de cada segundo.
O super herói suspirou, e se aproximou do garoto. Claramente, ele estava exagerando em seu treino hoje, por algum motivo que não conseguia descobrir. All Might levou sua mão ao ombro do jovem, tirando-o do foco que colocava em seu treinamento imediatamente, e assim, o garoto de cabelos esverdeados virou seus olhos na direção de seu ídolo.
“Midoriya, não se sobrecarregue.” O herói número um avisou, com sinceridade.
A sinceridade do adulto foi respondida com um sorriso confiante do jovem.
“Não se preocupa, All Might. Eu estou tomando cuidado e sei o que estou fazendo.” Izuku falou, com o mesmo tom de sinceridade de seu treinador.
“Você acha ou tem certeza?”
“... Eu acho.” O tom de sinceridade de antes sumiu, junto do sorriso.
“Apenas tome cuidado, tudo bem? Você deve ficar mais forte para agüentar a individualidade do One For All quando recebê-la, mas não quebre seu corpo antes disso acontecer.” All Might continuou sendo sincero, e até um pouco brincalhão.
“Haha... eu nunca iria quebrar meu corpo.” Com essas palavras ditas, o sorriso confiante voltou à face do garoto.
E assim, All Might recuou, e deixou o jovem Midoriya prosseguir com seu treinamento. Se encostando ao mesmo refrigerador de antes, o Símbolo da Paz continuava observando o garoto de cabelos esverdeados, esforçando-se em sua tarefa de retirar o caminhão guincho do local. No entanto, mesmo com as palavras sinceras de Izuku, a preocupação persistia.
Midoriya era um garoto extremamente motivado, inteligente, e o tipo de pessoa que nunca se entregaria ao calabouço da desistência ao longo de que uma luz de esperança continuasse brilhando em seu horizonte. Seu esforço era admirável e inspirador, e não havia dúvidas: ele era realmente a pessoa certa a carregar o legado de All Might. Mesmo assim, o herói número um ainda se mantinha preocupado com seu jovem aprendiz. Esse receio persevera desde o início do treinamento de Midoriya; Tinha medo de que ele não estivesse de fato pronto para ser um herói ou para seus treinamentos, ou de que ele andasse em direção a um futuro maligno e cruel, entre outros pensamentos. No caso atual, a preocupação que persistia no coração de All Might era da possibilidade de algo ter acontecido com Izuku, que esteja o afetando no seu treinamento diário. O garoto nunca costumava partir para o trabalho do jeito que fez, e parecia estar fingindo uma aparência positiva, escondendo uma que aparentava ser o contrário dela.
Obviamente, não poderia deixar este cenário continuar do jeito que se encontrava. All Might decidiu dar mais atenção à maneira que Izuku agiria hoje, para saber a veracidade de sua preocupação. Se estivesse certo, o herói já tinha uma ideia do que deveria fazer. De qualquer forma, apenas o tempo diria se sua preocupação era ou não era tolice.
...
Os ponteiros do relógio de pulso de All Might já marcavam o encerramento da tarde e o início da noite, no horário das sete e meia. O céu mudou de um azul claro sólido, com inúmeras nuvens gigantescas e um lindo Sol no meio delas, para um azul que lentamente ficava mais escuro, sem nenhuma nuvem à vista, e uma lua no lugar que pertencia ao Sol. Um poste de lâmpada ligado iluminava uma fração da área, ainda suja com a grande quantidade de tralha que ainda restava. All Might se sentava em um banco, justamente abaixo da iluminação do poste, enquanto mirava seus olhos na direção de Izuku, que carregava uma televisão de tubo antiga, passando por claras dificuldades para a realização de tal feito. Estava exausto. Fazer um trabalho desses sem nenhuma pausa que durasse mais que meros minutos não era uma tarefa fácil, especialmente para um garoto que nunca enfrentara tal estilo de treinamento antes.
Suando e sem fôlego, Midoriya colocara a televisão de tubo em um canto isolado e caíra no chão, jogando seus braços para os lados, enquanto respirava fortemente. Fixou seus olhos no céu vazio, e começara a pensar com mais calma, algo que não conseguia fazer enquanto carregava lixo pesado para lá e para cá. Facilmente chegou à conclusão de que nunca havia se esforçado em um treinamento antes como se esforçou hoje. Ainda sobravam alguns meses até a prova da U.A, então o garoto ainda tinha tempo para se esforçar mais do que hoje, mesmo que fosse improvável, já que All Might iria impedi-lo.
Enquanto tentava descansar, o garoto de cabelos esverdeados não notou que o Símbolo da Paz havia se levantado de seu banco, e trouxera uma garrafa d’água e uma toalha para Midoriya. O homem estendeu sua mão, e o jovem a segurou, sendo retirado do chão sujo. Pegou a garrafa d’água, retirou a tampa, e deu um gole demorado, já esvaziando metade da garrafa. Com a outra mão, pegou a toalha, e a passou em seu rosto, retirando todo seu suor. Ainda exausto, saiu andando em direção ao banco que All Might estava previamente, e sentou-se. Deixou a garrafa de lado e a toalha também, e pegou um celular de seu bolso. O garoto planejava dar um tempo antes de sair andando até seu lar, doce lar.
“Bom trabalho por hoje, jovem Midoriya.” Disse All Might, que admirava todo o progresso que o garoto fez em um dia só.
“Eu... tentei meu melhor.” Respondeu Midoriya, com uma notável fadiga em suas palavras.
O visor do celular do jovem emitia uma luz fraca, mas brilhante o suficiente para poder dar uma olhada rápida em todas as notícias e mensagens que perdera nas últimas horas em que não utilizara seu aparelho. Deslizava seu dedo e via as incontáveis notificações de variados assuntos, como vídeos, notícias, jogos, e uma coletânea de mensagens... enviadas por sua mãe.
Ao clicar nas mensagens, Izuku se sentiu como o pior filho do mundo. Inko mandara inúmeras mensagens pedindo pelo perdão de seu filho pelo que fez ontem, e novamente dizendo que apenas se preocupava com ele e queria que ele confiasse mais na pessoa que mais o ama. Vendo que ele não visualizava suas mensagens, ela assumiu que ele estava a ignorando, e novamente pediu desculpas. Pelo visto, ela pensava que Izuku dava um tempo de seu treino para dar uma olhada em seu celular, o que não era o caso. Mesmo assim, Midoriya se sentia uma pessoa horrível por deixar sua mãe chateada desse jeito. Estava mais perdido do que nunca em relação ao que deveria falar para ela a respeito de tudo que anda acontecendo. Não sabia se deveria falar apenas sobre All Might, ou sobre seus treinos, ou sobre os dois. De qualquer forma, apenas queria ver sua mãe feliz novamente, sem nenhuma preocupação, e faria de tudo para atingir tal objetivo. Mas não sabia por onde começar.
“O que houve, garoto?” Novamente, All Might aparecera perto de Izuku enquanto o jovem estava distraído, e dessa vez, gritou e caiu do banco com o susto que levara.
“U-uh... n-nada, All Might!” Dizia o garoto, após segurar suas mãos no banco e lentamente se levantar do chão.
“Tem certeza disso?” O herói perguntou, ainda com o grande e imutável sorriso de seu rosto.
“S-sim... tenho sim.”
“... Então por que você parecia abalado com alguma coisa enquanto olhava seu celular?”
All Might havia pegado Izuku de jeito. Estava tão longe da realidade no momento que leu a mensagem de sua mãe que acabou esquecendo que não deveria mostrar sua tristeza enquanto o Símbolo da Paz se encontrava na área. O garoto tinha um pequeno receio em explicar uma situação tão pessoal para seu mestre, pois tinha medo de como ele reagiria. Era um temor bobo, mas um que Izuku tentava evitar mesmo assim. Se não fosse cercado pelo pavor de dar uma impressão negativa de si mesmo ao seu ídolo, talvez até perguntasse para ele sobre certa dúvida pessoal, que vem o incomodando há dias.
“... N-não...” O jovem tentava achar palavras para criar uma mentira convincente. “... Não é nada. Eu só... estou cansado.”
“Você tem certeza disso?” O herói questionou.
“S-sim... tenho.” Izuku respondeu, evitando contato visual com All Might.
“... Garoto, na sua idade eu também costumava mentir quando eu escondia algo. Eu era que nem você: não sabia dizer uma mentira convincente. Com o tempo, eu fui aprendendo a melhorar. Não se preocupe, você também vai passar pelo mesmo.”
As palavras de All Might tinham o intuito de fazer o jovem Midoriya se conectar um pouco mais com seu mestre, mas elas não conseguiram atingir tal propósito, visto que o garoto engoliu seco, provavelmente por não conseguir pensar em mais maneiras de mentir para All Might.
O Símbolo da Paz sentou-se ao lado de Midoriya, fazendo com que os dois dividissem o mesmo banco, clareado pela iluminação do poste acima deles.
“Eu já notei que havia algo de errado com você no momento que começou seu treinamento.” All Might começou. “Essa é a primeira vez que lhe vejo começando seu treinamento intensamente, e sem nenhuma pausa longa o suficiente pra você descansar bem. Foi bem impressionante, eu admito. Mas você nunca faria isso.”
“... E-eu poderia estar apenas motivado...” Izuku ainda insistia em mentiras.
“Sim, era uma possibilidade que faria sentido. Mas o jeito que você ficou no momento que você abriu seu celular... era quando eu tive certeza que algo aconteceu com você, e pra se distrair, você focou sua mente inteiramente no treinamento de hoje. Eu estou certo?”
“...” Midoriya ficou quieto por míseros segundos, até que soltou uma única palavra. “... Sim.”
“Ahah! Eu sabia. Jovem Midoriya, poderia me contar o que aconteceu?”
“O-o que?!”
“Hahah, não precisa se preocupar, garoto! Eu só quero ajudar, caso seja possível. É um problema com uma garota na escola? Uma nota baixa em uma prova? Precisa de ajuda com o dever de casa?”
Um dos maiores charmes de All Might era esse: a sua natureza energética e inspiradora. Graças a suas palavras, Izuku estava se sentindo menos amedrontado de explicar para seu mestre a situação em que se encontrava. Ainda assim, seu medo persistia.
“All Might... t-tem certeza que você quer me ajudar? V-você não devia estar descansando agora, ou até ajudando as pessoas, caso ainda tivesse um tempo pra isso?...” Izuku expressava sua insegurança através de suas palavras.
“Midoriya... um herói não é aquele que apenas derrota vilões, impede crimes, e salva gatinhos de árvores... mas também é aquele que tenta ajudar todos de alguma maneira, sendo ela possível ou impossível. Você sabe disso, não é? Afinal, foi o que você fez tentando salvar o jovem Bakugou naquele dia.”
O garoto de cabelos esverdeados não poderia negar o que o herói havia dito, pois era uma afirmação indiscutível. Foi naquele momento que ele desistiu de resistir contra All Might, e estendeu seu celular para o Símbolo da Paz. No visor, as múltiplas mensagens de sua mãe apareciam, e All Might fez o favor de ler tudo com o maior cuidado possível.
“Ela... acha que eu não confio nela. Eu não falo nada dos meus treinos e nem da ‘individualidade que ganhei’, e ela não acredita que eu estou treinando pra melhorar essa individualidade. Ela está arrasada, e preocupada comigo... tudo por minha culpa.” Izuku dizia, enquanto All Might lia as mensagens.
Após finalizar sua leitura, All Might balançou sua cabeça para cima e para baixo, e Izuku guardou seu celular. O garoto novamente evitava contato visual com seu ídolo, pois tinha vergonha de se lembrar do que fez com sua mãe. Além do mais, All Might poderia estar decepcionado com o que o garoto havia feito.
“... Eu não sei como consertar as coisas agora. Eu não posso falar sobre você, e nem a verdade sobre minha individualidade. Eu acho que estraguei tudo...” Disse Izuku, com um tom de tristeza em sua voz.
“... Bom, você poderia pelo menos falar do seu treinamento.” All Might deu sua ideia. “Não acho que vai ser um problema falar que você está limpando a praia de Takoba por si mesmo. Tenho certeza que sua mãe ficaria feliz com esse bom ato. Se for preciso, até diga que sua individualidade é ser ‘super forte’ ou algo parecido, mas não pode demonstrá-la agora por não saber como ativá-la, ou algo assim.”
“... Não é uma má ideia.” Midoriya respondeu, se sentindo um pouco mais motivado, e olhando novamente para All Might. Um sorriso surgiu em sua face, mas ele sumiu logo depois que o garoto voltou a falar. “Espero que dê certo, pois se não...”
“... Se não o quê?”
“... Eu não sei.” Izuku suspirou. “Eu só não quero ver minha mãe desse jeito novamente. Eu me preocupo muito com ela e-“
“Então mostre para ela como ela é importante pra você.” All Might interrompeu o jovem. “Não há uma coisa melhor do que mostrar para alguém a importância dessa pessoa em sua vida. Eu sempre estou com um sorriso no meu rosto, mas mesmo assim, saber que pessoas como você, jovem Midoriya, se importam tanto comigo e me consideram parte da vida delas, apenas me motiva mais a nunca largar desse sorriso. Quero dizer, é apenas um dos motivos. Afinal, minha maior motivação é minha responsabilidade por portar o One for All. Em breve, jovem Midoriya, essa responsabilidade será parte de você também. Talvez a sua importância para as pessoas também sirva como uma motivação, quem sabe? Heheh...”
“... Responsabilidade...” Izuku murmurou para si mesmo, fixando aquela única palavra em seu cérebro. De repente, se lembrara da dúvida pessoal que o incomodava por dias, e voltou a perturbá-lo naquele momento.
Enquanto isso, All Might largara de seu tom humorístico e amigável, mesmo que ainda mantivesse seu icônico sorriso em seu rosto. O herói olhou para o céu, que estava lentamente se enchendo de estrelas brilhantes, dando um caráter menos solitário para a lua. Não demorou muito para que ele voltasse a falar:
“Eu... já tive uma pessoa importante pra mim, Midoriya. Alguém que eu tenho certeza que você iria adorar conhecer.” O herói falava, ainda observando o céu. “Sempre que eu podia, eu a demonstrava minha admiração por essa pessoa. A importância dela pra mim, e pros outros ao nosso redor. Sempre faça que nem eu, jovem Midoriya: mostre que você não seria quem você é sem essas pessoas importantes para você.”
As palavras ditas por All Might deixaram Izuku um pouco confuso em relação à pessoa citada. Ele não sabia de quem o Símbolo da Paz estava falando, o deixando embaralhado em seus pensamentos, e também bastante curioso. Essa confusão não durou por tanto tempo, pois ela desapareceu quando All Might voltou a falar.
“De qualquer forma, esse é meu conselho, Midoriya.” O homem disse, enquanto se levantava do banco, se preparando para ir embora. “É melhor ir pra casa logo, está ficando muito tarde, e sua mãe deve estar ficando mais preocupada.”
“E-espera!” Izuku gritou, repentinamente.
All Might, que estava caminhando para a saída da praia, se virou ao ouvir o berro do jovem Midoriya. Perguntava-se por que Izuku fizera aquilo, uma pergunta que nem o próprio garoto tinha uma resposta concreta. O impulso foi sua única motivação a fazer aquilo, algo similar ao que aconteceu quando tentara salvar Bakugou mesmo sem uma individualidade. Diziam que o impulso para salvar alguém era sempre o começo da história de um herói, então o garoto se perguntava o que significava o impulso que o fez gritar repentinamente. Talvez fosse a busca desesperada pelas respostas que procurava em relação à sua intrigante dúvida. Se fosse isso... havia apenas uma coisa a se fazer.
Izuku demorou alguns segundos para tirar as palavras de sua boca, mas quando fizera isso, mostrou a confiança e coragem, tanto na maneira que falara quanto em sua expressão facial.
“... Tenho mais uma coisa que eu gostaria de lhe perguntar, All Might.” Izuku disse.
“Ora, por que não disse antes?” All Might brincou, e foi andando em direção ao banco que estava sentado previamente. “Estou aqui como seu mestre. Pergunte sem hesitar!”
Após All Might se sentar no banco, Izuku olhou para o chão, em procura de palavras para se expressar. Em seguida, deu uma breve olhada para todo o lixo que retirou hoje, se sentindo orgulhoso de si mesmo pelo que havia feito. Ele sabia de seu potencial para ser não apenas um grande herói, mas um que iria ser um símbolo de esperança, assim como seu ídolo. Sabia que carregaria o legado de seu mestre. Sabia que All Might acreditava que ele poderia se tornar o maior herói que o mundo já conheceu. Com isso, finalmente achou palavras para perguntar o que estava lhe incomodando há muito tempo.
“All Might... ser um super-herói deve ser o maior sonho de qualquer criança do mundo. A ideia de ‘lutar com caras malvados, ajudar pessoas, fazer o impossível e salvar o dia’ é realmente incrível, e eu digo isso porque passei por isso. Porém, é quando chegamos à adolescência que conhecemos a verdadeira natureza do nosso mundo, e sabemos que ser um herói não é nada fácil, justamente... pela responsabilidade.” Izuku pausou por um momento, suspirando antes de voltar a falar. “Ser um super-herói significa que há vidas em perigo que dependem de você para resgatá-las. Às vezes, até o mundo inteiro depende de você. Mas... e se você falhar? E se o mundo inteiro estiver em suas mãos, e você não conseguir protegê-lo? Talvez a pressão lhe atrapalhe, ou talvez a dificuldade no confronto... eu não sei. Eu só sei que saber que o mundo inteiro depende de você deve ser uma questão muito difícil de lidar. Se eu for... na verdade, quando eu me tornar um super-herói, o mundo vai depender de mim. Pessoas vão depender de mim... então... como eu vou conseguir agüentar esse fardo?”
A questão de Midoriya surpreendeu All Might, mesmo que ele não esperasse menos do garoto. Era uma pessoa tão jovem, mas tão inteligente, dedicada, e acima de tudo, pura. Muitas pessoas escolhiam a profissão de herói visando apenas a diversão no trabalho, e esqueciam-se da responsabilidade e a verdadeira dificuldade do emprego. Mas ele sabia que o jovem Midoriya não era uma dessas pessoas. Nunca duvidou disso, e depois da conversa entre os dois hoje, nunca chegaria perto de pensar em algo assim sobre ele.
All Might se inclinou um pouco, e trouxe a resposta que Izuku tanto procurava.
“Midoriya... isso é uma coisa que nós, heróis, lidamos em quase todos os dias. Nós tentamos proteger nossa sociedade, nosso mundo. Sempre nos encontramos em um momento de dúvida, onde não sabemos se iremos realmente vencer ou não. É claro que não vencemos sempre, mas há sempre uma segunda chance para isso.” All Might dizia, tentando ser o mais claro o possível. “Quando estamos enfrentando uma batalha que pode custar a vida de muitas pessoas caso nós perdemos, não pensamos em salvar todas as pessoas, mas sim em salvar apenas uma pessoa: a que mais nos importamos. Caso essa pessoa não esteja mais entre nós... é bom pensar em como ela se sentiria sabendo que você está fazendo o certo. Mas de uma coisa eu tenho certeza, Midoriya: em momentos como esse, você pensaria em salvar a sua mãe. Pense em como a vida dela pode estar em suas mãos, em como ela quer te ver triunfando no final, e acima de tudo, pensar em seu sorriso. Esta é mais uma das minhas motivações para continuar fazendo o que eu faço, jovem Midoriya.”
All Might havia se surpreendido com a questão de seu aprendiz, e agora, Izuku se surpreendera com a resposta de seu mestre. Nunca esperou que All Might fosse tão sábio e inspirador assim. O quanto mais conhecia seu ídolo de infância, o mais ficava orgulhoso de tê-lo ao seu lado. Não como apenas um ídolo, ou apenas como um mestre, mas sim como um amigo, ou talvez até como um pai. Era uma pena que, em breve, o herói teria de se aposentar. O mundo perderia o maior herói que conhecera até hoje, e quando esse dia chegasse, Izuku seria a pessoa mais abalada de todas. Mesmo assim, ele se lembraria que não foram os atos heróicos que fizeram All Might o herói número um, e sim a pessoa que ele era por dentro.
“All Might... o-obrigado.” Izuku disse, com um pequeno sorriso em seu rosto, enquanto enxugava seus olhos, que lacrimejaram um pouco com as palavras de seu mestre.
“Não há de quer, jovem Midoriya.” All Might disse.
O Símbolo da Paz se levantou e estendeu sua mão ao garoto, que a segurou firmemente e se levantou do banco. Em seguida, o jovem deu mais um gole na garrafa d’água que deixara no chão, esvaziando-a completamente. Iria jogá-la na lata de lixo mais próxima após sair da praia. Antes de fazer tal ato, colocou sua mochila em suas costas, e disse, com um grande sorriso:
“Até amanhã, All Might!”
E então, o garoto se virou e deixou a praia, indo diretamente ao seu lar, doce lar. O que restava agora no ambiente era All Might e o lixo que poluía o local. Agora que estava sozinho, teve a chance de dar um tempo para si mesmo. Repentinamente, fumaça começara a sair do próprio corpo do herói, e após ela rodeá-lo por completo, um homem totalmente diferente surgiu do ponto onde All Might estava. Tinha um corpo extremamente esquelético, olhos negros com pupilas azuis e uma expressão desanimada no lugar do icônico sorriso do herói.
O homem olhou para o poste que ainda iluminava o ponto em que estava, e de repente, começou, a tossir. Colocou a mão na frente de sua boca, e ao abaixá-la, viu pequenas gotas de sangue, como sempre. Essa era a verdadeira forma de All Might. Transformava-se em sua forma heróica para combater o crime, porém, era apenas um metamorfismo temporário. Desde que fez uma cirurgia após ser fisicamente afetado ao enfrentar um vilão há anos atrás, começava a tossir sangue e enfraquecer quando levava as capacidades de seu corpo ao limite. Sua carreira como o herói número um iria acabar em breve, no momento que seu corpo passasse a não agüentar mais nenhum esforço físico, e iria ser forçado a entrar na aposentadoria. O herói evitava mostrar sua verdadeira forma para o jovem Midoriya, mesmo que ele soubesse da situação, pois tinha receio dele se sentir triste ao ver aquilo sempre.
All Might olhou para a lua, que brilhava acima dele, e a observou por mais um tempo. Não demorou muito para que ele começasse a falar sozinho, ou talvez, com certa pessoa, que ele tinha certeza de que estava o observando naquele momento, seja lá onde ela estivesse
“... O garoto me surpreende mais a cada dia.” Começou dizendo. “Eu acho que... fiz a escolha certa. Ele é mais do que a pessoa ideal a portar o One for All. Na verdade, tenho certeza disso. No futuro, espero estar vivo para ver toda sua evolução. Quero estar vivo para ver ele se tornar maior que todos nós. Se você ainda estivesse aqui... tenho certeza que ele gostaria de você.”
All Might fora interrompido no momento que ouviu os gritos desesperados de uma mulher, em um lugar distante da praia. Não sabia o que era, mas tinha certeza de uma coisa: precisava da ajuda de um herói. Não importava se All Might não estivesse com capacidade para tal feito, iria ao resgate mesmo assim. Afinal, era o dever de um herói.
“Desculpe-me... tenho que ir. O dever me chama.” All Might disse, antes de se transformar novamente em sua forma de herói, e deu um grande pulo, indo em direção à fonte do grito.
A praia foi completamente abandonada, e o céu agora estava completamente cheio de estrelas brilhantes, assim como lua. Uma estrela cadente passou no meio delas, antes de desaparecer por completo.
Mais tarde...
Grande parte das moradias da vizinhança já se encontrava com as luzes apagadas, permitindo que a escuridão dominasse os cômodos de tais casas. Muitas pessoas tinham o hábito de dormir cedo, se preparando para mais um dia ao amanhecer, seja um dia de trabalho, ou de estudos, ou de outros assuntos. No entanto, uma dessas casas mantinha suas luzes acesas, e essa era a casa de Inko Midoriya.
Já estava ficando muito tarde, e seu filho, Izuku, não havia retornado ainda. A pobre mãe sentava em uma cadeira de madeira na cozinha, com duas tigelas recheados de costeleta de porco, a comida predileta de seu filho. Havia cozinhado a costeleta com o intuito principal de deixar seu filho alegre quando ele chegasse em casa, para que ele se aliviasse um pouco mais e perceber que sua mãe só queria consertar as coisas entre os dois. Ela esperava ansiosamente pelo retorno de seu filho, mas... não retornou até agora. Seu tempo de espera estava quase passando da marca de uma hora, e a cada passagem de um minuto, Inko ficava mais confusa em relação ao paradeiro de Izuku. Não sabia se ele ainda estava treinando como sempre, ou se estava a evitando. Não queria pensar na segunda possibilidade, mas infelizmente era algo provável de ter acontecido na visão de Inko. Ela novamente se culpava pelo que havia feito. Nunca devia ter entrado naquela discussão com seu filho. Nunca.
Os pensamentos foram interrompidos quando, de repente, a campainha tocou.
Inko fora pega desprevenida com o toque, e levou um pequeno susto quando o ouviu. No entanto, a sensação de ansiedade foi embora, pois tinha certeza que a pessoa que tocara a campanha era ninguém menos do que seu filho, Izuku Midoriya.
A mulher se levantou de sua cadeira, e andou o mais rápido possível para a entrada da casa. Estendeu a mão com o intuito de segurar a maçaneta, mas hesitou por um momento. Ainda estava com um pavor de ver seu filho triste, e talvez decepcionado, com o que a mãe fizera previamente. Respirou fundo, e então, abriu a porta.
Antes que pudesse reagir, a mãe fora surpreendida pelo abraço caloroso de seu filho. Não demorou muito para que ela também colocasse seus braços ao redor das costas de Izuku, fechasse seus olhos, e esboçasse um sorriso de alívio, por saber que todos seus pensamentos pessimistas estavam errados.
O garoto de cabelos esverdeados foi o primeiro a romper o silêncio.
“Eu te amo, mãe.”
“Eu também te amo, Izuku.”
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