Anjos e Demônios
1 Capítulo único
O barulho do vento na persiana da janela acabara de sair do estágio irritante para o amedrontador. Não que eu fizesse o tipo de menininha medrosa, mas existem sentimentos que só um bom e bem servido pé-na-bunda sabem despertar. E foi exatamente isso que me levou a passar a madrugada de sexta em casa. Não nutria nenhum sentimento em especial por aquele cara, mas a rejeição era algo que eu odiava lidar.
Em passos lentos me dirigi a cozinha, mas me detive ao chegar até a porta. Parado, ocupando todo os espaço da minha já pequena e tumultuada cozinha, estava a criatura mais linda que eu já vi. Ele era tão alto que eu não devia pegar nem em seu ombro. De braços cruzados, ocupava toda a parte entre minha geladeira e a pia. Seus traços não eram simétricos, mas juntos exalavam uma beleza arrogante. Desde os olhos de um negro feito breu, até a curva do sorriso convencido moldado por lábios grossos e bem desenhados (lábios que metade das garota que eu conheço mataria pra ter), passando pela sobrancelha grossa e cílios espessos... Tudo nele exalava confiança. O músculo retesado do braço, o corpo definido... Era como se o próprio Deus tivesse decido até minha cozinha.
– Que... quem é você? — perguntei gaguejando.
– Pode me considerar um amigo. — disse ele com um sorriso arrogante. — E não se preocupe, não pretendo machucar você.
E naquele momento, foi como se cada molécula do meu corpo soubesse que era verdade.
– O que você esta fazendo na minha casa? Como você chegou aqui? — falei tentando soar calma. Enquanto isso, me dirigi para a perto da porta, para longe dele e comecei a treinar um grito de socorro. Só para o caso de eu precisar...
O que me assustava não era o fato de haver um estranho incrivelmente sexy na minha cozinha. OK, isso também me assustava muito. Mas o que mais me assustou foi o quanto aquele estranho mexeu comigo. De uma maneira que nenhum outro cara havia mexido antes. O modo como ele fala, olha; a auto-confiança que exala... Tudo isso faz minhas células quererem se tornar gelatina.
– Digamos que houve um engano. — ele disse enquanto fechava a porta, me deixando entre os dois.
Não tive alternativa a não ser encarar seu olhar. Seu rosto estava a apenas alguns centímetros do meu. Olhando de perto percebi que seus olhos tinham leves tons de carmim.
– Um engano? — repeti igual uma idiota, ainda totalmente hipnotizada pelo olhar dele.
Ele se afastou e sentou relaxadamente na minha mesa.
– Bem, parece que sua vizinha se sentiu bastante solitária e decidiu fazer uma brincadeirinha. Foi ela quem me chamou. — respondeu ele com olhos predadores.
Esperei pelo medo mas ele não veio. Eu me sentia calma como há muito tempo não sentia. Mais que isso, eu me sentia em paz.
O único sentimento que chegou até mim foi uma leve pontada de ciúmes. Ele visitaria Beatrice?
Não consegui nem formular uma resposta e ele já estava de frente a mim novamente. Tudo aconteceu tão rápido, que para mim foi o tempo de um piscar de olhos. Minha mente se encontrava enevoada e eu apostaria minha coleção de livros românticos que isso se devia ao fato de que ele me encarava como se fosse capaz de sugar minha alma, meus pensamentos.
– Eu vou voltar. — disse com voz rouca. — Eu vou buscar você.
Não pude deixar de notar a ferocidade em sua voz, e pela primeira vez na noite eu me senti arrepiada.
Talvez fosse o efeito dele sobre mim, ou a minha tola mania de romantista, mas naquele momento eu fiz a pergunta mais idiota que alguém poderia ter feito.
– Você é um anjo?
Ele se afastou omo se eu tivesse lhe dado um soco. Esperei pelos risos, ou que ele me olhasse como se eu fosse louca, mas seus lábios se repuxaram nos cantos formando uma careta que parecia de... nojo?
– Talvez eu tenha sido... Há muito tempo atrás. — ele disse enquanto fitava a janela.
Tentei encarar suas palavras num sentido metafórico, mas não consegui entendê-lo.
– De qualquer maneira... — disse ele enquanto se dirigia a porta — eu preciso sair. Mas eu volto. Por você.
Ele se virou e me encarou uma última vez, enviando tremores a partes do meu corpo que eu nem sabia que tinha. Então se dirigiu a porta e saiu.
Demorei algum tempo tentando me acalmar antes de me dirigir até a porta. Quando eu a toquei tive a certeza de que eu realmente não estava louca, eu a havia trancado.
O resto da noite passou como uma névoa e de repente eu estava acordando em minha cama. A única lembrança da noite anterior era um litro de whisky vazio ao meu lado e um sorriso que insistia em permanecer em meus lábios.
Aos poucos, a lembrança da noite anterior foi voltando e eu ri insegura. O quão idiota eu tinha sido? Um cara praticamente invade minha casa e eu nem sequer havia chamado a polícia. Mas uma coisa eu realmente não podia negar: o "anjo" havia mexido comigo.
Quando virei para o lado notei um pequeno papelao lado do meu travesseiro. Em uma cor carmim que me era vagamente familiar, havia um bilhete escrito com letra capricada:
Demônios também sabem ser encantadores.
Ao lado tinha um pedaço de jornal dizendo que Beatrice estava morta.
Gritei.
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