Capítulo 1

Estamos em um daqueles dias frios em Londres. Quando tudo o que você pensa em fazer parece chato e maçante. Chovendo, o barulho das gotas d'água batendo pela janela fechada por uma leve cortina branca. A Sra.Hudson trazendo chá, enquanto eu estou sentada em uma das poltronas perto da lareira, esperando que meus dois amigos voltem de mais uma energizante empreitada. Quem sou eu? Você se pergunta. Sou Anne Bergerac, filha de um policial da Scotland Yard falecido há dois anos, assim como sua esposa. Ambos trabalhando juntos em um caso para a polícia, ajudados pelo meu defensor e grande amigo. Sherlock Holmes. Com a morte deles, fiquei sem um teto sob minha cabeça, o senhor Holmes, um homem muito bom e um tanto "modesto" (falo isso por convivência próxima), me convidou para morar com ele e seu amigo Watson. Desde então, ajudo a Sra.Hudson que às vezes insisti para que eu descanse por ser jovem demais. Jovem... Tenho 26 anos e sou apaixonada pelas empreitadas de Holmes e Watson. Me intrometo continuamente, mesmo Holmes dizendo para que eu fique fora do escritório dele, o que este não sabe é que meu grande amigo John Watson me deixa a par de tudo e com isso, consigo ajudar Holmes, mesmo ele não sabendo como. Mesmo sendo uma jovem dama da sociedade, nunca é seguro deixar uma pistola ou uma espada em minhas volúveis mãos.

A Sra.Hudson, por quem eu tenho um grande carinho, já estava me trazendo a milésima xícara de chá, quando eu percebi seu olhar em mim enquanto lia um livro. Uma grande capacidade minha, poder observar o que os outros fazem enquanto eu mesma faço alguma coisa.

_ O que houve agora Sra.Hudson? Estou lendo demais para uma moça? Ou será que precisa da minha ajuda? – ela nunca gostou do meu prazer em fazer várias perguntas. Na verdade, tudo o que eu fazia incomodava de algum jeito a nossa governanta, sorte minha que não incomodava o dono da casa.

_ No momento não minha querida criança. É só que... Venho observando uma coisa.

_ Sim?- perguntei fechando meu livro.

_ A senhorita já está com 26 anos. Não acha que já está na hora de... Casar-se? – ai, aquele assunto outra vez. Até parece que ela está querendo que eu saia dessa casa.

_ Minha querida Sra.Hudson, por acaso está querendo que eu deixe Baker Street? – ela me olhou com cara de espanto. Mas, eu tinha que perguntar.

_ De maneira nenhuma, só acho que...

_ Pois saiba, Sra.Hudson, que no momento não tenho a menor intenção de me casar. Apenas o amor mais profundo me convenceria a casar e por isso vou ficar solteira pelo resto de meus dias. Meus trabalhos nessa casa pagam minha parte do aluguel. Contudo, se o motivo desta conversa for alguma insinuação por parte do patrão, para que eu deixe de lhe ser um fardo, sairei imediatamente. Mas, não me casarei. – eu nunca pensara em me casar. Não sabia se minha presença ali incomodava Holmes, afinal, ele concordou que eu ficasse ali pelo tempo que quisesse, até o resto da minha vida se assim fosse desejado. Nunca reclamou de nada, além de claro, minha intromissão alguns de seus casos, mas, no fim ele sempre agradecia.

Ela me olhou um tanto envergonhada. Acho que fui dura demais. Não gostava de ser assim com ela, sempre fora tão boa comigo. Corri para abraçá-la e dizer palavras tranquilizadoras. Assim, ela voltou para o saguão de baixo. Voltei minha atenção para meu livro e meu chá, que já estava esfriando. Quando, de repente, a porta se abre e meus dois companheiros entram na sala. Com expressões satisfatórias.

_ Pelo visto a prisão de Londres acabou de receber mais um integrante. – Holmes e Watson riram. Levantei-me e fui ajudá-los com os casacos.

_ Percebo que já estamos nos tornando previsíveis para nossa querida amiga Watson. Ela já sabe tudo sobre nossas vidas e agora começa a entender nossas expressões. – era a minha vez de rir. Esses dois podem ser tudo, menos previsíveis. Tudo que eu posso dizer é que os conheço muito bem para saber quando estão ou não de bom-humor.

_ Com certeza seria um perigo se eu me voltasse contra vocês. Não se preocupe meu caro, seu segredo está a salvo comigo. – Watson riu ainda mais. Holmes não, apenas me lançou um olhar indagador. – Não é só você que sabe fazer ironias nesta casa senhor Holmes. – um riso abafado foi o que recebi em resposta.

Eles se sentaram nas poltronas da sala e com isso eu perdi meu lugar. Minha sorte é que sempre gostei de ver a chuva caindo, então acho que me sentar no assento da janela não seria um problema. Voltei mais uma vez minha atenção para o meu livro.

Sempre fui fascinada por romances policiais. Edgar Allan Poe é o meu favorito. É o que estou lendo agora. Tendo nascido em um mundo onde cada passo seu é observado por um assassino eminente, o perigo e o mistério sempre chamaram minha atenção. Apenas eu sei disso, já que não seria apropriado para uma moça de família apreciar tais coisas. Contudo, eu estou terminantemente errada ao pensar que apenas eu sei disso.

_ Lendo Poe, Anne? – em meio a uma cortina de fumaça proveniente de seu cachimbo, Holmes me fez essa pergunta um tanto óbvia demais. Vindo dele, acho que estou prestes a ver o jogo dos detalhes serem usados contra mim.

_ Certamente. E o livro estava erguido de frente para o meu rosto, o que te deu acesso ao autor e ao título. Logo, a minha pergunta é, por que perguntou isso? – ele não iria me pegar outra vez. Já caí em seus joguinhos várias vezes, dessa vez não.

_ Observação. Uma jovem, que deveria estar pensando em assuntos mais propensos ao seu sexo como, casamento, vestidos, bailes; está sentada na sala de sua casa lendo Edgar Allan Poe, um romance policial, em um dia de chuva. Mesmo tendo sangue policial em suas veias minha cara, surpreende-me o fato de gostar tanto deles. – eu ri abertamente.

_ Então Holmes, vou rebater perguntando: O que mais o surpreende? Meus pensamentos estarem distantes dos assuntos que comentou? Ou porque gosto de romances policiais? – Watson ergueu os olhos de sua xícara de chá e nos fitou, parecia estar divertindo-se com a situação. Eu quase nunca tinha oportunidade de entrar em uma discussão com Holmes e quando conseguia, não pretendia sair perdedora.

_ Os dois, de uma maneira quase interligada. Penso que ocupa seu tempo com suas leituras, para evitar tais pensamentos.

_ Que coisa horrível de se pensar. Sempre fui tão ligada aos livros de Poe. Jamais o trocaria por nenhum homem.

_ Pobre do homem que se apaixonar por você então Anne. – cortou Watson. – Não será mais amado do que Edgar Allan Poe. Realmente espero viver para ver quem será o escolhido.

_ Viverá bastante tempo, tenho certeza. Mais certeza é que se de fato acontecer, será um dos meus principais padrinhos John. – ele sorriu. Holmes apenas voltou sua atenção para o cachimbo, o que significava que eu havia ganhado essa. Realmente, era maravilhosa a sensação de ganhar em uma discussão com Sherlock Holmes.




Notas finais
COMEMTEM PARA DEIXAR A AUTORA FELIZ!