Anjos Da Morte
4 Três, ilusões ou realidades
O ar da cidade estava denso e pesado. O cheiro de fumaça impregnava nas esquinas mais ‘abertas’ enquanto na parte onde o verde prevalecia o ar se tornava mais agradável – ou seja, muito melhor – e logo Natalie notou isso, resolvendo alternar sua caminhada entre a ala verde e a área cinza.
A cabeça de Natalie martelava. A cada passo dado à garota se sentia mais pesada – não tinha há ver com seu peso físico e sim com seus sentimentos confusos – e lógico que a razão para isso envolvia Ed. O sorriso leve e descontraído dele invadia a mente de Natalie, tudo que ela sentia por ele havia mudado... Tão rápido!
Parece que foi ontem que os dois se conheceram no parquinho da escola, ela se lembre como se tivesse realmente acontecido ontem.
Ed estava carregando um balde cheio de areia pela grama do parquinho, e suas bochechas salientes estavam rosadas do esforço que ele fazia. Natalie, prestativa como sempre, resolveu ajudar, correu até o garoto ruivo desconhecido e segurou num lado da aste que segurava o balde azul.
- O que você está fazendo? – Perguntou Edmundo com sua voz fina e doce, transbordando inocência.
- Te ajudando! – Rebateu Natalie levantando o balde ainda mais alto.
- Tudo bem. – Ainda um tanto quanto teimoso Ed aceitou a ajuda de Natalie.
Mesmo um pouco relutante, Edmundo acabou se aproximando de Natalie e a partir daí os dois nunca mais se separaram.
E por que ela estava tendo aqueles sentimentos estranhos por ele? Ed nunca fora nada de mais, era só um... Ruivo qualquer, mas não mais para Natalie, ele se tornou o ruivo dela. Podia ser só atração, certo? Tinha que ser. Por algum motivo estranho e escondido Nat não queria admitir que tem sentimentos por ele, era errado demais.
- Com licença! – Uma voz feminina, um pouco rouca – havia acordado Natalie de seus devaneios.
Sem prestar muita atenção à menina revirou a cabeça, olhou para todos os lados, mas não encontrou absolutamente nada.
- Oi? – Natalie se certificou de que alguém tinha falado com ela.
Nada.
Ela olhou mais uma vez ao redor em busca de alguma pessoa que pudesse ser culpada por chamá-la. Mas nada, não havia ninguém!
Ela estava caminhando numa calçada localizada numa rua vazia cercada por árvores e algumas casas antigas.
– Me ajude! – A voz persistia.
- Quem está aí? – Natalie elevou seu tom de voz, gritando.
- Você garotinha, me ajude! – A voz ecoava na cabeça de Natalie, num tom de súplica.
Ela ficou quieta, ereta. Os pelos de sua nuca estavam arrepiados e as mãos trêmulas.
- Quem é você? – Ela sussurrou.
Um silêncio mortal invadiu o ambiente, o único barulho que Natalia conseguia ouvir era o farfalhar das folhas verdes balançando com o vento de verão. O clima estava abafado e quente, o sol irradiava por trás de nuvens traiçoeiras.
- Ela ainda não está pronta! – Outra voz, essa mais grossa e firme, invadiu a alma de Natalie.
- Pronta para quê? – Questionou ela.
- Já está passando da hora! – Grunhiu a moça com voz rouca. – Ela já está com dezesseis anos!
- Mas ela ainda precisa crescer mais um pouco, ela mal consegue nos ver... – A voz do homem foi abafada por uma ventania forte.
Natalie olhou novamente para os lados para se certificar que não tinha mais ninguém ali e ela realmente estava certa. Não havia ninguém na rua.
Só havia uma explicação para aquilo tudo, sim, só havia uma única explicação plausível... Natalie estava louca, maluca, tinha perdido a razão e lógico, a sanidade. Ela tinha que se internar numa clínica psiquiátrica o mais rápido possível.
Mas existia uma chama incandescente no fundo da alma de Natalie que dizia que ela não era maluca, e sim diferente. Bem, a profissão como cigana devia dar futuro, não?
O cheiro da carne assada invadiu as narinas de Natalie quando ela entrou em casa. O aroma era delicioso e ardente – com uma pitada de pimenta do reino só para dar sabor – o estômago dela gritava por comida. E claro, ela também.
- O que tem para o jantar? – Perguntou ela, tentando afastar a lembrança das vozes estranhas – ela tinha se convencido de que aquilo não passou de um contratempo.
- Carne assada, arroz com lentilha e salada! – Sua mãe obviamente se vangloriava pela comida.
- Nossa. – Natalie fez uma pausa dramática. – O que deu em você hoje?
A mãe fez uma careta como se não engolisse o deboche.
- Nada, só queria testar umas receitas novas!
Bem, nada de errado nisso, afinal Natalie já estava ficando cansada das velhas noites de lasanha com sua mãe.
- Mãe. – Natalie começou a falar enquanto erguia o braço para pegar um prato no armário da cozinha.
- Sim?
- Você... – Ela começou a falar, mas logo ficou quieta pensando no quão estranho seria sua pergunta, mas bem, o resto da frase saiu de uma só vez pela sua boca. – Acredita em... Fantasmas?
A mãe arregalou os olhos.
- Mais ou menos filha. – Natalie ficou espantada, mas sua mãe continuou a falar. – Sua avó costumava falar sobre coisas estranhas como essas. Papai sempre a chamou de louca. Mas a franqueza das palavras dela eram simplesmente... Reais.
Natalie ficou em estado de choque, mas lógico, não podia simplesmente deixar sua mãe notar sua surpresa.
- Hm. – Ela não conseguia encontrar palavras que respondessem sua mãe com calma.
- Por que a pergunta filha? – A mãe quis saber.
- Nada não.
Natalie encheu o prato branco de porcelana vazio e se sentou à mesa. Comeu tudo o que tinha colocado – na verdade engoliu – e estava tão cansada com tudo que tinha acontecido que se permitiu ir tomar uma ducha e se jogar na cama arrumada e dormir.
E foi isso mesmo que ela fez.
O som da chuva de verão acordou Natalie. Os feixes de luz que irradiavam em seu quarto vinham da janela entreaberta.
Ela levantou sem pressa, afinal estava no horário.
O sol lá fora era forte, porém um chuvisco de verão atormentava a todos. Natalie nunca fora fã de chuva – nem de muito sol na verdade – mas a simples idéia de ter água em todo o seu corpo a deixava nervosa.
Natalie caminhou até o seu armário e vestiu a mesma calça jeans clara de ontem e colocou uma camiseta preta de manga curta. Nada muito chamativo nem muito extravagante, ela gostava do simples.
O banheiro estava iluminado pelos raios de sol que saíam da pequena janela no canto superior do cômodo. Ela lavou o rosto com água fria e escovou os dentes observando seu reflexo no espelho límpido.
Algo estava errado.
O reflexo não era ela. A garota do reflexo tinha assas de anjo, assim como seu sonho.
Natalie jogou mais água fria no rosto com veemência a fim de espantar o susto. Ela olhou novamente no espelho. Ela estava normal, sem assas. Esse foi o fim, foi à prova final que Natalie precisava para constatar sua teoria – sim, ela estava ficando maluca – não tinha outra explicação.
- Meu deus. – Exclamou ela. – Eu estou pirando.
Ela balançou a cabeça para afastar os pensamentos esquisitos e foi até o primeiro andar.
- Bom dia filha. – Saldou sua mãe que preparava panquecas.
- Bom dia mãe.
Natalie foi até o sofá da sala e pegou sua mochila que estava lá.
- Vou indo pra escola mãe. Não estou com fome hoje.
Ela caminhou até a rua e seguiu para a escola sem nenhuma novidade, exceto por Ed.
- Bom dia Nat! – Gritou ele do outro lado da rua, correndo ao encontro dela.
- Oi Ed. – Ela forçou um sorriso, embora não quisesse conversar.
Os olhos cor de mel de Edmundo olhavam fixos nos de Natalie, percorriam cada milímetro da área de seu globo ocular.
- Você está preparada para o acampamento? – Perguntou ele.
Um bolo ficou preso na garganta dela. Natalie ficou sem palavras.
Os olhos cor de caramelo do garoto eram doces e convidativos, fazendo-a tremer de ansiedade. Aquele sentimento não pertencia a Natalie, nunca, jamais pôde sequer imaginar sentir um tremor por causa de Ed. Talvez um sentimento fútil brotasse de seu interior escuro e o imaginável aflorasse como uma flor no concreto duro e quente de um asfalto de alguma auto-estrada. Era como se naquele momento a ternura dos olhos de Ed acalmassem Natalie. Ela o queria só para si mesma.
- Sim. – Mentiu. – Você vai mesmo ir, quer continuar com essa promessa boba?
- Claro. – Ele sorriu descaradamente. – E ela não é boba. É real.
Ela no fundo se sentia mal por ele ter decidido ir, afinal, por mais que ela pensasse sobre isso sabia que ele só estava indo pela cena que ela fizera outro dia.
- Você não precisa ir se não quiser, Ed. – Falou ela com a voz terna.
- Mas eu quero ir. – Se era mentira, Natalie não sabia.
- Tudo bem. – Ela sorriu.
- E eu acho que a Lucy também vai. – Continuou ele vendo a surpresa dela. – Nós conversamos depois que te liguei.
Há meu Deus.
- Que diabos vocês dois falaram? – Ladrou ela.
- Nada de especial Nat, nada de especial.
Eles caminharam juntos pelo acostamento em silencio até chegar à escola, onde se separaram e seguiram cada um para sua respectiva aula. Natalie ainda com um bolo preso em sua garganta se jogou na primeira cadeira que viu vazia na sala, sem nem ao menos cumprimentar Della – uma menina do time de vôlei que insistia em fazer amizade com ela desde que chegara ao colégio – mas bem, Natalie não tinha muita paciência para aquilo.
Sua rispidez era notória.
Natalie afundou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa e começou a pensar sobre toda a sua vida. Os sentimentos perdidos; o amor estranho por Ed; os problemas com Lucy; as... Vozes.
– Ô docinho! – Uma voz amarga e rabugenta ecoava pela sala. – Fale para o ignorante do Gordon me escutar pelo menos agora em meu leito de morte! Diga-o para ir ao médico...
- O que? – Murmurou Natalie levantando a cabeça.
A voz se calou e Natalie ficou mais tensa.
Os ombros dela ficaram trêmulos como nunca antes. Uma brisa gélida batia em seu rosto percorrendo todo o corpo.
- Quem está ai? – Sibilou ela num tom baixo.
Não houve resposta.
Natalie olhou ao redor para ver se tinha alguém ali. Mas não. A sala havia – misteriosamente – ficado completamente vazia. Só tinha Natalie e um frio alucinante.
- Você vai falar com ele, não vai?
Natalie ergueu o rosto e olhou para frente. Lá estava ela, uma mulher de terceira idade com os cabelos grisalhos e os lábios azuis de frio. Parada na sua frente, a encarando com seus olhos castanhos quase fechados.
- Há meu Deus...
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