Another Love Story

1 Another Love Story


Se parasse para pensar, diria que não fazia sentido algum.

Ela tinha esse jeito que todos julgavam estranho.

Sempre sozinha.

Sempre com aquela expressão que, para a maioria, significava que ela se sentia superior a todos, mas que, para mim, significava que ela era alguém com muitas coisas na cabeça.

Raramente ouvia-se a sua voz.

Eu mesma só a ouvia um par de vezes na aula, quando o professor de poções a forçava à responder suas perguntas. Uma voz suave e rouca. Delicada de tal modo que era como se acariciasse os ouvidos de quem a escutasse. Uma voz que me perseguia em meus sonhos.

Gostava de observá-la.

Entre as aulas, algumas das quais tínhamos em comum, ela ficava escondida pelos cantos, quase sempre com um livro. Às vezes eram romances trouxas, às vezes algum livro da biblioteca. Quando se cansava de ler, ela tirava a gravata verde e prata da Sonserina do pescoço e brincava com ela entre os dedos como se fosse o objeto mais fascinante que já tinha visto.

Poucas coisas explicavam porque ela foi parar nessa casa. Sempre achei que ela deveria ter sido enviada para a Grifinória, como eu, ou até mesmo para a
Corvinal. Mas quando eu a via jogar Quadribol nos treinos da equipe e via a
rebatedora incrivelmente perspicaz jogar com certos toques de agressividade e,
porque não dizer, crueldade, e inteligência fria e calculista, chegava a
conclusão que de o chapéu estava certo afinal.

Lembro-me de certa vez, quando por algum milagre, meus amigos me convenceram a assistir uma partida. Grifinória contra Sonserina, um clássico, disseram. Para mim era um esporte de bárbaros.

Foi a primeira vez que a vi jogar. Meus olhos a acompanharam o jogo inteiro, não pude evitar. Era lindo, cruelmente lindo, o jeito como ela jogava. Desviando-se com a desenvoltura de uma bailarina dos balaços que iam em sua direção. Mandando-os na direção de outros jogadores, quase sempre. A julgar pelo sorriso de arrepiar as espinhas que ela dava sempre que acertava, acho que era o exato lugar onde mirava.

Ela sofreu três avisos antes de ser expulsa e sair do campo com o rosto indecifrável àquela distancia. Ela ficou sentada nos bancos próximo a borda do campo olhando seu time passar rapidamente com as vassouras. Quando o jogo acabou a arquibancada da Grifinória foi esvaziando em silencio. Tínhamos perdido. De longe, como estava, vi seus companheiros eufóricos indo em sua direção. Ela foi embora antes que chegassem perto.

Se me perguntassem eu jamais saberia explicar porque uma pessoa tão taciturna, tão fechada em seu próprio mundo e que nunca me olhara duas vezes me despertava tanto fascínio. Talvez seja a áurea de mistério que parecia cercá-la onde quer que fosse. A postura confiante que nunca se abalava pelos comentários maldosos que circulavam pela escola, muitos feitos por seus próprios colegas de casa.

Era como se todos os outros alunos, com suas mentes pequenas, fossem apenas um simples obstáculo do qual ela se desviaria facilmente até chegar ao seu destino; seja qual for.

As coisas não duram até que finalmente chegara o dia em que ela me notaria.

Estávamos no quarto ano. Era uma sexta-feira à tarde, na aula de história da magia, ela estava sentada na fileira da frente na mesma direção da cadeira ao meu lado que era ocupada por um garoto baixinho e magricela da Lufa-Lufa. A professora passara um trabalho em dupla e, com o objetivo de fazer com que a turma saísse da zona de conforto das velhas panelinhas, pediu que os alunos de algumas fileiras trocassem de lugar de maneira que os últimos se sentariam na frente e o resto iria uma cadeira para trás. Os ajustes de lugares a fizeram se sentar ao meu lado. O breve “olá” — polidamente forçado, devo acrescentar -, foi o suficiente para me deixar amolecida.

Gostaria de poder dizer que esse primeiro contato foi o estopim de nossa amizade, mas não foi bem assim. Para começar, era quase uma luta herculana manter uma conversa com ela. Simplesmente porque ela parecia não gostar de falar.

“Eu me chamo Nicole French, mas você pode me chamar de Nic. E você?”

Ela respirou fundo.

“Tonks.”

“Oh, você é parente do Ted Lupin.”

Outro suspiro impaciente.

“Sim.”

“Sabe, minha mãe lutou com os pais dele na última Grande Batalha-.”

“Eu gostaria de prestar atenção na aula, se não se importa.”

Ela nem ao menos se incomodou em olhar em minha direção ao me cortar como uma navalha afiada.

E foi isso. Nosso primeiro diálogo.

Eu me senti tão idiota naquele momento. Depois agradeci por saber que aquele trabalho que faríamos juntas seria feito ao longo de todo o ano. Foi muito trabalhoso, frustrante e, em algumas vezes, muito irritante, estar como alguém como ela, mas acho que, em algum momento durante aquele ano, ela decidiu que podia confiar em mim o suficiente e permitiu que eu adentrasse seus muros.

No quinto ano estávamos sempre juntas, mais por insistência minha do que por uma real vontade dela, eu acho, e, embora os alunos ainda cochichassem quando nos viam passar, eram poucos os que mexiam diretamente conosco. Principalmente depois que ela transformou dois alunos da Sonserina em gambás quando nos chamaram de sangue-ruim. A diretora McGonagall não ficou feliz e fez os três trabalharem com o professor Longbottom como castigo por dois meses. Lembro de sempre encontrá-la nos corredores extremamente desgostosa depois das tarefas, alegando que seu talento estava sendo “irresponsavelmente desperdiçado ao brincar de jardineira” com olhos inflamados pela cólera e os dentes tão cerrados que poderiam travar desse modo para sempre.

Ela era mesmo da Sonserina.

Já estávamos no sexto ano quando nos beijamos pela primeira vez.

No meio de uma noite qualquer, eu acordei com um aviãozinho de papel enfeitiçado voando sobre a minha cabeça e que me guiou até o salão comunal. Qual não foi a minha surpresa ao vê-la sentada na poltrona com a lareira acesa.

“Tonks? O que faz aqui? Como conseguiu entrar? Se alguém pegar você, vai ser expulsa.”

“Não exagera, Nic. Sei me cuidar. Além do mais, eu estava entediada. Não tinha nada para fazer.”

Ela ainda não tinha desviado os olhos do fogo.

“Você pensou em dormir como uma pessoa normal?”

“Pensei… Mas acredito que alguém enfeitiçou minha cama. Não consigo dormir nela.”

Um leve franzir formou rugas quase imperceptíveis entre seus olhos. Em momentos como esse, Tonks me lembrava uma criança, confusa com o mundo ao seu redor.

“Sinto muito.”

“Não sinta, aquelas meninas terão uma surpresa e tanto quando acordarem.”

Aquele sorriso cruel que se formou em seu rosto, o mesmo de quando a vi jogar pela primeira vez, era um dos meus maiores medos. Fazia pensar que, assim como quase todos os bruxos da Sonserina, Elise Tonks possuía uma veia maligna que estava sempre escondida sob a superfície. Só esperando um descuido para reclamá-la para si.

“O que você fez?”

Eu tinha total direito e razão em ficar assustada com as probabilidades.

“Não importa. Senta aqui comigo.”

Ela finalmente tinha virado para mim, e eu me perdi no brilho daqueles olhos cinzentos.

Não sei quanto tempo ficamos sentadas nas poltronas, olhando a lareira e jogando um pouco de conversa fora. Em algum momento eu me vi no chão, sentada ao seu lado com seu braço ao meu redor, a noite era fria mesmo que a lareira estivesse acesa. Acho que falávamos sobre poções quando ela se virou para mim e notei quão próximos estavam nossos rostos. Eu fiquei sem ar.

“O que é, Nic?”

Aquela voz… A voz que ocupava meus sonhos ficava infinitamente mais bonita quando ela me chamava de Nic, o que era raro. A sombra de um sotaque qualquer que fazia o som do C ficasse um pouco mais afastado e quase sumir ao final, como um sussurro. Os pelos da minha nuca se arrepiavam todas as vezes.

“Nada... É que eu nunca tinha reparado que seus olhos têm pintinhas azuis.”

Tonks deu o sorriso mais lindo que eu já tinha visto. O meu sorriso. Não pude me controlar e, quando dei por mim, meus lábios tinham pousado sobre os dela. Ela não se moveu a princípio, acho que a assustei um pouco. Com medo de ter feito algo que ela achasse muito ruim, tentei me afastar e sair correndo de volta para meu quarto, mas ela apertou seu abraço e, depois de segundos intermináveis, eu senti sua língua invadindo minha boca. Eu nunca me senti tão feliz.

“Tonks.”

Eu estava sem voz. Se não estivéssemos tão perto talvez ela não tivesse escutado.

“Nalla.”

“O que?”

“Me chame Nalla.”

“Nalla?”

“É o meu primeiro nome. Significa amada em um dialeto usado em um romance trouxa que meu pai gostava.”

Tonks nunca tinha dito nada sobre sua família até então.

“Nalla… Eu gostei de como soa.”

“Gostei de como o diz.”

Seus absurdamente profundos olhos tinham um leve brilho zombeteiro.

Uma piada. Ela contava uma a cada um milhão de anos, quase sempre sem intenção… Ou ritmo.

“Por que não me lembro de ouvir o professor Cromwell te chamar por esse nome na seleção de casas? Nenhum professor, aliás.”

“Porque quanto recebi a carta de admissão, entrei em contato com a diretora McGonagall e solicitei que ninguém me chamasse assim. Ela atendeu meu pedido.”

“Por quê? É um nome tão bonito.”

“Não me sentia amada o bastante para usá-lo. Não parecia certo.”

Sua voz era um misto de saudade e mágoa.

“E parece agora?”

Aquele sorriso, que só aparecia quando estávamos sós, surgiu novamente. Era a visão mais linda do mundo: ver minha Nalla sorrir. Ela demorou tanto tempo para responder que não achei mesmo que o faria.

“Talvez.”

Foi a primeira vez que me senti no paraíso aquele ano.

Depois do primeiro beijo não houve outros naquela noite. Ficamos conversando até que fui vencida pelo cansaço e adormeci em seus braços. Na manhã seguinte, acordei em minha cama. Nunca soube como ela me levou até lá e saiu sem que ninguém a visse.

Durante o café da manhã os boatos de que três garotas da Sonserina tinham amanhecido com os cabelos amarrados na cabeceira da cama e os lençóis colados na madeira se espalharam como peste por toda a escola. Soube antes mesmo de me sentar à mesa com meus companheiros de casa. Não pude evitar levar meu olhar em direção a Tonks, sentada no canto mais afastado da mesa da Sonserina. Sua postura não indicava nada fora do comum, apenas os cantos de seus lábios levemente apontados para cima indicavam o quão satisfeita ela estava com toda a situação. Aquela era a surpresa que havia comentado.

Mais tarde naquele mesmo dia o segundo beijo foi dado. Dessa vez por ela. Tinha ido procurá-la a fim de conseguir uma explicação plausível para o ocorrido de manhã. Aquele tipo de comportamento era abominável e nenhum argumento meu parecia fazer o efeito desejado, ao contrário, só a faziam cerrar ainda mais os dentes, até que ela se cansou de discutir comigo. Em um minuto travávamos uma guerra, no outro eu me vi prensada contra a parede sob as escadas com seus lábios atacando avidamente os meus.

“Finalmente descobri uma maneira eficiente de silenciar você”.

Os encontros furtivos durante a madrugada passaram a ser comuns. E o beijos também. Durante muito tempo, nada dissemos a respeito. Era como se sempre tivéssemos feito aquilo. Mas quando o sétimo ano chegou e, além de algumas mãos bobas e amassos pesados as escondidas, nenhum passo foi dado a mais no nosso relacionamento indefinido, a exaustão e a frustração foram ganhando espaço dentro de mim.

Em um dia qualquer, eu explodi.

“O que acha que sou? Algum brinquedo que você pode usar e guardar?”

“O que você quer de mim?”

Sua voz saiu ligeiramente mais alta do que de costume. Trêmula.

Tonks era o tipo de pessoa que, não importa o quão irritada esteja, não mostraria nada além de controle absoluto.

Mas não nesse dia.

“Eu quero mais, Tonks. Eu preciso mais.”

“Sinto decepcionar você, mas isso é tudo o que eu tenho a oferecer.”

Foi como na primeira vez em que nos falamos. As navalhas cortando direto em meu coração.

Não me lembro de alguma vez ter chorado tanto quanto naquela noite. Depois daquilo, Tonks e eu parecíamos ter voltado ao quarto ano onde eu apenas a admirava de longe, silenciosamente, enquanto ela mal notava minha existência. Porém, desta vez, sempre que a olhava a distancia, eu recebia seu olhar de volta. Olhos tão intensos e tão misteriosos que tornavam impossível saber o que se passava pela cabeça dela.

Chorei muitas noites pela sua ausência.

Em uma noite, uma das poucas em que eu não chorava, já era alta madrugada quando o sono finalmente chegou. Eu odiava ficar na sala comunal da Grifinória, a lembrança de todos os momentos que vivi ali eram fortes demais, mas era também o único local que me oferecia algum tipo de consolo. Me arrastei até minha cama e estava quase adormecendo completamente quando ouvi um sussurro: “Abaffiato”; e então, algo pesado se deitou sobre mim me fazendo abrir os olhos, assustada.

Tonks estava sobre mim com o rosto vermelho e os magníficos olhos cinzentos chorosos. As pintinhas azuis pareciam querer cobrir todo o cinza. Ela nunca esteve tão linda e tão emocionalmente exposta. Meu coração ainda se aperta ao lembrar de quão frágil e vulnerável ela me pareceu naquele instante.

“Tonks, o que está fazendo? Ficou louca? Você não pode ficar aqui.”

O feitiço não me dava segurança o bastante para falar mais alto de um suspiro mesmo sabendo que ninguém nos ouviria. Ainda poderiam nos ver.

“Eu não sei mais.”

A voz sempre tão firme e autoritária estava assustadoramente fraca e hesitante.

Fez com que minhas lagrimas teimosas começassem a se manifestar.

“Você tem que sair.”

“Não consigo. Eu tentei, juro que tentei, mas não consigo.”

“Do que você está falando? Vá embora.”

“Eu não sei mais viver sozinha. Não consigo. Não outra vez.”

“Foi você quem foi embora.”

Tonks soltou o folego como se tivesse levado um soco no estomago.

“Não sou o que você precisa que eu seja. Nasci estragada.”

Mais uma vez aquela magoa desconhecida envolvia sua voz.

Tão triste. Tão infinitamente bela.

“Quem colocou essas coisas na sua cabeça?”

“Não sou a melhor para você, mas, por favor, por favor, me perdoe. Posso tentar ser melhor. Eu prometo.”

“Tonks, me escute com atenção. Não há nada de errado com você. Ter te conhecido é uma das melhores coisas que já me aconteceu.”

Não me lembro de alguma outra vez tê-la visto tão perturbada. Os fantasmas do passado que ela se recusava a me contar finalmente pareciam ter levado o melhor dela.

Ela não parecia me escutar completamente.

“Eu prometo. Por favor, me deixe tentar ser melhor.”

“Okay. Tudo bem. Agora vá embora antes que alguém acorde e veja você.”

Tonks parou por um momento. Analisando o que eu havia dito. Ela, enfim, se afastou e, por um segundo, pude respirar aliviada por não ter que me preocupar se nos expulsariam. Mas ela não tinha a intenção de sair. Assisti hipnotizada enquanto ela retirava as próprias vestes deixando a mostra o que pareciam roupas trouxas. Nada mais que um minúsculo short e uma camiseta branca, tão fina que mesmo no quarto escuro era possível entrever os bicos dos seus seios enrijecidos pelo frio sempre constante.

“Tonks, o que está fazendo? Não podemos.”

“Não me julgue mal. Eu só quero sentir você em meus braços. Ninguém vai me ver. Apenas me deixe senti-la, por favor.”

Adormecer em seus braços, com a cabeça em seu peito, ouvindo o coração dela bater compassado, era como estar no céu. E, enquanto o sono chegava com força depois dos minutos de estresse, e eu sentia os macios braços evolvendo minha cintura com força, como se ela quisesse garantir que eu não sairia dali, pude ouvir mais uma vez um sussurro antes de dormir completamente.

“Eu amo você.”

Aquele pequeno espaço de tempo se tornou minha definição de felicidade.

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