Anne With an E - Kingston

7 Não há lugar como Green Gables


Notas iniciais
Oi gente! Passou de domingo por pouco, né? Mas como prometido, está aqui o capítulo! Espero que gostem! Boa leitura!

Anne entrou na casa de Green Gables junto à Marilla. Faziam apenas três meses que estava longe de casa, mas a sensação era de que tinham se passado muito mais meses.

Lar.

O aroma que percorria a casa era da comida de Marilla, despertando o paladar de Anne. Logo viu Matthew e Jerry em frente à lareira, sentados e com praticamente a mesma pose. Retirou seu casaco e logo se sentou junto à eles, sorrindo com a familiaridade que o ambiente lhe proporcionava. Céus, como era bom. A vida na cidade com Diana e as garotas era boa, e a pensão era aconchegante, mas nada se compara à Green Gables.

Olhou ao redor e notou como a casa estava limpa, com todos os objetos nos seus lugares. Marilla com certeza estava limpando a casa todos os dias. Notou também que Jerry estava se sentindo em casa, o que a alegrou. Ele era um garoto muito amável e amigável, um ótimo amigo e certamente uma companhia agradável aos irmãos enquanto Anne estava fora. Anne já tinha esquecido toda a competitividade que sentia contra Jerry por ele ter um quarto em Green Gables enquanto ela estava fora, pois tudo tinha sido resolvido quando Matthew conversou com ela a algum tempo atrás.

— Bem Anne, você acabou chegando tarde, e precisamos dormir. Amanhã tenho que sair com Rachel para comprarmos o que falta para o natal, e não, não precisaremos de ajuda, — Disse Marilla, quando Anne abriu a boca para interromper — você pode visitar seus lugares favoritos e suas amigas, mesmo que o tempo não esteja tão favorável. E amanhã podemos conversar sobre suas aventuras, que eu tenho certeza que tem muitas coisas para falar na ponta da língua.

— Com certeza tenho! Ah, a cidade é esplêndida, Marilla! Tantas coisas para fazer, tantas lojas e lugares para se encontrar. Lindos! Mas não é igual sem vocês. É tolerável para ficar e estudar, pois sei que terei Green Gables no fim. Seria um lugar magnífico se Green Gables estivesse lá.

Marilla disfarçou um sorriso quando ouviu aquelas doces palavras. Anne olhava para ela com amor, e ela mesma pensava que gostaria de levar Marilla para ser sua companheira de quarto, e não Diana. Amava a amiga de todo o seu coração e com toda sua imaginação, mas ela não era Marilla.

Mas rapidamente pensou que talvez Marilla não seria uma colega de quarto agradável. Enquanto ela estivesse estudando, seria distraída pelas limpezas de Marilla, além de que ela não teria muito o que fazer sem Green Gables e suas amigas, Rachel e a senhorita Stacy. Suspirou, vencida.

Matthew levantou-se com certa dificuldade, e Anne resistiu a vontade de levantar-se e ajudá-lo a ir para seu quarto. Acenou leventemente e se retirou. Anne logo agradeceu ao Misericordioso Pai Celestial que o quarto dele fosse no mesmo andar, para que ele não se esforçasse tanto andando invés de subindo uma escada. Marilla observou todo o percurso que Matthew fez, atenta, até ouvir a porta dele batendo quando ele entrou no quarto. Logo em seguida subiu as escadas para dormir.

Anne observou Jerry, até então quieto junto a um prato vazio com farelos de bolo. Matthew não comeu, mas Jerry não recusava um bom prato de comida. Ele era magro, mas ganhou tamanho nos últimos meses morando com os irmãos. Seu rosto estava mais bronzeado, e suas bochechas estavam maiores. Seus braços estavam mais fortes de trabalhar na fazenda, imaginou.

— Estava com saudades suas, Anne. Ninguém mais aparece do nada no celeiro e começa a falar sozinha. Ou com as vacas, ou com os cavalos.

— Tenho certeza que você estava com saudades minhas. Mas eu também estava com saudades suas. Prometo que irei ao celeiro visitar você antes de voltar à universidade. E também vou visitar as vacas, ou os cavalos.

Os dois sorriram, rindo baixo por causa de Marilla e Matthew. Jerry apontou para o bolo que ele tinha pego antes em cima da mesa, e Anne se serviu. Lembrou que não fazia bem comer a noite, mas estava com fome. Não de comida salgada ou doce, mas da comida de Marilla. Iria aproveitar o máximo que podia.

— Como vão os estudos? — Disse Anne, entre as garfadas.

— Estou evoluindo muito. Não tanto quanto gostaria, mas ainda tenho que trabalhar. Tenho lido bastante livros difíceis, e quando não entendo alguma palavra, Matthew me ajuda. Ele tem sido muito compreensivo, e até deu alguns livros de presente. Alguns dias atrás ele tinha ido à cidade sem me dizer o porque, e voltou com um livro de matemática! Agora estou aprendendo o básico, mas já consigo fazer divisões e multiplicações.

— Graças ao bom Pai Misericordioso não preciso mais estudar matemática. É necessário saber o básico, mas prefiro mil vezes ensinar do que aprender. Principalmente geometria! — Disse Anne, fazendo uma careta de desgosto que fez Jerry rir — Meus estudos envolvem leitura, escrita e ensino. São coisas que amo tanto, Jerry! Poderia sentar e te ensinar tudo o que você precisa só com o que já tive, mas creio que seria muita irresponsabilidade da minha parte achar que já aprendi tudo o que deveria com o pouco de aulas e provas que recebi. Tenho que me esperar me formar, o que não vai demorar por só precisar de um ano. Então, caso você ainda precise de ensino quando eu me formar, você será meu primeiro aluno! Todos vão olhar para você e imaginar: Anne realmente é uma ótima professora, olha como Jerry tem conhecimento sobre tudo! Te ensinarei matemática, português e oratória. Ah, você irá falar tão bem em público! Estou até vendo, eu indo a um evento com meu melhor vestido e sentando na primeira fileira, enquanto vejo meu aluno prodígio recitando seu poema favorito com vivacidade. Será tão lindo, Jerry!

— Anne, você precisa dormir, pois vejo que já está sonhando com coisas extremamente difíceis de serem feitas.

— Mas olha, Jerry, você já está falando palavras como “extremamente”! E antes mesmo de eu falar tudo isso, você falou “compreensivo”, quando antes você só falaria “bom”. Não é tão impossível, basta um pouco de imaginação e esforço.

Jerry sorriu diante das palavras de Anne. Já sabia que ela tinha uma imaginação além do comum, mas ver toda a confiança que depositava nele dava forças para seguir em frente com os estudos. Afinal, foi ela que o ensinou o alfabeto e suas primeiras palavras escritas em inglês.

— Espero que tudo o que você falou se realize, Anne. Não a parte de você ser a minha professora, o que eu realmente gosto, mas queria estudar um dia em uma escola. Pode ser impossível por enquanto, mas meus pais estão muito felizes com os meus estudos, e tenho ensinado meus irmãos mais novos a escrever. Espero que um dia eles não precisem que eu trabalhe e me levem para a escola.

— Com certeza um dia você irá para a escola, Jerry.

Os dois se olharam, sorrindo. Se houvesse alguém os olhando, poderiam falar que eles eram irmãos, apesar da aparência distinta entre ambos. Anne sabia que não era o sangue e a fisionomia que uniam os laços de um lar, e que desde que os dois chegaram a Green Gables, pertenciam à esta família de alguma forma. Poderia não ter o Cuthbert no sobrenome, mas Anne facilmente poderia imaginá-lo como um primo próximo que os visitava todos os dias para ajudar seu tio na fazenda.

— Anne, melhor irmos dormir. Está ficando tarde, e se Marilla nos pegar acordados a essa hora, pode acordar até Matthew. E amanhã cedo vou voltar para casa! Marilla fez uma cesta cheia de doces para nós. Minha mãe vai adorar, e todos meus irmãos amam quando volto nos finais de semana para casa. Não por causa de mim, mas porque Marilla sempre faz comida extra, e a comida dela é muito boa.

— Acostumou a dormir sozinho, Jerry? — Disse Anne, lembrando de quando estavam na tia Josephine e ele dormiu junto com ela.

— Depois de algumas noites em claro, o cansaço de ficar acordado no escuro venceu. Minhas olheiras estão até sumindo! Agora o difícil é voltar a dormir com meus irmãos nos finais de semana.

— Que ótimo! Vou ir apagando as velas. Pode ir para o seu quarto já, se quiser. Tenho que lavar a louça também. — Disse Anne, já se levantando e procurando o apagador de velas — Também tenho que dormir logo. Estou devendo algumas conversas à Diana, e ainda tenho que sair com Gilbert para comprar os presentes restantes em plena véspera de natal!

— Você vai até a casa de Diana? — Disse Jerry, parando no caminho do seu quarto e olhando para Anne.

— Sim, preciso ir. Aconteceram algumas coisas que preciso dizer a ela e — Anne percebeu a expressão de Jerry, e parou o que estava falando. — Tudo bem, Jerry?

Jerry percebeu que estava estático, e logo relaxou sua postura.

— Sim, tudo bem.

Tinha esquecido que, junto com Anne, Diana Barry também retornou à Avonlea.

Enquanto isso, Gilbert e Sebastian chegaram à fazenda. A senhora Hazel, mãe de Sebastian, deixou a mesa arrumada para que ambos pudessem jantar antes de dormir, imaginando que deveriam estar famintos, principalmente Gilbert.

Logo que abriu a porta, assim como Anne, Gilbert sentiu o aroma da comida da senhora Lacroix. Não de comida doce, mas sim temperada. Lembrou imediatamente da comida favorita dele.

— Que bom que vocês chegaram! Senhor B — Hazel parou, corrigindo — Gilbert, fiz a sopa. Uma comida leve, para vocês não terem pesadelos quando irem dormir. Amanhã irei caprichar no almoço.

Gilbert foi até Hazel e lhe deu um abraço. Ela ainda não estava acostumada com o contato, apesar da senhorita Stacy conseguir arrancar dela alguns abraços em suas visitas. Logo, abraçou-o em resposta, enquanto Bash observava orgulhoso o progresso da mãe, imaginando que, felizmente, o irmão não seria mais tratado como antes.

— Como senti saudades da sua comida, Hazel! Estou faminto. — Disse Gilbert, sentando na mesa e já sendo servido. — Onde está Delphine?

— Ela já dormiu. Ela parece um relógio. Quando escurece, ela já começa a piscar, e logo adormece. — Disse Hazel, orgulhosa de sua neta. Serviu Bash, que estava sentado de frente para Gilbert, e logo se despediu e foi dormir.

Enquanto comia, Gilbert sentia o olhar de Bash sobre ele. Já tinha se surpreendido por não receber nenhuma piada na volta sobre o relacionamento dele com Anne, ou do jeito que ficava perto dele. Olhou para seu amigo, que o encarava com um sorriso risonho.

— Sebastian, fale.

— Digo e repito: eu sabia!

Rapidamente largou seu prato na mesa, levantou e começou a fazer a mesma dancinha que tinha começado a fazer a alguns meses atrás, interrompido quando Gilbert disse que seu amor não era correspondido. Só que, desta vez, sabia que Gilbert não iria pará-lo, e pode finalizar seus passos.

Gilbert ria do seu amigo, feliz por saber que o relacionamento era aprovado. Bash gostava muito de Anne mesmo antes de conhecer ela, e certamente a achava uma garota completamente diferente das outras. E também percebia como os dois ficavam perto um do outro, quando eles mesmos não sabiam o que era.

Sebastian finalmente terminou e sentou-se novamente, pronto para acabar de comer.

— Só isso? — Quis saber Gilbert, com um sorriso de lado.

— Com certeza não. Pode ir falando do seu encontro!

— Bem, como você sabe, Anne ficou até mais tarde em Kingston para me esperar.

— Sabendo que você iria chegar no próximo trem, certo? — Interrompeu Bash, já sabendo da resposta.

— Sim, já sabendo disso. — Bash riu, falando novamente ‘Eu sabia!’, enquanto Gilbert continuou — Ela me encontrou na ferroviária. Eu não sabia que ela iria me aguardar, mas fiquei feliz de encontrá-la. Passeamos pela cidade e também fomos à um café. Depois retornamos à Avonlea.

— Você não vai me contar os detalhes?

— Você vai me contar os detalhes do seu relacionamento com a senhorita Stacy?

Sebastian ficou contrariado, e Gilbert riu do amigo. Ele já tinha percebido a amizade entre os dois antes mesmo de partir, e sabia que escondia algo mais, pois Bash comentava em algumas cartas sobre as visitas dela. Pouco, pois o amigo era sucinto, mas justamente por esse motivo ele sabia que suas visitas eram importantes o suficiente para serem escritas em poucas palavras.

— Não temos nada, Gilbert. Somos amigos, e nada mais.

— Assim como você dizia para mim quando eu negava que tinha sentimentos pela Anne, repito para você: sei.

— Voltando ao assunto, não rolou nenhum beijo, Gilbert? Nada? Nem um abraço mais apertado?

Gilbert riu, e falou os detalhes que Bash desejava saber, pois sabia que ele não iria deixá-lo ir dormir sem saber de tudo o que queria.

— Olá, minha querida Rainha da Neve! Hoje é véspera de natal!

Anne acordou feliz, já escolhendo um vestido para ir à casa dos Barry. Não podia perder um minuto do seu tempo hoje. De manhã visitaria Diana, a tarde iria na casa de Gilbert para visitar Delphine e para irem comprar os presentes, e a noite eles viriam jantar em Green Gables. Ah, que dia maravilhoso!

Colocou seu corset, que já tinha acostumado a colocar sozinha por, às vezes, Diana sair mais cedo da pensão. Pôs seu vestido azul claro, sem mangas bufantes, com detalhes brancos pela saia e no colo.

Logo que se arrumou, olhou-se no espelho. Suas sardas estavam ressaltadas, e seu cabelo ruivo estava solto, junto com seu chapéu. Aprendeu a se aceitar a pouco tempo, e confessou a si mesma que a cada dia que se passa, ela amava cada vez mais seus cabelos ruivos.

Os cabelos de Bertha, sua amada mãe.

Desceu as escadas rapidamente para tomar café. Marilla já a aguardava, servindo a mesa com bolos e chá.

— Bom dia, Anne! Coma logo, que logo irei sair. Rachel logo irá chegar para irmos à cidade juntas. Veja de almoçar com os Barry hoje.

Marilla também já estava arrumada, com uma camisa de botões clara e uma saia longa marrom escura. Seus cabelos estavam bem penteados para trás, juntos em um coque.

— Terei um tempo para ficar contigo, Marilla?

— Logo depois do natal, com certeza. — Disse Marilla, sorrindo carinhosamente para Anne.

Anne sabia que Marilla não era muito aberta sobre as coisas que aconteciam, então assentiu. Sabia que algo estava acontecendo para Marilla estar tão ocupada sempre. Caso algo acontecesse e ela julgasse que Anne deveria saber, Marilla a contaria e ela poderia ajudá-la. Enquanto estivesse nas mãos dela, não deveria se preocupar.

Matthew e Jerry fizeram o desjejum mais cedo, então as duas comeram sozinhas rapidamente, já retirando a louça, lavando e deixando a sala e cozinha limpas, como antigamente. Logo Rachel chegou, e Anne foi à cavalo até a casa dos Barry visitar sua amiga.

Nada parecia ter mudado na casa da família Barry. Minnie May continuava com sua aula de canto e de etiqueta, porém, mais leve do que antes, e naquela manhã, Diana tocava piano para acompanhá-la.

O tratamento de Diana com sua mãe estava abalado. Eliza Barry tinha ouvido o sábio conselho de Marilla e acabou deixando sua filha ir à universidade, porém desgostosa. Sonhava em um casamento que trouxesse benefícios para sua filha, para que ela não sofresse nenhuma necessidade no futuro. Ora, um marido bem sucedido traz abundância para a família. A esposa cria os filhos e os deixa bem educados para que seu futuro seja agradável.

Sabia que Diana era bem educada. Já tinha recebido algumas notícias de homens interessados em cortejá-la, porém, sua filha não tinha nenhum interesse. Além disso, alguns homens se sentem amedrontados diante de uma mulher com estudos e independente, o que sentia que sua filha se tornaria. Obviamente sentia orgulho, porém, tinha medo do que o futuro reservava.

Uma mãe não pode proteger seu filho do mundo para sempre.

Ouviu alguém bater na porta, e logo recebeu Anne para entrar em sua casa. Tinha que admitir, a garota estava elegante.

— Bom dia, senhora Barry! Posso ver Diana?

— Sim, irei chamá-la.

Logo as duas garotas se encontraram, felizes, e subiram as escadas. Não sem antes Minnie May ir escondida ao quarto da irmã e se esconder dentro do guarda roupas.

— Acertei então sobre o encontro entre você e Gilbert?

Assim que entraram no quarto, Diana já questionou a amiga. Ficou a viagem inteira imaginando como seria o encontro dos dois, torcendo para que tudo desse certo. Imagina se Gilbert perdesse o trem, e Anne tivesse que voltar sozinha?

— Acertou. Foi incrível, Diana! Ah, os beijos são tão bons! — Disse Anne, passando os dedos sob os lábios.

— Então Gilbert, além de bonito, sabe beijar bem. E o que mais?

— Sabe abraçar bem, me segurar em seus braços bem, além de ter a mais bela expressão de confusão que já vi em minha vida. As conversas entre nós são esplêndidas. Tenho vivido capítulos de um romance na vida real! — Disse Anne, se jogando na cama com Diana — Ele é tudo o que já mostrou pra mim, mas tenho aprendido cada vez mais coisas sobre ele. Acredita que ele é tímido?

Enquanto a conversa acontecia, Minnie May se perguntava dentro do guarda roupas: Por que as meninas maiores gostam tanto assim de beijar? É tão nojento.

Notas finais
Espero que tenham gostado!