Another Life
10 Lutando
Notas iniciais
Era uma dessas florestas de beira de estrada próxima a Tucson — o lugar onde eles tinham ido coletar os remédios. Não questionei a Kyle exatamente como ele sabia onde era o local; se eu tivesse me aventurado sozinha, provavelmente não encontraria. Contudo, eu confiava nele. Sabia que era a floresta certa.
— Quais animais que tem por aqui? — perguntei preocupada, seguindo-o mata adentro no escuro da madrugada. Estava perto do alvorecer, mas o céu ainda estava escuro sobre nossas cabeças.
— Não sei — ele murmurou, sem vacilar em seus passos. — Mas eu trouxe uma arma. Não se preocupe com isso.
Meus passos diminuíram de ritmo, até se extinguirem totalmente. Fiquei encarando as folhas sem contorno que os meus pés esmagavam, com o cenho franzido em desgosto.
— Por que parou? — ele questionou, parando também e direcionando a luz da lanterna ao meu rosto.
— Você pretende... matá-los? — minha voz estava assombrada de um receio vacilante e impossível de compreender.
Kyle fez uma careta de desentendimento.
— Claro, Susi — ele respondeu. — Se eles nos incomodarem.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, meio transtornada com os pensamentos que me invadiram. Mas eles eram reais. Demasiadamente reais. E me assaltaram de uma forma tão verdadeira que pareciam a única certeza no universo.
— Não podemos fazer isso — conclui, encarando o nada no meio de uma floresta cheia de árvores.
— Por quê?
— Ora... — por alguns instantes eu fiquei sem voz, com a boca aberta, pronta para qualquer coisa. Balancei-me em meus calcanhares. — Ora, eles foram a única coisa que sobrou, não? — murmurei, meio confusa. — Não é? Eles não foram dominados pelos alienígenas. Os únicos no planeta Terra. Os únicos que ainda tem uma vida autônoma. Eles são livres, ninguém os controla. Somente eles... e eles. Levando a mesma vida, como se absolutamente nada tivesse acontecido. Não podemos tirar a vida deles. Nós... simplesmente não temos esse direito, Kyle. Nós... não temos... — minha voz sumiu enquanto meus olhos mergulhavam em água salgada. Era uma tristeza densa e insuportável. Pensei que eu fosse cair de cara no chão úmido da floresta.
Kyle avançou os poucos passos que nos separavam e me puxou para seu corpo com uma naturalidade assustadora. Uma naturalidade que semanas atrás não existia. E eu chorei em sua frente com tranquilidade e abertamente, como eu costumava fazer com...
Agarrei o tecido fino de sua camiseta e afundei meu rosto em seu peito, soluçando tudo aquilo que me sufocava. Se antes eu tinha dito que não choraria mais por Jamie, estava assustadoramente enganada. Era inevitável. Tudo aquilo me sufocava de uma forma impossível. Era a dor mais insuportável que eu já tinha sentido na vida.
— Nós estamos livres, não é? — ele sussurrou, mas eu sabia que ele entendia sobre o que eu estava falando quando me referi aos animais. Ele me entendia.
— Isso não é justo — solucei, ainda agarrada à sua camiseta como se fosse a última coisa em que eu pudesse me segurar. No fundo, eu sabia que era. — Não é nem um pouquinho justo.
Ele esperou um pouco para falar.
— Mas aconteceu, não é? — ele murmurou, ninando o meu corpo. — E você não pode fazer nada para reverter o fato de já ter acontecido. Você só pode lutar pelo futuro, Susi...
E como que a minha mente perdida entenderia aquelas palavras verdadeiras e que visavam me confortar? Eu estava cega, surda e muda. Jamie levou todos os meus sentidos com ele. A única coisa que havia me restado eram lágrimas ácidas e pesadas escorrendo pela minha face com uma frequência assustadora. Meu corpo rejeitava o conforto e a sabedoria. Eu estava perdida no meio de uma floresta e dentro de mim mesma.
Nunca pude imaginar que uma única pessoa pudesse levar um pedaço tão grande meu consigo. Meu coração estava repartido, recortado, rasgado. E somente Jamie era capaz de costurá-lo e fazê-lo bater normalmente. Ele não estava comigo.
— Vamos — Kyle ordenou silenciosamente quando clareou. Ele me rebocou uma boa parte do caminho, enquanto eu molhava a sua blusa lentamente com minhas lágrimas de pura dor. Ele não disse mais nada e eu o agradeci mentalmente para isso. Não tinha forças para conversar mesmo.
O dia clareou. Nós andamos. Comemos. Andamos mais ainda. Vez ou outra, Kyle parava e analisava o mapa que eu nem ousava espiar. Não me importava para onde estava indo, contanto que fosse em direção a Jamie. Meu Jamie. Então, eu encostava-me ao tronco de uma árvore qualquer e olhava os pássaros, as formigas e as aranhas vivendo tranquilamente, sem que estivessem sendo controladas por uma parasita.
Aquele não era o caso de Jamie, é claro. Mas aquilo era a causa de tudo, de toda a minha desgraça. Aqueles malditos parasitas...
— Pronta? — Kyle perguntou, com as duas mochilas que ele carregava já arrumadas em seu corpo. Assenti e joguei a minha mochila em meu ombro, seguindo-o entre tropeços através das florestas.
Era um dia bonito, ensolarado. O sol invadia a floresta e a deixava clara e cheia de vida, contudo nem mesmo o clima agradável conseguia apaziguar o meu sofrimento. A vida estava viva fora de mim, mas por dentro eu era corroída por uma morte lenta e dolorosa. Uma morte que não me matava; e que tampouco me mantinha viva.
Era o pior tipo de morte que podia existir: aquela que você não morre.
— Olha só, uma cachoeira — Kyle exclamou, fingindo uma animação que eu sabia não ser verdadeira.
Já havia escurecido na floresta e nos guiávamos através da luz das lanternas. Mas tínhamos de parar e descansar, para conseguirmos enfrentar mais um dia de buscas. E, por sorte ou destino, encontramos uma cachoeira, na qual podíamos nos banhar e repousar em seguida.
Eu tinha consciência de que nem sempre teríamos essa sorte de encontrar um lago ou uma cachoeira e que eu deveria ficar mais feliz pelo nosso ganho do dia; mas olhar para aquela cachoeira e ouvir as vozes da água escorrendo fez-me recordar de um dia — parecia séculos anteriores — em que fomos até uma cachoeira durante uma incursão.
Eu e Jamie ainda não tínhamos nos assumido ou nos beijado, mas já tínhamos certeza de nossos sentimentos recíprocos. Durante toda a viagem de ida, ele segurou em minha mão. Senti-me tão protegida e completa que a única coisa que fui capaz de fazer foi sorrir sem mostrar os dentes a viagem toda, não escondendo a minha satisfação.
Quando chegamos à cachoeira, houve brincadeiras por parte de Peg e Ian, o que tornou todo o clima agradável. Eu já sabia de nosso parentesco e me contentava vê-lo sorrindo e se divertindo de uma maneira real. De uma maneira única.
Fiquei somente com minhas roupas íntimas e senti um pouco de vergonha diante de Jamie, mas não o bastante para me conter. Lembro-me de termos nos jogado na água e rido bastante, assim como me lembro de que subíamos nas costas uns dos outros para nos derrubarmos. Eram brincadeiras leves e divertidas. E raras.
Jamie queria me ensinar a boiar. Ele me conduziu até um dos cantos da cachoeira e me deitou sobre a água, apoiando a sua mão abaixo de meu corpo. Sua mão em contato com a minha pele nua me fazia delirar. Queimava nos lugares em que ele encostava e eu não conseguia me concentrar o suficiente para boiar. Nem mesmo queria isso.
Somente queria sentir sua mão, seu contato, olhar seu sorriso e afundar em seus olhos castanhos. Era a única coisa que me importava.
Kyle me tirou do meu torpor.
— Quer ir antes? — ele ofereceu, apontando para a água.
— Tanto faz — dei de ombros, soltando a minha mochila no chão ao meu lado e pegando a bainha de minha blusa, sem me importar com o olhar inquisidor de Kyle.
— Se precisar de alguma coisa, estou logo ali atrás daquela árvore — ele disse, se afastando de mim. Assenti.
Despi-me rapidamente e afundei na água fria, que inicialmente me arrepiou e fez meu queixo estremecer. Contudo, a frieza da água não entorpecia meu sofrimento tanto quanto eu gostaria. A dor ainda queimava o meu corpo, forte demais para eu conseguir suportar com um falso sorriso ou uma falsa satisfação.
Peguei um sabonete para me ensaboar e uma gilete para depilar as minhas pernas e as minhas axilas. Lavei o meu cabelo com o sabonete, sabendo que ele ficaria ressecado. Era a única coisa que eu dispunha. Suspirei fracamente, tentando relaxar na água.
Porém, relaxar significava pensar. E, em minha situação, isso significaria lembrar. Com uma calma assustadora, tentei boiar; realmente acreditei que não conseguiria. Mas eu consegui. Meu corpo se equilibrou sozinho sobre a água.
A princípio, me satisfiz com o meu avanço. Até mesmo fechei os meus olhos para potencializar a sensação. Contudo, não demorei a perceber o óbvio: eu havia conseguido. Não tinha nenhuma mão me apoiando, nenhuma voz sussurrando frases incentivadoras em meu ouvido.
Eu havia conseguido.
Sozinha.
Com uma rapidez assustadora, corri para fora da água como se um monstro assustador estivesse à espreita para me atacar. Estava nua ainda, meus pés molhados esmagando as folhas caídas no chão e a terra os sujando. Meu olhar estava perdido, assustado e a única coisa que eu tinha vontade de fazer era me sentar no chão e chorar. Mas eu não podia.
— Susi...? — Kyle chamou de trás das árvores e ouvi seus passos avançando em minha direção.
— Não, Kyle — gritei meio desesperada, escondendo as minhas partes íntimas com as mãos da forma que eu conseguia. — Não precisa vir. Eu ainda... não me vesti. Não aconteceu nada. Juro.
Seus passos paralisaram.
— Certeza?
— Sim — respirei aliviada. — Me espere onde você está.
Ele não me respondeu, mas eu soube que havia entendido. Tentei controlar a minha respiração meio desenfreada enquanto secava meu corpo e colocava a mesma roupa que estava usando; não podia me dar ao luxo da troca frequente.
Por alguns segundos, encostei-me a uma árvore para me acalmar. Fechei meus olhos e tentei não me lembrar do fato de ter conseguido boiar sem a ajuda de Jamie. Não parecia certo ter um triunfo sem ele perto para comemorar. Sobretudo, não parecia certo conseguir sozinha uma coisa que fazíamos juntos. Soava errado. Fora de contexto. Deslocado.
Acalme-se, Susi. Era só uma coisa qualquer. Era só boiar. Ridiculamente estúpido, não?
Não.
Abri meus olhos. Por ora, o certo era esquecer. A questão era: como?
Engoli em seco, avançando para onde Kyle estava.
— Oi — murmurei, vendo a fogueira que ele havia feito entre nossos sacos de dormir.
Ele não sorriu, não fez expressão nenhuma, nem mesmo se moveu. Continuou parado, sentado no chão, encarando as luzes fascinantes emitidas pela fogueira.
Ele não parecia admirado.
Avancei até perto de onde ele estava e me sentei ao seu lado, sem realmente estar em contato com ele. Meu cabelo pingava em minhas costas, contudo eu não tinha ânimo para deixar a água acumulada escorrer. Não tinha forças nem mesmo para penteá-lo.
— Sinto muito — sussurrei, lutando contra novas lágrimas. Aquilo era uma droga; chorar era uma droga. Viciava tanto quanto heroína, deteriorava tanto quanto o craque e matava tanto quanto o fumo — lentamente.
— Você vai ter que aguentar — ele murmurou, sem me olhar. Vi seus braços abraçarem seus joelhos e ele enterrar a cabeça em suas pernas. — Caso contrário nós desistimos.
O desespero me consumiu; percorreu todo o meu corpo com uma rapidez assustadora. A rapidez do fogo, da água e do vento. Passei a agir.
— Não — o meu protesto foi um grito; um grito com emoção, com vida. Com verdade. A primeira fala com verdadeira entonação durante o dia. — Nós não podemos desistir, Kyle! Nós não vamos!
— Se você continuar com esse comportamento nós vamos sim — ele retrucou, encarando-me com fogo no olhar. — Caramba, eu sei que foi recente! Que machuca muito, insuportavelmente. Eu sei de tudo isso. Mas esse foi apenas nosso primeiro dia. Quantas crises você teve por algumas lembranças?
Fiquei sem ter o que falar, principalmente com ele parecendo tão mandão e dono da verdade. Senti-me encolhida, enquanto ele se agigantava ao meu lado.
— Isso não pode acontecer o tempo todo.
— Não vai — repliquei automaticamente.
— Jura? — ele questionou, parecendo meio descrente. Suas forças se esvaíram de repente quando ele se levantou e pegou sua mochila. Pensei que fosse embora. — Pois eu não acho. Você tem uma semana para me provar isso. Mas se tiver uma crise amanhã... bem, aí a nossa aventura acaba amanhã mesmo.
Suas palavras entorpeceram os meus músculos e senti-me um pouco nauseada.
— Espera aí — interrompi-o enquanto ele caminhava em direção à cachoeira. — Uma semana? Acha que levaremos tudo isso?
Ele parou os seus passos e demorou um pouco para se virar para me olhar. Porém, quando me olhou, eu entendi tudo. Não seriam simplesmente dias. Os dias se transformariam semanas. Provavelmente insuportáveis, com a dor tão aguda que chega a paralisar as funções do corpo. E se as semanas se transformassem em meses?
— Acho que levaremos muito mais que isso — ele respondeu, ameaçando virar e continuar seguindo seu caminho. No entanto, ele pareceu pensar melhor e proferiu algumas palavras simples; mas que traduziam tudo o que eu sentia. — São os fantasmas, não são? Eles perseguem incansavelmente. Somente você os vê. São inexplicáveis. Constantes. São camaradas chatos que fazem você se entristecer — ele deu de ombros. — Eu sei como é, também tenho os meus. Você só não pode deixar que esses camaradinhas suguem a tua vida e te tirem tudo o que tem. Lute contra eles. Você é humana, tem carne, força e é uma sobrevivente. Pode ganhar deles. Ganhe deles.
E então ele se foi, sem olhar para trás novamente.
Fantasmas. Exatamente isso. As lembranças são os meus fantasmas que me perseguem e me impedem de seguir em frente. Eu tenho que chutá-los para bem longe ou ignorá-los. Talvez... talvez interpretá-los como algo bom. Talvez deixá-los me abraçar sem sugar a minha vida. Eu posso lutar; contra ou a favor deles, e das duas formas eu ganho. São os meus fantasmas que decidiram que eu sou um bom alvo, vulnerável, fraco. Tormentos que me deixam mais fraca.
Mas eu não sou fraca. Não é? Não é? Jamie, onde você está para me dizer que eu não sou fraca?
Ele não me respondeu. Não teve nenhuma voz do além que fez eu me arrepiar de medo. Houve somente um pensamento — meu pensamento — que me disse que ele estava em algum lugar da floresta, esperando para me responder.
E foi isso que renovou as minhas forças. Não foi nada muito definitivo, nada de levantar com o peito estufado. Eu continuei sentada em frente à fogueira, encarando-a, a feição ainda presa à tristeza da perda. Não era tão forte assim. Contudo, era forte o bastante para traçar um plano contra os meus camaradas. Era forte o bastante para aguentar sem ter uma recaída em frente à Kyle.
Sobretudo, era forte o bastante para continuar lutando a fim de encontrar Jamie um dia após o outro; para sempre, se fosse necessário.
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