Anjos caem
1 Capítulo 1
— Selena? – Voltei a realidade olhando para Brian que parecia zangado por eu não estar lhe dando atenção.
— Desculpa estava distraída. – Olhei para a folha branca na nossa mesa.
— Estamos no meio de uma prova em dupla e eu agradeceria se você estivesse não apenas de corpo aqui. – Sua voz era só um sussurro e eu concordei enquanto ele falava vendo o professor ir para o outro lado da sala.
— Eu sei, só estou preocupada. – Ele bufou mais uma vez pegando a caneta da minha mão e começando a escrever.
Estamos em uma prova de conhecimentos teóricos no colégio de Elevados, de manhã chegou uma notícia que Andarilhos foram vistos e por precaução iriamos ser realocados para um colégio de Caídos, essa notícia tinha mexido com alguns já que nossa aliança foi feita a muito tempo e ainda sim tinha pessoas que não confiavam cem por centro no nossos aliados, minha dupla era avesso a essa mudança dizendo que daríamos conta de nos cuidar, mas algum coisa no fundo me dizia que não seria bem assim e por isso ele estava descontente por estar agora sentando comigo.
— Eu sei que está bravo comigo... – comecei a falar enquanto ele escrevia a resposta da número nove.
— Eu não estou bravo com você, e que somos considerados fracos, vulnerável e isso me irrita. – Ele agora encarava a questão dez com fúria.
— Eu entendo, mas e se isso for o certo, não veja isso como fraqueza e sim como preciosidade. – Tentei fazer ele entender meu modo de ver.
— Você é realmente preciosa, mas eu não quero ser visto assim, sou homem, eu quem deveria proteger você. – A questão onze foi esquecida quando seus olhos azuis me fitaram.
— Você protege, e meu melhor amigo. – Tentei falar voltando para a prova e escondendo meu rosto corado pelo olhar dele com o meu cabelo.
— Vamos terminar logo, temos que fazer as malas. – Ele voltou para a questão onze colocando a resposta que já sabíamos de tanto estudar juntos.
Ao fim da prova estávamos andando no pátio, era um amplo jardim com mesas e cadeiras espalhadas por todo o lugar de modo espaçado, era por volta das quatro da tarde e o Sol estava enfim baixando e nos dando uma trégua o calor que tinha sido o dia inteiro.
— Não sai por aí sem mim. – Brian apareceu ao meu lado.
— Você parou para cumprimentar a Cristal e eu dei só dois passos. – Rolei os olhos indo para uma mesa que praticamente tinha nossos nomes, ficava em baixo de uma arvore torta e baixa o que nos dava uma sombra fresca.
— Mesmo assim estamos indo para um colégio de Caídos e você sabe o quanto são bárbaros. – Ele falou jogando a mochila de materiais na mesa.
— Não seja exagerado, você nem conhece um Caídos e meus pais não são bárbaros. – Falei me sentando encostada na arvore com a mochila ao meu lado.
— Seus pais são adultos e claro que são mais civilizados. – Ele retrucou se sentando do meu lado.
— Pelos Deuses não diga bobagem. – Retruquei olhando o Sol longe.
— Você sabe que é verdade, muitos Elevados já são afim de você por causa da sua magia diferente e agora vamos para lá. – Ele cruzou os braços olhando para o Sol.
Olhei minhas pernas com marcas em preto, um lembrete que eu nasci Elevada, mas não totalmente, era como galhos e ramos de uma planta, pelos meus quatro membros cruzando todo o meu corpo, braços e pernas em preto destacado na minha pele branca o que só piorava junto com meu vestido branco do colégio e meus chamativos cabelos ruivos e olhos dourados.
— Não diga bobagem. – Ri da cara emburrada dele que estava daquele jeito desde amanhã.
— Certo, eu posso está exagerando, mas deveria fazer como as outras meninas e usar a máscara, por precaução pelo menos nos primeiros dias. – Ele tinha um olhar genuinamente preocupada.
— Se eu fizer isso promete relaxar, sabe que você e o único que fala comigo e se parar... – fiquei quieta de olhos fechados sentindo o calor do Sol.
— Não vou parar de falar com você, e se fizer isso vou ficar mais relaxado. – Pude ouvir um sorriso na sua voz e então ficamos em silencio.
Usar a máscara implicava em diminuir o instinto protetor nos outros que era ativado por conta de nossa magia, deixei isso para lá apreciando a sensação da natureza em mim e com isso minha consciência foi apagando.
Ouvi um barulho e abri meus olhos o Sol já estava se pondo e tudo parecia tomar um tom sombrio, olhei ao redor não vendo nada.
— Shiii. – Brian pegou minha mão e vi ele olhando para a nossa esquerda a frente.
Um homem de altura média andava com uma fila atrás dele, eles não usavam roupas como a nossas e com um aperto no coração percebi que os Andarilhos chegaram antes do que imaginávamos, Brian se colocou agachando me ajudando e com isso demos a volta na arvore ficando escondidos, ouvimos a correria do colégio e sabíamos que provavelmente tinham atacado pela frente, senti meu coração acelerando quando vi Brian me deixando para trás com um aviso e indo em direção da construção pela lateral, sentei tentando ficar silenciosa e ouvir ao mesmo tempo o que estava acontecendo, eu sabia que não podia lutar com todos ali, e também não podia ficar ali esperando se eles abrissem o portal eu ficaria para trás sozinha, eu sentia meu corpo tenso tentando lembrar como se colocar em movimento, eu sabia bem o que acontecia com Elevadas mulheres quando capturadas, além de escravas sexuais, eram usadas como elixir, o sangue de um Elevado tinha poderes de cura, proteção e longevidade, com um pouco de esforço comecei a ir pela mesma lateral que Brian tinha entrando, os gritos e feitiços faziam tudo ser mais intenso, estava quase na porta quando senti alguém puxar meu braço.
— Olha só o que encontrei. – Vi com horror que um homem de aparecia velha e suja segurava meu braço com força me arrastando para os outros.
— Que gracinha. – Um outro respondeu.
Senti meu pânico aumentar e antes que ficasse cercada fiz um feitiço de fogo que tinha aprendido com meus pais e comecei a correr, deixando toda a descrição para trás.
— Feitiço de fogo??? – Foi tudo que ouvi enquanto passava pela porta lateral.
Quando entrei no colégio era impossível reconhecer aqueles corredores em cor bege e calmos que eu estava ainda naquela manhã, uma fumaça densa deixava difícil respirar e mesmo todas as janelas não eram suficiente para o fogo que consumia a estrutura, comecei correr para o centro do colégio aonde era previsto a abertura do portal, tive que usar mais magia para ataque e defesa, eu sabia que não deveria abusar da magia de fogo, era uma magia exclusiva dos Caídos, mas meus pais me ensinaram e com espanto eu era muito boa nela, corri com as cenas a minha frente me deixando mais assustada, não vi nenhum corpo, o que deveria ser bom, mas eu sabia que os Andarilhos não queria mortes e sim prêmios, aqueles que caíram aqui agora eram prisioneiros e nunca mais veriam a liberdade, os Caídos não eram bárbaros os Andarilhos que eram.
— Peguem-na. – Um Andarilho avisou da minha passagem e eu tentei correr mais rápida quando senti uma corda magica prender nos meus pés.
Tentei me soltar, mas meu escudo não funcionava e com terror me vi cercada.
— Olha só o que temos aqui. – Um velho abriu espaço me olhando como um predador.
Eu estava pressa pela corda que começou a apertar meu corpo, com o canto dos olhos eu vi a porta do salão principal e dentro o portal se fechando e vários Andarilhos correndo para atravessa-lo, eu sabia que não tinha o que fazer, meus olhos se encheram de lagrimas quando eu sabia o que tinha que fazer, eu não ia ser prisioneira e nem ia deixar que eles fossem atrás dos outros, por mais que ninguém gostasse ou falasse comigo, eu não ia ser egoísta e com isso concentrei toda a minha magia, sabia que isso ia me mata, e tudo que eu pedia era que Brian consiga se salvar, meu único amigo dentro daquele lugar por conta de eu ser diferente, uma mestiça de magia, liberei uma magia de fogo negro que consumiu tudo ao redor, eu ouvi os gritos dos Andarilhos sendo atingidos e da construção sendo consumida pela nova chama mais faminta que a anterior, olhei para a janela e vi o céu estrelado, uma brisa fria entrou batendo no meu corpo fraco como um consolo quando ouvi passos, era dois homens de pretos, não pareciam ser Andarilhos.
— O que aconteceu aqui? – Uma voz rouca veio para meus ouvidos de um dos homens que tinham vindo do portal.
Eu estava com medo, eles tinham sobrevivido e eu seria feito prisioneira.
— Isso é fogo maldito, pensei que não tivessem Caídos aqui. – Outra voz mais limpa respondeu.
— Ela está viva? – Vi quando um deles parou virado na minha direção, cerca de cinco metros.
— Ela não poderia fazer isso, poderia? – A segunda voz começou a se aproximar e minhas vistas escureceram.
— Olha as marcas dela, não é uma Elevada pura. – Senti um toque suave no meu rosto e abri meus olhos.
Encarando-me tinha dois homens, não pareciam ter mais de vinte anos, claramente não eram Andarilhos já que seus rostos eram novos e bonitos, diferente dos Andarilhos onde a magia cobrava caro devido seus corpos meramente humanos, olhos e cabelos negros em dois rostos brancos, muito atraentes e parecidos me encaravam.
— Ela está viva. – A primeira voz falou.
— Ela usou magia de fogo negro muito poderosa, está fraca Sebastian. – A segunda voz respondeu com um tom de pesar.
— O que está dizendo Vincent? – O Sebastian olhou para o Vincent e por um momento presenciei uma conversa silenciosa.
— Não podemos deixa-la morrer. – Sebastian respondeu uma frase muda.
— Não vamos. – Vincent respondeu automaticamente e ambos olharam para mim.
Para minha surpresa senti dois pares de mão tocarem meu rosto e uma sensação de calor agradável e então tudo escureceu.
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