Annabeth Chase - O Ladrão De Raios
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Mais tarde eu estava na varanda da casa grande, vendo o sr. D, nosso diretor, (Dionisio, deus do vinho) e Quíron jogar pinochle (um jogo de cartas). O sr. D. era baixinho e gordo, com cabelos muito pretos e cacheados. Tinha olhos grandes e nariz vermelho. Ele estava no acampamento porque tinha paquerado uma ninfa proibida, então Zeus ficou bravo e mandou ele para cá como castigo...só não sei quem foi mais castigado, ele ou os campistas, que tinham que aturá-lo. Eu estava distraída, pensando em como poderíamos ampliar as quadras mudando a posição de algumas colunas gregas quando Percy apareceu. Ele ainda estava pálido e andava apoiado em Grover, que apresentou todos ao Percy:
— Aquele é o sr. D. Ele é o diretor do acampamento. Seja educado. A menina é Annabeth Chase. Ela é só uma campista, mas está aqui há mais tempo que quase todo mundo. E você já conhece Quíron.
— Sr. Brunner! — O garoto exclamou. Brunner devia ser o nome que Quíron adotou enquanto estava vigiando Percy. A conversa continuou e eu me distraí dela novamente, mas voltei minha atenção quando ouvi meu nome:
— Annabeth? — Quíron chamou. Dei um passo a frente — Essa mocinha cuidou de você até que ficasse bom Percy. Annabeth, minha querida, porque não vai verificar o beliche de Percy? Vamos instalá-lo no chalé 11 por enquanto.
— Claro, Quíron. — Eu disse, olhando para Percy. Era um garoto moreno um pouco mais baixo que eu, mas devia ter a minha idade. Cabelo despenteado, a pele bem menos bronzeada que a minha e olhos muito verdes. Ele estava segurando o chifre do Minotauro. Não tinha a aparência muito atlética, provavelmente não tinha tido nenhum treinamento, e mesmo assim tinha matado o Minotauro. Será que podia finalmente ser quem eu estava esperando?
— Você baba enquanto dorme. — eu disse, na falta do que falar. Virei as costas antes que dissesse mais alguma coisa inútil e fui verificar o chalé 11. Estava tudo em ordem, ou o quanto era possível estar em um chalé cheio de crianças e adolescentes filhos (ou não) do deus dos viajantes e ladrões. Sentei na frente do chalé e peguei meu livro de arquitetura grega. Alguns minutos depois vi Quíron e Percy se aproximando. Lembrei de como Percy estava resmungando sobre vacas e comida e babando enquanto dormia.
— Annabeth, eu tenho aula de arco-e-flecha para mestres o meio-dia. Você cuidaria de Percy a partir daqui? — perguntou Quíron.
— Sim, senhor.
— Chalé 11, sinta-se em casa. — disse o centauro, apontando o chalé para Percy. Quando os campistas viram Quíron, todos fizeram uma reverência. — Então tudo bem. Boa sorte, Percy. Te vejo no jantar.
Percy ficou parado, olhando os campistas, parecendo desconfortável. Me lembrei do meu primeiro dia, de como estava assustada e cansada. O mundo dele provavelmente estava de cabeça para baixo.
— Tudo bem? Vá em frente. — eu sorri, encorajando-o.
Ele deu dois passos e tropeçou. Ótima primeira impressão.
— Percy Jackson, apresento-lhe o chalé 11.
— Normal ou indeterminado? — Pólux, um dos meninos, perguntou.
— Indeterminado. — respondi, e todos gemeram. Estavam acostumados com campistas que eram ignorados pelos pais Olimpianos. Luke, que estava no fundo do chalé, deu alguns passos para frente:
— Vamos, vamos campistas. É por isso que estamos aqui. Bem vindo, Percy. Você pode ficar com aquele ponto no chão logo ali. — Luke sorriu simpaticamente para Percy. Ele tinha mais ou menos 19 anos, alto, atlético, loiro, e uma cicatriz que ia do olho direito até o queixo, que ele tinha conseguido em uma missão. Praticamente todas campistas gostavam dele, pois ele era muito bonito. E habilidoso em combate. E simpático. E prestativo. E... enfim, acho que já deu pra vocês entenderem.
— Este é Luke — eu apresentei, e minha voz saiu mais fina que o normal. Percy olhou para minha cara, curioso com a minha reação. Droga, porque eu estava corando? Foco, Annabeth. — Ele é seu conselheiro por enquanto.
— Por enquanto? — Percy franziu as sobrancelhas.
— Você é indeterminado — Luke começou a explicar, pacientemente. — Eles não sabem em que chalé acomodá-lo, então você está aqui. O chalé 11 recebe todos os recém-chegados, todos os visitantes. Naturalmente Hermes, nosso patrono, é o deus dos viajantes.
Percy deu uma longa olhada pelo chalé:
— Quanto tempo vou ficar aqui? — ele perguntou. Foi uma pergunta meio estúpida.
— Boa pergunta. Até você ser determinado. — respondeu Luke
— Quanto tempo isso vai levar? — Percy perguntou novamente. Deuses, ele era muito lento. Os campistas começaram a rir, e eu resolvi tirar ele dali antes que fizesse outra pergunta idiota.
— Venha, vou lhe mostrar o pátio de vôlei. — eu disse ao garoto
— Eu já vi.
— Venha.— E puxei-o para longe do chalé, parando próxima a uma coluna grega. — Jackson, você precisa fazer melhor do que isso.
— O quê? — ele parecia confuso.
— Não posso acreditar que achei que você fosse o cara. — rolei os olhos, murmurando pra mim mesma. Acho que ele ouviu, pois ficou zangado:
— Qual é o seu problema? Tudo que sei é que matei um sujeito touro...
— Não fale assim! Você sabe quantos nesse acampamento gostariam de ter tido a sua chance?
— De ser mortos?
— De enfrentar o Minotauro! Para que você acha que nós somos treinados?
Ele sacudiu a cabeça:
— Olhe, se a coisa contra a qual eu lutei era mesmo o Minotauro, o mesmo das historias...
— Sim. — eu assenti tentando ver aonde ele queria chegar.
— Então só existe um.
— Sim. — repeti pacientemente.
—E ele morreu tipo, um zilhão de anos atrás, certo? Teseu o matou no labirinto. Portanto...
— Monstros não morrem, Percy. Eles podem ser mortos. Mas não morrem.
— Ah, obrigado. Agora entendi tudo.— disse ele, sarcástico. É, acho que não expliquei muito bem. Vamos tentar de novo.
— Eles não tem alma, como você e eu. Você pode bani-los por algum tempo, talvez até por toda uma vida, se tiver sorte. Mas eles são forças primitivas. Quíron os chama de arquétipos. No fim eles se reconstituem.
— Você quer dizer que se eu matei um, acidentalmente, com uma espada...
— A Fúr... Quer dizer, a sua professora de matemática. Está certo. Ela ainda está lá fora. Você apenas a deixou muito, muito zangada. — finalmente ele estava entendendo alguma coisa.
— Como você sabe da Sra. Dodds?
— Você fala dormindo.
— Você quase a chamou de alguma coisa. Uma Fúria? Elas são torturadoras de Hades, certo?
Olhei para o chão, nervosamente. Dois nomes de uma vez! Felizmente, nada aconteceu.
— Você não deve chamá-las pelo nome, mesmo aqui. Se acabamos tendo de falar nelas, nós as chamamos de as Benevolentes.
— Puxa, existe alguma coisa que a gente possa dizer sem que haja trovões? — ele reclamou — Por que tenho que ficar no chalé 11, afinal? Por que fica todo mundo amontoado? Há uma porção de beliches vazios logo ali. — ele apontou para os chalés de Zeus e Hera, e empalideci. Esse era um assunto delicado.
— A gente não escolhe um chalé, Percy. Depende de quem são seus progenitores. Ou...o seu progenitor. — olhei para ele, esperando que ele entendesse. Também estava tentando descobrir quem era, mas ainda era muito cedo para tirar alguma conclusão.
— Minha mãe é Sally Jackson. — ele disse, automaticamente. — Trabalha na doceria da Grande Estação Central. Pelo menos trabalhava.
— Sinto muito pela sua mãe, Percy... Mas não é isso que eu quis dizer. Estou falando sobre seu outro progenitor. Seu pai.
— Ele está morto. Não cheguei a conhecê-lo.
Eu suspirei. Já tinha tido essa conversa com muitos campistas, era sempre a mesma coisa.
— Seu pai não está morto, Percy. — Eu disse, sabendo que ele ia perguntar como eu sabia disso.
— Como pode dizer isso? Você o conhece?
— Não, é claro que não.
— Então como você pode dizer...
— Porque conheço você. Você não estaria aqui se não fosse um de nós.
— Você não sabe nada a meu respeito.
— Não? — e lá vamos nós de novo... — Aposto que você ficou passando de escola em escola. Aposto que foi expulso de uma porção delas.
— Como...
— Teve diagnóstico de dislexia. Provavelmente transtorno de déficit de atenção também.
— O que isso tem a ver? — ele perguntou, meio constrangido.
— Tudo junto, é quase um sinal certo. As letras flutuam para fora da página quando você lê, certo? Isso é porque sua mente está fisicamente programada para o grego antigo. E o transtorno do déficit de atenção... Você é impulsivo, não consegue ficar quieto na classe. Isso são seus reflexos no campo de batalha. Numa luta real, eles o manterão vivo. Quanto aos problemas de atenção, isso é porque enxerga demais, Percy, e não de menos. Seus sentidos são mais aprimorados do que os de um mortal comum. É claro que os professores querem que você seja medicado. Eles são em maioria monstros. Não querem que você os veja como são.
— Você parece... Você passou pelas mesmas coisas?
— A maioria das crianças aqui passou. Se você não fosse um de nós, você mão teria sobrevivido ao Minotauro, e muito menos à ambrosia e ao néctar.
— Ambrosia e néctar. — Ele repetiu, levantando uma sombrancelha.
— A comida e a bebida que estávamos dando à você para curá-lo. Aquilo teria matado um garoto normal. Teria transformado seu sangue em fogo e seus ossos em areia e você estaria morto. Encare os fatos. Você é um meio-sangue.
Ele estava bem confuso. Seus olhos se moviam rápidos, querendo fazer milhões de perguntas. Então escutei uma voz:
— Ora, ora! Um novato! — me virei e vi Clarisse, uma garota grande, forte, de cabelo castanho e liso. Estava demorando para ela aparecer para atormentar o novo campista. Típica filha de Ares. Havia mais três garotas atrás dela. Será que os filhos de Ares nunca se cansavam de aborrecer as pessoas?
—Clarisse, — suspirei — porque você não vai polir sua lança ou coisa assim?
— Claro, Srta. Princesa. Para poder atravessar você com ela na sexta-feira á noite.
— Erre es korakas! — praguejei em grego antigo. Isso significava mais ou menos "vá para os corvos" — Você não tem chance.
— Vamos transformá-la em pó. — ameaçou Clarisse, mas eu sabia que ela estava blefando. Ela nunca ia conseguir me acertar. — Quem é esse nanico?
— Percy Jackson, esta é Clarisse, filha de Ares. — eu apresentei.
— Tipo... O deus da guerra?
— Você tem algum problema com isso? — perguntou Clarisse, sorrindo desdenhosa.
— Não — Percy respondeu — Isso explica o mau cheiro.
O que ele estava fazendo?! Queria arrumar encrenca logo no começo? Ou ele era corajoso ou não estava raciocinando muito bem. Clarisse rosnou:
— Nós temos uma cerimonia de iniciação para os novatos, Perciana.
— Percy. — ele corrigiu.
— Seja o que for. Venha, vou lhe mostrar.
— Clarisse...— tentei dizer, pois não era justo. Ele tinha acabado de chegar! Não tinha idéia de como se defender, ainda mais de uma filha de Ares.
— Fique fora disso, espertinha.
Espertinha? Ela ia ver só sexta-feira. Percy me entregou o chifre do Minotauro e foi se preparar para a luta, mas dois segundos depois ele estava sendo arrastado pelo pescoço para o banheiro das meninas por Clarisse, as outras garotas atrás dela. Credo! Porque ela sempre escolhia o banheiro?
— Como se ele fosse um dos Três Grandes — ela disse, tentando enfiá-lo no vaso sanitário. Eca. Fiquei espiando através dos meus dedos. Ela ainda estava tentando enfiar a cabeça dele na privada quando alguma coisa aconteceu. Os canos do banheiro rangeram e todos explodiram na cara de Clarisse e de suas amigas, jogando elas para trás e encharcando todo o banheiro. Infelizmente eu estava dentro dele quando isso aconteceu. Percy estava caído no único lugar seco do banheiro. Eu estava chocada... e toda molhada.
— Como você...
— Eu não sei — ele respondeu. Estava tão confuso quanto eu.
Clarisse e suas amigas estavam estateladas no chão fora do banheiro, enquanto vários outros campistas se reuniam na porta para ver o que tinha acontecido. Ela lançou um olhar fatal para Percy:
— Você está morto, novato. Está totalmente morto.
— Quer gargarejar com água da privada de novo, Clarisse? Cale essa boca. — Percy disse. Ele definitivamente não estava raciocinando bem. Mas eu tinha que admitir, ele tinha me surpreendido, e isso não era coisa fácil de se fazer. Ele podia ser útil no jogo sexta feira, eu já estava pensando em um plano para usá-lo. As amigas de Clarisse tiveram que segurá-la e arrastá-la até o chalé número 5, um chalé vermelho, com uma cabeça de javali em cima da porta.
— Que foi? O que está pensando? — Percy perguntou para mim, caminhando até a porta.
— Estou pensando que quero você no meu time para capturar a bandeira.
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