Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
16 Agridoce
— Acho que tudo bem. — Aceita Anna acabando com o suspense, uma comemoração coletiva é dada por todos a mesa.
— Onde faremos? — Pergunta Meredith olhando para Dayna e Diluck.
— Depende, — pensa a fada mística enquanto prendia seus avantajados cabelos em um coque tão grande que parecia uma colmeia roxa em cima de sua cabeça — você quer algo mais particular, ou pode ser em local público mesmo? — Ela direciona a atenção do grupo de volta para Anna.
— Gostaria que fosse algo mais reservado. — Anna diz coçando a ponta do nariz nervosa. — Acho que já sei a resposta e não desejo ter plateia me observando ou julgando.
— Então faremos em um lugar privado. — Constata Diluck — Você não precisa passar por constrangimento.
— Nós geralmente fazemos os rituais em público, — explica Flary — para que todos vejam que não há o que temer.
— Mas existem muitas outras fadas do oráculo que fizeram e fazem rituais privados. — Complementa Happy.
— Acho que me sinto confortável para fazer o ritual agora se desejarem. — Sugere Anna.
— Garota de iniciativa, eu adoro. — Elogia Flary.
— Onde faremos? — Questiona Meredith enquanto tremia seu focinho de urso.
— Poderíamos fazer no quarto que estamos hospedados no castelo real, o que acham? — Pergunta Diluck para o grupo.
— Chamaríamos muita atenção, as fadas do oráculo levando uma adolescente para o castelo? — Debate Happy.
— Happy tem razão. — Concorda Dayna, alisando o queixo com as suas grandes unhas de cor roxa — E se tentarmos a gruta feérica?
Todos ficaram em silêncio por alguns segundos enquanto as fadas se entreolhavam desconfiadas. Anna decide quebrar a quietude.
— Gruta feérica?
— Sim, — responde Diluck — é um lugar onde as antigas fadas do oráculo faziam os rituais da descoberta.
— Para falar a verdade, — Happy diz como se contasse uma história de terror, enfatizando os fatos como um mistério assustador — é um lugar secreto, de um mundo entre dimensões, usado para fazer ritual da descoberta. — Anna e Noturno ficam arrepiados. — Dizem em histórias antigas, que todos os portadores de qualquer uma das cinco forças eram uma ameaça para o planeta. Então muitos deles foram executados na cidade centro. — Ela sorri com os lábios arqueados mostrando seus dentes afiados, enquanto seus olhos continuam com um vazio desesperador.
— Ignora essa maluquinha. — Diz Dayna — A gruta feérica era um lugar seguro, mas usado em segredo por famílias importantes. Precisavam ter certeza de que seus membros eram portadores das cinco forças, claro que com o auxílio das fadas do oráculo. — Ela pousa a mão fechada sob o peito e lamenta — Eram tempos difíceis, os seres comuns não enxergavam o potencial benéfico das forças e suas magias, apenas viam o descontrole delas e suas variações catastróficas.
— Hoje em dia, — comenta Diluck — existe um lugar no reino central que ajudam os jovens a controlarem e usarem as forças de forma correta.
— Voltando ao assunto da gruta feérica, — argumenta Flary — fazer a magia de teletransporte para outra dimensão é algo extremamente difícil, — ela encara Dayna com certa angústia — acha que conseguiríamos completar uma magia tão poderosa?
— Só fadas experientes são capazes de executar uma magia tão complicada. — A fada selvagem faz um biquinho irritada e ansiosa.
— Anna é portadora de mana comum, como ela mesma disse. — Dayna explica — Sabendo disso, assim como eram os casos das famílias da época, talvez consigamos completar a magia com ajuda dela.
— Interessante, — reflete Diluck — é de conhecimento geral que a maioria das famílias que viajaram até a gruta, já sabiam que seus filhos eram usuários de mana mágica, mesmo que fossem do tipo comum.
— Então o que estamos esperando? — Se levanta Flary com gigante empolgação, socando a mesa com seus dois punhos. Todos tomam um susto com a euforia da fada elemental.
— Por que ela fez isso tão de repente? — Rir nervosa Meredith com Noturno arrepiado em seus pequenos braços.
— Então é isto. — Confirma a fada mística ficando de pé — Vamos para a gruta feérica. — Ela sorriu emocionada.
— Isso é tão empolgante. — Argumenta Happy, sua voz parecia preguiçosa e entediada.
— Todos se deem as mãos. — Comanda Dayna e assim todos sentados a mesa fizeram, segurando a mão, pata ou cabo de quem estivesse do seu lado. — Fechem os olhos, — ela pede, a fada mística parecia guardar uma sabedoria madura em seus gestos e coordenação, como uma verdadeira líder, — estamos todos aqui exigindo a chave da gruta feérica, rogo para as Deusas e todas os espíritos de nossos ancestrais, que abram as portas dimensionais. — Um vento caloroso passou por todos, acariciando com afago suas peles e balançando suas madeixas. — Teleportal dinzinai feeric, dinzinai dimensional ripra filuri opra’xilay! — Ela entoou as palavras mágicas de uma língua que parecia distante e antiga.
Todos sentem seus corpos serem levantados, como se fossem puxados para cima por uma rajada forte de vento. Ao abrir os olhos, eles já não estavam no centro da praça de Platina, estavam em um lugar que parecia uma caverna cheia de cristais coloridos e radiantes.
— Conseguimos? — Sorrir Meredith abrindo os olhos.
— Aparentemente sim. — Diz Happy sem emoção.
— Não acredito, — Dayna coloca as pontas de seus dedos nos lábios expressando sua surpresa, a fada tinha lágrimas em seus olhos — não acredito que realmente conseguimos.
— Estou orgulhoso de você Dayna. — A fada espiritual coloca a mão sob o ombro esquerdo dela.
— Aqui é realmente magnifico. — Admita Anna olhando em volta. A belezas dos cristais espalhados no chão, paredes e teto da caverna era de uma beleza inimaginável.
— É como se estivéssemos dentro de uma estrela. — Comenta Noturno.
O chão de cristal era plano, fazia um caminho de cristais polidos e iluminados até uma porta, feita de madeira muito escura. Todos caminharam até a frente da porta, Dayna ergueu sua mão direita para frente e moveu só a ponta de seus dedos rápido, levantando-os um pouco como um gesto de ordem para que a porta se abrisse. Ouviu-se um “click” e a porta obedece ao comando e se abre.
Todos ficam surpresos ao entrarem na sala. A gruta feérica por dentro, era exatamente igual a cúpula que as fadas invocavam em seus rituais da descoberta. Os desenhos que compostos por um vitral eram feitos de cristais iluminados. No centro da cúpula tem um altar, que guardava uma nascente de água no meio dele. A água que saia desta nascente, despencava como uma cachoeira por cima de seus degraus iluminados.
— Nossa que lindo! — Corre Meredith vibrante molhando seus pés descalços na água iluminada.
— É realmente deslumbrante. — Confirma Flary levantando voo com suas asas que pareciam pegar fogo, ela sai disparada para observar cada detalhe cristalino do local.
— A gruta feérica, eu nem acredito que estamos aqui. — Comenta Dayna tirando os sapatos para molhar seus pés nas águas. Anna repete o ato de sua amiga fada mística e tira seus sapatos, entrando enfim a gruta com suas companheiras aladas.
As águas eram mornas de um jeito refrescante, ela sente seus pés relaxarem, como se não tivesse andado ou corrido o dia inteiro. Era como se ela tivesse acabado de beber um dos remédios de sua mãe para dores de cabeça ou qualquer outro tipo de dor, que passara quase instantaneamente ao bebê-los, então ela deduz que as águas possuem propriedades curativas.
— É tão quentinho e gostoso, poderia ficar aqui para sempre. — Noturno se banha como se nunca tivesse medo de enfrentar a água.
A vassoura por outro lado se recusou a entrar, ficou do lado de fora tremendo seu cabo, parecia ser apavorante para ela.
— Te entendo cara amiga, — conversou Happy olhando para suas amigas brincando e admirando o brilho da gruta — todas essas luzes cintilantes e momentos de pura alegria me dão um certo embrulho no estômago. — A vassoura pula de alegria, compreendendo o que dizia fada sombria. Por fim, Happy deu de ombros e entrou na gruta.
— Venham todas, — chama Diluck com sua voz de autoridade — paremos com a diversão e comecemos o que realmente viemos fazer aqui. — Não ouve choramingo ou reclamação de nenhuma das partes, todas as fadas e Anna seguiram para o centro da cúpula, onde a nascente de água borbulhava todo aquele líquido brilhante.
— Anna se posicione no centro da cúpula por favor. — Pede Flary. — Anna obedece ao pedido.
— Todas estão prontas? — Pergunta Dayna, as fadas assentiram balançando a cabeça.
Assim como fora anteriormente, as fadas do oráculo erguem suas mãos em direção a Anna, fecham os olhos e por alguns segundos ficam em silêncio. A garota observa atenta suas novas amigas concentradas e olha ao redor ansiosa. A gruta feérica era um lugar maravilhoso, toda iluminação vinda dos cristais que refletiam em toda água como um gigante espelho brilhante. Anna sentia seu coração pulsar forte, ela conseguia ouvir suas batidas ansiosas frenéticas, aqueles poucos segundos pareciam horas e ela mal conseguia respirar, até que as fadas abrem os olhos.
— Anna! — Todas entoam em coro — Garota de quinze anos, nascida em Celestina, criada em Sirloom.
— Celestina? — Anna repete sem entender nada.
— Filha de Deborah e Bentley. — Elas dizem.
— Reconhecida por mim, — enfatiza Flary. Seus olhos estavam com uma luz forte e alaranjada como se dentro de sua cabeça pegasse fogo. Suas asas se tornaram duas labaredas extremamente quentes, emanando tanto calor que um vapor esverdeado subiu das águas ali presentes — Flary a fada elemental. Você é possuidora da mana elemental.
— Anna oque? — O gato se arrepia.
— Eu oque? — Anna questiona pasma.
— Eu sabia que você era especial. — Chora a fada elemental, acalmando seu estado de ritual e voando para abraçar Anna.
Todas as fadas comemoram com muitos sorrisos e elogios, inclusive Happy com seu senso de humor estranho. Um sentimento agridoce começara a tomar conta de Anna, que não sabia exatamente o que pensar ou sentir.
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