Anseios
2 II - Sobre ser a Terceira Roda
Notas iniciais
Anseios
Por Deusa Nariko
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II
Sobre ser a Terceira Roda
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É verdade que, na maioria das vezes, Hak buscava dar privacidade à princesa e ao jovem mestre quando ele vinha ao castelo.
Ele sabia perfeitamente que Yona gostaria de ficar sozinha com Soo-won e, apesar de seu melhor amigo sempre incluí-lo nas conversações e tentar arrastá-lo para perto quando tencionava se afastar, era desconfortável assisti-los interagir.
Também era frustrante ter de lidar com o ciúme quando Hak sabia que não tinha direito nenhum de alimentar aqueles sentimentos, muito menos de reclamar a princesa para si. E era injusto sentir inveja de Soo-won, que se mostrava sempre tão alheio tanto da afeição da prima quanto do conflito do jovem general.
Às vezes, ele desejava que Soo-won conseguisse enxergá-los. Se facilitaria as coisas ou não, isso ele não sabia. Mas, mais decepcionante do que a ingenuidade do jovem mestre para Hak, era a incapacidade da princesa de perceber os próprios sentimentos dele.
Parecia que os três amigos de infância estavam amarrados a uma situação da qual não podiam se livrar.
Naquela manhã, Yona correu até um dos pátios imensos do castelo, um borrão de cabelos vermelhos e saias lilases, para saudar o primo que havia acabado de cruzar os portões do castelo.
— Hak, Soo-won está aqui! — Yona havia dito toda sorrisos quando passou por ele. — Venha cumprimentá-lo!
Hak até relutou contra a ideia de se juntar a eles, preferindo descansar sobre a balaustrada de uma das sacadas, a cabeça apoiada contra uma viga e os olhos cerrados, que buscavam fugir daquele palácio, daquela realidade. Com o passar dos anos, ele percebeu que ficava cada vez mais difícil ignorar aquele aperto no peito.
Mas ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria indo para perto deles.
— Sim, sim, Hime-san. — Havia sido a sua resposta desencorajada junto de um aceno da mão, que dizia à princesa para ir à frente.
Ela não o esperou, disparando sem que precisasse de mais palavras de incentivos, como ele havia imaginado. E coube ao jovem guarda-costas suspirar pesado e impulsionar seu corpo para descer da balaustrada para segui-la à distância. Hak fez questão de arrastar seus passos, conscientemente ou não.
A princesa os levou até um dos imensos jardins do castelo, com flores desabrochadas, a grama muito bem aparada e um grande caramanchão coberto de trepadeiras no seu centro. Ao longe, Hak reconheceu a silhueta de Soo-won, que acenou para a princesa.
Ele era a imagem perfeita da espontaneidade e da extroversão. De sorrisos fáceis e palavras gentis, Soo-won era, de certa forma, o oposto de Hak, que não segurava a língua nos comentários sarcásticos e na honestidade nem sempre tão benquista.
Yona correu até o primo e não se conteve ao se lançar nos braços dele. Hak travou a mandíbula quando viu a cena, mas foi ao encontro deles de qualquer forma.
— Não acreditei quando disseram que você estava aqui, Soo-won! — ela disse e seu sorriso, de repente, se tornou um bico manhoso antes de decretar: — Você definitivamente precisa vir mais vezes aqui!
— Eu tenho viajado muito ultimamente, Yona — esclareceu com um de seus sorrisos doces. — Mas eu certamente adoraria passar mais tempo com você e com o Hak. Nesse ponto, vocês têm mais sorte do que eu por passar mais tempo um com o outro, não?
Yona fechou a expressão quando percebeu que o primo incluíra o guarda-costas na sentença.
— Com o Hak?! Nem pensar! Hak é um implicante, ele não sabe ser agradável.
Nesse momento, o Besta Trovão havia alcançado a ambos, com uma carranca evidente.
— Fico contente que a Hime-san se sinta dessa maneira a meu respeito — ele murmurou, por pouco não escondendo o desanimo na sua voz.
Soo-won, entretanto, o recebeu com o mesmo sorriso com o qual recebeu a prima.
— É bom vê-lo também, Son Hak Shogun — cumprimentou-o e ele crispou o rosto, quase enojado.
— Sem formalidades, por favor — pediu; já era ruim o bastante que ele tivesse de aturar a nobreza afetada naquele castelo, se passasse a receber o mesmo tratamento do seu melhor amigo, Hak perderia o pouco que lhe restava de compostura.
Yona segurou o braço do primo de repente, reivindicando a atenção dele:
— Conte-me onde esteve e o que fez dessa vez, Soo-won! Não poupe nada!
— Certo, certo — ele aquiesceu com outro sorriso.
Hak voltou a suspirar quando ambos passaram a vagar sem rumo pelo jardim, seguia-os um pouco mais atrás, ouvindo cada exclamação admirada da princesa e cada murmúrio de Soo-won.
De repente, a princesa se afastou do primo e bateu um dos pés no chão, frustrada:
— É tão injusto que o Chichiue não permita que eu saia do castelo. Queria viajar pelo reino como o Soo-won — acrescentou num tom tímido, escondendo o rubor evidente com a manga do vestido.
— Sua Majestade jamais permitiria isso — o primo argumentou com sensatez. — Além disso, uma princesa não deve se expor ao perigo, não é?
Hak decidiu interferir porque não conseguiu resistir à expressão manhosa de Yona:
— Ah, Hime-san, é melhor que nem mesmo pense nisso. Na única vez em que a levamos para Kuuto, lembra-se do que aconteceu?
Yona baixou os olhos para os seus pés, memorando o incidente com os sequestradores de crianças que por pouco não a tiraram da capital. Não fosse a astúcia de Soo-won e a força e a coragem de Hak, teria sido um destino bastante infeliz para a princesa.
— Hime-san é terrivelmente azarada, de fato, é mais prudente que a mantenhamos nesse castelo para sempre — ele concluiu com um sorriso e uma pose descarada que espantou o medo dela para longe e trouxe a indignação à tona.
— Insolente — ela chiou num sibilo, cerrando os punhos pequenos.
Soo-won, que observava os dois com uma expressão leve, enfim se manifestou:
— Vocês dois ainda se dão tão bem!
— Você ainda acha isso, Soo-won?! — Yona resmungou e Hak revirou os olhos.
O jovem nobre apenas alargou o sorriso para ambos em resposta. Yona, aparentemente indignada tanto pela falta de tato de Hak quanto pela inocência extrema do primo, ergueu o queixo, altiva, e girou os calcanhares, pronta para tempestear para longe dali como sempre fazia quando se sentia ofendida.
Entretanto, um passo em falso e um lapso no equilíbrio a mandaram para o chão com um grito interrompido pela metade. Soo-won e Hak imediatamente foram acudi-la, já que a expressão de dor no rosto da princesa alarmou a ambos. Pelo menos nisso ambos eram idênticos: na necessidade de cuidar dela e protegê-la de tudo, ainda que os sentimentos por trás de tais ações fossem evidentemente diferentes.
— Hime-san, está tudo bem? — Hak perguntou, ajoelhado junto aos pés dela.
— Ugh, acho que torci o tornozelo — ela respondeu baixinho, o rosto alvo crispado de dor enquanto o primo segurava uma das mãos dela, confortando-a.
Hak empurrou os bons modos de lado para pegar entre as mãos um dos pés da princesa, tomando cuidado extremo para não pressionar o tornozelo dolorido. Yona reagiu imediatamente ainda assim, cerrando os dentes audivelmente.
— Acho que está mesmo torcido — ele avaliou os danos, tentando suprimir a todo custo sua pulsação acelerada e a sensação da pele de seda dela entre os seus dedos.
Não conseguiu se impedir de provocá-la, tanto para distrair a si mesmo dos sentimentos alvoroçados no seu peito quanto para fazê-la se esquecer um pouco do desconforto.
— Hime-san, às vezes realmente acredito que tenha nascido com dois pés esquerdos.
— Ora, Hak! Mesmo agora... — interrompeu-se no meio da reclamação, entretanto, para estender uma mão e tentar tocar no tornozelo dolorido.
O jovem general se levantou e passou algumas instruções para Soo-won em seguida:
— Procure pelo médico e leve-o até os aposentos da princesa. O tornozelo dela pode precisar de algumas compressas para evitar o inchaço e aliviar a dor.
— Tudo bem — ele concordou imediatamente e disparou para longe dos dois e para fora do jardim.
Yona escondeu os olhos de Hak quando ele se aproximou com a clara intenção de pegá-la nos braços e levá-la dali, uma vez que ela não conseguiria andar por si mesma.
— Ature o seu servo insolente só mais um pouco, Hime-san — ele se desculpou, passando os braços por baixo dos joelhos e em torno da cintura dela, erguendo-a de uma vez e sem qualquer dificuldade, arrancando um arquejo da princesa que, sem pensar, atirou os braços ao redor do pescoço dele.
— H-Hak! — ela exclamou surpresa quando o Besta Trovão cruzou o jardim em longas passadas.
O silêncio que proveio dele, entretanto, era uma novidade para ambos. Sem comentários mordazes ou travessuras que ela pudesse retrucar. Apenas o som da respiração dele, instável, enquanto a carregava pelo castelo.
O próprio Hak estava tendo dificuldades para processar que tinha sua princesa nos braços, totalmente dependente dele. Ele lutou bravamente contra o instinto de enrubescer e tentou, sem sucesso, até mesmo acalmar seu coração, que lhe socava as costelas.
Podia sentir o perfume nos cabelos dela, os fios macios no topo da cabeça dela que lhe faziam cócegas no queixo, o calor suave do corpo dela, tão pequeno, aconchegado ao seu, e, por fim, os olhos grandes e curiosos da princesa sobre o seu rosto. Por isso, não se atreveu a abrir a boca até que a deixasse em segurança no seu quarto para ser acudida pelo médico da corte.
Hak quase nunca se sentia confortável por ficar entre Soo-won e a princesa. Seu coração lhe dizia que uma hora ou outra ele teria de deixá-la ir, e quem a esperaria do outro lado com toda a certeza (ele ansiava) seria o seu melhor amigo.
Mas em raras ocasiões como aquela, em que tinha a oportunidade de tê-la apenas para si, dependente e completamente vulnerável — ao seu alcance —, ele concluía que valia a pena.
Ser a peça desnecessária que sobrava entre os dois amigos.
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