Anjo na Gaiola
1 O Anjo do Alto da Torre
Amanhecia. O sol subia por detrás das montanhas, revelando a sua luz a todos os mortais da Terra exposta a ele, iluminando cada maravilha criada por Deus e pelo Homem.
Mas naquela cidade, Deus não tinha a minima importância.
Todos eram melhores que o própio.
E todos aqueles seres incríveis que deveriam ser apenas de Deus, agora pertenciam à aquela cidade.
Junye acordava junto com o Sol, sempre. A luz invadia sua gaiola por entre as grades e a tirava de seu sono. Por mais que ela quisesse voltar a dormir, não pudia. A Torre acordava não muito depois dela ou do sol.
Junye era, simplesmente, um anjo. Literalmente. Era uma garota de apârencia jovem, cabelos dourados, a pele branca, não muito clara. Feições ingenuas, infantis, bem-encaixadas no rosto pequeno e triangular, de olhos cor-de-mel arredondados e cílios longos, sobrancelhas bem-desenhadas da mesma cor dos cabelos.
Tinha o corpo de uma adolescente. Frágil, esparramado de bruço no chão de ferro da gaiola que a suspendia. Além de uma aura angelical invisível, havia uma particularidade indiscreta: um par de asas plumosas nasciam de suas costas. Seguiam os contornos de seu corpo com elegância, Quando fechadas, as ultimas penas brancas e macias roçavam com a pele da cintura e as pontas do cabelo.
Mesmo sem nuvens no céu e o sol já no seu lugar, estava frio. Junye sentou-se, puxando um pano longo e cinzento para perto de si e jogando-o sobre os própios ombros — aquilo era o mais perto de um cobertor ou vestimenta que já tivera. Encolheu-se com o vento, olhando o resto da cidade circular.
Ela estava tão alto... e se assustava a pensar que já esteve ainda mais alto do que aquilo. Via todo o lugar do topo da torre, uma das ultimas janelas.
Era assim que a moça passava seu tempo quando ninguém vinha admira-la.
Raramente alguém entrava ali. Os moradores da Torre eram pessoas muito ocupadas. Havia uma jovem cristã de nome desconhecido que, de vez em quando, vinha desculpar-se de novo e de novo por deixa-la ali, e rezar sob a gaiola, escondida.Havia, quase nunca, criadas que vinham lhe banhar ou por mais comida. E, todos os fins de tarde, um senhor de preto se sentava próximo da gaiola e a entregava uma harpa. Mandava-lhe tocar e cantar, enquanto ele lia um jornal recente e tomava um chá recém-preparado; mas nenhum desses conversavam realmente com Junye. Ela era tratada como... nem mesmo como um animal.
Ela ainda tremia, quando finalmente chegou o meio-dia. Sentia fome, mas sua comida havia acabado a dois ou três dias. O Senhor de Preto não se importava — anjos não precisavam comer, na verdade, mas a fome ainda era desagradável — e ameaçava com algo parecido com um galho de árvore sempre que reclamava.
Duas ou três horas da tarde. Ainda estava frio. Junye se entretia tentando distinguir a espécie dos pontinhos que andavam pelas ruas. Era curiosos perceber que poucos ali eram humanos... a maioria eram os escravos de todas as raças possíveis.
E foi naquele momento que sua vida mudou. Não, não por tal descoberta — ela já sabia disso, na verdade. Mas a porta se abriu. E daquela vez, não era ninguém que ela ja tivesse visto antes.
Ela nunca tinha visto algo tão.. bonitinho, em toda sua vida. Parecia ser humano, mas havia algo de diferente. Seus olhos pareciam mais inocentes, olhos grandes e brilhantes, muito azuis, que a encaravam com enorme curiosidade. Não havia qualquer tipo de pintura no rostinho pequeno e claro. Os cabelos castanhos e ondulados estavam soltos, caindo sobre o ombro. Seu vestido era mais simples, mais confortável, azul-bebê, de mangás longas e um casaquinho de lã.
A coisinha caminhou admirada até a gaiola. Nas pontas dos pés, espiou entre as grades. Ela percebeu como Junye parecia surpresa, talvez até assutada. Como se para tranquiliza-la, a pequena coisinha sorriu, mostrando os dentes — um deles faltavam na frente, o que só dava à aquilo um ar mais adorável. O anjo correspondeu com um sorriso pequeno, do outro canto da gaiola.
\"Vem cá. Qual o seu nome?\"
Era uma voz fina e macia. Alegre. E falava com ela de forma amigável. A coisinha só a surpreendia mais e mais.
\"Meu nome.. Junye...\"
\"O meu é Tahy!!! Quantos anos Junye tem?\"
\"Anos? ...Não sei.\"
\"Não??? Como não? Hoje, estou fazendo 6 anos!\"
Junye não sabia realmente o que aquilo significava. Então somente sorriu de novo.
\"Você pode voar, igual aos pássaros?\"
\"Como!?\"
\"Você tem asas!\"
\"Ah.. sim, eu tenho. Mas não posso voar.\"
\"Porque?\"
\"Porque estou presa nisso.\"
Junye mal lembrava como se falava, na verdade. Fazia uma eternidade que ninguém conversava de verdade com ela.
\"É? Está de castigo?\"
\"Castigo? Não. Eu acho que não.\"
\"Então...\"
A breve conversa foi interrompida. O Senhor de Preto entrava na sala.
Ele mandou a garota sair dali, e entregou a harpa a Junye, murmurando algo contra a pequena humana.
Não demorou muito para a garota visita-la de novo.
\"Olá, senhorita Junye!\"
E as visitas se tornaram frequentes. Ela sempre aparecia ali, antes do Senhor de Preto chegar, alegrando-se ao ver o anjo. Ela contava tudo o que acontecia. Ela contava o que sentia, e explicava o que Junye não entendia.
Era a primeira vez que Junye fazia uma amizade.
Ela percebeu que os humanos eram mais fascinantes do que pareciam. Seguiam uma rotina, faziam sempre as mesmas coisas e sempre coisas diferentes, ao mesmo tempo. Ela se sentia realmente feliz quando a coisinha entrava saltitante pela sala espaçosa e parava nas pontas dos pés, a beira da gaiola.
E a coisinha pequena parecia cada vez maior. Mais velha. Mas parecida com os humanos, porém só de rosto. E continuava a conversar com Junye.
Era um dia realmente lindo, e fazia alguns meses que o Senhor de Preto não a visitava. Ela não sentia realmente falta dele, mas Tahy também não ia a ver.
Tahy já era grande. Era esbelta e muito bela, com os cabelos negros e sedosos outrora ondulados cada dia mais lisos, e os olhos azuis sempre com o mesmo brilho curioso e inocente. A pele era praticamente perfeita. Quase tão angelical quanto a própia anja, se não fosse pelo fato de ser uma humana.
E dela, Junye sentia certa falta.
Depois de muitos e muitos dias, a garota vinha lhe visitar de novo. Parecia um pouco triste, mas se forçava a sorrir. Caminhou devagar até a gaiola, uma chave na mão.
\"Junye..\"
\"Oi, Tahy.\"
A morena parou a beira da gaiola. Não precisava mais ficar na ponta dos pés para olhar a moça por entre as grades. Ela encaixou a chave na fechadura e a girou. Ouviu-se um \"cleck\" baixo e a porta se abriu.
\"..Você esta livre.\"
A anja ficou ali. Parada. Surpresa. Alegre. Duvidando. Tentando acordar.
Ah. Ela estava acordada.
Um enorme sorriso iluminou ainda mais o rosto pequeno. Ela engatinhou até a portinha aberta. Saltou para o chão, abrindo as asas.
Por quanto tempo suas asas estiveram fechadas?
Elas abertas eram incrivelmente belas e elegantes, mágicas. Impecáveis, muito brancas, macias. Não podiam ser comparadas às de pássaros, ou qualquer outro animal alado.
\"Espere um pouco.\" Tahy pediu, segurando o pulso de Junye quando ela insinuou sair voando pela janela. \"Me promete uma coisa?\" Perguntou.
\"Claro! Qualquer coisa!! Estou tão agradecida, qualquer coisa!!!\" Junye sequer notou o tom rosado que as bochechas de Tahy ganharam. \"Pode falar\"
A loira se aproximou.
E quando estava próxima o suficiente, Tahy se inclinou e os lábios se encontrarem. Ambas as mãos dadas. Uma sensação quente.. O anjo não sabia o que era um beijo. Não entendia exatamente o que era aquele sentimento, ou o que estava acontecendo. Mas correspondeu, quando Tahy entreabriu os lábios levemente e transformou aquilo em um beijo de verdade.
\"Venha aqui de vez em quando. Promete\"?
Junye concordou com a cabeça, sorrindo. E depois saltou da janela. E saiu voando, de uma das janelas mais altas da Torre.
Tahy a observou até ela sumir de vista.
E depois, continou olhando o céu vazio, excessão de algumas nuvens e poucas aves.
Dia após dia.
--xx--
\"Odeio esse sentimento. Essa sensação egoísta. Não gosto de me sentir assim ou de me pegar pensando dessa forma. Mas na verdade me arrependo por te-la libertado.
Não. Não por causa do castigo. Dor física passa.
Mas ela nunca cumpriu sua promessa.
Junye nunca me visitou, nunca voltou para me ver. Se eu ao menos a tivesse deixado em sua gaiola, poderíamos conversar todos os dias. Seriamos felizes juntas.
Mas ela está feliz sozinha...
Eu não deveria ficar feliz por ela?
Me sinto usada...
Hah.
Rídiculo.
Nós que a usamos, para entreterimento própio. Como sou egoísta.
Como sou rídicula.
Uma velha a beira de sua morte, escrevendo em um pergaminho tosco besteiras sobre seu primeiro amor.
Só um amor de infância...
Imagino que anjos não saibam ler, pois não devem precisar disso, e mesmo se souberem, imagino também que você jamais encontraria esse bilhete. Mas quero, mesmo assim, deixar meus sentimentos registrados.
Mesmo nunca tendo cumprido sua promessa, nunca te odiei.
Na verdade, eu sempre a amei. Ainda a amo. E quando morrer, daqui a não muito tempo, ainda estarei a amando.
Sempre.
Mais uma vez, me sinto tão rídicula...
Tahy.\"
Notas finais
Reviews, e quem sabe uma passada no perfil e 100 pontinhos, por favor? *^*
Fale com o autor