Anne Bergerac: As Portas Da Contradição
16 Capítulo 16
Capítulo 16
O sol estava batendo no meu rosto e eu sentia os lençóis sobre minha pele. Os olhos ainda fechados pela preguiça, dominante sobre meu corpo. Corando por lembrar o que acontecera na noite anterior... por mais que consumar o amor não seja crime. Na verdade, espero que não me julguem por não estar nem um pouco culpada, mas feliz. Uma felicidade que não me inibiu de soltar uma pequena risadinha, ainda de olhos fechados.
_ Então resolveu acordar? – ele tinha um tom de riso e sarcasmo, mas dessa vez não estava bravo. Abri os olhos e me virei. Lá estava Holmes, parado olhando pela janela, contudo, voltou-se para mim quando o olhei. – Já estava pensando em ir embora sem a senhora.
_ Não encontraria o caminho para a estação sem mim. – brinquei. Finalmente posso fazê-lo sem medo. Sherlock se sentou ao meu lado na cama e me beijou.
_ Infelizmente está correta... Senhora Holmes.
_ Obrigada. É bom ver que está começando a assumir, o que sempre esteve claro aos seus olhos. Estou sempre certa. – ele riu.
_ Isso foi presunçoso Anne. – dei de ombros e continuei a encará-lo. – Enfim, é melhor descermos. Precisamos tomar café e pegar o trem de volta para Londres...
_ Está certo, está certo. Vou me trocar primeiro... não comece a ficar tão mandão. Só porque aceitei ser a senhora Holmes, não quer dizer que começarei a acatar com ordens.
Me troquei em cinco minutos e descemos juntos até o restaurante para tomar café. Watson estava terminando de pedir, sentado sozinho em uma mesa para três pessoas. Assim que nos viu, acenou para que nos juntássemos a ele. Para minha surpresa, Holmes puxou minha cadeira para que eu me sentasse... ergui as sobrancelhas e ri baixo, em seguida, ele se sentou ao meu lado. John olhou a cena um tanto surpreso.
_ Vamos querer o mesmo que o Dr.Watson. – disse interrompendo o silêncio. Logo, ficamos sozinhos outra vez. – Posso saber... o que significou o incidente da cadeira?
_ Apenas um gesto educado. Por quê?
_ Hum... E por que você nunca fez este gesto de educação antes?
_ Pelo mesmo motivo que nunca disse que você estava sempre certa. Não queria demonstrar que amava você, aumentando ainda mais o seu ego. Afinal, nunca me viu puxando a cadeira para todas as moças viu? – segurei minha vontade de bater nele, soltando uma risada irônica. “Aumentar o meu ego”, Deus... será que ele não se analisa para falar quem é mais convencido.
_ Ah, então eu devo supor que tudo foi acertado ontem à noite. – certo. O que foi esse risinho malicioso? John Watson você está sabendo mais do que deveria.
_ Sim. Meu caro Watson, você está diante da mais nova senhora Sherlock Holmes. – eu ri e fiz uma falsa mesura.
_ Logo você que jurou nunca se casar. – bem observado John.
_ Mas que bom que mudou de ideia. – Holmes sorriu para mim e eu retribui.
Momentos depois acertamos tudo na estalagem e partimos em direção a estação de trem. Passei novamente pela porta da loja de instrumentos. Poderia facilmente adentrá-la e comprar um violino, mas alguma coisa me diz para não fazê-lo. Não sou de confiar na minha intuição, mas é a primeira vez que acho que ela está certa. Continuei a caminhar e logo estávamos na estação.
_ Acham que o trem vai demorar? – perguntou Holmes, depois de se passarem dez minutos que esperávamos o trem.
_ Bem, por mais que ainda não seja o horário de ele passar. Creio que não deve demorar tanto. Por que pergunta?
_ Preciso correr até a estalagem. Acho que esqueci alguma coisa.
_ Ora, mas isto é impossível. Conferimos tudo duas vezes antes de sair. Deve estar enganado Holmes. – comentei rapidamente, porque era verdade. Sherlock teria percebido caso faltasse alguma coisa.
_ Perdão minha cara, mas não é apenas você que está sempre certo. Acredite, é algo de extrema importância.
_ Neste caso, vou com você. – sugeri, já de pé.
_ Sinto muito, mas você ficará aqui. – e saiu sem dizer mais nada.
Ora, mas... o que deve ter esquecido, a ponto de não poder me deixar ir? Se de fato esqueceu alguma coisa, o que eu duvido muito que tenha feito. Sempre que menos almejei a companhia dele, tive de aturá-lo e agora que quero aturá-lo, ele não quer que eu o acompanhe. Sinceramente, acho que nunca vou entender este homem e por mais que me esforce, sempre serei a vitima de tudo isso. Acho que terei de me acostumar a isso mais cedo ou mais tarde.
_ Faz alguma ideia do que possa ter sido?... – perguntou Watson, quebrando o monótono silencio que vinha crescendo.
_ Não. E sinceramente, não acho que deva ter esquecido algo. Com certeza, se o conheço bem e se não estou equivocada, ele foi fazer outra coisa. – contudo, não gosto de pensar nisso. Não que ele me deixe alguma suspeita, seria ridículo, já que fazem apenas algumas horas que assumimos tudo. O que está me deixando nervosa, é que ele com certeza mentiu para mim.
_ Não há nada com o que se preocupar. Mas, mudando de assunto... ainda vou ser o padrinho? – eu rio desse tom inocente, mas influenciador.
_ Como prometido meu querido John Watson. Eu disse que viveria para conhecer o escolhido.
_ Eu já sabia quem seria. Somente Sherlock a afastaria de seu tão amado Edgar Allan Poe.
_ Céus... você ao defendê-lo consegue ser tão pretensioso quanto ele. Todavia, não deixa de estar falando a verdade. Mesmo assim, acredito que não teria sido possível, se não tivesse deixado eu o acompanhar neste caso.
_ Ousa insinuar que ler as minhas narrativas, cedidas com tanto prazer para seu divertimento, não a estimulou em nenhum aspecto? – acho melhor pensar bem antes de responder a essa questão.
Bem, lembro-me de quando cheguei a Baker Street. Fui bem recebida... até que Holmes percebeu que eu tinha uma língua afiada. Começaram então as discussões, sempre intermináveis e deliciosas. Então começaram os clientes estranhos e a minha mania de bisbilhotar em tudo. John me ajudava bastante nesta parte, até que um dia me emprestou sua coleção de aventuras com Sherlock, porém eu não dei tanta atenção.
Era obcecada por Poe. Lia-o o dia todo, sem jamais me cansar. Ria de seu sarcasmo, de algumas trapalhadas cometidas com por seus personagens. Até que um dia, Watson voltou a me perguntar sobre as anotações que me emprestara e me senti obrigada a lê-las. Assim que li a primeira descrição de John sobre uma dedução de Holmes, já me senti fascinada e não conseguia mais parar de ler. O mais empolgante era saber que ele estava na mesma casa que eu, o que me propiciaria observá-lo.
_ Não. Nunca poderia insinuar que está errado meu caro. Tem razão. Conhecer o pomposo detetive pela suas narrativas antes de pessoalmente me ajudaram a não ser tão ingênua quanto aos seus métodos. Mas vê-lo pessoalmente, poder discutir com ele durante o caso, saber que se discordasse, poderia dar minha opinião... Isso de fato foi o que arranjou tudo isso. Agradeço a você John.
_ Por sanar sua curiosidade ou por ter sido o alicerce dessa união? – riu ele.
_ Por instigar a minha curiosidade, você quer dizer, mas sim... por ambas. – confirmei, com o sorriso mais sincero que já dei a ele.
Minutos depois, o trem chegara e nem sinal de Holmes. Watson insistiu para ir procurá-lo, mas eu recusei prontamente, bastante satisfeita por deixá-lo para trás. Mas, meus planos seriam felizmente desapontados, já que o estou vendo vir juntar-se a nós. Não parecia ter esquecido nada, como eu disse. Sem esperar muito, corri para dentro do trem em busca do nosso vagão, com os dois cavalheiros me seguindo.
_ Então... o que esqueceu? – somente para provocar e para aliviar a raiva, perguntei.
_ Nada. Uma pena, porque cheguei mesmo a pensar que havia esquecido algo importante.
_ Posso saber por que está usando este tom... digamos... displicente? – ele riu. Rindo por eu estar nervosa?
_ Que tom acha que eu deveria usar querida?
_ Algum que combine mais com você.
_ Este seria...?
_ Não quero discutir com você sobre isso.
_ Pensei que manter as discussões fosse uma das suas condições.
_ Sim, mas aquelas que valessem à pena. Discutir o fato de que você quase nos fez perder o trem, por motivos desconhecidos, não me parece ser algo bom o suficiente. Claro que, como voltou de mãos vazias, ainda quero descobrir o que foi fazer. Mas discutir sobre isso... não, simplesmente não quero. Tudo que quero agora é chegar a Londres... tudo volta ao normal. – Holmes assentiu e levou minha mão aos lábios.
_ Por mais que nunca tenha sido normal. Contudo, também estou ansioso por um novo caso, apesar, de que no próximo Watson não mais nos acompanhará. – John o olhou com certa tristeza. Na verdade, eles se olharam com tristeza. Percebo agora, o quanto eles sentirão a falta um do outro e o quanto Mary e eu seremos responsáveis por estes dois. Não é nenhum adeus... mas até o mais doce “até logo”, pode machucar um dia.
_ Ainda nos veremos. – disse depressa.
_ É claro. Jamais me afastaria de Baker Street agora.
_ Mas não poderá mais me acompanhar...
_ Eu acompanharei. – Sherlock sorriu.
_ Tenho certeza que sim.
Continuamos nossa viagem desta mesma maneira. Conversando e discutindo sobre como seria a vida de agora em diante. Seria mesmo diferente sem John para apartar as brigas... pobre senhora Hudson. Mas eu sempre continuaria sorrindo pelos bons e velhos tempos.
Logo, chegamos a Londres e pegamos um cabriolé para voltarmos para casa. O cheiro de pão francês vindo da padaria, os bares cheios mesmo estando cedo ainda, os buracos das ruas perto da ponte, o parlamento em todo o seu poder. A Scotland Yard parada, mas sempre chamativa para mim. Não me sinto mais em casa, do que quando estou na minha tão amada Londres.
_ Poderia parar aqui, por favor? – pediu Holmes ao cocheiro. Parar na Yard, para que? Descemos e nos deparamos com Lestrade, que parecia bastante satisfeito em nos ver vivos.
_ Tudo foi resolvido eu espero?
_ Como era de se esperar. Mas desta vez... graças a Anne. – Lestrade sorriu para mim e cumprimentou-me, quando Sherlock terminou o relato do ocorrido.
_ Seu pai ficaria orgulhoso Anne. Quem imaginaria que uma dama seria capaz de...
_ Ora essa, sabemos perfeitamente que eu não sou uma dama qualquer da sociedade londrina. – sem modéstia nenhuma. Na verdade, nunca fui dada a falsa modéstia.
_ Por essa e por outras razões que será a perfeita senhora Holmes. – ao ouvi-lo pronunciar estas palavras, Lestrade ficou sem expressão. Comecei a rir de súbito, pois era a primeira vez que o via assim e é realmente engraçado. Fez-nos perguntas de todos os tipos, como quando havíamos decidido isso, mas antes que eu pudesse responder meu futuro marido já passava por cima de mim.
_ Eu não acredito que finalmente teremos uma senhora Holmes.
_ Não será o único ouso dizer. – rio com gosto.
Após mais algumas perguntas de Lestrade, continuamos nosso caminho para Baker Street, até que eu vi o número 221 estampado na porta. Desci correndo do cabriolé e corri para a porta. A senhora Hudson mal abrira a porta e eu já pulara nos braços dela abraçando-a. Parecia realmente feliz em nos ver vivos também. Contudo, para ela, eu não consegui manter segredo e despejei logo a informação da nova senhora Holmes. Este veio para perto de mim e foi abraçado com a mesma intensidade. Watson ria da cena, mas não foi esquecido.
_ Caso não se importem, eu gostaria de ir até a casa da Mary. – pediu, após ser praticamente esmagado. Assentimos que sim e ele logo se foi, após uma breve despedida.
_ As malas?...
_ É claro. Eu ajudo a desfazê-las. – disse correndo para ir buscá-las. Apesar de me oferecer para desfazer todas as malas, Holmes pediu para que ele mesmo cuidasse das dele. Então, ficamos apenas a senhora Hudson e eu no meu quarto.
_ Em pensar que logo não será mais o seu quarto... Oh querida, eu sempre soube que isso aconteceria.
_ Acho que todos esperavam, menos eu. – ri, abrindo as cortinas.
_ É sempre assim querida. – riu ela. Será que minha mãe, estaria tão feliz quanto ela?
_ Obrigada por tudo senhora Hudson. – agradeci, mesmo sabendo que pode parecer sem sentido algum. Contudo, ela tem sido uma mãe para mim. Ela sorriu e apertou minhas mãos contra as dela.
_ Fico feliz que seja você a nova senhora deste lugar e não outra mulher... acho que foi a escolha mais sensata que o senhor Holmes já tomou. – eu ri com vontade, mas não era a única. Sherlock está parado junto à porta, com a caixa de seu violino nas mãos.
_ Posso ficar um momento a sós com ela senhora Hudson? – ela nos olhou compreensivamente e saiu sem dizer nada, fechando a porta atrás de nós. Holmes olhou em volta do quarto e voltou seu olhar para mim. – Ainda ficará aqui?
_ Só até tudo estar definitivamente acertado. – respondi alcançando a cabeceira da cama e olhando ao redor do quarto. Parei meu olhar na caixa do violino e sorri. – Não se separa mesmo dele não é?
_ Você se separava do seu?
_ Não se pudesse evitar. – respondi sorrindo fracamente. – Será que não poderíamos falar... Às vezes sinto falta de quando tocava. – ele riu baixo, como se fosse certo rir da minha dor.
_ Abra a caixa. – pediu ao me entregá-la. Havia um violino dentro dela, mas não era o dele. Este está mais novo, as cordas estão novinhas.
_ Este não é o seu violino...
_ Tem razão. Sabe Anne, eu ouvi você tocando aquele dia e acho que tem um talento que não deve ser desperdiçado. Vi nos seus olhos o quanto queria isso outra vez. Quando disse que havia esquecido algo importante, estava dizendo a verdade.
_ Sherlock, então...
_ Seu. Inteiramente seu. — eu o abracei e o beijei. Acho que jamais poderia receber um presente mais significativo.
_ Obrigada. É lindo...
_ E antes que eu me esqueça. – ele tirou uma caixa de veludo de dentro do paletó. – Isto também é para você. – um...
_ Um anel de rubi! SHERLOCK HOLMES...
_ Sua mãe não gostaria que não fosse assim. Apesar de o comum ser um diamante...
_ Esqueça o comum. Rubis sempre foram os meus favoritos... mas... você não acha que exagerou?
_ Não disse que era para você se acostumar. – eu ri.
_ Ah, claro, sabe que eu sou muito mais... mão fechada do que você.
_ Vai querer discutir?
_ Já é o esperado não? Além do fato de eu sempre ganhar no final. – retruquei usando meu sorriso mais presunçoso.
_ De eu sempre deixar você ganhar no final, quis dizer. – pobrezinho, eu ri com gosto e desdém ao mesmo tempo agora, enquanto descia as escadas para ajudar a senhora Hudson. E sim, ela tem razão. Me escolher como à senhora Holmes, foi a decisão mais sensata que Sherlock Holmes já tomou.
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