Notas iniciais
Última sexta-feira para Another Life, dá pra acreditar?! Caprichei nesse último capítulo, espero que vocês gostem! Leiam ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=mxk24nL7xQY Boa leitura :*

— E então, vamos dançar? — disse Jamie, estendendo sua mão para mim.

Ao olhar em seus olhos derretidos sob a pacata luz da sala de jogos, pareceu-me que tivessem se passado anos desde a última vez que ele me fez uma proposta parecida. Naquela vez, movida pelo constrangimento, eu fiz uma cena e neguei a princípio o pedido.

Mas o tempo passou.

E eu aprendi que desperdiçar qualquer segundo ao lado da pessoa que você encontrou para amar é bobagem.

— Por quê? — eu estava sorrindo delicadamente para ele, alheia a qualquer outra pessoa que nos olhava.

— Por que não? — ele cochichou em meu ouvido.

Deixei que ele pegasse em minha mão e me levantasse. Não havia dúvidas ou constrangimentos. Éramos nós dois, somente nós dois, mesmo que no meio de toda a população da caverna. Éramos os únicos em pé, os únicos que falávamos. Todos nos olhavam. E, mesmo assim, eu não me importava. Enquanto eu estivesse com Jamie, eu jamais me importaria.

Ele colocou uma mão na base de minha cintura e aproximou nossos corpos. Apoiei um de meus braços em seu ombro e com a minha outra mão eu segurei a sua. Ele sorria amplamente, refletindo o que eu imaginei que fosse a minha expressão. Foi ótimo quando ele passou a nos embalar ritmadamente e com uma certeza inabalável. Seus olhos de chocolate derretido também sorriam.

A princípio, somente nós estávamos dançando, os nossos passos ritmados fazendo a melodia da canção inexistente. O lugar estava silencioso. Algumas vezes o meu riso se sobressaía ou os nossos passos perdiam o ritmo quando ele me girava em torno de mim mesma. Os únicos sons eram esses; únicos, até que Ian saiu correndo a toda velocidade da sala de jogos. Estranhei, mas não fiz questão de perguntar para Peg. Estava confortável ficar nos braços de Jamie.

Quando Ian voltou, trazia um violão em sua mão e um sorriso amplo e satisfeito em seus lábios. Ele tocava! Mesmo com anos de convivência, nunca poderia imaginar que ele tocasse violão. Deveria ser algo da época que eu não o conhecia. Perguntaria a ele mais tarde ou qualquer dia que estivéssemos com tempo e eu me recordasse desse fato. Naquele momento, no entanto, parecia algo idiota demais perguntar a origem daquilo quando os acordes tocados faziam eu me sentir tocada por uma emoção invisível e arrebatadora. Era agradável, feliz. Fazia eu me sentir em casa.

Já fazia um mês que as nossas vidas tinham voltado ao normal. Jamie tirou a barba — uma pena, porque eu realmente gostava dela, o deixava com um ar mais maduro —, Kyle voltou para Sunny com a felicidade de um cachorrinho que retorna para o dono, Ian continuava extremamente protetor com Peg e Jeb… bem, ainda era a sua casa e as suas regras. Foi ele que propôs essa reunião. Jogamos por um tempo, até que nos cansamos e ficamos espalhados pelo local em pequenos grupos de conversa. Foi quando surgiu a proposta de Jamie, que mudou todo o clima cansado.

A partir do momento que Ian voltou com o seu violão, outros casais começaram a se levantar diante da melodia agitada. O primeiro casal a se levantar foi Kyle e Sunny, por mais incrível que possa parecer.

— Vamos lá, Sunny — Kyle falou em alto e bom som, a sua obviedade e animação transparecendo. Eu tinha sentido falta do Kyle explícito no tempo que passamos naquela floresta. Ele já estava em pé e com a mão estendida, transferindo o seu peso de uma perna para a outra em sua ansiedade.

— Eu tenho vergonha — ela disse em um muxoxo tão baixo que se eu não estivesse tão perto não teria ouvido. Ela pareceu ter corado através da pele oliva.

— Vergonha não é algo que se aplique nessas reuniões — ele simplificou, pegando na mão dela e a puxando rapidamente. Ela se equilibrou nele. — E nós vamos dançar.

— Eu não sei dançar — ela realmente parecia envergonhada e desesperada.

Finalmente, Kyle pareceu perceber toda a situação em que estava colocando a sua amada. Com uma gentileza que ele tinha somente com Sunny, segurou seu rosto entre suas mãos e falou a ela com uma voz calma e tranquilizadora: — Não tem problema. Eu te ensino.

E só então que Sunny se rendeu.

Relação estranha aquela que os dois compartilhavam. Às vezes, Kyle esquecia-se de quem Sunny era e a tratava de maneira bruta, a maneira como ele realmente costumava ser, mas então… Então tudo mudava e ele fazia dela a pessoa mais especial e mais amada do mundo com suas atitudes gentis. Curiosa aquela relação. Não havia uma linearidade, um padrão. Era imprevisível. Impossivelmente adorável.

Ele a embalava calmamente enquanto ela escondia sua cabeça no peito dele. Kyle flagrou o meu olhar e sorriu para mim de maneira ampla, arqueando suas sobrancelhas, olhando para Sunny e tornando a olhar para mim. Assenti com um sorriso. Ele continuou me encarando com uma expressão satisfeita.

Logo, vários casais começaram a se juntar a nós. Jared e Melanie, Andy e Paige, Trudy e Geoffrey, mesmo Doc e Sharon se renderam. As crianças Isaiah e Liberdade — que agora não eram mais tão pequenas — também se juntaram à aglomeração, dançando animadamente em torno de Lucina. Até Jeb, de alguma forma, puxou Maggie — a velha rabugenta — para perto dele.

— Eu não vou dançar, velho bobo — ela ralhou com uma carranca nada agradável. Estavam perto o suficiente para eu ver e ouvir tudo.

— Posso até ser velho bobo, mas não desperdiço esses raros momentos da vida, Magnolia.

Ela ficou o encarando um bom tempo com as mãos na cintura, sua expressão ainda severa.

— Se eu me arrepender, Jebediah…

Mas ele não deu tempo de ela concluir, puxando-a logo pela cintura e não perdendo tempo ao se entregar ao ritmo da música. Ela resistiu por um tempo, até perceber que era algo gostoso de se fazer. Logo ela estava sorrindo — era a primeira vez que eu a via sorrir.

— Até que você serve para alguma coisa, velho bobo — e não havia maldade em sua voz. Jeb simplesmente riu.

Todos dançavam de alguma forma, menos Peg e Ian. Ian tocava violão e Peg estava sentada ao lado dele, olhando fascinada para todos. Se na primeira vez que eu a vi pensei que ela fosse uma impostora que estivesse enganando ao meu irmão, agora eu a tinha como uma amiga ou algo muito perto disso. Eu gostava da centopeia de oito centímetros que tinha dominado meu irmão.

Jamie pareceu seguir o meu olhar.

— É injusto deixá-la sozinha — murmurei para ele.

— E você?

— Eu me arranjo — dei de ombros, sentindo o vazio temporário que a falta das mãos de Jamie me tocando causou em mim. Ele me deu um beijo na testa antes de se afastar completamente.

Ele caminhou até Peg e a puxou sem nem esperar seu consentimento, conduzindo-a no ritmo da música, girando-a em torno de si mesma, fazendo-a soltar gargalhadas satisfeitas. Ele sorria ternamente ao olhá-la e eu sabia que ela era sua irmã também, assim como Mel.

Achava bonita a relação entre eles. Afinal, ela tinha ocupado o corpo de sua irmã e, ainda assim, ele tinha simpatizado com ela. Ele a amava. Não poderia imaginar nada além de um coração puro que não visse maldade nem mesmo na alienígena que controlava o corpo de sua irmã. Era Jamie, o meu Jamie, aquele que tinha me escolhido para amar. Como? Eu jamais poderia imaginar. Eu realmente era a humana intrusa.

Somente um coração puro poderia amar a mentirosa intrusa que eu era.

Não fiquei sem acompanhante por muito tempo. Kyle logo apareceu dizendo que Sunny estava cansada e começou a dançar comigo, tentando fazer passos extravagantes — os quais ele tinha evitado fazer com Sunny porque ela era muito “sensível”, mas que aparentemente comigo não tinha problema nenhum em fazer. E ele me derrubou!

— Ah, meu Deus — ele soltou seu riso estrondoso, não controlando as suas gargalhadas ao me ver jogada de qualquer jeito no chão. Ele não parava de rir.

Eu não estava irritada. Estava, na verdade, achando toda a situação hilária e, por causa disso, aproveitei e saí correndo a toda velocidade atrás dele através do salão, tendo que me desviar de diversas pessoas que me ralharam alguns xingamentos. Nada muito sério.

Era divertido correr atrás dele. Fazia-me sentir falta de uma vida que eu não vivi, de uma vida que eu nunca tive a oportunidade de ter. Seria essa uma infância tardia? Não me importei com os pensamentos dos outros em relação ao nosso comportamento, não me importei que o som de minhas gargalhadas era engasgado e ridículo. Naquele momento, correndo atrás de Kyle, eu me senti verdadeiramente humana, vivendo uma cena que, com certeza, teria feito parte de minha vida se o mundo fosse normal.

Não era tarde demais, afinal.

Não percebi quando a música parou. Não percebi que tinha uma terceira pessoa no meio de toda aquela corrida desenfreada. Não percebi nada disso até ser capturada no meio de uma passada e tirada do chão por braços fortes e grandes, que eu conhecia muito bem.

— Ian, me solta — debati-me em seus braços, ainda rindo, ainda achando toda a diversão uma coisa inédita.

Kyle parou, sem fôlego, e veio até nós em passos grandes.

— Valeu, Ian… — foi então que senti os braços ficarem frouxos ao meu redor e tive que me sustentar sozinha. O vulto de Ian passou rapidamente ao meu lado e chegou até Kyle em um segundo, prendendo-o em seus braços.

— Eu simplesmente adoro ganhar de você — Ian comentou segundos antes de Kyle começar a se debater e eles iniciarem mais uma de suas típicas “brigas”.

Senti-me incrivelmente completa quando braços mais finos e igualmente fortes me envolveram por trás. Encostei-me ao peito de Jamie, um sorriso inabalável em minha face. Tudo estava extremamente bom, tudo no lugar certo, do jeito que tinha que ser. Do jeito que sempre tinha que ter sido.

Foi necessário toda uma vida de sofrimentos para eu aprender a valorizar esses momentos raros e curtos de satisfação.

O som rasgado de um trovão ecoou no deserto. Várias cabeças se mexeram, procurando alguém para trocar olhares. Alguns bufaram, outros sorriram. Nunca existiu uma maneira de contentar a todos.

— Monções! — Peg exclamou. Ouvi dizer que ela adorava todo o clima de união.

Jamie puxou o ar entre os dentes.

— Você odeia isso — ele comentou em meu ouvido.

Isso seria verdade algum tempo atrás. Isso seria incontestavelmente verdade se eu não tivesse revelado o meu segredo de que eu era irmã de Kyle e Ian. Isso seria verdade se eu não conhecesse cada rosto dessa caverna. Isso seria verdade se eu não fosse passar meus preciosos segundos deitada ao lado de Jamie. E, acima de tudo, isso seria verdade se eu não tivesse me jogado no chão de uma floresta durante uma chuva torrencial ou vagado perdida procurando por um rosto específico e encontrado outro rosto desconhecido sem vida.

Eu não odiava mais aquela situação. Porque eu tinha um teto sobre a minha cabeça, dois irmãos, uma companhia para lá de agradável e um coração tão leve quanto uma pluma. Nunca mais reclamaria das monções.

— Odiava — o corrigi, virando-me de frente para ele e pousando o meu rosto em seu ombro. — Não mais.

Ele não me questionou. Senti seus dedos passarem pelos meus fios de cabelo calmamente e fechei meus olhos, sabendo que estava em casa e que era protegida. Porque se ele aceitou quase morrer por causa da minha perna quebrada, então ele certamente era capaz de me proteger de todos os perigos do mundo. Até de mim mesma. Até de minhas mentiras, de meus medos, de meus sorrisos falsos. Perdê-lo me fez aprender a valorizar cada mínimo detalhe de minha vida.

Eu valorizava seus dedos passeando pelas minhas madeixas, por exemplo. Para mim, naquele momento, era mais que o suficiente para me fazer a garota mais feliz do mundo.

Eu era a garota mais feliz do mundo… no fim do mundo. Não era algo que eu já tivesse imaginado.

Gostaria de ter tido uma vida mais normal. Uma casa para morar, um pai, amigos. Sempre quis ter isso. Talvez ter tido aquele primeiro beijo aos treze anos. Talvez… eu não sei, ter frequentado uma escola com outras crianças. Aquelas coisas de livros do mundo humano. Aquelas coisas que algumas dessas pessoas que vivem nas cavernas conseguiram viver, mesmo que por pouco tempo.

E Isaiah e Liberdade, que jamais teriam ao menos a perspectiva disso? Eles estavam crescendo rodeados pelo cheiro de mofo e pelo calor das cavernas, sem nem mesmo saber qual é a sensação de ter o mundo roubado. Eu era muito nova quando o mundo foi roubado dos humanos, mas o meu mundo já tinha sido roubado de mim havia muito tempo.

Mas eu tinha uma ótima vida, apesar de tudo.

Tinha tido uma mãe que me amava incondicionalmente e que tinha dado a sua vida por mim. Tinha dois irmãos que, embora tivessem relutado em me aceitar, me salvaram de mais de uma morte. Tinha Jamie, meu Jamie, uma pessoa que eu encontrei para amar e para viver ao lado até os meus últimos dias.

E eu tinha uma casa, um lar para voltar quando tudo desse errado.

Os motivos para eu ser a garota mais feliz do mundo — no fim do mundo — eram inúmeros, mas me contentei apenas com os dedos de Jamie deslizando suavemente pela extensão de meu cabelo escuro.

Naquele momento, aquilo bastava.

Notas finais
E chegamos ao fim de mais uma longa jornada — dessa vez não tão longa, mas o suficiente para matar vocês de curiosidade algumas vezes hahahaha É o fim da segunda história e, não sei se vocês se lembram, mas eu prometi uma continuação lá em Almost Human com a narração do Kyle. Pois bem, SIM, essa continuação vai existir ~todos comemoram~ Antes disso, porém, eu quero partir aos agradecimentos. Primeiro, as duas recomendações lindas que eu recebi, vocês são INCRÍVEIS! Ys, você sabe o quanto você já me ajudou nessa minha história e o quanto vai ajudar ainda mais na do Kyle, mas você não sabe o efeito que as suas palavras surtiram em mim: “Essa é uma história simplesmente perfeita e cativante, capaz de lhe arrancar lágrimas e trazer a você uma imensa vontade de viver. É uma luta constante pela vida e pela felicidade”. Isso é lindo e me incentiva a escrever mais e mais, dia após dia. Te amo s2 A outra recomendação é da linda da Tata matos s2s2 Quase a fiz desistir dessa história, mas ela continuou e até me deixou uma recomendação! E eu não poderia não ser grata por essa atitude. “Nunca é fácil lidar com sentimentos, machuca, mas você vai lá com toda sua coragem e os doma, os coloca no papel e da ao mundo a chance de ver uma espécie rara. O amor pelo tudo.”. Assim você me deixou sem palavras para descrever o sentimento que eu senti enquanto lia isso. Muitíssimo obrigada, e eu amo você também s2 Agradeço a todos os comentários da: Ys Wanderer, Mika Hathaway, Ero Hime, Bellita, ALT Forever, Tata matos, Kathleen, Grazielly. Vocês são todas lindas, amo muito todas! Agradeço a todos os favoritos: Nanda Panda, Iara Pinheiro, Mel Winchester, Dark Dreams, Letícia Paixão, Tata matos e Ys Wanderer. E agradeço a todos os acompanhamentos, apesar de não poder citar todos (porque alguns não aparecem): Anny Haruno, Mrs Eaton, Pequena Peregrina, nadinha, Eclair, Aliella Fletcher, Ero Hime e Mika Hathaway. Todos vocês que chegaram até aqui são incríveis. Muito obrigada por me aturarem hahahaha E ainda tem mais uma viagem (a última dos O'Shea, infelizmente ~todos choram~) para me aguentar. Será uma longa jornada! Espero que vocês estejam dispostos, marinheiros, a vagarem pelo mar de pensamentos do Kyle. Preparaaaados?? hahahahah Façam uma boa viagem por esse oceano, espero que não deem de cara com nenhum iceberg ou passem mal. Estarei lhes esperando no porto. Aqui está o link: http://fanfiction.com.br/historia/587262/We_Both_Changed/ OBS: Eu agradeço antecipadamente a todos que comentarem ou recomendarem depois de eu postar esse último capítulo. Eu amo cada palavra que vocês, leitores, dirigem a mim. E eu sempre estarei por aqui, observando vocês me incentivando dia após dia. Saibam que seus comentários são o meu combustível. Muito obrigada! Quem está disposto a deixar uma autora feliz com alguma última palavra para essa história?! E lá vamos nós para We Both Changed!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!