Anseios

3 Um redemoinho no estômago


ANSEIOS

Every time I see you falling

I get down on my knees and pray

I’m waiting for that final moment

You’ll say the words that I can’t say

Bizarre triangle love — NEW ORDER

O som melancólico preenchia cada vão dessa floresta esverdeada. Sentado em cima de uma rocha coberta de musgo, meus dedos dançavam pela madeira da velha flauta tentando afugentar meus pensamentos. Eu via nas entrelinhas de meu antigo hábito, sabendo que o álcool seria apenas combustível para uma possível ruína.

Parei de soprar, abaixei o braço e suspirei fundo. A lembrança voltava a me assombrar. Voltei a abrir os olhos e encarar o curso do riacho em minha frente. Me concentrei a ouvir apenas o som da água e ver alguns peixes pulando com o desnível entre as rochas. O movimento de meus olhos novamente foi pesado.

A imagem dos lábios de Riven não saía de minha cabeça. Assumir isso era tão difícil quanto esquecer. A coloração roxa da pinga os deixava com a aparência inchada, como se vários beijos tivessem sido roubados daquela boca. A lembrança me assombrava como um fantasma travesso, se divertindo com todas minhas tentativas frustradas de esquecê-la.

A verdade era apenas uma: Eu estava com medo de pensar sobre e tomar o que eu senti como real. Por isso alisava minha velha amiga flauta em minhas mãos. Observando através do meu ato, o sensato era ter a coragem para assumir e assim, esquecer.



Rebobinava minhas ações enquanto seguia rumo ao vilarejo. Provavelmente a caminhada de um dia e meio não me daria o tempo que eu precisava e havia algo apitando em minha cabeça, me dizendo para correr para o mais distante possível de Riven, mas meu coração ansiava em voltar.

Eu não tinha ido longe dessa vez. A vila vizinha já era praticamente uma cidade e acabei indo por tédio. Lá também havia várias coisas peculiares e interessantes para mercar, e acabei por comprar mais do que deveria. Agora lidando com as consequências, carregava as sacolas pesadas de uma forma que não conseguiria sacar minha espada com rapidez.

Aquilo era autoflagelamento. Eu andava focado apenas no peso de tudo o que eu carregava, tentando colocar minha mente numa espécie de nuvem. Nenhum pensamento ou frase concreta se formava, apenas aquela imagem voltava a se repetir. Eu funcionava praticamente como um disco quebrado.

Foi quando quatro crianças cruzaram o meu caminho. Uma garota com duas tranças, um garoto alto e gorducho, e os outros dois menores. Um deles estava com o olho inchado e cabisbaixo, mas mesmo assim seguia o grupo. Obviamente, eu não me envolveria com aquilo que não me dizia respeito. Mesmo quando o menino levantou a cabeça e me olhou em uma súplica completamente explícita. Crianças ainda eram crianças e um pouquinho de sofrimento apenas fortalecia.

Era isso que eu pensava até que a garota o derrubasse em uma rasteira ligeira e colocasse a cabeça dele entre uma rocha e seu sapato.

Eu não era nenhum tipo de mestre ou professor. Até mesmo quando Taliyah insistia em me chamar por aquela fatídica palavra, meu estômago se embrulhava só pela possibilidade. Mas o que veio a seguir era repleto de incertezas e descobertas sobre o que era o professor Yasuo ou mestre Yasuo. Não que eu tivesse finalmente aceitado aquela palavra, mas eu poderia tentar por Taliyah.

— Não acha que está exagerando? – Por isso eu interferi. O que aquela garota estava fazendo era nada além de descontar a sua raiva em alguém.

Seus olhos me fitaram como uma faca. Uma faca sem corte, mas mesmo assim uma faca.

— Ele disse que as garotas são assustadoras. Eu só quis provar pra ele. — Ela parou de pisar nele e me deu as costas.

O menino flexionou os braços na tentativa de se levantar, mas como se fosse um ato já repetido, a garota voltou a olhá-lo, travando seu movimento.

— Eu não disse que você já podia levantar.

Amoleci o meu ombro direito, abaixando a mão com dificuldade para ajudá-lo a se levantar. Esticando o braço de um jeito estranho, lá estava eu tentando ajudar aquela criança. O que eu recebi em resposta foi um tapa estalado da garota, fazendo a minha mão ir para trás. Um gesto por muitos considerado ofensivo.

Olhei-a com toda a paciência do mundo. Os olhos dela continuavam firmes. Admirei a determinação, apesar de ser claramente uma determinação errada. Eu mesmo tinha sido uma criança problemática até meu irmão me colocar na linha.

— Se for pra descontar a raiva em alguém, desconte em mim.

— Daí perde a graça! – Rangiu os dentes.

— Só tem graça porque ele é menor que você?

— Adultos não deveriam se envolver nos nossos assuntos. – Olhei para a minha espada embainhada, de difícil acesso, ela também seguiu o olhar.

— Eu também estou indefeso. Anda logo, desconta em mim.

Se eu achava que a raiva era algo que não deveria ser reprimida e sim extravasada, eu também deveria ter os meus métodos certos sobre como fazer isso. A verdade era que isso talvez funcionasse apenas para mim. Com raiva, eu poderia descontar no vento, em uma árvore ou até mesmo em uma pedra. Mas repetindo, talvez funcionasse apenas para mim.

A garota arranhou a minha cara e me deu dois socos, um deles fez até o canto dos meus lábios sangrarem.

Deitado sobre a relva numa noite sem estrelas, eu refletia se havia sido um erro interferir daquela maneira. Talvez eu tenha complicado ainda mais a vida daquele menino. Talvez eu tenha melhorado alguma coisa dentro da cabeça da garota. Talvez virar o joão-bobo dela não era a melhor opção. Talvez fosse. Entre tantos talvez, eu fechei meus olhos para voltar dormir com o peso do arrependimento como nos velhos tempos.

Antes de conseguir guardar o que tinha trazido no chão, o som do bater da porta entrou por meus ouvidos. Corri a porta e minha cabeça tentava controlar o sorriso em meus lábios.

— Então, você chegou mesmo. — Riven falou entrando e colocando dois sacos no chão. Se da segunda vez eu já estranhei aquela intimidade, dessa vez minha cara não soube disfarçar.

— Como soube?

— Comentaram comigo que você tinha chegado com um punhado de bugigangas. — Ela pegou impulso para se sentar em cima do meu balcão. Minhas coisas estavam colocadas ao lado dela. Ou melhor, ela sentou ali pra ver o que era.

— Não trouxe nada pra você. — Eu não estava de todo mentindo. Quando me peguei olhando para um prendedor de cabelo com uma cerejeira estampada no cabo e pensando nela, com dificuldade fechei minha cabeça totalmente sobre o assunto Riven naquela tarde.

Ela fez um bico com a boca que em questão de segundos desapareceu.

Cheguei mais perto dela e comecei a tirar as coisas da sacola de viagem. Depois de pouco tempo, senti uma de suas mãos tocando em minha barba onde estava o meu mais novo arranhão.

— Quem fez isso? — Olhei para sua mão e depois para seus olhos.

— Uma garota.

Ela levantou as duas sobrancelhas.

— Acho que… — O toque se esvaiu. Ela tirou suas mãos de mim. — você tem gostos peculiares, Yasuo.

Controlei o maldito sorriso novamente.

— Já falei que foi uma garota. — Passei a mão instintivamente no canto de minha boca. Merda. Atrai seu olhar pra lá. Ela não disse nada sobre mas eu sabia que ela tinha entendido quando fez uma cara de deboche.

— A sua barba tá falhada, deixa eu arrumar. — A olhei em dúvida, aquilo não era nem uma pergunta nem uma ordem. Um singelo pedido.

Sentado no final do piso do madeira, a grama quente iluminada pelo sol entrava pelo vão dos meus dedos do pé. Riven tampava um pouco dos raios solares de pé em minha frente. Ela já parecida pronta com suas duas tigelas, uma com água e a outra com espuma de sabão.

Seus dedos voltaram a tocar o arranhão, dessa vez com mais ternura.

— Eu fazia a barba dos meninos quando era soldada. — Ela começou a passar a espuma sobre minha pele e em seguida, retirar com a minha antiga navalha, limpando a lâmina na tentativa de avental que colocara por cima de sua roupa.

— De todos? — Achei interessante o que disse. As memórias de sua outra vida vinham e ela não sentia pudor algum em me falar, mesmo eu sendo quem eu era. Me peguei ansiando em saber mais.

— Claro que não. Só de alguns, quando as vigias batiam. — Seus olhos recuaram instintivamente, ela se tornou distante.

Mesmo que sua antiga nação tivesse destruído tudo o que um dia eu tive, eu não poderia ignorar que sabia como eram as relações entre soldados. A forma como seu olhar recuou me fez lembrar de seu julgamento, e a maneira como aquela mulher ainda andava entre vivos e mortos. Eu havia me esquecido.

Percebendo isso, senti uma urgência em tocá-la. Aquilo me corroeria por dentro se eu não o fizesse. Fechei minha mão em seu braço esquerdo e a fiz se aproximar um pouco mais.

— Quer que eu monte em você? — Sua voz afiou o deboche e só depois senti meu joelho entre o vão de suas pernas. Senti meu sangue queimar e fechei os olhos, me amaldiçoando. Ela riu, mas nenhum de nós dois saímos de nossas posições.

Me calei. O silêncio das onze horas da manhã começou lentamente a ficar reconfortante. Já conseguia sentir o adeus da primavera queimando minhas mãos com o sol, o calor estava quase ultrapassando a linha do suportável. Estávamos em silêncio por algum tempo, apenas escutando o longe som das pessoas na rua. Riven continuava a tirar minha barba e eu só conseguia observá-la se concentrando.

Ela sabia que eu não conseguia tirar os olhos dela, mas não se sentia intimidada e continuava a passar a lâmina. Em alguns momentos seu olhar para meu rosto se tornava mais leve, o que fazia seus lábios ficarem menos contraídos. Eu me pegava me perguntando no que Riven pensava.

— Pronto. — Ela passou as mãos em minha pele agora lisa. — Você fica melhor sem barba. — Escutei, mas estava longe, tentava apenas sentir o toque de suas mãos. Esfreguei o meu próprio rosto contra a sua pele. A sensação ainda estava entorpecida pela água e espuma.

Sua mão também estava gelada e ela não me afastava. Fechei meus olhos, talvez pela claridade da posição do sol, talvez pelo cansaço ou talvez pelo torpor.

A risada abafada de Riven me tirou de meus devaneios. Olhei para ela de forma preguiçosa e observei a maneira como ela tentava controlar a risada com a costas de sua mão vaga.

— Está parecendo um gato, Yasuo. — Franzi o cenho, nitidamente confuso. O seu sotaque fazia aquela frase não ter sentido algum.

Continuei a encarando descrente. Depois de alguns segundos, percebendo que ela não me explicaria, levantei e segui para dentro de casa. Minha barriga já começava a roncar pela fome e dessa vez eu não teria paciência de cozinhar. Infelizmente estava sem nada no estômago.

— Ei! — Gritei da cozinha, sabendo que Riven continuava lá fora. O motivo eu não sabia. — Vou fazer macarrão.



No momento que abri meus olhos com dificuldade me arrependi de ter acompanhado Riven até a ponte. Depois de girar os calcanhares no sentido contrário, um rosto conhecido me chamou a atenção. O primeiro pensamento que invadiu minha mente foi fugir e instantaneamente olhei para os lados procurando uma saída. Eu era praticamente uma presa.

Mas só havia as madeiras que serviam como grade para a ponte, e de lá vinha o Rio das Lamentações. Aquele nome voltava a ser irônico para mim, novamente sem escolha e sem saída naquele mesmo lugar igual no passado. Realmente só me restava lamentar. E porquê eu estava encurralado? Pelo simples fato que dessa vez eu não poderia fugir. Ou melhor, eu não queria.

Eu matei o irmão daquela pessoa.

Em um curto espaço de tempo, a lembrança da maneira como eu voltei sedento para o vilarejo esperando encontrar o assassino de Souma e a forma da qual eu estava disposto a matá-lo me invadiu. Era aquilo que me esperava a seguir? Eu sabia que sim, e duvidava muito que eu pudesse sair vivo. Pensando sobre isso no presente, naquele momento eu também não soube de imediato o que me fez não matar Riven.

Agora eu me encontrava amarrado de ponta cabeça ao tronco de uma árvore. Dobrei o pescoço para frente para o sangue não ir para o cérebro e apenas via o sol entrando pelas folhas da árvore. A brisa era quase nula naquele dia quente e a cada vez que eu respirava, mais o atrito das cordas apertava e doía em minha pele.

— Eu não sou igual a você. Te matar não mudará nada. — Escutei a voz não familiar respondendo as perguntas em minha cabeça.

— Oh, você então deve ser um típico ioniano. — Respondi em um cinismo desnecessário.

A última lembrança de Shin-sare Tohrim apareceu para mim junto com a forma como seus olhos continuaram abertos mesmo após o seu sangue escorrer por suas vestes. O corpo quente mas sem vida havia tombado ao chão de bruços e fez par com mais outros três.

Eu não me orgulhava de matar meus conhecidos e companheiros, mas o ódio que eles mantinham por mim por eu ter supostamente assassinado nosso ancião e fugido era equivalente ao meu ódio de ninguém acreditar em mim. Na época de Tohrim, Yone ainda estava vivo.

— Não vai me matar? Sente de mim? — Eu praticamente cuspi as palavras. — Fico lisonjeado pelo sentimento, mas eu ainda tirei a vida de seu irmão.

Parte de mim aceitava morrer pela vingança. Por ela eu continuei vivo por muitos anos e não me sentiria injustiçado se o meu fim viesse pelo mesmo sentimento. E também, algo pequeno dentro de mim ainda ansiava pela morte. Morrer era acabar com tudo. Mas eu era desonrado demais para um suicídio — e covarde.

— Te matar não vai trazer ele de volta. E eu nem quero que ele volte. — Meus ouvidos captaram uma risada abafada e me senti confuso. — Eu só quero ver de perto você sofrer um pouco.

Quando terminei de ouvir, senti sua mão empurrando minha testa para trás com força. O impacto junto com a visão de ponta cabeça deixaram meus sentidos confusos.

— Não consigo entender. — Admiti em uma espécie de fraqueza.

— E nunca vai entender. — Seu punho se chocou a minha barriga, a dor veio em seguida junto com a falta de ar e o sangue escorrendo de minha boca para a minha testa. — Você já se afogou na escuridão, não tem nada melhor para mim do que isso. — Escutei sua voz e seus passos, mas eles pareciam distantes. — Reze para que alguém venha te soltar.



Um casal desconhecido cortou as cordas com a minha espada depois de uma hora e meia. Eu tive curtos desmaios e lapsos temporais, já que todo aquele tempo que fiquei ali parecia uma tarde inteira, mas quando pude finalmente voltar para a gravidade, o sol ainda brilhava em seu ápice.

Eu estava na floresta ciliar ao rio. Antigamente aquela era a saída do vilarejo, no entanto, duas dezenas de famílias começaram a morar para além do rio. A mata era preservada e a fauna também. Os habitantes iam para o centro antes do sol raiar e voltavam ao escurecer, eu tive sorte de alguém passar rapidamente. Não conseguia recordar ao certo como eu acabei amarrado na árvore de ponta cabeça, mas meu rosto ainda estava coberto de sangue e meu torso despido ardia.

— Sinto muito, mas não trouxemos água. — A mulher dizia para mim. Sua feição era horrorizada e sempre se repetia perguntando que tipo de monstro faria aquilo. Pelo o que tudo indicava, eles não sabiam quem eu era. Aquela doce sensação sempre me invadia, eu parecia a vítima diante de seus olhos.

— Yasuo? — Fui retirado de meus pensamentos e ergui a cabeça para cima. A feição que o rosto de Riven fazia era de preocupação.

— Você conhece ele? — Dessa vez foi o homem que falou. — Estamos apreensivos de deixá-lo aqui sozin--

Ela se agachou para me olhar nos olhos. Aquele brilho preocupado poderia me matar se eu deixasse.

— Vocês devem estar com pressa. — Vi a forma como ela esticou o pescoço ao máximo para falar com eles. — Não se preocupem, eu cuido dele a partir de agora.

Ao dizer isso, ela desamarrou o cantil do cinto e jogou água no meu rosto.

— Leve-o para as cachoeiras, lá ele se sentirá melhor. — Foi a última coisa que ouvi dos estranhos que me salvaram.



Ela andava com meu braço ao redor de seu ombro. Eu voltava a dizer que aquilo era desnecessário e que eu conseguia andar normalmente, mas Riven me demonstrava sua teimosia. Andamos durante meia hora em um silêncio absoluto descomunal, porém não desconfortável. Parecia que ela estava com medo de perguntar o ocorrido e eu me afastar. Ou ela simplesmente não se importava, visto que aquele tipo de coisa era bem comum.

Mesmo que eu não precisasse daquela sua preocupação, eu não conseguia negá-la. Como se fosse a parte oposta de um ímã, o jeito como as sobrancelhas de Riven ficavam franzidas a cada vez que ela me olhava me fazia recuar. Eu praticamente não tinha força de vontade em contradizê-la e parte de mim gostava da situação.

Durante muitos anos, tudo o que eu sempre quis era que alguém acreditasse em mim. Não importasse o monstro que eu era e todos os pecados que eu tivesse cometido para me manter vivo, eu só queria que alguém passasse a mão na minha cabeça. Lembrei das palavras do irmão de Tohrim e a forma como eu realmente estava me afogando.

Em algum dia, talvez ele estivesse certo. Mas no momento eu me encontrava no fundo de um poço, olhando para cima de onde a luz vinha, perguntando a mim mesmo se eu teria capacidade para escalá-lo.

— Por que a cachoeira? — Foi a primeira coisa que ela disse em um longo tempo. Eu virei a cabeça para vê-la e vi o seu olhar focado no caminho a frente. Novamente voltei a olhá-lo.

— Achei que você já soubesse. Já está aqui há quanto tempo? — Não quis ser rude, mas havia alguma coisa ainda se revirando dentro de mim.

— Não tenho mais muita noção de tempo. — Ela foi seca e eu sei que eu mereci.

— As pessoas acreditam que a cachoeira é mágica. — Quis retomar a conversa agora que o assunto nascera. — Antes já se achava isso, mas depois da invasão, a água que seguia para lá era vermelha.

Vi de relance o seu rosto me olhar, ou querendo saber mais ou duvidosa.

— Mas o que descia a cachoeira era nada mais do que água límpida. — Finalmente, olhei para ela e vi seus olhos curiosos. — Bem, são apenas boatos. Eu nunca vi.

— Você já foi lá?

— Sempre ia. — Ri de canto com a memória em minha cabeça e não passou despercebido para ela.

— O que foi?

— Eu sempre voltava com os joelhos em carne viva. — O riso virou uma espécie de sorriso. — As pedras da beirada são grandes e eu gostava de escalar. Minha mãe depois repreendia Yone.

O sorriso demorou um pouco mais para morrer. Eu sabia que mataria o assunto falando de Yone, mas eu não podia resistir.

Quinze minutos depois estávamos frente a frente com aquilo do que começávamos chamar de Cachoeiras dos Milagres. Era uma cadeia de queda d’água de cinco metros que resultavam em uma piscina natural. A coloração da água mesclava entre um verde escuro nas partes profundas e com a sombra da mata, e verde claro quando o sol refletia na água cristalina.

Eu sabia que era uma ótima visão, e me perguntava se eu deveria olhar para o rosto de Riven. Como se fosse um enigma do qual eu já sabia a resposta, eu estava com medo de olhá-la e não conseguir tirar sua face maravilhada de minha cabeça. Mesmo assim eu o fiz, e o que eu vi me desapontou.

Seus olhos brilhavam em êxito e milésimos de segundos após eu começar a minha observação, eles se fecharam e suas sobrancelhas fizeram um arco praticamente de dor. Não consegui entender de primeira o que ela estava sentindo ao ver aquela paisagem, mas no momento que ela abriu os seus olhos em direção a mim, não seria um exagero dizer que meu coração parou. Eu sabia.

— Somos eu e você, aqui. – Ela me olhou em dúvida. – Você sabe o que somos.

— Por ser o que somos que eu estou assim. – Eu a olhei sério.

— Eu nunca achei que seria eu a motivá-la. – Ela continuava me olhando sério, eu via a forma como suas pupilas tremiam, tentando achar uma resposta que correspondesse com os seus pensamentos.

Ela não achava que merecia estar ali. Desfrutar daquele lugar. E nem mesmo eu me achava merecedor também. Parecíamos profanando uma terra sagrada. Nós dois matamos ionianos dos quais nunca mais poderiam sequer voltar a ver aquele lugar. Então porque estávamos ali? Acaso, obra do destino, poderia ser qualquer coisa, mas isso não mudava o fato que nossos pés ainda pisavam naquela terra.

Riven não me respondeu. Quando percebi isso, caminhei lentamente, esperando seus passos atrás de mim, indo para rocha principal onde era possível mergulhar e sentir a pressão violenta das águas. Me seguiu até o final do caminho, mas quando olhei para trás, toda a sua expressão corporal era de relutância. Eu já sabia que ela seria teimosa e insistiria em ficar.

— Não entrarei sem você. – Fui formal e fui seco, mas principalmente, fui sincero.

— Eu não mereço entrar aí. – Eu já tinha me preparado para aquela resposta.

— Então já podemos ir embora.

— Não! – Ela disse com confiança. – Você está machucado.

— Só vou entrar se for com você. – Olhei para seu rosto com a expressão mais séria que podia fazer.

Peguei o seu silêncio como uma resposta afirmativa e assim comecei a tirar meus sapatos, a espada e a ombreira. Sem dizer nada, acompanhei o mesmo movimento vindo dela, mas ela só tirava os sapatos e o cinto de corda.

Coloquei o meu pé contra a rocha lisa, sentindo o contato gelado contra a minha pele. Subi na rocha com um impulso e estiquei a mão para que Riven a pegasse. Eu odiaria que ela pestanejasse e ela realmente não o fez.



A água ainda continuava fria. Talvez ela nunca fosse quente e o quente era das minhas memórias. Ou talvez era porque o verão ainda não chegara. Ou talvez meu subconsciente me fazia querer calor em outro lugar. Em outro alguém.

Os cabelos de Riven estavam perfeitamente jogados para trás. Dessa forma, nenhum traço de seu rosto escapava de meus olhos. Se eu analisasse bem, poderia contar todas as pequenas cicatrizes e memorizar suas posições.

— Vira de costas pra mim.

— Eu ainda tenho as minhas mãos. – Falei em agressividade desnecessária. Ela se calou, e percebendo o que eu fiz tentei agradá-la. – Foi uma criança que me arranhou daquele jeito.

— Eu sei. – Virei de costas, nadando em direção a queda d’água.

— E eu sei que você sabe. – A olhei de relance com um sorriso. Não sei se ela tinha me escutado pelo som da cachoeira e minha resposta assim foi proposital. Riven nadou atrás de mim, creio eu que ainda estava preocupada com meus machucados.

Vi sua boca gesticulando algo que eu não consegui saber apenas com leitura labial.

— O quê?! – Gritei, esperando que ela falasse mais alto. Em vez disso, ela cortou nossa distância e aproximou seus lábios de meu ouvido e disse:

— O que você falou?

No exato momento, minha caixa torácica começou a bombear sangue freneticamente para o resto do meu corpo. Parecia haver uma queda de pressão apenas em meu estômago quando seus lábios gelados esbarraram sem querer em minha pele.

O meu ego falou maior, raivoso, e eu quis devolver na mesma moeda. Repeti minhas palavras em seu ouvido, fazendo questão de não poupar o contato. Nos segundos seguintes, meu corpo foi empurrado até a cascata e senti que saí vitorioso.

No entanto, seus braços envolveram meu pescoço, retirando o poncho molhado. Eu não soube dizer se aquele ato era proposital ou não e acredito que a fiz pensar da mesma forma. De qualquer jeito, eu a fiz me afastar. Querendo que ela pensasse que aquilo não era uma afronta – mesmo sendo – voltei a sussurrar em seu ouvido, experimentando o início de um novo vício.

— Eu te conto a história de qualquer cicatriz se você me disser como conseguiu essa no canto da sua sobrancelha esquerda. – O seu semblante foi de surpresa. Suas mãos desceram de minha nuca até o meu torso, apoiando-se melhor em mim. Ela voltou a aproximar sua boca de meu ouvido.

— Achei que perguntaria da tatuagem em meu rosto. – Olhei suspeito para o pequeno retângulo em tinta branca que marcava sua pele e voltei a olhar o seu cabelo todo para trás. A vontade de enfiar a minha mão em sua nuca e puxá-la até que não houvesse espaço entre nós era grande. Gigante.

Admitindo o anseio, foi a minha vez de recuar. Eu estava entrando em um jogo no qual eu nunca ganharia.

Nossos corpos molhados andavam em silêncio. Mesmo não olhando-a diretamente, eu podia notar sua cabeça levemente abaixada, também não conseguindo me olhar muito bem. Aquela imagem remexia meu estômago, me inundando em culpa. Os silêncios e as frases implícitas ainda preenchiam as lacunas. Analisando bem, nossas provocações se intensificaram mais a medida como aquela tarde decorria e recaíram em um silêncio suspeito, no qual nenhum de nós dois ousou em quebrar.

Por segurança.

Vendo-a novamente pelo canto do olho, eu não poderia culpá-la. Claro que seria mais fácil culpar a maneira como seus olhos brilhavam aquela tarde, como se ansiassem por algo que era meu. Mas aquilo não era verdade. Eu estava fantasiando, vendo nas entrelinhas para saciar um adormecido sentimento e fazendo-a querer entrar em meu enlaço.

A medida que o monstro que era aquele sentimento crescia em minhas costas durante a tarde, o meu humor se tornava mais ácido. Como se eu tivesse o direito de destratá-la por minhas incertezas. Me sentia culpado e errado, mas principalmente, me sentia frustrado por simplesmente não conseguir dissolver aquele formigamento que me invadia ao olhá-la.

Eu deveria pedir desculpas? Deveria, mas eu não conseguia.

Não conseguia por simplesmente não saber por onde começar ou como explicar. E no fundo eu sabia que dizer para Riven que ela me perturbava era a mesma coisa que afastá-la, e isso era o que eu menos queria. De qualquer forma, nossa distância começava aumentar e não era só a física.

O seu corpo em algum momento saiu do meu campo de visão, e seus passos não eram tão mais audíveis assim. Tentei a observar, e o que ganhei foram mais dúvidas. Seu rosto parecia realmente querer dizer algo, mas o que quer que fosse eu não pude saber. Ela reconheceu onde estávamos e conseguiu seguir seu rumo sem qualquer tipo de adeus.

Talvez eu estivesse fadado a vê-la sempre se afastar assim como areia movediça. Talvez por estar acostumado com aquela sensação durante anos, eu gostasse da impotência em minha garganta. Talvez eu gostasse dela simplesmente por ser... impossível.

Notas finais
Eu demorei, eu sei. Eu fui infectada pelo vírus de achar que tudo o que faço fica uma bosta. Perdão.