Anseios

5 Esse maldito coração, pt II


ANSEIOS

I’m with you now

can speak your name

Now we can hear

ourselves again

Wearing the inside out — Pink Floyd



Se não tiver nada para fazer depois de amanhã, me ajuda a envernizar o armazém.

Lembrando dessa frase que eu consegui acordar. Abrindo os olhos, reconheci que acabei novamente por dormir na sala. A garrafa amarela estava vazia em um canto, me lembrando da bebedeira de ontem. Quando a temperatura caiu e o vento começou a esfriar as entranhas, viemos para dentro.

Riven foi embora assim que a garrafa acabou. Não que a maldita tivesse contribuído para que aquilo acontecesse. Me espreguicei lentamente, aproveitando a sensação da tensão nos músculos. Eu não tinha planejado nada para fazer mesmo, nem hoje e nem amanhã. E nem nunca. Tentando não ficar empolgado com o dia que viria, me levantei para arrumar novamente aquela casa. Talvez eu estivesse virando um maníaco por limpeza.

Eu confesso que não sabia o que envernizar significava, acho que era algo do dialeto noxiano. Então cheguei na fazenda de mãos vazias, estranhamente não sabendo o que eu iria fazer ali.

— Yasuo. Você veio mesmo. — Escutei a voz de Riven atrás de mim, chegando por um caminho diferente com uma vasilha em suas duas mãos. Parecia pesado, mas eu sabia que não era nada para aquela mulher.

— O que quer dizer com isso? É claro que eu viria.

— Achei que você não se lembraria. — Ela riu, se aproximando de mim.

— Eu estava com sono aquela hora. — Tentei me defender, mas ela nem prestava atenção em mim. Olhei para a vasilha grande, vendo o líquido marrom. Não precisei me aproximar tanto para sentir o cheiro forte. — Matuha?

— Matuha? — Ela repetiu com uma cara de dúvida.

— Ah, isso é o envernizar?

— Sim, verniz.

— Aqui se chama de matuha. É a seiva que escorre do matuhato. — A sua cara de dúvida só aumentava.

— Ainda serve pra passar na madeira né? — Ela riu, tentando me provocar.

— Na verdade, se passa no cabelo. — Seus olhos se arregalaram. Não me controlei e ri na cara dela, quebrando a minha piada. — Claro que serve pra passar na madeira.

Ela apertou os lábios, provavelmente se controlando para não me xingar. Eu ainda ria e o clima estava leve. Começamos a subir a pequena inclinação para ir até o armazém, e mesmo sabendo que a vasilha estava pesada, eu não poderia carregá-la. Riven nunca me deixaria fazer essa gentileza para ela.

Ao entrar no armazém, todos os poucos móveis ali já estavam todos para o lado direito, deixando duas paredes de madeira livres. Riven abaixou e deixou a vasilha no chão ao meu lado, em seguida retirou o colchão que ainda estava lá, levando-o para tomar sol.

— Eu vou lá no celeiro pegar os pincéis.

— Não vai lixar antes? — Eu perguntei, mas ela já tinha ido.



Ela me contou que já tinha lixado no dia anterior. Eu achei aquilo estranho, porque normalmente depois de lixar já se passava o tal do verniz, mas ela esperou para passar só hoje. Deixando que ela fizesse as coisas do jeito que ela bem entendia, eu fiz o que me foi ordenado: passar a matuha nas partes altas. Provavelmente aquele era um trabalho perigoso para Asa Konte, visto que aquela maldita madeira da escada parecia podre.

— Me lembre de fazer uma escada nova pra vocês ou trazer a minha. Se bem que eu não faço ideia de como ela tá também. — Falei enquanto terminava de pintar as bordas. Uma mão passava a segunda camada e a outra segurava um copo com a matuha, Riven segurava a escada que vira e mexe balançava.

— Medo de cair, Yasuo? — Aquela era ela em sua tentativa de me provocar.

— Você que deveria estar com medo. Vou cair em cima de você.

— Meus movimentos ainda são ágeis.

— Sei. — Concordei com desdém. — Pronto.

Desci da escada e a coloquei debaixo do braço, levando-a para fora. Voltei a entrar no armazém e ela se virou para me olhar.

— Ei, eu preciso te dizer algo.

Observei bem sua face. As sobrancelhas levemente contraídas me davam uma dica que era um assunto sério. Disfarcei bem minha preocupação e engoli seco com a curvatura de um sorriso. Fiz sinal com a cabeça para que ela continuasse.

— Faz umas duas semanas… Ele veio até mim com fúria nos olhos. Eu já o conhecia das feiras. Muitos não gostam dele porque seu pai era ladrão. E eu que achava que aqui as coisas eram diferentes…

— Humanos serão humanos por toda parte do mundo, você sabe disso melhor que eu. — Constatei o que achava o óbvio, e acabei por perder seus olhos. — Uma criança?

— Doze anos no máximo. Aparenta bem menos por ser muito magro.

Busquei o contato visual e vi que ela me evitava. Vergonha? Não, era outra coisa, os olhos não estavam tão distantes assim. Me lembrei da casa de Esuoto Oru e a maneira como consertei aquele telhado com um simples olhar. Naquela época eu não sabia a origem da minha boa vontade para meus feitos, mas agora, aqueles olhos brilhavam do mesmo jeito. Me perguntei o que eu faria dessa vez.

— O que você quer de mim? — Ela riu de imediato pela minha descoberta.

—Você soa como se eu te pedisse tantas coisas. — Olhei ao redor, vendo as beiradas que eu tinha pintado. Ainda faltava duas paredes, mas a matuha precisava secar para os móveis voltarem. Se eu não me engano, aquele era o segundo pedido.

— Eu só reconheci o olhar. — Voltei o foco para ela e sorri de canto. — Foi com essa cara de cachorro pidão que você me fez consertar aquele maldito telhado.

— Foi muito difícil? — Sim, eu só pensava em você.

— Não, mas me perguntei se você teria feito certo.

— Como assim? — Seu olhar foi confuso e me aproximei instantaneamente. Não me contive e peguei uma mecha do seu cabelo, como ela mesma fizera comigo naquele mesmo lugar meses atrás. No momento, eu não conseguia ver por de trás de meu ato.

Percebi que seu cabelo já havia crescido um pouco de novo. Por quanto tempo mais meu coração insistiria em ficar longe dela?

Eu sentia o seu olhar sobre mim com uma força antes não vista, mas eu continuava olhar para a mecha grossa com fios platinados. Conseguia sentir a maciez em meus dedos mas não me atreveria a me aproximar para cheirá-los, aquilo me denunciaria.

— As canoas de bambu. — Respondi como se fosse óbvio e como se eu não tivesse interrompido a conversa de propósito.

— A-ah, isso. — Ela engoliu seco.

Não sabia dizer ao certo se eu a impactava de alguma forma, lembrando da maneira como eu agi quando ela fez o mesmo comigo. Se ela não gostava da aproximação, ela só simplesmente poderia se afastar que eu não voltaria a tocá-la. Mas dois dias atrás, ela não parecia incomodada comigo deitado em seu colo. Eu não poderia desistir sem antes tentar.

— Eu achei que seria bom pra você. — Fitei seus olhos, agora o confuso era eu. Bom para mim? Como se ela pudesse ler meus pensamentos, ela completou: — Pra parar de ser um bêbado dormindo na sala.

Uma risada do fundo da minha garganta correu pelo ambiente e tenho a certeza que aquilo a assustou.

— É assim que você me vê? Um bêbado? — Me aproximei ainda mais, dessa vez querendo a intimidar. A minha resposta foi a sua risada que eu julguei um pouco nervosa.

— Vai negar?

— Não posso. — Soltei sua mecha e me afastei, indo para um canto onde eu podia me controlar. — É inveja? Você fala isso porque tem baixa tolerância.

Ela voltou a sorrir, aquele maldito sorriso de orelha a orelha, e eu tive que sorrir junto. O chão me pareceu distante e meus pés pareciam não fazer mais parte de mim.



Me afastando dela, olhei para qualquer coisa naquele ambiente fechado e fedendo a matuha. Meus olhos pararam em um livro de capa grossa vermelho sangue, bem antigo. O título estava praticamente apagado, mas eu reconhecia aquilo de cor. Era sobre a história ioniana e sorri internamente. Ela realmente ficaria.

— O que você quer que eu faça? Ainda não me respondeu.

— O nome dele é Gake.

— Gak? — Repeti com o sotaque e a fiz ficar sem graça. — Desculpe, é que se trata de um nome.

Ela se aproximou de mim com um olhar indecifrável.

— Você pediu desculpas? — Suspirei fundo. Que tipo de pessoa ela acha que eu sou?

— Eu sou mais maleável do que você pensa. — Principalmente pra você. Era a minha vontade de terminar, mas não. — O que tem esse Gak?

— Ele me pediu para te perguntar se você não pode treiná-lo. Ele veio falando comigo sabendo que eu poderia falar com você, acho que está desesperado. Parece que ele sempre vem tentando a escola de espadachins, mas não o aceitam.

Ah, era isso então.

Sorri com a antiga memória me invadindo, lembrando da sensação gelada do metal quando minhas mãos suadas seguravam a grade cinza do portão. Se eu não tivesse ficado debaixo de sol e chuva e mostrado determinação, eu não seria o que eu sou hoje. Não que isso agora fosse grande coisa. Olhei para a ombreira e vi o brasão que faltava ali, o espaço vazio que me caracterizava como um ronin.

— Bem, você não precisa me responder agora. — O sorriso em seus lábios era de compreensão. Ela começou a sair do armazém com a cabeça ligeiramente baixa.

— Eu vou treiná-lo. — Riven parou e se virou, esperando eu dizer mais coisas. — Mas ele tem que saber que por causa dessa decisão talvez ele não entre.

— Que bom, Yasuo. — Sua frase era uma mistura de alívio com orgulho. O maldito sorriso aumentou enquanto ela voltava a afastar.



— Você sabe que se descobrirem que está treinando comigo nunca te deixarão entrar, certo?

— Eles já não deixam porque meu pai era um ladrão. E também porque eu falo com a noxiana.

O garoto batia um pouco abaixo dos ombros de Riven. Sua cabeça era raspada e os olhos verdes eram carentes de brilho. As suas vestes eram um tecido cru e grosso, provavelmente uma das únicas que ele tinha. Fiz a nota mental de conseguir para ele pelo menos um pano mais confortável.

Pedi para Riven que ela o avisasse que eu o encontraria depois da ponte, numa clareira indo ao sul da Floresta-Coração, a mesma mata na qual o irmão de Shin-sare Tohrim me amarrou. Ela era a floresta ciliar do Rio das Lamentações e se chamava daquele jeito por haver, especificamente, agora duas árvores onde seus galhos iam até o chão, tocando o começo de seu próprio tronco. Os vários arcos pareciam a representação de um coração, mas para mim, aparentava mais a água de um chafariz do que o coração.

Riven estava com ele. Eu não sabia dizer se era para se assegurar que eu honraria com a minha palavra ou se se importava com ele aquele ponto. De qualquer jeito, eu não me sentia ofendido. Meus anseios se satisfaziam apenas por ela estar ali.

— Me mostre o que você sabe fazer, quero ver mesmo se você é apto para a escola.

— Ei, ronin! Eu tenho muito mais honra que você!

Quando escutei aquilo, eu não pude dizer nada. Gak rodopiou em um chute duplo, tentando acertar a minha cara. Arqueei o meu corpo para trás, desviando dele. Cerrei os meus olhos quando parei o movimento, captando no ar algo que eu não tinha percebido antes. Um pouco raivoso e mesmo assim me controlando, um redemoinho vento se formou aos pés dele, levantando-o no ar. Senti o olhar de Riven sobre mim e quando ele estava de ponta cabeça poucos centímetros do chão, eu o soltei.

— Você quer que eu te treine porque eu sou a opção mais fácil? — Olhei para Riven com um pouco de mágoa. Talvez ela não tivesse percebido os reais sentimentos através daquele menino, e eu nunca poderia culpá-la.

A minha vontade era de perguntar para ele se ele sabia quantos espadachins daquela escola eu já tinha matado. Pessoas que treinaram e cresceram junto ao meu lado, assim como Gak também estaria junto à eles um dia. Me perguntei se ele realmente sabia o que estava fazendo, e o imaginei crescido, indo para uma jornada no qual teria que matar um antigo companheiro.

Ele não parecia saber de nada, e eu me perguntava se aquela era uma boa ideia. Riven pareceu reconhecer a minha reconsideração, veio até mim e colocou sua mão em minha ombreira.

— Eu não sei o que isso significa. — Ela dizia para Gak enquanto passava os dedos pelo metal. — Parece só um peso a mais para o Yasuo. — Eu a escutava atentamente, me perguntando se o peso contido naquilo que ela falava era proposital ou um acidente. — Mas você me pediu por ele, então não o menospreze.

Gak não era um garoto malvado, ele só vinha com os mesmos preconceitos de todos do vilarejo. Eu não sabia se Riven tinha noção disso, talvez ela estivesse com total ciência. Talvez ela mesmo havia colocado aquele garoto no meu caminho para que eu pudesse me libertar de todos aquelas correntes sociais. Mas de qualquer forma, eu não me importava. Eu não estava amarrado. Eu sou o que eu sou e não preciso ficar livre da opinião dos outros.

Me voltei às palavras de Riven, antes perdidas com o meu ressentimento por Gak. Observei a maneira como ela me defendia de algo superficialmente inofensivo e a forma como suas palavras eram cheias de significado até mesmo para mim. Quantas vezes eu não quis jogar aquela maldita ombreira fora? Com apenas uma pequena sentença ela expôs tudo o que havia em meu coração como se ele fosse algo digno de ser mostrado.



Eu estava recuperado de meus pensamentos fracos em relação ao garoto, e estávamos no segundo dia de treino. Relevando o pequeno ódio que ele parecia ter de mim, eu sendo um adulto e sabendo que aquele era um sentimento sem pauta alguma, quando Gak começava a querer sobrepor seu ego a mim, eu apenas o fazia girar de ponta cabeça novamente.

Aquela colina dava uma ampla visão de tudo que ele fazia. Me abstendo agora a apenas observar, meu corpo estava poucos centímetros longe de Riven. Eu podia sentir o seu cheiro, mas ainda era uma distância segura.

O silêncio confortável reinava até ela repousar a cabeça em meu ombro. Sem me mexer, abaixei os olhos e vi como ela continuava vê-lo treinar, mesmo cruzando a nossa distância. Aquilo me pareceu injusto, já que ela podia se aproximar sem receio algum enquanto eu tinha que me controlar para não fazer nada do qual eu me arrependesse.

Estávamos sozinhos, e as palavras que eu não conseguia dizer passavam raspando em minha garganta. As milhões de perguntas em minha cabeça vinham à tona enquanto o meu coração parecia sair pela minha boca. A porta que era a coragem parecia vir até mim, aumentando cada vez mais.

— Agora sabe me responder aquela pergunta? — Tive que dizer. Inicialmente, era uma pergunta camuflada de inocência que inundaria o meu ego. Ou o destruiria. De qualquer modo, eu viveria com aquele sentimento para sempre? Parte de mim queria. Parte de mim queria muito o autoflagelamento. O impossível queimava em impotência, parecia combustível.

— Que pergunta?

— Aquela que você me fez, me perguntando o que somos.

— Não.

Ela foi seca de uma forma beirando ao cruel e em seguida levantou sua cabeça. Tentei ignorar aquilo, mas eu realmente tinha saído ferido. Calando todas as vozes me bombardeando, eu fiz o que fiz e não foi grande coisa. Dessa vez, eu que encostei a cabeça em seu ombro.

Patético.

— Yasuo… — O meu nome saiu de sua boca e próximo, me peguei olhando fixamente para seus lábios. Os olhos dela procuraram o meu, mas eu estava tão compenetrado que não fiz questão de retribuir. Ela deu um pulo e rapidamente se levantou, ficando de costas para mim.

Agora observando o chão onde ela estava antes, eu via três formigas levando folhas cortadas. Aquela imagem se projetava em minha cabeça mas não assimilavam a realidade. Aquilo era um fora? Era uma recusa ou era medo?

Levantei o olhar para voltar a vê-la, mas eu estava distante com todas as minhas novas perguntas. Ela não gostava que eu me aproximasse mas ela tinha o direito? Eu podia queimar no-sei-que-lá que fosse essa merda de sentimento e qualquer investida minha ela se espreitava.

Antes de ficar mais bravo, a minha ficha caiu naquele momento. Era a ganância. O platônico não tinha a concorrência da realidade. Se eu não falasse para ela sobre meus sentimentos, eles ficariam estáticos dentro de mim como flores artificiais em um vaso caro. O vento não levaria as pétalas, e nem traria novas.

Por isso aquele sentimento era característico de minha nova condição, essa mesma que eu mesmo escolhi me colocar. Era um novo tipo de cadeia ou looping, do qual eu não queria ficar, mas inevitavelmente sentia apreço. Não que fosse porque eu era fraco para isso, mas eu preferiria dores mais reais do que um simples coração quebrado. Convenhamos que com tudo até agora aquela era apenas uma dor a mais, mesmo Riven sendo maravilhosa.

Eu hesitei em levantar. Vi meu movimento diante de meus olhos mas não soube o que ela falaria se eu simplesmente a beijasse ali. Eu estava mentindo. É claro que ela se afastaria novamente, disse aquilo para tentar afugentar o meu medo.

Mas antes que eu criasse a coragem suficiente, ela se virou para mim. A tristeza estava nítida em seu rosto, e eu não entendia o porquê.

— Eu pedi para você não fazer isso comigo. — O arco de suas sobrancelhas fizeram o meu coração falhar, me inundando de culpa. Mas eu estava confuso, eu não sabia do que ela falava.

— Fazer o quê? — Naquele momento, tudo o que eu menos queria era me fazer de tonto. Queria que ela me mostrasse mais das suas emoções, mas quando elas eram causadas por mim, o que eu poderia fazer além de me remoer em culpa e querer agarrá-la?

— A pinga!

O quê?

— O que tem a pinga?

Ela se virou e começou a descer a colina, me mostrando claramente que eu não entendia ou que eu tinha esquecido de algo. O que fez o meu estômago continuar revirando e me fez correr atrás dela, virando o seu ombro para que voltasse a me encarar.

— Riven, o que tem demais a pinga?

— Muita coisa! Por causa dessa maldita pinga aconteceu muita coisa!

— Eu não fiz nada com você aquele dia, do que você tá falan—

— Eu sei. Eu sei! — Ela praticamente gritou, parecia estar calando as vozes em sua cabeça. Suspirou fundo, se acalmando. — Você não tem a mínima ideia de que expressão o seu rosto está fazendo, tem?

— Eu acredito que seja de preocupação. Ou confusão.

— Fidelidade. Fidelidade pura. Como você consegue ter esse tipo de sentimento por mim?

— Não é só ele. — Eu praticamente cuspi as palavras no calor do momento, e em meio segundo me arrependi com a cara que ela fez. Que estranhamente não foi de espanto. O que deveria ser, já que eu tinha deixado meus sentimentos nas entrelinhas. Eu recuei de instantâneo, reconhecendo o que tinha feito. Já estava pronto para ir até Gak quando ela falou.

— Às vezes parece que você tá correndo na minha frente, depois pára e olha pra mim, me esperando chegar até você. — Ela riu de escárnio. — Eu demorei pra perceber que você era assim. Acho que é porque todas as vozes na minha cabeça me dizem que isso é um erro.

— Se for o que eu estou pensando, é um erro. Um erro inevitável.

Cruzei o espaço que era a nossa distância e capturei seus lábios.



Riven não me afastou. Talvez fosse um prêmio de consolação. Talvez fosse uma recordação. Um beijo roubado, em sua essência, ainda era um beijo roubado.

Minha mão ainda segurava o seu rosto quando afastei nossas bocas. Pela diferença de altura, quando abri meus olhos, vi a franja escondendo seus olhos. Era óbvio que agora ela me odiaria, eu não precisava nem me preocupar me remoendo. Eu só precisava tirar essa sensação angustiante do peito logo.

Perdão. — Eu sussurrei quando passei perto de seu ouvido indo em direção a Gak, esperando que ela não tivesse ouvido.

Sabendo que agora novamente minhas atitudes se tornavam imperdoáveis, acreditei que meus sentimentos se acalmariam. Acreditei que ela pudesse sair de meu coração.



A verdade era que eu nunca tinha parado para pensar em como Riven realmente se sentia em relação a mim. Eu sabia apenas que ela não sentia nada. Mas agora, sentado no piso de madeira e sentindo falta da minha companheira de bebidas, eu estraçalhava as minhas esperanças.

Mesmo que algum dia ela viesse a sentir algo, ela nunca se permitiria. Assim como eu não queria me permitir. Riven sabia que eu não teria passado por nada caso Souma não estivesse morto, e aquilo seria o seu pilar. Seria um escudo mesmo se eu tentasse conquistá-la. De qualquer forma, era uma batalha perdida. Eu tinha que aceitar isso de uma vez.

Ela me via como apenas mais uma casa a ser reconstruída, algo que deveria ser reparado pelas mãos dela, algo que o conserto era somente de responsabilidade. Aquela frase de Asa Konte deve ter a mostrado a faceta que ela também deveria me reerguer do poço de lama no qual eu me encontrava. E ela o fez, como tudo que já havia reconstruído antes. Mas nada saiu como eu havia planejado, ou talvez até mesmo ela.

E agora eu havia a beijado. Ela deveria estar sentindo nojo de mim, e minha cabeça não parava de a imaginar esfregando sua boca como se ela estivesse suja. Todos os bons momentos vieram até meu coração e os anseios dele quase me faziam urrar, mas eu não me arrependia. Aquela era a prova que eu estava tão quebrado quanto ela, distorcendo sentimentos de responsabilidade e amor. Não sabendo mais diferenciar ou separar a gentileza da afeição. A obrigação da vontade.

Quando o dia raiou, os raios de luz queimavam o meu pé esquerdo. Acordei assustado achando que tinha perdido a hora, mas estávamos no verão e aquele sol começava cedo. Corri para a Floresta-Coração e Gak deu um chute na canela, falando que eu estava atrasado. Perguntou de Riven, e eu enrolei o assunto, dizendo qualquer coisa. A vida tinha que ir seguindo sem ela.



O sol do meio dia queimava contra as minhas costas. Eu estava concentrado em amarrar as toras de madeiras umas às outras para que Gak pudesse treinar os socos. Ele estava um pouco atrás de mim, também concentrado em chutar o mais alto possível do tronco de árvore que eu cortei. Eu tinha tirado a ombreira e o poncho pelo calor, e minha cabeça estava cogitando ir para a cachoeira junto a Gak.

Riven! — Escutei o nome e o olhei. Ele parou o que fazia e saiu gritando correndo atrás dela.

Eu também parei. Me levantei do banco improvisado e a olhei como se não a visse por muito tempo. Claramente, eu estava exagerando, eu não a via fazia talvez uma semana desde que tinha a beijado. Acreditei que tinha passado todos os meus sentimentos com aquilo, mas talvez não. Talvez ela precisasse de respostas, ou não. Talvez ela estivesse aqui para ver somente Gak.

— Quanto tempo! — Ele parecia bravo e chutou a canela dela, fazendo-a abrir um sorriso amarelo, ignorando a dor. — Por que não veio mais, noxiana maldita?!

— Olha a boca. — Falei me aproximando e puxando a orelha dele.

— Eu estava com bastante coisa pra fazer. — Meus olhos se concentravam nela, mas Riven obviamente evitava me olhar. — Trouxe refresco pra vocês tomarem. — Ao dizer isso, ela retirou da sua sacola de pano duas cerâmicas brancas.

Confesso que me surpreendi com o vocês, mas a Riven ainda era a Riven. Ela se abaixou para abrir o líquido e servi-lo em três copos também de uma cerâmica bonita com vários desenhos. Gak fez questão de logo sentar na grama, colocando cada pé em cima das coxas. Ela também cedeu.

Me sentindo isolado, também me sentei. Estávamos em círculo e eu realmente gostaria de me desculpar por estar próximo dela, ela parecia desconfortável.

— Um pra você. — Ela colocou nas mãos de Gak, um gesto maternal que eu odiaria que ficasse gravado em minha cabeça. Mas que infelizmente, agora já estava. — Outro pra você. — Ela estendeu para mim, e eu evitei o olhar, mesmo percebendo que agora ela me olhava.

Bebendo o chá gelado de maçã, cheguei a conclusão de que talvez fosse melhor falar com ela sobre o ocorrido. Esclarecer e libertar meu coração. Fingir que nada tinha acontecido não ia fazer a memória desaparecer. No entanto, eu também odiaria ser um fardo. O medo queria me travar, mas o anseio em falar qualquer coisa com ela ainda era maior. A semana que passou havia sido dolorosa sabendo que agora ela provavelmente me odiava, mas nada dentro de mim quis ir até ela explicar minha razões. Se eu quisesse isso, aquele ato me provaria que era apenas paixão, e paixão apenas nutre o ego. O amor o machuca.

— Gak, mais cem chutes. — Falei me levantando e percebendo que ele já tinha bebido tudo.

Yasuô! — Ele falou protestando do jeito natural dele de ser e eu apenas o encarei com desdém.

— Yasu--

— E você vem comigo. — Queria estender a mão para que ela se levantasse, mas ela com certeza recusaria.



Eu não queria voltar para a colina, então viemos até onde as toras de madeiras estavam jogadas na grama.

— Eu vou me explica--

Ela foi tão rápida que eu não vi o soco vindo. Me curvei todo segurando a minha barriga onde ela tinha me acertado, tentando amenizar a dor. Olhei para cima, vendo o seu rosto obscurecido pelo sol. Essa era antiga Riven? Um demônio de força bruta? Antes de eu pensar em perguntar o porquê, ela ficou da minha altura e beijou a minha boca.

O quê?

Longe da realidade, eu tentava me apegar a sensação gelada e com gosto de maçã. Os meus olhos não piscavam e meus braços ainda estavam ao redor de minha barriga. Tentei ver o que estava na minha frente, seus olhos estavam fechados enquanto suas mãos suadas seguravam o meu rosto, me puxando para cima.

Talvez fosse um sonho. Um pouco diferente dos quais eu tinha com ela, mas que não deixavam de ser com ela. E como em todos os sonhos, eu não iria conseguir me controlar.

Enlacei uma mão em sua cintura, colando nossos corpos e a outra enfiando em seu cabelo, aprofundando mais o beijo. Quando ela afastou rapidamente o rosto foi que percebi que aquilo era real, e o meu rosto não fez questão de esconder. A larguei no exato momento, pronto para pedir desculpas.

— Riven, me des--

— Vai com calma, Yasuo. — Franzi o cenho. Ela ainda estava vermelha e ofegante. — Isso não é uma competição.

— Se não é uma competição, porque me beijou?

— Eu que deveria te perguntar isso! — Meus olhos não saíam da sua boca agora vermelha. Eu não soube dizer por quanto tempo a beijei.

— É óbvio que estou apaixonado por você. Você mesma já tinha percebido isso. — Uma pontada de tristeza começou a nascer, começando a pôr fim ao meu êxtase inicial. — Mas você não deveria sair me beijando assim, eu não sou de ferro.

— Então tudo bem pelo soco? — Sorri de canto, amargurado.

— Você pode me bater a hora que quiser. — Quando terminei de dizer isso, ela ponderou e vi o momento que ela rodopiou o pé no ar, e esperei pelo chute.

Agora eu estava sentado no chão, com as duas mãos para trás me apoiando, me perguntando o que estava acontecendo na cabeça da mulher que eu amava.

— Está com tanta raiva de mim assim? — Perguntei. Ela pareceu se acalmar e sentou sobre os calcanhares em minha frente, parecendo comportada. — Eu te confundi?

— Bastante.

— Eu achei que você já soubesse. Asa já sabia.

— Ele não me falou nada. Só me incentivou a vir aqui.

— Por que você veio? — Eu sorri. — Estava faltando saco de pancada lá na fazenda?

— Idiota.

— Eu quero ouvir. — Riven me olhou com seriedade.

— Eu achei que éramos parecidos… Mas assim como eu estou me recuperando do que eu fiz, você também conseguiu abrir um espaço no seu coração para mim. Eu senti inveja e senti raiva de você, porque eu sou estúpida e te machuquei tanto e mesmo assim você ainda me aceitou... Nós realmente somos parecidos? Eu não sei se consigo abraçar os meus sentimentos. Às vezes eles parecem tão certos...

Me aproximei, limpando minha mão na calça e depois a passando sobre os fios platinados.

— Você acha que eu quis isso também? Acha que eu não corri pro mais longe possível me sentindo o maior dos tolos?

Ela não disse nada, apenas veio ao meu encontro me abraçando com força. Eu podia sentir o calor que vinha de seu rosto suado pelo sol quando ela o encostou no meu ombro despido e também os braços fortes que me tiravam o ar. Eu o retribui, também me agarrando a ela, tentando me acostumar com uma realidade que eu tinha desistido de ter.



O que faz o passado ter o peso de uma pluma? Eu não sabia. Eu nunca soube. E achava que não tivesse o direito de saber. Como se fosse um segredo guardado em sete chaves, parecia algo que apenas os bons de coração tinham acesso. Eu não sou bom. Eu sou um pecador.

Um pecador que acabou por virar amante da mulher que ele mais deveria odiar. Talvez esse sentimento fosse minha condenação. Talvez fosse a minha redenção.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.