Um ano depois...

Já é quase hora do almoço e é geralmente nesse horário em que eu saio do hospital e vou me encontrar com Cora-san. Tem uma lanchonete aqui em frente, na virada de uma das ruas mais movimentadas de Paris, onde costumamos lanchar assim que damos uma pausa em nossos trabalhos.

Viver aqui não é tão diferente de viver na Inglaterra como eu pensava. Talvez as únicas diferenças sejam os cardápios, visto que as comidas são bem variadas. Quanto ao trabalho, aprendi algumas técnicas novas de cirurgia que os franceses costumam usar, então têm sido uma boa experiência.

– Law! Aqui!

Antes de atravessar a rua, já vejo ao longe a figura de um homem de cabelos loiros ondulados, sentado em uma cadeira, acenando para mim. Era ele, o garoto que demorei anos para reaver e que agora havia se tornado praticamente meu noivo. Sem hesitar, enquanto esperava os carros pararem de passar para atravessar a rua, acenei de volta.

– Rosin… – Contudo, olhando direito, me dei conta de que ele não estava sozinho na lanchonete. – Argh, não acredito…

Finalmente consegui atravessar. Cora-san estava sorrindo como sempre, sentado à mesa. Porém, de frente para ele, uma outra figura emburrada, completamente oposta e com as pernas cruzadas, estava. Era quem eu deveria carinhosamente chamar de “cunhado”.

– Você está atrasado. – Doflamingo disse, sem nem fazer questão de olhar pra mim. – Não me faça ficar esperando.

– Como eu posso estar atrasado se eu cheguei três minutos antes do tempo que eu costumo chegar? – Respondi. – E você nem deveria estar aqui, pra começo de conversa.

– O Doffy veio pra conversar sobre a nossa viagem de férias. – O irmão mais novo disse, enquanto eu me sentava junto com eles. Estavam me esperando para começar a comer.

– Meu hambúrguer esfriou graças a você. – Doflamingo voltou a falar, dessa vez olhando diretamente para mim. – Espero que esteja feliz.

– E estou. Mas e aí, o que resolvemos da viagem?

Viver com o Doflamingo não era uma tarefa muito fácil. A personalidade desses dois irmãos é completamente oposta! São tão diferentes que eu mal consigo entender como Rosinante gosta tanto dele. E gosta muito mesmo, tanto é que nós três estamos morando juntos, sem previsões para nos separarmos.

Não é que eu não goste dele, eu até consigo aturá-lo, mas Doflamingo parece querer ferrar comigo vinte e quatro horas por dia. Ele tem aquela mania escrota de ficar mostrando o mesmo sorriso sádico e infernal o tempo todo, o riso que faz questão de jogar na sua cara o quão patético você pode ser. Argh... é, de fato, conviver com ele não é muito fácil.

Mas não era motivo para reclamar. À noite, sempre quando meu horário no hospital acabava, não existia sensação melhor do que chegar em casa, tirar os sapatos e me jogar no sofá. Morávamos nós quatro em uma cobertura; eu, os dois irmãos e Jobervo, um gato alaranjado de olhos verdes que Rosinante nos obrigou a adotar.

– Meeow!

– Cheguei! – Exclamei, entrando em casa. Joguei meus sapatos para longe e logo vi Jobervo no colo de Rosinante, que estava sentado no sofá.

– Law! Vem pra cá. – Ele me chamou e eu como sempre, fui, jogando-me no sofá e relaxando depois de um longo dia de trabalho. Estar com Rosinante sempre me acalmava. – Como foi lá no hospital?

– Foi tudo normal. Consegui quinze dias de férias, nós podemos viajar semana que vem mesmo.

– Que maravilha! Quando o Doffy chegar em casa, eu aviso pra ele que já podemos comprar as passagens.

– Ele saiu?

– Acabou de sair, foi ao mercado.

– Ótimo, um minuto de sossego daquela pessoa. Bom, eu vou pro banho tirar esse cheiro de hospital do corpo.

Ele se aproximou de mim, fez um curto cafuné em meus cabelos e apoiou seu braço em meu ombro. Virei para ele, e logo recebi um beijo nos lábios.

– Quer companhia? – Me perguntou, com um leve sorriso. Logo, sorri de volta.

– Claro.

Saímos do sofá e Rosinante me abraçou pelas costas, me dando um beijo no pescoço. Nos separamos, andando rápido e juntos em direção ao banheiro, que ficava no andar de cima. Em seguida, ao chegarmos, fomos nos desfazendo de nossas roupas e trancamos a porta, entrando no box e ligando o chuveiro.

Fiquei debaixo do mesmo, esfregando meu cabelo e de costas para ele. Rosinante pegou o sabonete e caminhou com ele por minhas costas, ensaboando-me até o peito, fazendo curvas por onde existiam meus mamilos e permitindo que a água tirasse toda a espuma branca que era formada.

– Aah, como é bom tomar banho depois de ficar enfurnado numa sala de hospital. – Comentei.

– O melhor ainda é tomar junto com você. – Respondeu, deixando o sabonete de lado por um instante e me abraçando pela cintura, praticamente entrando debaixo d'água junto comigo.

– Bom, eu ainda acho que deveríamos fazer isso todo dia.

– Mas o meu irmão fica reclamando...

– Tsc, e não é ele quem se preocupa tanto com dinheiro? Assim economiza água, é melhor pra todo mundo.

– Você tem toda razão. – Me virei, ficando de frente para ele. Também segurei-o pela cintura e logo demos um beijo não muito demorado, visto que a água entrava em nossas bocas. – O Doffy é muito chato às vezes.

– Não tem mesmo probabilidade de irmos morar sozinhos logo..? – Saí um pouco do chuveiro, deixando que Rosinante molhasse seu cabelo. Também peguei o sabonete e esfreguei um pouco em minhas mãos.

– Ah, é que eu tô tão acostumado a morar com ele...

– Mas e depois, quando nós... – Comecei a passear minhas mãos cheias de sabão por seu corpo, indo de sua barriga ao começo do peito; e às costas, descendo até seus quadris.

– Ainda mais nessa hora, acho que vai ser útil o Doffy morar com a gente, não acha?

– Eu tenho um pouco de medo do seu irmão estar conosco nessa época. – Disse, em um tom um pouco mais sério, apesar de estar prestando mais atenção a seu corpo que qualquer outra coisa, confesso.

– Que exagero! O Doffy é muito bom nesses assuntos.

– Você acha?

– Eu tenho certeza. – Ele voltou a me beijar, abraçando-me mais uma vez. Apoiei minhas mãos em seu peito, dando continuidade ao beijo. Logo depois ele me virou, deixando-me encostado na parede. – Não precisa se preocupar quanto a isso, tá bom? Vai dar tudo certo.

– Eu sei, eu sei, é que eu ainda preferia ficar só com você.

– É claro que eu também preferia, é que, principalmente nesse período, eu acho que nós três morarmos juntos vai ser melhor.

– Eu entendo o que você queira dizer.

– Então vamos falar sobre isso depois, tá bom? – Rosinante me beijou nos lábios, no pescoço e foi abaixando, beijando meu peito inclusive. – Se o Doffy nos atrapalhar em alguma coisa, nós fugimos. – E abaixou-se ainda mais, dando mais leves beijos em minha barriga até praticamente ajoelhar-se. – Mas agora não é hora de falar sobre isso.

Fechei os olhos, desliguei um pouco a água e posicionei minhas mãos em seus cabelos molhados, permitindo que ele desse mais beijos em meus quadris, antes de apoiar-se em minhas coxas e colocar meu membro em sua boca, dando chupadas envoltas com lambidas.

(…)

Uma semana depois...

Enfim, chegou o dia de nossa tão esperada viagem. Conseguimos trazer Jobervo conosco no avião e estamos indo diretamente para a Inglaterra, que eu não volto há pouco mais de um ano. Às vezes até bate a saudade daquele lugar, da minha antiga casa e do meu antigo emprego, mas eu realmente não posso reclamar da minha vida.

Nós três combinamos de viajar para cá por um motivo especial. O importante é que, após horas de viagem, finalmente chegamos ao nosso destino e eu pude voltar a sentir os ventos ingleses batendo em minha face, junto com a paisagem rústica a que tanto senti falta.

– Ah, que saudades daqui... – Comentei, de volta a meu país.

– Só precisamos tomar conta do Jobervo porque as árvores daqui são perigosas e sempre têm idiotas subindo em cima delas. – Doflamingo fala.

– … – E Rosinante se sente atingido.

De qualquer forma, havíamos reservado um quarto em um hotel e logo fomos até ele, realizar o check in e descansar da viagem. Algumas horas depois, eu disse a Rosinante que pretendia fazer algo antes do que tínhamos combinado; ele hesitou, mas entendeu meu lado.

Pegamos um táxi e demos o endereço ao motorista. Fiquei olhando a janela, refletindo sobre a vida que eu tive no passado, da minha situação com meu ex-marido. Diversos pensamentos atingiam minha mente e, conforme íamos passando por alguns lugares específicos, toda a paisagem apenas contribuía para o sentimento nostálgico, até chegarmos em nosso destino. Se tratava de um cemitério, ainda iluminado pelo fraco sol da tarde.

Fui andando até o túmulo que continha seu nome. Doflamingo e seu irmão me esperaram distantes dali, depois que eu disse preferir ficar sozinho. Por mais que meus últimos momentos com Eustass não tenham sido os melhores, não posso negar que tivemos uma história juntos, um passado juntos. Jamais pedi por sua morte, ou sequer imaginei que levaria um tiro acidental no peito na noite em que nos despedimos.

Posicionei minha mão em sua lápide, olhando seu nome por uma última vez. “Eustass Kid”. É estranho reencontrar alguém anos depois, alguém que já foi sinônimo de uma grande paixão, desse jeito, soterrado por terra, preso em um túmulo sem significado algum, onde a luz nem poderia atingir. Um local frio, solitário e triste.

– Kid...

Talvez até mesmo tenha sido uma morte simbólica, como gosto de pensar. Ter tanto tempo de sofrimento agora enterrados em um gélido amontoado de terras inexpressivo, não ter o risco de vê-lo posteriormente ou acabar com sua existência prava. Podes até soar egoísta, mas é como a morte é, um ciclo que dá espaço para que algo acabe e algo o preencha. Permitir-me sentir saudades somente me prenderia ao passado, e tudo que eu preciso agora, é do sorriso matineiro e olhar penetrante de Rosinante.

Resolvi sair daquele local. Já havia pensado em tudo que tinha para pensar, dito tudo que tinha para dizer e despedido-me de tudo o que um dia me prendera. Prosseguimos, pois com a morte de alguns, vidas novas surgem, e a renovação se faz necessária para que continuemos nossas vidas.

– Eu nem acredito que vamos voltar àquele local...

– Pois é, tá aí uma coisa que eu nunca pensei que faria.

– Mesmo assim, é tão nostálgico. E agora nós temos bons motivos para pisar lá, certo?

Rosinante e eu decidimos dar um passo de extrema importância em nossa relação, que também foi o motivo principal da viagem. Iríamos voltar a visitar o orfanato o qual nos conhecemos e crescemos, para cortar de vez todos os laços passados que nos prendiam. E não só por isso, agora, como dito por ele, temos um excelente motivo.

– É aqui mesmo...

Doflamingo segurava o gato alaranjado; estávamos nós três de frente para o orfanato. Ainda tinham as mesmas árvores, embora em menor quantidade, e as folhas balançantes que esvoaçavam com o vento. Olhei para aquelas grandes grades cinzas, que antes pareciam tão maiores e sufocantes, e notei que Rosinante tinha o mesmo olhar que eu. É tão estranho retornar a um local odioso com a pessoa que você pensou nunca mais ver na vida.

Meu coração palpitava em diferentes níveis. Um misto de lembranças ruins surgiram em minha mente, um ácido gosto rancoroso subia por minha garganta e um alívio no peito corria em meu corpo, invadindo as correntes sanguíneas e me proporcionando uma sensação de descanso. Somente pude sentir o peso que guardei por anos, descarregando-se e dando-me uma folga, uma enfim, liberdade.

– E então, vamos?

O loiro de olhos cintilantes que um dia foi responsável por dar-me forças para continuar vivendo, e que ainda era meu amado melhor amigo e esposo, olhou para mim e segurou em minhas mãos. Eu estava nervoso e isso era perceptível, visto que minhas pernas tremiam só em dar simples passos.

E com razão, devo dizer. Sempre foi um grande desejo de Rosinante e também, uma última peça que faltava em minha vida. Algo que fortaleceria nossa relação como nunca e a intensificaria, além de dar um outro sentido à nossa existência. Algo também, por assim dizer, que ajudaria e influenciaria na vida de uma terceira pessoa. Algo tão bom e tão importante que até mesmo Doflamingo estava feliz por seu caçula, e isso era notável.

Os portões se abriram. Logo caminhamos juntos, vendo toda paisagem resplandecedora que um dia até poderia ter sido de extrema tristeza, mas que agora parecia tão limpa, que foi capaz de libertar todo rancor que eu ainda possuía. O ódio, enfim, acabou; todos os meus problemas haviam desaparecido com a melhor relação que já tive, e que só iria vir a ficar melhor ainda e durar por muitos anos, graças a futura adoção de nosso primeiro filho.

O céu que vimos àquele dia,
e a promessa perdida nos ventos do início de um verão.
A mentira gentil, as palavras capazes de nos fazer crer;
E abafar sentimentos dolorosos por um mínimo de conforto.

Fim.

Notas finais
Agora sim, finish! O que acharam? ☺ PS: O nome "Jobervo" é de autoria de uma amica minha que fica colocando nomes escroto nos bixo e cismou que gatos fazem "quack"
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!