Ano Hi Mita Sora
8 Por ondes anda o coração?
Notas iniciais

– O que você pensa que tá fazendo?
Meu dia não poderia estar mais catastrófico. De manhã, eu acabo beijando esse cara que só me traz problemas e agora, meu marido, Eustass Kid, acaba descobrindo e tem um ataque de ciúmes. Nem preciso dizer que é a primeira vez que o vejo assim, que eu não esperava por uma atitude dessas, mas não é o importante no momento.
O fato é, eu estou caído no chão, totalmente imóvel. Meu nariz estava sangrando e um pouco de minha boca também, mas o pior nem era isso. Mesmo não tendo uma religião, confesso que eu estava rezando para que o maldito Rosinante ficasse quietinho lá na cozinha, mas é claro que isso não iria acontecer! Ele apareceu e o Kid o viu.
– Você! – A primeira reação do ruivo foi encará-lo com ódio. – O que porras você tá fazendo aqui? É sério isso? – E depois olhar para mim. – Além de tudo, você ainda traz esse cara pra cá?
Eu queria responder algo, queria mandá-lo embora antes que Eustass tomasse alguma atitude perigosa, mas não conseguia fazer nada. Eu sou muito inútil. Tudo o que conseguia fazer era ficar preocupado, mas fiquei mais paralisado ainda quando Rosinante suspirou fundo. Ele estava com um olhar sério e veio até mim, tirando um cigarro e o acendendo, andando lentamente até parar à minha frente.
– Eu perguntei, o que você pensa que tá fazendo?
– Huh? – Fiquei confuso. Ele me olhava com um semblante totalmente oposto ao que estava acostumado, e o modo que ele fumava era tão calmo. Ele não se importava com o fato do Eustass estar quase nos matando mentalmente?
– Consegue levantar? – E estendeu a mão para mim. Não sabia direito que atitudes tomar, mas aceitei o gesto e a segurei, levantando-me. Eustass ficou arqueando os cenhos e odiando cada atitude.
– EI, O QUE VOCÊ PENSA QUE TÁ FAZENDO? – E gritou, indo em direção a nós. Achei que estivesse tudo perdido naquele momento.
– Doutor, o seu nariz tá sangrando um pouco. – Mas Rosinante o ignorou totalmente, como se o ruivo não existisse. Ele apenas limpou o sangue com o dedo e eu estava completamente hipnotizado. – Eu tenho isso às vezes, então eu posso te ajudar a limpar, se quiser. Tá doendo?
– Ahn, não... – Respondi. Nem sentia o impacto do soco, queria entender o que ele estaria fazendo parado, me olhando, tão calmo.
– Mas você não deveria ter dito uma coisa daquelas. – E continuou falando, fumando e bagunçando um pouco meu cabelo, me obrigando a olhar-lhe de frente.
– Como assim..?
– Você mentiu. Não foi você quem me beijou, por que você disse isso?
– Mas... ele podia fazer alguma coisa contra você...
– E tá tudo bem ele fazer com você? Não precisa levar a culpa por mim, você precisa se proteger.
Naquele momento, eu não sabia o que fazer. A dor que eu sentia já havia cessado, meus pensamentos estavam tranquilos também. Eu só conseguia olhar o homem à minha frente, nem sei o que Eustass estaria fazendo àquela hora, se estava só nos observando. Suas mãos faziam um cafune nos meus cabelos até eu sentir, de leve, seus lábios dando um ínfimo beijo em minha testa.
– AGORA JÁ CHEGA! – Mas precisei voltar à realidade quando vi o brutamontes a qual eu era casado vir em nossa direção, com os punhos cerrados. Eu já conhecia muito bem a força de Eustass e a fraqueza de Rosinante, que, vamos combinar, não tem cara de quem resista a um peteleco dele.
– E-EI, SAI DA... í...
Olhei para o lado ao ver o Eustass e fiquei desesperado momentaneamente, querendo avisar o loiro para ir embora o mais rápido possível. Porém, quando olhei pra frente novamente e o vi, Rosinante continuava a olhar para mim com um leve sorriso e cigarro em sua boca. Em momento nenhum sua feição mudou, era como se ele ignorasse a presença de um homem de tantos músculos com ódio e instinto assassino.
– Me desculpa por tudo isso, tá bom? – E ele simplesmente fechou os olhos, mostrando um sorriso maior ainda. Gelei àquela hora, olhava para ele, mas também via Eustass chegando cada vez mais certo, pronto para dar-lhe um soco certeiro na face, quando...
Não sei como, não sei quando, não sei por quê. Tudo o que eu via naquele momento, em câmera lenta, era o loiro desferindo um olhar ameaçador na direção de Kid quando ele estava há menos de trinta milímetros de distância. Não o reconheci naquela hora, não sabia que se tratava do mesmo Rosinante desastrado e idiota que eu conhecera. O mesmo Rosinante que, nesse exato segundo, havia conseguido pegar o braço de Eustass e desarmá-lo.
– NÃO ENCOSTA... – O segurou pelo braço e girou com ele, fazendo Kid perder o controle dos movimentos. – UM DEDO... – Usou ainda seu peso, junto com sua velocidade assassina. – NO LAW! – Para lançá-lo diretamente até a parede, usando todos aqueles atributos contra o próprio, que criou um buraco no cimento e ficou lá, com o rosto preso nos tijolos.
– O quê... – Fique totalmente em choque. Quando o meu marido, exatamente, foi lançado contra parede?
– Vem, vamo embora daqui!
Acho que não existe ninguém mais confuso que eu neste exato momento. Foi só colocar um cigarro na boca que a mesma pessoa que quase morreu graças a um pato hoje de manhã, consegue nocautear o Eustass com um golpe só? E eu também não gostei nada disso, como é que ele bate em alguém, sendo que a culpa é toda dele?!
Mas tirando a minha confusão mental, ele começou a me arrastar para fora da casa e a correr comigo pelo meio da rua. Não sei pra onde diabos ele estava me levando, só sei que eu ainda não acredito que o Kid foi capaz de me bater só por um acidente bobo desses. Bom, apesar de que o número de compartilhamentos realmente deve ter causado um estrago.
Quer dizer, vamos à análise. Primeiro ele me faz prometer nunca mais falar com o Rosinante, depois ele vê uma foto com bilhões de compartilhamentos de eu o beijando. Ok, realmente, qualquer pessoa com sangue quente ficaria louco nessa situação, eu já esperava que ele brigasse comigo e ameaçasse o coitado do loiro desastrado, mas aquele soco foi perturbador.
E esse mesmo sujeito que já estragou a minha vida quando me levou a um bar até altas horas da madrugada, me beijou enquanto eu estava tentando salvá-lo, está, neste exato momento, me sequestrando e me levando pra um lugar QUE EU NÃO SEI ONDE É! E porra, ele bateu no meu marido, o que tá acontecendo aqui?!
– E-Ei, Rosinante, me larga!
– Eu não vou te deixar ficar naquela casa, você estaria em perigo!
– Pra onde você tá me levando?
– Pro meu hotel!
– O quê? O Eustass sabe onde fica o seu hotel, é suicídio ir pra lá!
Eu fui completamente ignorado e ele continuou a correr comigo até chegarmos ao nosso destino. Tentei ficar mais calmo, para não chamar muitas atenções desnecessárias e o Rosinante pediu aos secretários do Hotel para não deixar ninguém chamado Eustass Kid subir. Eu espero que o Kid não tenha um nome falso...
Depois, nós adentramos o apartamento que era bem grande: tinha uma cozinha completa, um sofá na parte da sala, uma grande televisão e uma cama de casal nos fundos. Ele pediu para eu me sentar e esperar, pois ele iria pegar o Kit de primeiros socorros na cozinha. O fiz, tentando me acalmar e conseguir raciocinar, quando ele retornou com um copo d'água.
– Aqui, toma isso. – E me ofereceu, abrindo o Kit médico. – É a primeira vez que eu cuido de um médico, hahaha.
– Como você consegue rir numa situação como essas? Você me sequestrou!
– Eu te sequestrei? – Ele ficou me olhando como se eu tivesse dito algo absurdo. – Não é um sequestro, bobo, você pode ir embora quando quiser.
– Mas... c-como você fez aquilo? Quer dizer, você é o Rosinante, você não é forte!
– Ah, aquilo? Eu apanho desde que eu me entendo por gente, na escola também era assim, mas o meu irmão decidiu me dar algumas aulas de autoproteção. Ele sim é forte.
– Eu... não sei nem o que pensar.
– Não precisa pensar em nada por enquanto, tá bom? Só me deixa cuidar de você.
Ele pegou um pano úmido e limpou o sangue do meu rosto e do meu nariz, me perguntando se ainda estava doendo e se tinha que fazer algo específico. Respondi que não, a dor física não me incomodava, as minhas preocupações se resumiam a como isso tudo foi acontecer.
– Eu... nunca tinha visto o Eustass agir dessa forma.
– Você me disse, no nosso primeiro encontro, que ele poderia me matar, então você já conhecia esse lado dele.
– Tá, eu conhecia nos outros, ele nunca foi muito paciente, mas ele sempre confiou em mim. Eu acho, pelo menos. Se bem que, desde que eu te conheci...
– Desde que me conheceu?
– É, quer dizer, teve aquela noite em que eu acabei exagerando e fiquei contigo até de manhã. Ele achou que você fosse um sequestrador e te mandou aquela mensagem dizendo pra parar de me procurar. Eu fiquei todo esse tempo me culpando por não poder te pedir desculpas.
– Ah, se a culpa não foi sua, não precisa me pedir desculpas, mas desde que eu li aquela mensagem, não teve um dia que eu não parei de pensar em você.
– Eu também não parava de pensar em você... eu queria tanto dizer que aquela mensagem era falsa e que você não precisava se preocupar.
– Mas é claro que eu preciso me preocupar. – Ele segurou meu rosto e inclinou minha cabeça, me fazendo deitar em seu próprio ombro, acariciando meus cabelos. – Se, como você disse, seu marido nunca tinha agido assim com você, é uma boa oportunidade para começar a tomar cuidado e ver com quem você se relaciona de verdade, não acha?
– Como assim? Eu não tenho medo dele, foi só um dia ruim, só isso. Depois ele se acalma.
– "Só um dia ruim"? Ele proibiu você de falar comigo e te bateu. Não foi só um dia ruim. Doutor, eu acho que você não conhece o seu marido tanto como você acha que conhece.
– E você conhece? – Me afastei em deitar minha cabeça em seu ombro, para olhá-lo nos olhos. – Vocês só se viram duas vezes! Foi só uma má impressão.
– A gente só conhece uma pessoa quando vê a forma que ela trata os estranhos. A diferença é que você já se acostumou com o jeito dele, então nem consegue ver os erros. Eu não tenho esse problema.
– E o que você quer que eu faça? Largue tudo, peça divórcio e vá morar contigo? Daqui há quatro dias você nem vai mais estar na Inglaterra!
– Tem razão, eu não vou mais estar. Eu vou pra França...
– Então pronto. Você segue a sua vida com os gatinhos, eu sigo a minha com o Eus–
– ... Mas eu te levo comigo.
– Han? – Fiquei olhando pra ele. Ele não poderia estar falando sério. Depois de tudo, eu mal conheço esse sujeito e ele diz uma coisa dessas? Parece até piada! Tanto é que eu não resisti, até porque a face dele estava como a de alguém com certeza nas suas afirmações. – Hahahahaha, você tá falando sério? Fugir contigo pra França?
– E por que não? – Ele segurou na minha mão e ficou me encarando. – Lá é muito legal, eu podia te mostrar os museus e tudo mais!
– Só você mesmo... você é muito espontâneo, sabia?
– E isso é ruim?
– Não, não é.
– Então vem comigo pra França! Eu te ajudo a arrumar emprego num hospital lá, meu irmão conhece algumas pessoas poderosas e tudo mais.
– Rosinante...
– E vai ser muito divertido porque aí a gente pode sair todo dia, eu te mostro os parques que tem lá e o que nós fazemos à noite. Você já foi à Paris? As ruas são lindas e são iluminadas, é muito românti–
– ROSINANTE.
– OI.
– Eu não vou à França com você.
– Por quê?!
– Sério? Bom, primeiro que eu não falo Francês, segundo que eu tenho uma vida aqui, não é assim! Eu nem te conheço direito.
– Conhece sim! Você já abriu minha cabeça.
– Quantas vezes nós já nos vimos?
– Ahn, quatro, eu acho.
– E você quer que eu fuja pra França com alguém que vi quatro vezes?
– É. – Ele continuou a fazer carinho em minhas mãos, me olhando como se fosse a ideia mais extraordinária do mundo, com os olhos repletos de esperança. – Eu gosto de você. Muito.
– Não é questão de gostar, é que eu tenho minha vida aqui. Eu não vou me separar do Eustass.
– Não?
– Claro que não! Foi só um dia ruim, aliás, ele deve estar me esperando. Acho melhor eu ir agora.
– V-Você vai embora?!
– Eu vou, se eu ficar aqui as coisas só vão piorar.
Levantei-me do sofá, arrumando minhas roupas e dando um rápido jeito no meu cabelo. Sabia que se eu fizesse alguma besteira do tipo dormir com Rosinante, as coisas lá em casa se tornariam um inferno total, então era melhor acalmar a besta selvagem. Fui andando até a porta, mas aí, não sei por quê, o idiota decidiu que seria uma boa ideia abrir os braços e me impedir de passar.
– Você não vai embora daqui! – E exclamou, quase gritando.
– O quê? Então você é realmente um sequestrador...
– É, eu sou. – Ele veio andando com passos rápidos na minha direção e um rosto sério, não sabia bem o que iria fazer. Esse sujeito é imprevisível, mas tudo o que fez foi se aproximar o máximo que podia de mim e levantar meu rosto, segurando-me e o obrigando a encarar. – Eu não vou permitir que você saia daqui hoje.
– M-Mas eu preciso conversar com o Eustass, antes que a situação piore de uma v–
– Você não vai porque eu não vou deixar. – E segurava meu rosto tão firme, enroscando seus dedos em meu cabelo de forma que eu deitasse em suas mãos. Não conseguia pensar em nada.
– Por que você está fazendo isso? – Perguntei, querendo obter forças para me separar dele, porém eu era fraco demais. Nos vimos quatro vezes, mas eu tenho a impressão de que o conheço por uma vida inteira.
– Por quê? – Sua voz se tornava tão macia de repente, seu calor ia sendo transmitido até mim naturalmente. – Por quê, você ainda pergunta isso...
– Eu só... – Eu só queria entender como foi que essa pessoa surgiu na minha vida. Nem isso eu consigo dizer.
– Eu te amo, doutor.
Com a mesma voz grossa e suave ele me disse isso. Congelei. Não sabia se tinha ouvido certo, o aperto que eu sentia em meu peito impossibilitara qualquer certeza. Meu coração batia forte e minha respiração incerta, somente dava-me certeza de que, se realmente havia um idiota naquela história, então esse era eu.
Não sabia o que fazer, somente olhá-lo. Seus olhos claros iam se fechando, mas os meus, estes de cor acinzentada como uma fumaça que se dissipa diante uma explosão, tremia sem saber o que fazer, que atitudes tomar. Eu, que sempre procurei deixar o sentimentalismo de lado em prol da razão, agora estava completamente perdido no significado daquelas palavras.
Seu calor só emanava mais forte, suas mãos seguravam meu rosto com certeza. Ele se abaixou e trouxe-me para si ao mesmo tempo, fechando de vez seus olhos. Estremeci. Minha mente estava vazia, buscava um significado naquele gesto, mas sem o mínimo êxito. Seus lábios rosados tocavam de relance no meu, passeando e trocando vossas texturas, sentindo somente o toque, até ele finalmente me beijar.
E foi um beijo diferente. Não foi um beijo como o de hoje de manhã. Foi um beijo... bom. Veio para certificar-me do que sentia, notar o quão sério aquele sujeito poderia estar sendo, não um idiota como eu pensava, mas alguém com total controle de suas ações, alguém livre. O ato que serviu-me para ter um choque de realidade, para reavaliar tudo o que achava que conhecia na vida.
Ele enroscou seus dedos no meu cabelo, dando puxões que me faziam arrepiar por completo. Meu sangue corria rápido, meu coração gritava como se eu estivesse prestes a ter um ataque cardíaco, algo que eu pensei só existir nos filmes, mas a arte imita a vida. E foi hoje que eu pude entender isso. O gosto de sua língua, aquele gosto ácido pelo tabaco, era tão naturalizado que em momento nenhum senti medo de continuar. Entreguei-me por completo, com as mãos abraçadas a seu pescoço.
O que aconteceria no dia de amanhã não me importa. Se Eustass ficaria furioso comigo, também não faz diferença na minha vida. Rosinante era único, disso eu já sabia, mas demorei tanto para perceber o impacto que ele tinha em mim, que anteriormente nem lhe dei espaço. Ele, entretanto, começou a andar comigo, na direção do quarto, até sentarmos na cama.
– Ei... – Eu estava em frente a ele, nós dois sentados no colchão, com os rostos em estado febril. Meus olhos estavam fechados, senti que os dele também estavam. Separamos nossos lábios, mas sentíamos nossas respirações colidir. Nossos narizes se tocavam também.
– Eu... – E Rosinante roçava seus lábios no meu, não querendo nosso desencontro. – Tô indo muito rápido..?
– Muito... – Não conseguia mais resistir, quando percebi já estávamos trocando outro beijo, dessa vez o qual eu havia realmente sido culpado. Mas me afastei, virei o rosto e olhei para baixo. Ele continuou, sentindo meu pescoço. – Eu... não quero magoar ninguém.
– E o que você quer fazer agora? – Ficou dando-me beijos no pescoço, tudo para arrepiar-me e obrigar-me a dizer o inevitável, que sua presença me tira da realidade de um modo indescritível.
– Eu... não sei o que eu quero...
– Eu não vou fazer nada contra sua vontade.
– Só... me dá um pouco de tempo?
– Claro, o tempo que você precisar. Quer que eu pegue uma água?
– Quero...
Ele foi até a cozinha e me deixou no quarto. Meu coração pôde finalmente respirar por alguns segundos, então usei esse tempo para pensar em tudo que fiz a minha vida inteira, em como eu vim parar aqui. Karma? Não sei, tudo o que sei é que estava quase arrancando meus cabelos devido a ansiedade.
Mesmo assim, decidi me acalmar. Olhei ao meu redor, analisei as paredes, os abajures, tudo para me distrair. Fiquei olhando uma pequena mesinha que tinha ao lado da cama, com poucas gavetas e um controle remoto. Também tinha um porta-retratos, será que é falta de educação olhar? Ainda assim, peguei o objeto, para me distra... ir?
– Huh?
"Ceerto, crianças! Agora todas vocês vão tirar uma foto com quem mais gosta para o Dia do Amigo! Não importa se são do mesmo dormitório, tá bom?"
Minha voz cessou.
Minhas mãos começaram a tremer.
Por quê... esse tipo de retrato estava na cabeceira do Rosinante?
– Doutor.
Ele retornou, eu não percebi. Minha visão estava focada em um único ponto em minhas mãos. Mesmo assim, virei. Era Rosinante, com um copo d'água. Rosinante...
"Ei, qual é o seu nome?
Hahaha, que nome engraçado pra uma criança!"
– Rosi... nante. – Falei, com meus lábios trêmulos.
– Huh? O que houve? Parece que você viu um fantasma, doutor.
Cabelos brilhantes... olhos azuis...
Ele caía toda hora... apanhava toda hora...
Ele...
Eu estava em choque. Ou melhor, choque é pouco, eu estava em espanto. Não tinha certeza se estava tendo uma parada cardíaca, se meu coração batia forte ou sequer realizava movimentos. Meu susto foi invisível. Não consegui dizer nada, somente o ficava olhando com o retrato em mãos. Ele pegou de mim.
– Ah, isso? – E sorriu. – É a foto mais antiga que eu tenho, também é a foto mais importante!
E eu não conseguia dizer nada.
– Foi, hm... eu acho que tinha nove anos! Foi nesse lugar que eu morei.
Só conseguia olhá-lo...
– E esse garoto do meu lado foi o primeiro amigo que eu tive.
Paralisado... ele estava...
– Ele tem o mesmo nome que o seu inclusive, eu acho que tenho sorte com Law!
... Me contando...
– Bem, a gente era totalmente inseparável e as professoras ficavam tentando nos afastar.
... O que eu já sabia...
– Por que lá era tudo dividido em dormitórios, mas eu não me importava!
... E ele nem se tocou...
– Ai, ai, era bem divertido, apesar das outras crianças não gostarem da gente.
Eu também... não conseguia dizer...
– Mas a gente não ligava muito, ele até fazia vários curativos porque eu caía o tempo todo! Acho que se não fosse por ele, eu teria morrido.
Eu só queria... naquele momento... desaparecer...
– Teve um dia que eu caí de uma árvore, sabia? Acho que foi a primeira vez.
Cala boca...
– Mas não tinha nenhum gato não, eu só... caí!
Cala boca...
– Enfim, a gente se divertia muito! Ele era o meu melhor amigo e também a única pessoa que eu confiava, eu até hoje penso nele.
Meus punhos cerravam... queria gritar... mas só conseguia morder meus próprios lábios.
Eu sou um completo... covarde.
– Eu queria saber onde ele tá agora, o que ele tá fazendo, mas sei lá. Ficou muito no passado isso.
– Rosinante... – Chamei, em voz baixa. Não conseguia encará-lo. Como isso tudo foi acontecer? O que isso tudo significa? Por quê... espera... esse tempo todo... esse tempo todo eu estava... e foi com ele que... e foi... ele que...
– Huh, aconteceu alguma coisa?
Ele não notava minhas mãos fechadas e trêmulas?
Minha palidez? Meus lábios quase sangrando de tanto mordê-los?
Minha incrível capacidade de não ter percebido antes?
– Você...
– Eu?
Tomei coragem para olhá-lo mais uma vez. Meus olhos escorriam uma água ininterrupta. Fiquei o olhando, minha pele estava tão branca que reluzia, minhas correntes sanguíneas interromperam seu fluxo. Seus olhos azuis me encaravam, seus cabelos loiros batiam com o vento por meu rosto, jogando-me na minha cara o quão idiota eu sou. Desde que o conheci, utilizei esse adjetivo para caracterizá-lo, mas como pude? O tempo todo... o único idiota na história toda...
– Você é... o Cora-san?
... Fui eu.
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