— Mas para onde será que foi essa garota? — Pergunta Bentley coçando o topo de sua cabeça.

— Não deveríamos ter deixado ela sair por aí sozinha, — lamuria Deborah — ela é muito nova, já está muito tarde.

— Calma querida, já encontraremos. — O Sr. Rampart tenta consolar sua esposa que não parava de tagarelar.

O casal estava em um beco próximo ao centro da praça, onde fora feito os rituais de descoberta dos jovens. Sentados em sua carroça esticando suas cabeças e estreitando seus olhos, atentos a encontrar sua filha. A praça estava tomada por civis festivos, seres de várias espécies que comemoravam excessivamente o festival da primavera. Muita música paralela, bebidas em abundância e todos aqueles que extrapolavam de uma vasta comemoração como se aquele fosse o último dia de suas vidas.

O casal fora surpreendido por um barulho esquisito acima de suas cabeças. O som era desesperador, como se uma casa cheia de pessoas estivesse pegando fogo e elas estivessem todas gritando simultaneamente. Eles se levantam rápido e olham para cima, quando um buraco escuro surge no ar, Bentley dá um rápido comando para os cavalos saiam dali, enquanto ainda fazia a manobra a abertura expele o que pareciam pessoas. Deborah grita assustada e ouviu-se barulhos de pancadas no teto da carruagem, acompanhados de gemidos, grunhido e burburinhos de dor.

— Tira seu pé da minha cara! — Uma voz rouca e feminina disse irritada.

— Onde estamos? Conseguimos? — Um timbre masculino se destaca.

— Adorei, vamos fazer de novo? — A voz infantil pede.

— Que experiencia desagradável. — A reclamação veio esbravejada por um miado.

— Noturno? — Chama Deborah olhando para topo da carruagem desconfiada, porém sem conseguir encher nada acima.

— Mãe? — Anna estica a cabeça para olhar para baixo e encara sua mãe.

— Pelas deusas garota, o que está fazendo aí em cima? — Ela grita aflita.

— É a Anna? — Questiona Bentley para a Sra Rampart.

— É a mãe da Anna? — Um cochicho pode ser ouvido.

— Quem são esses com você? — Pergunta a mulher.

— Oiii... — Salta a fada selvagem e sobrevoa o meio de transporte com suas pequenas asas verdes. Deborah encanta-se ao ver as estrelinhas que pareciam minúsculos fogos de artificio acompanharem o voo de suas asas. — Você que é a mãe da Anna? Meu nome é Meredith sou amiga da sua filha e ela é a minha amiga. Deborah sorrir ao ver o entusiasmo ingênuo da fada selvagem.

— Eu sou a Deborah e este é meu marido Bentley. É um prazer conhecer você Meredith. — Apresenta-se de forma cordial.

As fadas ajudaram Anna, Noturno e a vassoura a descerem do teto da carruagem, a garota do vale abraça seus pais, que esperavam por respostas. “Quem eram aquelas fadas? Como se conheceram? O que aconteceu para aparecerem misteriosamente acima da carruagem e de uma forma tão bizarra?”. Antes que pudessem fazer quaisquer tipos de perguntas ou conversas esclarecedoras, o grupo atípico composto por fadas, humanos, felino e objeto encantado, é surpreendido por uma voz familiar.

— Tia Deb? — Todos se viram para ver quem se aproximava com tanta empolgação.

— Pietro? — Todas as fadas e humanos perguntam em uníssono. O herdeiro mais jovem do Reino de Platina corre para abraçar Deborah.

— Mãe, você o conhece? — Anna fica em choque. — Tia Deb?

— Ah. Mas é claro que conheço, não seja boba. — Deborah envolve seus braços ao redor do alto garoto retribuindo o comprimento intimista. — Eu e o rei de Platina somos muito amigos. — Comenta a Sra Rampart.

— Eles estudaram na cidade centro na mesma época. — Relata Bentley com um sorriso natural em seu rosto.

— Como vai tio B? — Pietro dá um abraço igualmente acalorado no pai de Anna. Até notar que a garota do vale se encontrava ali, a mesma camponesa que o rejeitara com tamanha desimportância. — Espera, espera. — Ele franze a testa. — Mãe? Você chamou a tia Deb de mãe? Tia?

— Sim esta é a Anna, minha querida filha. — Ela puxa Anna para perto. — Por acaso vocês se conhecem?

— Ele me ajudou a encontrar o Noturno mais cedo. — Conta Anna com certo incomodo.

— Yeah. Chamei ela para curtir um pouco o festival comigo, mas ela não aceitou meu convite. — Ele diz encarando Anna, mas seu olhar carregara um certo desconforto desconfiado que fora percebido pela garota.

— É, infelizmente eu não estava muito afim de beber — ela divaga um pouco enquanto encara o jovem rapaz que engoliu em seco — suco de uva. — Anna sorrir enquanto percebe o alivio na respiração dele ao soltar o ar rápido. — Então tive que recusar.

— Achei que ele tinha oferecido vinho para você beber. — Diz Noturno tentando entender as informações errôneas de sua amiga.

— Acho que o portal deve ter sugado um pouco de sua memória Noturno. — Ela tenta disfarçar. Os adultos se entreolham.

— Oras, até parece que o gentil Pietro chamaria a Anninha para beber algo alcoólico. — Deborah rir descontraída, Bentley participa sorrindo com sua companheira. Pietro apenas arqueia as sobrancelhas num rápido e discreto “obrigado” para Anna, que revira os olhos.

— Isso seria realmente engraçado, — concorda o príncipe, mas rapidamente tenta mudar de assunto — o que vocês fazem aqui? — Ele se vira para o grupo de fadas atentas com as interações humanas.

— A Anna fez amizade com fadas. — Diz Bentley orgulhoso.

— Essas não são quaisquer fadas tio B. — Diz Pietro — Essas são as famosas fadas do oráculo.

Deborah observa com muita atenção ao redor e sente sua respiração ficar cada segundo mais escassa. Ela nota as fadas sorrindo, Anna as admirando e o quanto isso poderia ser perigoso para sua filha, isto pode significar uma falha na segurança que ela levou anos para criar. As próprias fadas do oráculo junto a Anna, só podia significar uma coisa, que a garota com toda certeza participou de um dos rituais de descoberta e agora ela sabe que é portadora de uma das cinco forças. Deborah nunca teve certeza de que sua filha era portadora, mas era isso que ela sempre temeu, ter a possibilidade de confirmar este fato e imaginar perder sua filha fez sua vista embaçar, até que a mulher já não conseguia enxergar mais nada e sentir as forças de seu corpo desvanecer junto a sua visão.

Ao abrir os olhos novamente, Deborah vislumbra de forma embaçada chamas dançantes de várias velas espalhadas. Sente cheiro delicado e amadeirado da fumaça provocada do incenso de “Samarita”, uma erva dourada extremamente rara e adquirida apenas em boticários de luxo, queimando e preenchendo o lugar com seu perfume. Recobrando a consciência a poquissonea consegue ouvir um certo murmúrio, criando proporções entendíveis de palavras e enfim, reconhecendo alguns timbres de vozes como as de Anna, Bentley, Noturno, Pietro, Meredith a fada que acabara de conhecer e mais vozes que ainda não reconhecera.

— Ela tem cara de Varrinha. — Grita Meredith rindo.

— Acho que ela não gostou. — Afirma Anna com um tom de voz descontraído.

— Como você sabe? — Pergunta Bentley.

— A forma que ela sacode em rejeição ao nome. — Diz Anna confiante, como se entendesse do assunto.

— Eu não a vi fazer nada demais. — Mia Noturno parecendo se espreguiçar.

— Que tal Limpadora? — Uma voz masculina desconhecida diz ao longe, “talvez seja de um dos novos amigos fadas da Anna” ela deduz.

— Definitivamente ela não gostou dessa. — Sorrir Anna e todos riem junto. Deborah consegue abrir mais os olhos e observar o que parecia um cabo de madeira deslizar para um lado e para o outro. Ela encontrava-se em um aparente imenso quarto de luxo, todo decorado em verde e prata, repleto de cortinas cobrindo janelas maiores até mesmo que portas comuns. Existiam tantos castiçais e lustres acesos pendurados, que até parecia um salão de festas. O quarto estava na temperatura ideal, um calor cômodo e aconchegante que só uma lareira poderia oferecer. Deborah reconhecera aquela decoração, estava em Esprodom, o enorme castelo real de Platina, lar da realeza.

— O que aconteceu? — Ela perguntou um pouco atordoada.

— Mamãe! — Anna se aproxima rápido da cama que sua mãe repousara — Você nos assustou, como está se sentindo?

— Minha cabeça dói um pouco. — Ela responde.

— Não precisa se levantar agora querida. — Sugere o Sr Rampart.

— O que vocês estavam fazendo? — Pergunta Deborah tentando desviar a atenção — Pareciam estar se divertindo.

— Estávamos tentando dar um nome para essa vassoura bizarra. — Noturno sobe na cama que está a poquissónia, se estica nos lençóis perto por cima das pernas da mulher, se esfregando no tecido de um jeito preguiçoso e despreocupado.

— Noturno, — Anna chama atenção do bichano — ela não é bizarra. Não liga para ele amiguinha. — A vassoura se aproxima da garota e inclina a ponta de seu cabo no ombro dela, como se estivesse agradecendo por ser defendida. Anna expressa uma feição amigável fechando os olhos com um sorrido gentil.

— Certo? — Deborah estranha a cena — Vejo que você fez muitos amigos incomuns hoje. — Ela comenta, a garota parece não sentir a hesitação na voz da mãe e mostra os dentes num sorriso genuinamente orgulhoso.

— Estou contente por você filha, — elogia Bentley com seu jeito simples — você só tinha amigo bicho, agora tá cheia de amigo gente.

Anna segura a mão do pai agradecendo em concordância as palavras dele. Ela olha para Deborah e suspira ansiosa.

— Mãe, tenho que te contar algo, — Anna comenta tímida — graças as fadas do oráculo, acabamos descobrindo que...

— Espere querida, — ela interrompe sua filha erguendo a mão direita mostrando seu dedo indicador levantado — por mais que me sinta feliz e lisonjeada pela presença de todos aqui, estou sentindo que o que você tem a dizer é um assunto que deve ser tratado em família. — Deborah olha ao redor fitando cada olhar desajeitado e envergonhado a sala de todos que não são membros de sua família.

— Já está ficando tarde, — Comenta Dayna refinada e elegante — todos temos coisas a fazer. — A fada mística abre a porta do cômodo e dá um sinal para que suas amigas fadas a seguissem. — Vamos pessoal. Bom florescer Anna, para você e sua família. — Ela deseja educada e se retira. Desejar florescer ao se despedir de alguém é extremamente comum nos três primeiros dias de primavera, significa atrair crescimento espiritual, pessoal, sentimental e que sua mente desencadeie inspirações e se abra para bons pensamentos.

— Bom florescer Dayna, — Anna deseja de volta com um sorriso sincero — bom florescer para todos vocês, nos vemos depois. — Ela cumprimenta seus outros amigos.

Todos repetem as palavras ao sair e são correspondidos por Anna, seus pais e Noturno. O calor aconchegante e intimista que preenchera a sala, agora estava sendo tomado por um vazio silencioso e desconfortável entre os Rampart's que se entreolhavam desconfiados. Apenas ouvia-se os estalos das chamas consumindo a madeira na luxuosa lareira dentro do quarto. Deborah estava com aquele olhar, o olhar que Anna e Bentley conhecia e temia muito bem. Tratava-se dos momentos em que Deborah não queria falar ou ouvir nada, apenas ficar imersa em seus pensamentos. Este olhar havia aparecido diversas vezes ao longo dos anos, Anna lembrara exatamente quando o viu a primeira vez, quando pediu que sua mãe a levasse para Sirloom a primeira vez quando tinha quatro anos. Outra vez, quando ela se esqueceu de beber a princesa Nana apenas um dia e sua mãe viu seus olhos naturais, antes de dar o maior sermão de sua vida, ela ficou em silêncio. Até mesmo quando o Bentley fazia algo que não era combinado entre eles.

— Mãe. — A garota do vale decide quebrar o silêncio.

— Anna, — Seu pai tenta impedi-la de falar, ambos sabem que não respeitar o tempo de reflexão de Deborah pode gerar um aborrecimento um pouco fora do comum. — deixemos sua mãe descansar, tudo bem?

— O, o que eu fiz de errado? — A menina ousou perguntar e se aproximar de sua mãe. — Só estou tentando contar algo muito importante que aconteceu comigo. — Ela observa sua mãe olhar apenas para frente e fingir que não ouvia nada ao redor, Deborah encarava firme as labaredas alaranjadas do outro lado do quarto. Bentley arregalou os olhos e fitou a mulher parada na cama esperando ela ser ríspida com a filha do casal. Ele sabia que Anna era o único ponto fraco de sua esposa, eles perderam seu primeiro filho misteriosamente e por anos não tiveram a oportunidade milagrosa de conceber outra criança. E sempre que surgiu um susto repentino de perder a garota mesmo que mínimo a Deborah reagia com aquele olhar vazio.

— Deborah, só escute o que nossa garotinha tem a dizer. — Ele suplica. Anna olha para seu pai acanhada que a incentiva com a cabeça para que ela continue.

— Bem, — recebendo um pouco de encorajamento de seu pai ela conta — observei as fadas do oráculo fazendo alguma coisa no centro da praça central, elas estavam fazendo um ritual chamado de ritual da descoberta, é quando elas descobrem a afinidade da mana com jovens que possuem mais ou menos a minha idade. A princípio eu não pretendia participar deste ritual e desistir. — Ao dizer a última palavra Deborah volta a olhar para sua filha com uma feição esperançosa.

— Você não fez parte do ritual? — Ela sorriu.

— Não imediatamente. — A garota admitiu.

— Então você fez? — Perguntou a mãe aflita.

— Sim, mas...

— Você fez algo perigoso e imprudente sem autorização dos seus pais. — Ela esbraveja. — Achei que criamos você com mais cautela do que isso Anna. — Noturno que estava deitado em cima da cama, apenas corre entre saltos desesperados e furtivos para debaixo do móvel.

— Mãe, desculpa. — Anna choraminga — Mas não foi perigoso, eu observei antes, analisei a reação das pessoas que participaram, nenhum dos resultados teve efeito colateral negativo e as fadas se tornaram minhas amigas, não acho que me fariam mal.

— Que ingenuidade criança, — reclama a poquíssonea se descobrindo dos lençóis e ficando de pé ao lado de Anna ainda sentada a cama — como pode confiar em pessoas, seres, seja lá o que for, que você acabou de conhecer?

— Mas as fadas não pareciam querer fazer mal nenhum a ela. — Comenta Bentley tentando amenizar os ânimos no quarto.

— Claro que você não notaria qualquer tipo de ameaça, — rir Deborah com um sarcasmo ácido — nem se estivesse a sua frente. Óbvio que ela é tão ingênua, ela tinha que puxar alguma coisa do pai. — O homem abaixa a cabeça. — Eu sou uma tola de acreditar que você — ela aponta o dedo na cara de Anna — não seria curiosa ao ponto de se pôr em perigo.

— Não me pus em perigo. — Anna levanta um pouco o tom de voz e fica de pé a frente de sua mãe, Bentley se levanta rápido boquiaberto não esperava uma resposta agressiva da garota. — Você me ensinou a ser cautelosa e analisar situações para não me colocar em risco. — Deborah abriu seus olhos dourados em surpresa a reação de sua filha, Anna nunca perdera a calma ou levantara a voz para nenhum deles antes. — Não entendo por que está reagindo tão mal, não foi nada demais.

— E qual foi o resultado do ritual? — Deborah diz arqueando as sobrancelhas demonstrando certo tipo de autoridade. A garota se encolhe um pouco e olha para os lados, relutando em responder a pergunta feita por sua mãe. Se apenas participar do ritual gerou todo esse alvoroço, quando sua mãe souber que ela possui uma das cinco forças, que é um dos tipos mais raros de mana do planeta, ela com certeza vai surtar.

— Acho que vocês duas precisam se acalmar. — Declara Bentley firme.

— Vamos garota, — Deborah intimida Anna — responda. Diga para seu pai e para mim qual foi o resultado, o que você por acaso descobriu?

— Eu, — Anna fica com seus olhos cheios de lágrimas, sentindo que fez alguma coisa errada ou fora da lei, sentindo que desonrou ou decepcionou seus pais — pai me desculpa, — ela chora olhando para seu pai observando preocupado a cena do outro lado da cama — mãe eu não fiz por mal.

Os olhos amarelos de Deborah estavam lubrificados por lágrimas que não cediam em cair, apesar da visão embaçada da mulher e seu coração pesado cheio de medos e preocupações, ela sentia um enorme pesar em fazer sua filha chorar. O temor de perder Anna era maior que qualquer outro sentimento e isso as vezes significava proteger sua filha até de si mesma.

— Me diga, — ela deixa escapar algumas lágrimas — qual foi o resultado Anna?

Anna suspira enquanto soluça tentando segurar o choro, ao abrir a boca Deborah fecha os olhos temendo já saber a resposta para sua pergunta.

— Sou portadora de uma das cinco forças, sou portadora da mana elemental.

Notas finais
Tensão com os Rampart's tá a flor da pele. Obg a quem está acompanhando. Até o próximo capítulo ♥