“Não se engane. E você se engana, sabe muito bem. Você comete o antigo pecado. Acredita no que vê. Eu não sou o que você vê.”

A história do Ladrão de Corpos – Anne Rice

A bicicleta cambaleou uma, duas vezes pela ciclovia maltratada das ruas de Criptal. Annie segurava o guidão com a mão esquerda enquanto tentava, em vão, secar as lágrimas com a outra.

Odiava reclamar, porém perguntava-se o porquê daquelas coisas acontecerem com ela. Justo com ela, uma boa garota cujo o maior sermão recebido fora aos sete anos de idade, por jogar um prato de ervilhas no chão. Detestava ervilhas. Mas isso justificaria a vida ser tão cruel? Justificaria ter que cuidar de uma casa praticamente sozinha, enfrentar os surtos de sua mãe e depois ter que mentir para o irmão ao ouvi-lo perguntar se ela está melhor?

Piscou algumas vezes quando percebeu que já estava de volta ao Restaurante Lemon. Precisava do namorado. Senti-lo por perto era como ter uma válvula de escape acionada, conseguindo se desligar de tudo — mesmo que por pouco tempo.

— Pensei que não fosse mais te ver hoje. — Annie nem precisava se virar para saber de quem era a voz. Loura aguada, nariz empinado, enchimento no sutiã e uma voz escorregadia como mel. Debby Lemon, garçonete do estabelecimento, prima e ex-namorada de Matt.

— Talvez você devesse pensar menos, Debby. — A morena evitava encarar a outra com os olhos vermelhos. — Onde Matt está?

Os lábios finos estalaram.

— Lá na cozinha, com Denise.

Annie passou por ela, apressada. Olhou para algumas mesas e percebeu que os amigos não estavam mais lá.

Muitas pessoas trabalhavam na cozinha, falando alto e mexendo diversas panelas. Matt estava mais afastado, em uma mesa reservada para as refeições dos funcionários. O terno descansava na cadeira ao lado e os cabelos pareciam estranhamente... molhados.

— Matt. — Ela sussurrou, sentando-se no terno sem cuidado algum. As lágrimas estavam lá novamente, frias e salgadas.

— O que houve, amor? — Ele a abraçou. Sentiu o corpo trêmulo da namorada e a ouviu balbuciar algumas frases com a voz embargada. “Minha mãe” estava na maioria delas e não era preciso mais explicações.

— Ela estava pior do que antes, Matt.

— Vai ficar tudo bem, Annie. — Beijou-lhe o topo da cabeça. — Já passou.

— Ninguém me ajudou. — Soluçou. — A porta estava trancada... como? Ela tinha...

E calou-se. Julgou melhor não entrar em detalhes e não contar sobre o bisturi.

Me diga que Annie está bem, sua vadia! Ecoou em sua cabeça.

— Sou uma idiota. — concluiu, secando a face. — Eu estudo para poder ajudar os outros e simplesmente corri de lá. Fugi da minha própria mãe.

— Você estava assustada. É normal.

— Sou uma pessoa horrível. — Continuava seu monólogo. — Minha mãe, Matt...


— Hey, olhe pra mim. — Ele segurou o rosto de Annie entre as mãos de forma carinhosa e secou-lhe uma lágrima com o polegar. — Você é maravilhosa e faz o que pode por Andrea, Marta e Nathan. Pare de se culpar.

A morena balançou a cabeça em protesto, mas parou ao fitar o namorado. Matt estava pálido. Os lábios estavam ressecados e a esclera tinha um leve tom amarelado.

— O que aconteceu? Tem algo errado com você.

Ele riu nervosamente, passando a mãos nos cabelos.

— Eu não me senti muito bem enquanto atendia um cliente, só isso.

— Matthew. — O instinto a fez começar a apalpar seu amor. Pulso, pescoço, peito, testa. Ele não achou tão ruim. — Como está agora? Te deram algum remédio? Olhe, quantos dedos eu tenho aqui?

— Amor, eu estou ótimo. — Annie tinha essa mania protetora. Matt, como um bom filho único, gostava disso. — Deve ter sido uma queda de pressão, ou apenas muito calor. Pelo menos posso usar como desculpa para não vestir esse terno novamente.

— Tem certeza? Podemos ir até o hospital, você não me parece bem, sér...

A moça encarou o beijo quente e meigo de Matthew Lemon como um sutil cale a boca, em nome de Cristo. Ele sempre o fazia quando ela estava falando demais — e falaria por mais mil anos só para desfrutar de mais mil beijos como aquele.

— Vou ficar ainda melhor hoje à noite. — Deu uma piscadela marota. — Te pego às oito e meia.

— Apenas se cuide. — A morena murmurou, acariciando o rosto dele. — Você é namorado de uma futura enfermeira, não me faça passar vergonha.

— Eu te amo, sabia?

— Eu sei. — Annie finalmente sorriu. — E te amo em dobro.

Duas figuras conhecidas observavam, de longe, o afago do casal. Paul e Sheila, ambos possuídos por seres além da compreensão humana; um anjo e um demônio, respectivamente. Quem desconfiaria?

Sohfar e Emily tinham um acordo: observariam a criatura que unira os dois e manteriam Paul e Sheila adormecidos, para que não soubessem que estavam dividindo seus corpos.

— Annie me parece melhor. — O anjo conseguia escutar as vozes dos pombinhos apaixonados.

— Tinha algo lá dentro. — A garota loura disparou, nervosa. — Algo demoníaco. Você não sentiu?

Ele desviou o olhar, parecendo envergonhado. Fato é que seus poderes angelicais não andavam lá muito bem. Falhavam com frequência e não o atendiam como antes.

— Eu preciso me desligar mais do receptáculo quando não estou no controle.

— Você não sentiu. — Lamentou, séria. — Estou com medo, Sohfar.

— Ninguém sabe de nós ou de Annie. Se um demônio estivesse lá, já não estaríamos mais aqui. — Ele tentava manter a calma e paciência, características de sua espécie.

— Estou conspirando com um anjo! — Gritou e os olhos rolaram negros, revelando o que ela era realmente. — Demônios já mataram por bem menos.

— Se acalme. — O anjo murmurou, olhando ao redor para se assegurar que ninguém havia visto tal cena. — Você quer desistir de tudo?

Ela ponderou por alguns instantes.

— Não! Claro que não... Estamos nessa juntos e vamos continuar.

— Talvez devêssemos contar o que sabemos.

— Ainda não sabemos o que contar. — Emily suspirou.

Estavam engatinhando no escuro. Precisavam descobrir mais coisas sobre a garota que os atraiu para Criptal.

— Vamos nos encontrar essa noite, no casebre. Preciso fazer um feitiço. — A loira concluiu.

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Criptal — Maio de 1993

Eligor já não se preocupava tanto em saber mais sobre quem era. O passado não lhe parecia tão importante na presença dela. Imaginou quantas leis estariam burlando e se aquilo afetaria o mundo ao seu redor. Bobagem. O equilíbrio do planeta não seria afetado pelo simples fato dele estar transando com um anjo naquela cidade interiorana do Canadá.

Fazia cerca de um mês que eles estavam juntos naquele chalé em Criptal. Ariel era uma criaturinha adorável que o ensinava muitas coisas — coisas essas muito prazerosas e que ela, provavelmente, não havia aprendido no Paraíso. Também gostava muito de falar sobre as coisas que vira desde que fora criada. Parecia tão corajosa e superior...

Naquele dia, porém, ela parecia tão humana que ele se permitiu rir.

— Você é um anjo...

— Jura, Eligor? — Ela o cortou enquanto remexia em uma pequena maleta de costura.

Ele riu mais alto.

— Então, você poderia estar fazendo todo tipo de coisa, mas prefere gastar seu tempo cosendo?!

— Tempo é algo tão relativo. — Murmurou. — Temos de sobra, não acha?

— Claro. Mas poderíamos gastá-lo fazendo algo mais interessante. — Insinuou, ao lembrar-se de tudo que experimentou na noite anterior.

Ela deu uma gargalhada rápida que transformou-se em uma tosse agoniante. Tudo aconteceu tão rápido que Eligor paralisou por alguns instantes. Ariel jogou as coisas no chão e caiu um pouco depois. Ele correu ao perceber que ela estava sufocando.

— Ari!

Tentou tocá-la. Sentiu o chão tremer e foi afastado por uma espécie de corrente elétrica. A moça segurou a garganta e vomitou em seguida.

— Estou enjoada. — Disse com a voz embargada, enquanto limpava a boca.

— Sua casca... — Oh sim, ele sabia das burocracias angelicais. Um receptáculo poderia expulsar o anjo a qualquer momento ou simplesmente explodir, devido à tamanha energia que o ser celestial possuía.

— Não! — Ariel gritou, sentando-se longe da água acinzentada que saíra de si. — Annie não vai me expulsar. Nós... Nós precisamos uma da outra.

Ele sabia que tinha perdido algo e tentou descobrir o quê. A resposta veio quando ela acariciou o ventre com carinho, como se tentasse acalmá-lo.

Não! Não, não, não! Não!

Uma faísca de raiva passou no rosto dele: primeira vez que experimentara o sentimento desde que deixara o Inferno.

— Você não pode ter feito isso comigo. — Disse de forma quase inaudível.

— Na verdade, nós dois fizemos. — Ela riu com os olhos fechados.

— Ariel, quando pretendia me contar? Isso foi um grande erro. Impossível!

Ela finalmente conseguiu se levantar, ainda oscilando um pouco.

— Eu também não sabia. Nunca ouvi falar em algo do tipo.

— Você está grávida. — Eligor agitava as mãos, alvoroçado. — Um anjo e um demônio.

Bem, aquilo certamente afetaria o equilíbrio do planeta.

Porque o demônio, apesar de um pouco ignorante, conhecia a fase mais decadente e desprotegida do ser humano; a fase em que ele é apenas uma bola rosada que precisa de ajuda para se limpar. Ariel tinha um em seu útero (no entanto, não tinha certeza se era um humano. Poderia ser?).

— Faz poucos dias que eu o senti mexer. — Confessou de cabeça baixa.

— Um monstro? — Ele cuspiu.

— Um milagre. — O anjo sorriu vacilante e segurou as mãos dele. Sem correntes elétricas dessa vez. — Nosso milagre, Eligor. Uma mistura perfeita de nós dois.

E o beijou afavelmente. Ele ainda não havia se dado conta ou digerido tal informação, mas o otimismo de Ariel já o contagiava. Tudo parecia mais fácil visto pelo ângulo dela. Até mesmo uma bola rosada e chorona.

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Annie se olhou no espelho pela décima vez e franziu o cenho para o reflexo. Sua aparência não estava como gostaria: os olhos grandes pareciam esbugalhados com a sombra, não soube esconder as manchinhas de sol do nariz com corretivo e achava que havia aplicado rímel até demais, tendo em vista os cílios que pareciam patinhas de aranhas.

Definitivamente não havia absorvido muito das aulas de auto-maquiagem que Sheila lhe dera à força. Ela mal sabia a utilidade de cada pincel.

Suspirou novamente enquanto fechava o zíper do vestido tomara-que-caia vermelho e soltava os cabelos. Era reconfortante lembrar que o namorado quase morrera sufocado com aquele terno. Pelo menos ela sabia que os trajes do jantar seriam mais simples.

A porta de madeira que ficava ao lado da sua estava aberta e um garoto encontrava-se jogado no carpete, rodeado por soldadinhos, super-heróis e mini tanques de guerra. Era bom ver o irmão brincar como uma criança comum. Ela gostava de tê-lo embaixo das asas, quase como uma mãe. Quase.

— Não sei se ele merece todo esse esforço. — O menino a fitava sem muito interesse.

— Quer dizer que eu preciso de muito esforço pra ficar bonita? —Annie imitou uma voz ofendida — Obrigada, maninho.

Nathan deu um sorriso de lado. Aquele sorriso que vira incontáveis vezes nos lábios de David. Eles se pareciam tanto que chegava a ser assustador. No fundo, a moça invejava o caçula. Ela jamais encontraria familiaridade ao se olhar no espelho. Não tinha o sorriso do pai ou os brilhantes cabelos louros da mãe (que possuía uma aparência incrível antes da doença mental).

— A verdade é que eu não gosto do seu namorado. — Pelo menos a sinceridade dele combinava com a da irmã.

— Não precisa beijá-lo então. Eu faço isso. — Riu ao ver a careta de nojo de Nathan. — Me desculpe por ter perdido a sua apresentação.

Ele arqueou as sobrancelhas com as palavras embaraçadas.

— Tudo bem, sério, eu detesto o coral. Pelo menos as férias chegaram para todos nós.

— Mas você permanecerá nele, amorzinho, mesmo após o recesso. — O tom mudou de repente. — Cuide da vovó. Eu não voltarei pra casa hoje.

Não gostou nada do semblante malicioso do menino. Ele tinha apenas onze anos. Aquilo era precoce!

"Você está linda". — ouviu satisfeita, quando já estava saindo.

Matt estava atrasado. Ela já tinha ouvido as recomendações de Marta e pego a bolsa e o casaco. Quinze minutos. Ele nunca se atrasa.

Vinte minutos. Não atende o celular. Quando o relógio marcou 20h30min resolveu que iria andando. Provavelmente encontraria o Ford azul do namorado no meio do percurso e não era tanto tempo de caminhada, afinal.

Criptal tem índice zero de violência, Vó, era o que sempre dizia quando precisava sair após escurecer. Tal afirmação seria desmentida naquela noite.

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Criptal — Maio de 1993

Quando se tem um segredo, parece que os olhos do mundo se viram pra você, como se todos na rua fossem parar seus afazeres para lhe apontar o dedo e dizer “eu sei o que você está escondendo”. Eligor sentia-se assim sempre que precisava deixar o chalé para buscar algo para Ariel ou para sua casca.

O anjo, por sua vez, estava fazendo o que podia pra amenizar a dor de seu receptáculo enquanto a criaturinha desenvolvia-se em seu ventre — e parecia crescer rápido. Os enjoos eram frequentes e sempre acompanhados por tremores, raios, descontrole de telecinese...

Quanto tempo demoraria para que alguém percebesse o que acontecia ali?

Mas para Eligor, o pior era não poder tocá-la nesses momentos. Ele sempre era lançado para o outro lado do quarto ou acabava com o nariz sangrando.

Uma proteção, talvez. Você é um demônio. Ela dissera, como se aquilo fosse natural. A última palavra que ele usaria para o que estava ocorrendo seria natural. O que Abaddon diria se soubesse dos últimos acontecimentos? Quanto tempo levaria pra matar Eligor se ele explicasse tudo e concluísse com um você pode ser o padrinho?

Vá para o Inferno, Abaddon!

O barulho da porta e um grito de Ariel o tiraram de seus pensamentos. Três demônios. A morena cor de jambo parecia ser a líder. Dois homens altos a flanqueavam.

— Temos um peixe grande aqui. — Virou os olhos negros para Ariel. — Não a machuquem.

O anjo apontou para eles, mas nada aconteceu. Eligor gesticulou rapidamente, arremessando os dois contra a parede. Um pareceu desacordado enquanto outro balançava a cabeça com tontura. A mulher era bem mais forte e revidou com um movimento de mãos e um sorriso macabro no rosto. Ela estava o expulsando.

— Não precisamos de você. — Disse com sua voz esganiçada.

— Mas eu sim. — Ariel colocou-se atrás da morena e puxou sua cabeça enquanto repetia palavras desconexas, em latim.

Os três estavam caídos, mas não expulsos.

— Vamos sair daqui. — Disse, puxando Eligor.

Eles caminharam por algumas horas, fazendo pausas para que Ariel descansasse e tentasse curar seu receptáculo. Ainda estavam chocados com o ataque que sofreram e debatiam sobre quantos demônios já sabiam da gravidez.

— Nos protegeremos. — Ela afirmou, após cuspir um punhado de sangue. — Esse bebê vai nascer. É especial, é nosso!

Eligor concordou.

— Vou cuidar de vocês dois.

— Se for menino, que receba o nome do pai. — Ariel continuou, mexendo em seu colar. — Se for menina, que o nome seja da mulher que mais sofrerá com essa loucura.

O demônio a abraçou e jurou para si mesmo que protegeria Ariel e o bebê; fosse ele um Eligor ou uma Annie.

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— Realmente perdi a noção da hora. — Matt disse. Annie revirou os olhos enquanto levava a última garfada à boca. — Eu não queria que você tivesse vindo sozinha.

— Não foi nada, Matt, nós moramos bem perto. — Ela deu ombros. — Eu só fiquei um pouco preocupada.

Ele riu amarelo e bebericou mais vinho. Não sabia como os relógios e telefones de sua casa haviam parado de funcionar. Sentiu-se extremamente culpado ao ver a namorada escorada em sua porta com um olhar acusador. Annie dera respostas frias e curtas durante todo o jantar e mal parecia estar sentindo o gosto da comida.

— Acho que estraguei nossa noite. — Desabafou. — Você teve que andar por aí no escuro e de salto...

Pela primeira vez os olhos da garota brilharam. Um misto de excitação e ansiedade. Ela virou sua taça e mordeu os lábios.

— Olhe para mim, Matthew. Nada pode estragar a minha noite. Estou ótima. — Disse, sorrindo. Seus cotovelos estavam apoiados na mesa; os lábios se curvaram um pouco e ela apagou a vela que estava próxima de si.

— Vou sempre lembrar desse vinho, do assado maravilhoso que provei e dos seus olhos que não saem do meu decote.

Ele sentiu o rosto corar e um formigamento tomar conta da parte debaixo do seu ventre. Talvez a noite dos dois ainda não estivesse perdida e logo ela seria sua, de corpo e alma.

— Você é que será meu, querido. — A garota murmurou e apagou mais velas do castiçal de prata. A espaçosa sala de jantar dos Lemon estava imersa na penumbra. — Vou buscar a sobremesa.

Annie mal havia se levantado quando sentiu as mãos firmes de Matt puxando-a para seu colo. Eles já tinham completado sete meses de namoro, o que queria dizer o rapaz aguentara sete intermináveis meses de amassos e beijos, sem tentar avançar o sinal. Era um recorde, uma prova de amor... Mas ele não conseguia aguentar mais.

— Esse vestido é uma provocação. — Sua mão subia e descia pelas costas nuas, causando arrepios. — Atentado ao pudor é crime, querida.

— Matthew, por favor. — Ajeitou-se sobre o corpo dele, torcia mentalmente para que a cadeira não quebrasse.

— Adoro quando você usa vermelho, fica tão sexy...

A mão livre tocou levemente as maçãs do rosto dela. Tudo ali parecia tão angelical. Os dedos desceram pelo colar prateado que ela sempre usava. Annie.

— Sabe, eu prefiro azul. — A voz doce saiu sufocada ao sentir aquela mão passar dos limites do vestido. Ele já estava suando quando sentiu os dois montes. Nem precisou apalpá-los muito para saber que eram maravilhosos. O encaixe perfeito do seio esquerdo na sua mão o fez imaginar como seria colocá-lo na boca.

— Gosto é da cor de sua pele. — O indicador fez algumas voltas na aréola — Por que ainda está tão vestida?

— Ai céus. — Ela arfou de olhos fechados, o que o preocupou um pouco.
— Estou indo rápido demais, amor?

Annie respirava fundo.

— Está tão devagar que chega a ser tortura.

Com movimentos rápidos ela mudou a posição, ajoelhando-se nas pernas dele com um ar felino. Segurou o queixo do namorado entre o indicador e o polegar e o beijou devagar, explorando cada canto de sua boca. Quando percebeu que as mãos dele subiam demais por sua coxa, mordeu-lhe o lábio. Ele gemeu.

Ela riu e puxou os cabelos dele para trás de uma forma um pouco bruta. Dominado.
Ele havia prometido para si mesmo que iria devagar com a namorada. Sério. Mas naquele momento ela estava movendo os quadris sobre sua ereção. Annie, Annie, Annie...


— Vamos pro seu quarto. — Anunciou, pulando da cadeira e já subindo os primeiros degraus da escada. O cabelo negro despenteado formava uma moldura selvagem no rosto de porcelana.

— Não sei se consigo levantar. — Ele apontou para o volume em sua calça.
— Você é quem sabe. — Annie parou no patamar e deslizou o zíper do vestido, que foi ao chão, junto com o queixo de Matt.

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O casebre possuía iluminação precária e poucos sinais de que já havia sido habitado algum dia. Não que isso importasse para eles, que só usavam a saleta escura quando precisam se encontrar com urgência ou fazer algum feitiço de proteção.

A garota loira espalhava ervas e velas pela mesa, dizia algumas palavras enquanto anotava símbolos com giz. Terminou abrindo um grande mapa amarelado. Sohfar olhava pela janela embaçada sem um foco certo. Aquilo estava errado, muito errado. Qual seria a reação de Sheila ao descobrir que suas mãos foram utilizadas para praticar bruxarias?

— Como vai seu dedo? — Perguntou, distraída.

— Eu o curei antes mesmo que ele o machucasse. — Respondeu o anjo. — Paul Ramal é exagerado.

Ela sorriu, desfazendo um embrulho marrom. Logo, ele viu uma faca branca, provavelmente feita de osso e bem afiada.

— Bom saber que o seu poder de cura está funcionando melhor. — Segurou-lhe o antebraço, apontando a ponta da faca para uma fina veia esverdeada de Paul. — Farei um pequeno corte.

Sohfar respondeu com uma careta descontente quando sentiu o objeto romper a pele do receptáculo. Talvez Emily achasse divertido o esforço que o anjo fazia para se recuperar após esses rituais. O líquido quente e vermelho gotejou, sendo rapidamente absorvido pelo mapa.

— Ostende Mihi. — A moça murmurou. Ao menos dez pontos vermelhos escorreram pelo papel. Se moviam rápido na mesma direção, como se soubessem onde estavam indo. E sabiam...

— Anjos. Estão vindo.

— Para Criptal? — Ele arriscou, esperançoso.

— Para esta casa.

O silêncio se estabeleceu por alguns segundos. Anjos haviam descoberto aquela parceria proibida.

— Você precisa ir. — As palavras foram pouco mais que um sussurro. — Encontrar Annie. Eles não podem saber sobre você, não quero precisar sentir o cheiro de asas queimadas.

— E você? — Sohfar murmurou. O clima de despedida não o agradava.

— Tenho meus truques. — Assegurou-lhe, jogando um líquido na sala. — Traga-a para cá.

O anjo assentiu com a cabeça e desapareceu ao mesmo tempo em que a porta do casebre foi arrancada com fúria. Emily reafirmou mentalmente sua tese de que anjos conseguiam ser tão vaidosos quanto humanos. Sempre escolhiam cascas estonteantes. Prova disso eram aqueles que estavam diante de si.

— Olá, criatura imunda. — Uma garota de cabelos curtos se precipitou. Não devia ter mais que quinze anos. Desde quando anjos invadiam crianças? — Qual o nome do traidor que estava aqui com você?

A loura respirou fundo antes de responder.

— Vocês não foram convidados para a festinha. Desculpe.

— Você representa a classe mais baixa do universo. — Dois passos para frente, como um leão se preparando para atacar. — Deveria ter cuidado com as palavras que usa.

— E que tal essa? — A criatura imunda bradou animada. — Lucem.

Uma luz azul subiu do assoalho e circulou os anjos, cegando-os. O efeito era momentâneo, ela sabia que em dez segundos os seres celestiais estariam de volta ao normal e mais furiosos do que antes.

Alguém gritou em sua cabeça. A dona do corpo acordara e estava clamando para ter o que era seu de direito.

Sinto muito, Sheila...

Seu último pensamento foi para Sohfar. Tinha esperanças de que ele se daria melhor que ela e conseguisse manter Annie segura.

Os dez segundos acabaram.

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O quarto de Matt Lemon tinha um tamanho apropriado para um jovem que ainda vivia com os pais; composto por algumas prateleiras usadas para expor coisas que gostava, um roupeiro amplo, a cômoda da televisão e sua espaçosa e confortável cama. Perdera a conta de quantas garotas já passaram por aquela cama, mas só com Annie ela balançou daquele jeito.

A garota serpenteava sobre o corpo nu do namorado, sua cabeça estava arqueada para trás e as pontas dos dedos beliscavam os mamilos rosados.

Matt sentia-se extasiado com aquela visão e estava quase chegando ao clímax de novo — anteriormente acontecera na boca dela. Até aquele momento, ele achava que a noite — apesar de prazerosa — não seria das mais fáceis. Sabia que a primeira vez de uma mulher era dolorosa e até um pouco constrangedora.

Apesar disso, não estranhou o comportamento da morena e a forma devassa que ela estava conduzindo a situação. Como poderia estranhar? Ele só conseguia pedir por mais, que ela se movesse mais, que o fizesse mais rápido e nunca mais parasse.

Quando a sensação chegou, ele cessou os gemidos. Algo estava errado. Não foi uma sensação arrebatadora ou aliviante, pelo contrário: seus músculos enrijeceram, ao invés de relaxarem, e todo o corpo endureceu. Aquilo não estava dando prazer algum.

Tentou parar os movimentos de Annie e se desesperou ao perceber que não conseguia se mexer: estava paralisado na cama enquanto ela continuava a cavalgá-lo

Annie. — O terror aumentou quando percebeu que a voz não saiu.

Sem se mover ou falar, ele só conseguia ver. E ele viu.
Viu quando o pequeno corpo de sua amada começou a tomar outra forma, como uma gelatina e viu quando o rosto de boneca virou uma massa vermelha e preta, como se tivesse saído de um incêndio.

Estava com nojo daquilo, queria tirar aquela coisa de si, mas ela subia e descia, agora sem qualquer traço de sensualidade.

A coisa parou e se moveu para frente, colocando as mãos no peito de Matt. Ele poderia jurar que ela o observava, mesmo tendo dentes no lugar de olhos.


— Avisei que você seria meu. — O rapaz rolou os olhos procurando o dono da voz rouca. Piscou algumas vezes para ter certeza de que vira mesmo um homem (muito bem vestido, por sinal) parado perto de sua cômoda.


Nunca se certificaria de sua visão. O peito queimava e uma solitária lágrima escorreu por sua face.

O coração do Lemon bateu pela última vez.

A criatura assumiu novamente a aparência de Annie e se desencaixou do corpo sem vida de Matt, lançando-lhe um olhar de desprezo, como um inseto asqueroso que foi pisado.

Annie — ou não — enrolou-se em um lençol e seguiu pelo corredor, ignorando os olhos abertos e vidrados do cadáver. Arrumou os cabelos com sincera tranquilidade e desceu os primeiros degraus da escada. Chutou um certo vestido vermelho que estava no patamar e riu baixinho, como uma criança travessa.

A garota parou quando ouviu um leve farfalhar de asas e um barulho abafado vindo do quintal: sem dúvidas era um pouso. A expressão mudou drasticamente; os risinhos viraram lágrimas e soluços e a boca se abriu em um grito agudo e angustiante. Digno de Oscar.

Notas finais
Segundo capítulo dos três que julgamos necessários para entender a história como um todo, e, então, partir em busca de mais desenvolvimento. Espero que gostem. Há mais a caminho...