Ele ou ela?

– Como disse? Gabriel? Seu nome não é um tanto... Desculpe se serei rude, mas você é homem? – O anjo acabara por sorrir, apontando para o jovem a sua frente com sua mão delicada.

– Você é um homem. Eu não. – Respondeu de forma serena.

– Mas então, porque seus pais lhe deram um nome masculino?

– Nosso grande Pai me deu este nome porque ele significa “enviado de Deus. Força de Deus”.

– A forma como nos conhecemos não foi a melhor de todas e temo falar algo que possa a ser inconveniente. Onde moras, jovem... Sois uma garota, correto? – Apenas para ter certeza de que não estaria chamando a garota ou garoto de um modo errôneo, questionou ao anjo que balançou a cabeça de um lado para o outro em sinal de negação e com isso os longos cachos balançaram um pouco com o ato, parecendo reluzir ainda mais ao brilho da lua nos fios dourados e sedosos.

– Moro junto de nosso Pai. Desculpe por lhe causar esta confusão, entendi agora que não sabe se sou homem ou mulher, correto? Bem, não sou homem ou mulher. Fui enviado por Aquele que glorificamos para evitar que um desastre ocorra a vocês e embora eu tenha conseguido terminar minha missão, saí ferido da batalha e não consigo voltar para casa enquanto não estiver curado.

– Sabe, não sei se realmente acredita no que diz ou se está havendo algum mal entendido, porque eu tenho certeza que alguém como você jamais brincaria com a palavra de nosso grande Pai. – Dissera em um tom apreensivo, mas neste momento, o olhar do pequeno anjo se voltou para o horizonte, trazendo com isso a atenção do padre que ao seguir o olhar do outro, viu seus companheiros retornando ao encontro deles.

– Compreendo que neste mundo de provações em que vive duvide de minha palavra, pois aos humanos é permitido o livre arbítrio e com ele vem os males das mentiras e traições. Por conviver com isso todos os dias é fácil não crer naquilo que falta provas, portanto peço para que mantenha sigilo do que eu disse à ti até então.

– Se sabe disso porque me disse tudo isso? – Perguntava Dimitri que mantinha os olhos fixos aos azuis do loiro, que tinha o olhar melancólico e um sorriso bondoso nos lábios rosados.

– Porque sei que tua alma não foi corrompida por este mundo. Eu senti isso desde que sua aura tocou a minha.

– Tem minha palavra. – Disse pouco antes dos companheiros chegarem e com esta ultima frase, fez com que o pequeno anjo iluminasse a visão de Dimitri com um sorriso tão sincero que parecia com o de uma criança.

– Senhorita, está tudo bem convosco? Pedimos que não se preocupe, pois levamos o sujeito até o xerife da cidade, que o prendeu imediatamente.

– Não estou preocupado. Acredito que fizeram aquilo que acharam necessário para meu bem estar e por isso agradeço. Que Deus ilumine o caminho de todos vocês e o daquela pobre criança.

– Perdão? – Um dos padres que havia chegado a pouco olhou para o pequeno anjo com incredulidade. – Pede para que Ele ilumine aquele homem?

– O Senhor nosso Pai olha por todos os seus filhos. Principalmente os enfermos do corpo físico e espiritual. Amem.

– Amem. – Responderam todos os padres sem sequer notarem. Quando aquela “garota” falava de Deus seus olhos brilhavam e o ambiente parecia ser purificado, dando paz de espírito àqueles que estavam a sua volta.

Dimitri, que percebia o que se passava, levantou-se do banco e apresentou devidamente o menor.

– Este é Gabriel. Ele não tem família Neste país e procurava por civilização quando foi atacado e ferido. Na verdade, ele não tem mais moradia. Podemos abriga-lo, senhor? – Perguntava ao mais velho de todos, que era de cargo mais elevado.

– Não devemos deixar uma criança nas ruas. O senhor nosso Deus não nos perdoaria.

– Por favor, senhor. Estou apenas de passagem e não gosto de incomodar.

– Não está incomodando, jovem e não se preocupe, pois temos o orfanato ideal onde ir.

– Orfanato? Senhor, não acho que devamos leva-lo ao orfanato. – Falou apreensivo Dimitri, que entendia exatamente o que se passava pela mente do padre.

“Uma criança impura que havia perdido a castidade. Sem pai nem mãe. Provavelmente um bastardo”.

– Está decidido. Qual o nome desta criança?

– Disse agora pouco que seu nome é Gabriel. Não estava prestando atenção, senhor? – Disse visivelmente irritado, não por seu superior não ter prestado atenção em si, mas pelo que queria fazer ao pequeno.

– Gabriel? Não seja tolo, logo se vê que é uma menina. Suas vestes, cabelos, corpo delicado e voz serena não negam. Deve ter ouvido errado. Qual seu nome, criança?

– Meu nome é Gabriel, senhor. – O Anjo fitou diretamente as orbes do velho com sua ternura e inocência transbordante, acabando por constranger o idoso que por um momento se questionou se a pureza da jovem havia sido levada de fato ou não. O mesmo não sabia que os médicos haviam constatado que sua castidade estava intacta.

– E se ele ficar em minha casa? Os orfanatos daqui não são a melhor escolha. Todos sabem que nesses lugares ocorrem maus tratos e ele não é mais tão jovem, não será adotado por uma boa pessoa!

– Blasfêmia! – Em um segundo o contato visual do mais velho se desfez para fitar Dimitri com irritação. — Está dizendo que os orfanatos que por vezes fazemos doações e pomos o nome da santa igreja comete estes pecados? Cuidado com o que diz, irmão.

– Estou dizendo o que eu vi! – Gabriel que até então não havia interrompido em nada, colocou a mão sobre o ombro do rapaz, que sequer percebera quando o pequeno havia levantado.

– É de meu desejo ir para este orfanato, mas não como uma pessoa a ser adotada. Desejo trabalhar para a melhora dele.

Os outros padres que até então permaneciam calados, resolveram se prontificar, dando suas respectivas opiniões.

– Concordo que um orfanato não é a melhor saída, mas em nossa paróquia não podemos receber mulheres para dormir aqui.

– Quantas vezes eu tenho de dizer que Gabriel não é uma mulher? Deus! Prestem atenção na conversa, por favor!

– Não deveis falar o nome de vosso Deus em vão. É pecado. – Dizia o anjo ao seu novo amigo, que logo replicou:

– Não foi em vão. Estou dizendo o nome Dele para que saiba que você está aqui!

Um sorriso singelo para Dimitri veio do loiro, que acabara por retribuir o sorriso.

– Ele não me abandonou como imaginas, criança. Tenho certeza que deixou que isto tudo ocorresse para que eu trabalhasse para ele em algo que ainda desconheço, mas decerto tem haver contigo.

– Vocês estão entendendo alguma coisa? Porque eu estou voando. Do que eles estão falando? – Perguntava um dos padres, passando a mão por seus próprios cabelos castanhos, vendo a cena do pequeno anjo e o padre sem entender.

– Parece que está escondendo algo de nós, Dimitri.

– Perdoe, mas o que é dito em confissão, fica em sigilo para sempre.

– Não há confessionário algum por aqui. O que houve?

– Senhor, volto a dizer que não posso entrar em detalhes e tudo o que eu poderia dizer, já disse. Com sua licença, levarei Gabriel ao orfanato.

– Mudou de opinião rápido, heim? – Um dos companheiros dizia enquanto terminava de enrolar a corda que havia usado para amarrar o bandido algum tempo atrás.

– Não mudei de opinião. Mas se é o desejo de Gabriel, não devo negar.

Assim o jovem padre e o santo anjo foram juntos em silêncio, sendo o loiro carregado novamente pelo padre, que sequer se importava de olhar pra trás.

– Você distorceu os fatos à meu favor. Não deveria fazer isso, é como se fosse uma meia mentira e apenas não o condenei por isso na frente dos outros porque também achei que seria errado. Não minta, mentir é pecado.

– Você sabe no que está se metendo? – Disse sério o moreno, caminhando devagar em passos longos por ser alto.

– Como assim? – Um longo silêncio se fez antes do moreno responder:

– O orfanato é um lugar de trevas. Tentamos ao máximo fazer com que as crianças sejam bem encaminhadas, tenham comida, água, roupas, brinquedos, mas sequer podem se lavar porque não há como na maioria das vezes pela falta de água. O lugar fede, há ratos, as crianças apanham dos funcionários, dos pais adotivos, as vezes a criança tem o azar de ser adotada por uma pessoa como aquela que lhe feriu ou por uma outra que a usa como escrava.

– Eu sei. Eu vejo isso de onde moro. Por isso desejo trabalhar neste lugar. Talvez comigo lá, as coisas possam vir a melhorar.

– Sua bondade irá ser sua ruína. Tenha cuidado.

– Ser bom jamais é ruim.

–... Esta é minha casa. O levarei para o orfanato pela manhã. Está tarde demais. – Disse pondo a criança no chão para abrir a casa de aparência modesta, mas visivelmente pertencente a uma família de berço.

– Como queira, Dimitri. – Respondeu o menor, mancando devagar em direção à porta, que havia sido aberta, parando em frente a uma mesa pequena e sentando-se em seguida na poltrona que havia ao lado desta.

– Poderá dormir no quarto de hospedes, onde o levarei após jantarmos. – Balançou a cabeça como dizendo não ao que o maior dizia.

– Não é necessário me preparar nada de alimento sólido, mas se insistir, poderei aceitar água ou uma sopa líquida, sem muitos ingredientes. Não necessito de alimentos para sobreviver.

– Tudo o que me diz, como me diz, tua aparência, seu olhar, sua bondade não são deste mundo. Até mesmo teu nome me faria crer que tu sois um anjo. Isso é assustador. — O padre dissera após fechar a porta atrás de si, olhando sério o menor, que sentado na poltrona, o olhava com compreensão e um sorriso tímido.

– Interessante como em apenas uma hora e meia conseguiu deduzir tudo isto. Por isso que me trouxeste para cá ao invés de obedecer o teu superior?

– Sim, eu queria saber se existe a possibilidade de o que eu estou pensando ser verdade. Até então estudei para ser padre para agradar aqueles que me criaram como seu filho, mas jamais acreditei naquela ladainha de anjos e demônios, aquilo não estava certo. Como podem haver seres tão superiores, sendo eles bons e outros malignos? Porque Deus criaria algo assim? Não faz sentido!

– Entendo seu sofrimento. Passou por muita coisa, não é mesmo? Eu sinto sua melancolia enquanto me fala estas palavras. Mas não se desespere, pois nada de mau acontecerá àqueles que creem em Deus e àqueles que fazem o bem.

– O que é isso que está falando? Não tem nada haver o que eu falei com o que você disse! E então? Você é mesmo um anjo? – Sem perceber, olhava a criança com ar intimidador, dando algumas passadas rápidas até ficar de frente ao loiro, esperando por uma resposta de forma visivelmente ansioso e eufórico sem sequer perceber. Ele era jovem afinal e os jovens não sabem esconder sempre o que pensam e seus sentimentos.

– Você sabe a resposta. – Sentado no sofá, permaneceu a olhar o padre, agora com os lábios e olhar demonstrando seriedade.

– Como é possível um anjo ter esta aparência tão frágil? Como pode aparentar ser uma garota delicada de 16 anos?

– Sou mais velho do que imaginas.

Silêncio. Um Longo silêncio se fez depois daquela afirmação, pois o mesmo sabia ser verdade. Sentando-se ao lado do menor, Dimitri pegou a mão delicada de Gabriel, acarinhando-a suavemente.

– Eu acredito. Ninguém neste mundo poderia emanar tanta bondade. O que eu não entendo, é como tu, sendo quem sois, não teve força para repelir aquele homem odioso. Sois o portador da lança divina, não?

– Usar de nossa força em um humano vai contra os princípios de todos nós. É considerado crueldade. Usar força maçante em um ser tão fraco, seria brutal demais e nós não devemos ter nenhuma morte em nossas mãos que não seja daqueles aos quais nasceram nossos inimigos.

– Deixa eu ver se entendi. – Apertava a mão do menor com um pouco de força sem perceber devido ao nervosismo. – Vocês preferem se ferir do que se protegerem de uma ameaça real, desde que sejam humanos, mas que tudo bem em matar demônios? Mas você não precisaria matar, apenas uma pequena dose do seu poder para o nocautear já estaria bom, não é mesmo?

– É impossível calcular a medida certa de poder a ser usado, pois sendo os humanos tão frágeis, qualquer coisa poderia os ferir mortalmente. Matar humanos é um crime grave ao qual nenhum anjo tem liberdade para fazê-lo. Diferentes dos humanos, anjos não têm livre arbítrio.

– Mas e se você... – Ainda apertava a mão do menor, o olhando aflito sem sequer perceber, pois temia pelo futuro daquele anjo tão bondoso neste mundo tão cruel.

– Sou um massacrante, um guerreiro de Deus, um arcanjo que foi criado para punir os demônios e evitar que eles façam mal a humanidade. Deus me deu força para matar imortais, acha que eu conseguiria conter minha força bruta sendo que nunca a fiz antes em toda minha existência?

–... Entendo. – Por fim, soltou a mão do loiro, agora vermelha e dolorida de tanto que havia sido apertada. Ao ver a vermelhidão que causara no menor, Dimitri lamenta, a pegando novamente para beijar a mão magoada com devoção. – Desculpe. Prometo a ti, Gabriel, que a partir de hoje, o protegerei de todos que tentarem lhe ferir.

Sorrindo, o loirinho assentiu com a cabeça, achando engraçado aquele ser tão frágil lhe dizer aquilo. Pensando na palavra que o moreno havia dito, Gabriel ficou pensativo antes de responder. Seus ferimentos estavam custando a sarar, o que nunca havia ocorrido antes.

– Protegeremos um ao outro então.

Continua...

Notas finais
Atualizada 13/04/14