Anjo ou Fera
1 Capítulo Único: Anjo ou Fera
Caroline desembarcou do carro e caminhou lentamente até o lugar que se tornara o seu refúgio nos últimos meses. O gramado viçoso e macio abafava seus passos, e apenas o farfalhar das folhas nas árvores era audível naquela imensidão.
Após alguns minutos a loira alcançou seu destino, sentando-se da maneira mais confortável possível em seguida. Suas costas estavam em frangalhos nas últimas duas semanas, e por um momento ela imaginou se conseguiria por-se de pé depois, sem que precisasse de socorro.
Com um longo suspiro, a moça encarou a caixa envolta em papel vermelho e a fita dourada que trazia nas mãos. Ainda tinha dúvidas de que estava preparada para descobrir o conteúdo escondido ali dentro, e temia que aquilo pudesse feri-la de mais uma maneira irreversível.
- É agora ou nunca — sussurra, desatando o laço e erguendo a tampa da caixa.
Ali dentro, aninhada em uma porção fofa e generosa de papel seda vermelho, a loira encontrou uma pequena câmera digital e um cartão com a caligrafia tão conhecida de seu primeiro amor, com a seguinte mensagem: "Estarei esperando por sua resposta ao final do vídeo. Espero que seja um feliz e sonoro sim! Com a certeza de amá-la sempre e para sempre... Klaus".
Aquilo já foi o suficiente para deixar a visão de Caroline turva por conta das lágrimas, e por um segundo ela pensou em desistir e fugir o mais rápido que pudesse. Mas não havia mais volta, e ela precisaria seguir em frente com aquilo, de um jeito ou de outro.
Com as mãos trêmulas, ela apanhou a câmera e a ligou. Não demorou mais do que alguns instantes para localizar o vídeo, e seu coração apertou mais uma vez no momento em que ela selecionou o "play".
"Hey Love!" a imagem de Klaus surgiu na tela, com aquele sorriso que Caroline tanto amava. "Adivinha onde estou" ele continua, mostrando o pátio de uma escola. "Foi ali, à sombra daquela árvore, que nos conhecemos. Eu era o novato, e você se aproximou perguntando meu nome. Klaus Mikaelson, respondi com toda minha cortesia inglesa. Lembra o que me disse em seguida?"
Lógico que Caroline lembrava. Como esquecer o momento em que se deparara com aquele garoto, o momento em que seu coração o escolheu? Como esquecer o instante em que descobrira o cara certo?
"Caroline Forbes, sua futura namorada" o rapaz no vídeo continuou, sorrindo ainda mais. "Você nem ao menos ficou corada, enquanto eu queria apenas sair correndo! Só agora me dou conta do tempo que perdi ficando em choque. Podia apenas ter dito "aceito" e beijado você naquele instante", e então, o riso inconfundível de Klaus preencheu o ar, como se ele estivesse ali, bem ao lado dela. "E mesmo que eu tenha tentado manter distância, você não desistiu enquanto não almoçamos juntos, tornando-se a minha melhor amiga nas semanas que se seguiram" disse ele, fazendo um sorriso brotar no rosto da garota ao lembrar-se daqueles primeiros momentos dos dois.
"Precisei de dois meses para tomar coragem e beijar você, convencer a mim mesmo que estava apaixonado e depois pedi-la em namoro", e naquele instante, a voz de Klaus ficara embargada. "Dali em diante, cada mínimo pedaço de mim sabia que meu lugar sempre seria ao seu lado. Meu coração, minha alma, meu eu... Tudo era seu. Sempre será seu!" o loiro prosseguiu, os olhos azuis mergulhados em lágrimas.
"No nosso primeiro aniversário, precisei encomendar as rosas amarelas com uma semana de antecedência pra garantir que elas estariam na floricultura quando um fosse buscá-las. A dona ainda tentou me convencer de que rosas vermelhas seriam muito mais românticas, mas apenas lhe respondi que minha garota era especial demais para se contentar com o comum. Além do mais, as flores amarelas sempre foram as suas preferidas, certo?"
Caroline se lembrava daquelas flores, do perfume incrível que o buquê deixava no ar. Fora a coisa mais linda que ganhara até então, e sentira uma pontinha de dor quando as flores começaram a secar vários dias depois.
"Nossos finais de semana eram particularmente complicadinhos, já que você e a TV não eram amigas íntimas. Enquanto pessoas normais assistiam filmes, nós fazíamos o quê? Eu ficava ao violão... Compondo... Cantando... Enquanto você me acompanhava, os olhos sempre marejados!"
- Meu poeta — ela sussurra, o rosto molhado pelas lágrimas, recordando as várias declarações que Klaus fizera para ela, fosse numa música ou num cartão.
"E assim o tempo foi passando, os meses se transformaram em anos, fomos convivendo, aprendendo e nos aceitando. Fui te querendo cada dia mais, mesmo com o seu ciúme e sua irritante mania de largar a tigela de cereal vazia em cima da mesa! Você continuou me amando, mesmo que eu a quisesse só pra mim na maior parte do tempo, e com as insistentes crises de amnésia que só apareciam para me fazer esquecer a toalha molhada sobre a cama...", e mesmo com a dor das lembranças, um pequeno sorriso brincou no rosto da garota. Afinal, quantas vezes ela tivera de recolher a toalha de Klaus e levá-la de volta para o banheiro?
"Então, por cada momento que compartilhamos, e pela soma de todos eles, é que chegamos a isso: Caroline... Eu te amo, e amarei, sempre e para sempre! Quer casar comigo?"
O vídeo chegou ao fim com a imagem de uma rosa amarela e um par de alianças douradas, que fez com que a loira desabasse de vez, o choro dolorido rasgando seu peito novamente, os soluços ecoando através das pequenas estruturas de pedra que a rodeavam. Caroline sentia a necessidade de gritar "sim, eu aceito", mas era tarde demais para isso. Klaus já não poderia mais ouvi-la.
Aquela mensagem perfeita fora gravada pouco mais de sete meses antes, e o rapaz nunca tivera a chance de entregá-la. Um acidente de carro arrancara Klaus de seus braços, deixando-a sem seus abraços, seus beijos, seus sorrisos... Não havia mais a mão dele junto da sua à noite, nem planos de uma viagem à Europa, nem amor na varanda à luz das estrelas.
Havia aquela lápide fria, cinzenta e sem vida, que se tornara seu refúgio quando a dor era grande demais para suportar.
Havia também fotos, cartas e lembranças. E como uma maneira de ter ao menos uma partezinha de seu amor sempre junto de si, havia aquele garotinho que ela trazia no ventre há oito meses, quase pronto para dizer olá para o mundo.
Havia Joseph, o presente mais bonito que o amor entre ela e Klaus pudera deixar. E muito em breve, haveriam as histórias sobre o papai, mantendo o amor deles vivo, sempre e para sempre.
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