— Anne? — disse o visitante.

Diante de seus olhos, Anne não acreditou no que via. Era Gilbert Blythe. Ele estava dentro de sua casa. Vestia roupas de inverno simples: um sobretudo azul-marinho de tecido surrado, botas em um tom de marrom-escuro desgastadas, cobertas de neve que derretia com o calor do novo ambiente, e uma boina xadrez com detalhes em verde-escuro e tons de vermelho. Seus olhos castanhos calorosos encontraram os olhos de Anne de uma forma que parecia atravessar sua alma. O olhar dele escondia certo medo, pois os tremores de seu corpo demonstravam o quanto estava com frio. Anne, diante daquela situação, percebeu sua palidez e ficou com o coração ainda mais apertado. Logo após toda aquela troca de olhares e pensamentos, Gilbert acabou desmaiando diante de Anne, que arregalou os olhos cinzentos sem saber exatamente o que poderia fazer.


— Gilbert! — disse ela, assustada, correndo em direção ao jovem rapaz que estava no chão. Naquele momento, ela esquecera dos problemas que tinha com ele, da raiva que sentira ao vê-lo entrar pela porta sem ser convidado, do dia em que ele puxou seus cabelos e ela quebrou a lousa em sua cabeça, sendo castigada por causa disso. Naquele momento, seu coração apertara, pois se lembrou de Minnie May e do dia em que ajudou ela e a família Barry no caso da crupe. Anne era magricela, mas era forte. Pegou Gilbert pelos braços e o colocou em frente à lareira, pois era o ambiente mais quente da casa naquele momento. Correu para o andar de cima e pegou vários cobertores, mas se lembrou de que precisava tirar as roupas molhadas de neve de Gilbert.


Com suas delicadas mãos, desamarrou os cadarços de suas botas e as tirou. Em seguida, retirou suas meias e colocou em seus pés um par de meias velhas de Matthew. Seu sobretudo era a peça que estava mais úmida. Com isso, Anne o desabotoou e o retirou. As roupas por baixo estavam secas, porém ele não estava aquecido. Vestiu nele um casaco de lã que o manteria bem aquecido. Retirou sua boina com cuidado e viu seus cabelos bagunçados e desalinhados. Passou a mão por seus cabelos e sentiu sua maciez. Quando se deu conta, estava acariciando seu rosto e perdida em seus próprios pensamentos. Ela corou e interrompeu o carinho. Lembrou-se do dia da chalana. Que dia terrível fora aquele para Anne. Se não fosse Gilbert, ela poderia nem estar ali. Ele chegara de forma repentina, como se precisasse estar lá para salvá-la, e, de certa forma, ela sentia o mesmo naquela situação: precisava cuidar dele.



Ela pegou um cachecol vermelho e o enrolou em seu pescoço com muito cuidado. Pegou os cobertores que havia buscado no andar superior e o cobriu com vários deles, deixando apenas uma de suas mãos para fora. Ela segurou a mão dele, realizando leves movimentos de fricção para aquecê-la.

— Oh, Gilbert... — começou Anne. — Está impossível sair desta casa nesta situação. Eu lamento muito. Espero que eu consiga ajudá-lo nessa situação difícil. Espero que você saia dessa. Eu lamento muito por nossas brigas e por ficar te evitando. No fundo, eu sinto isso, sabe? Mas eu realmente não gosto que falem da minha aparência... Já me sinto muito feia ao olhar no espelho, e isso já é um castigo enorme. Que Deus não leve você neste momento, pois eu ficaria com muito remorso por não conseguir trabalhar o meu perdão durante sua vida neste mundo.

Anne se levantou e foi preparar o chá. Estava colocando o líquido em duas xícaras.

— Sabe, eu tenho muita esperança de que você fique bem logo. Não é justo com você, um rapaz tão estudioso, com um futuro brilhante pela frente. Sei que, às vezes, você é melhor do que eu e, às vezes, eu sou melhor do que você, e tudo bem... Oh, Gilbert, obrigada por sempre me elogiar quando eu fui melhor do que você. Nunca vou me esquecer desses momentos e da minha chatice de não te ouvir nem agradecer. Eu o agradeço agora: muito obrigada por enxergar isso. Fico muito feliz pela consideração. Eu, na verdade, quando você é melhor do que eu, no fundo fico feliz e querendo te parabenizar, mas pensa... a vida que eu tive... Nada mais justo do que eu ser boa às vezes, certo? Não soaria nada romântico se, depois de tudo o que vivi, eu não conseguisse ser boa assim.


Anne não percebeu, mas, enquanto falava, Gilbert se mexia de forma quase imperceptível debaixo das cobertas, e seu rosto retomava uma cor mais viva. Mesmo naquele estado complicado, as palavras chegavam até ele como se viessem através da neve. Algumas frases eram claras, outras pareciam distantes. Ainda assim, reconhecia a voz de Anne, e isso bastava para lhe trazer conforto. Em seu rosto formava-se um pequeno sorriso, pois seu corpo não conseguia reagir da forma como gostaria, e seu coração pareceu acelerar com aquelas palavras. Ele adorava ouvi-la falar sem parar. Achava fascinante a forma como as palavras saíam de sua boca, como se fossem uma linda poesia que ela já tivesse decorado há muito tempo. Ele continuava a ouvi-la, sem entender tudo com clareza.



— ... E eu fiquei muito assustada naquele inverno passado, quando a Minnie May teve crupe. Por favor, não fique com nenhuma doença desse tipo. E eu gostaria mesmo de agradecer, de coração, por ter me salvado naquele dia da chalana, sabe? Eu estava nas profundezas do desespero, e você apareceu como um herói. Não queria que fosse assim, pois eu gostaria de ser minha própria heroína, mas você apareceu no momento certo. Às vezes, algumas coisas acontecem porque era para ser desta forma. E, depois que você me pediu para ser sua amiga e eu rejeitei, fiquei com um sentimento de culpa, mas também senti raiva ao lembrar do que você me causara. É um sentimento confuso esse. Querer ser sua amiga e não querer ser. Às vezes, acho que é bom dessa forma, pois assim podemos não ficar conversando muito. Com certeza, algumas garotas da escola iriam entender a situação de forma errônea, e eu não poderia suportar esse tipo de situação, pois são as únicas amigas que tenho. Minha grande amiga do peito, minha amada Diana, me disse que, em vários momentos, você foi gentil e que eu o ignorei. Eu estava percebendo, mas isso só me deu mais raiva de você. Portanto, peço desculpas por isso.

Anne ouviu o relinchar do cavalo de Gilbert vindo da porta dos fundos.

— Oh, meu Deus! O cavalo!

Ela saiu correndo pela porta dos fundos e avistou o cavalo de Gilbert. Nele havia várias coisas, pois provavelmente ele estava voltando de Carmody. Pegou os itens e os colocou dentro da casa, próximos a ele. Em seguida, levou o animal o mais rápido que conseguiu ao estábulo, para que ficasse confortável.

Durante esse tempo, deitado, Gilbert foi recuperando aos poucos a cor do rosto, enquanto o fogo aquecia seu corpo juntamente com as roupas de lã que Anne lhe colocara. Ele conseguiu sorrir com mais facilidade, à medida que o sangue voltava a circular melhor por seu rosto, e começou a recuperar os movimentos. Ao abrir os olhos, viu seus pertences ao lado, próximos à porta dos fundos, ela havia retirado do cavalo e deixado lá. Levantou um pouco o cobertor e, ao notar a textura diferente sobre seu corpo, percebeu que Anne havia retirado seu sobretudo, trocado seu casaco por um de lã e pendurado as roupas úmidas para secar em cadeiras próximas à lareira.

Houve uma batida na porta dos fundos. Era Anne voltando para dentro de casa.

— Pronto, eu havia esquecido do seu cava...

Ao erguer os olhos e encontrar o olhar de Gilbert, sentiu como se seu coração fosse explodir.

— Oi, Anne. — disse ele, meio apoiado sobre o cotovelo, com um lindo sorriso de orelha a orelha.


Notas finais
Olá, leitores! Como vocês estão? Espero que estejam gostando da história até aqui. Estou escrevendo cada capítulo com muito carinho, tentando manter a essência de Anne de Green Gables. Espero que vocês gostem deste capítulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. Desejo uma ótima leitura! Não deixem de comentar para eu saber se estou no caminho certo <3