Notas iniciais
demorei mas postei.

Convite

– Saulo, não deveria brincar com algo tão sério.

Estava havendo uma reunião entre aqueles que haviam presenciado o atentado contra Gabriel e todos estavam alí, menos Dimitri e a vítima citada.

– Não estou brincando, senhor. Gabriel é homem e ele mesmo confirmou isso hoje mais cedo quando conversamos. Estava vestindo roupas de homem, tem nome de homem e embora tenha 16 anos, não tem seios!

(N.D.A.: Dimitri inventou a idade para poder enganar melhor seu superior).

– Blasfêmia! Existem muitas meninas com seios pequenos. A roupa deveria ser folgada e por isso não os percebeu! Quando o avistamos pela primeira vez, ela trajava um vestido, seus cabelos são compridos e brilhantes, não tem qualquer resquício de barba ou bigode, ela nem deve ter pelos nas pernas! Uma criatura tão delicada e gentil ser um homem? Que absurdo!

– Não era um vestido, senhor. Era uma túnica e homens religiosos, como nós também a usam.

– Não me conteste! Falarei eu mesmo pessoalmente com essa criança e destruirei essa farsa! – Todos os outros estavam murmurando uns com os outros sobre o assunto, mas não se atreviam a interferir no assunto. Todos estavam na dúvida sobre quem estaria certo.

o0oo0o

– Sua asa está melhor?

– Sim. Não entendo porque está demorando tanto para cicatrizar.

– Como não? Viu o tamanho do buraco que há em tua asa? Não imagino como consegue manter uma face tão serena com tamanha dor que sente!

– Sou um arcanjo maior e este corpo pode resistir a ferimentos maiores do que imagina.

– Eu sei! Mas não consigo deixar de me preocupar mesmo assim, ok?

–... Está certo, obrigado Dimitri.

O silêncio se instalou durante alguns minutos até que batidas na porta interrompesse o momento:

– Quem pode ser?

Ao abrir a porta, uma carta era entregue e ao ver a quem era endereçado, o moreno franziu o cenho, irritado.

– Está destinada a Gabriele.

– Pra mim?

– É o que parece. Já descobriram que está aqui.

Abriu a carta e a leu em voz alta ao arcanjo, ainda irritado.

“Convidamos cordialmente a vossa presença no monastério sul após o almoço de amanhã para ser realizado uma bateria de perguntas. Esperamos sua honrosa colaboração e presença na capela onde será feita a missa de nossa senhora aparecida.”

– Nossa, eles querem mesmo que você vá. Veja só essa presunção e falta de cordialidade, estão muito confiantes. Soa como a inquisição, não gosto disso.

– Desculpe, não quero ser um incômodo.

– Incômodo? Não seja tolo, o inconveniente aqui é o tamanho da audácia do padre. Eu sabia que era uma má ideia me unir a pessoas como eles, falam de Deus, mas o que fazem além de falar?

– Acalme-se, dará tudo certo. Sei o que dizer. Não irei mentir, mas também não revelarei nada. A tudo dá-se um jeito.

– Certo, mas se assegure de estar sempre com a guarda erguida.

o0o0o0o

Desde que deixara a reunião, o ancião permanecia com os pensamentos no que havia sido dito pelo colega. Ele havia afirmado que aquela criança era homem e se chamava Gabriel. Estava confuso, qualquer um que o visse, afirmaria ser uma mulher, então como poderia ser o contrário? Após a missa, todos estavam indo embora, com exceção de três pessoas que permaneceram até serem as únicas do recinto.

Quem iniciou a conversa foi Gabriel, que com um sorriso sereno, deu boa tarde ao Padre Estefano.

– Boa tarde, Gabriele. Veio mesmo sabendo o que lhe aguardava. Não sei se isso poderia ser chamado de coragem.

– Padre, Gabriel –

– Cale-se, Dimitri. Estou falando com Gabriele. Não sei porque veio junto, sendo que a carta era endereçada apenas a ela.

– Ele. Gabriel é ele, não ela.

– Isso é o que veremos.

– Não sei porque me chamou na verdade, padre. Existe algo que eu possa fazer por ti?

Estefano, o mais velho dentre todos os padres correu o olhar do seu pupilo ao loiro em uma análise silenciosa.

– Ontem estive em uma reunião a seu respeito e Saulo, um de nossos companheiros nos afirmou ter encontrado com ambos e que durante a breve conversa que tiveram, você afirmou se chamar Gabriel. Este é mesmo teu nome?

– Sim

– Ouvi rumores entre as pessoas das ruas comentarem e até mesmo se confessarem dizendo coisas no mínimo intrigantes. Está mesmo morando na casa do Dimitri?

– Padre eu-

– Silencio. Eu estou falando com Gabriel, já disse.

– Não estou morando, Dimitri me cedeu um espaço até que eu me recupere, então irei embora. Isto é só.

– O que?

– Mas a algo que desconheço. Tenho me perguntado desde que cheguei a esta cidade, qual problema existe em meu nome e gênero para serem tão discutidos?

– Então, está mesmo morando com ele... O fato é que você parece uma menina. As pessoas da cidade tem falado por aí que uma garota morando com um padre e isso não cai bem.

– Padre, o senhor está sendo rude.

– Não Dimitri. Ele está certo. A época em que vivem, os humanos ainda tem estes pensamentos estranhos e sem sentido.

– Não é sem sentido! Uma mulher solteira morando com um homem, independente de ser padre ou não, não cai bem mesmo!

– Padre, se este é o problema, talvez deveria despedir sua empregada.

– Dimitri, pare, agora quem está sendo rude é você.

– Sim, desculpe Gabriel.

– Já chega! Lhe chamei aqui para fazer três perguntas e até agora só duas foram respondidas! Calem-se!

– Certamente.

Tudo estava muito confuso no início, mas agora Gabriel entendia exatamente o porque havia sido chamado. Estava mesmo causando problemas ao humano bondoso que o acolhera e até mesmo neste momento, o estava tentando proteger. Deveria lutar sua própria batalha. Se fosse homem, não seria problema, mas se fosse mulher, seria desrespeitoso morar com Dimitri. Isso era estranho, mas a cultura dos humanos sempre foi fora de sua compreensão.

– O que eu queria perguntar a você, diretamente é. Você é homem ou mulher, Gabriel?

O silencio se instalou por alguns segundos, deixando uma fina camada de tensão no ar envolver os padres.

– O que acha que sou padre?

Mais alguns segundos de tensão preencheram o local e o tornaram abafado antes de ouvir o som do velho senhor:

– Mulher.

– Bem, sinto desaponta-lo, mas está errado.

– Humn. Bem, então não existem motivos para tanto alvoroço. Mas Para que os cidadãos não entendam errado, o que acha de cortar este cabelo? Mesmo que suas roupas mostrem um corpo masculino, assim como teu nome, seu cabelo é como o de uma mulher, sabia?

– Desculpe, mas me recuso a fazer isso. Nunca o cortei antes e não acho que tenho permissão para tal.

– Permissão? E desde quando precisa alguém de permissão para cortar o próprio cabelo? – Bufando pela frustração, o senhor de idade ficava ainda mais curioso ainda a respeito disso.

– Sinto dizer, mas isso é pessoal demais. Se o senhor só me chamou para fazer perguntas por curiosidade, eu entenderia. Mas não faça parecer que é algo tão sério, por favor. Fiquei preocupado que por algum momento estivesse sendo um incômodo.

– Mas estamos sim, falando de algo sério! Se você fosse uma mulher, não poderia morar no mesmo teto que Dimitri, ou deporia contra a igreja.

– Mas eu não sou uma mulher, não é? É apenas isso? Posso ir? – Gabriel enfim levantava do enorme banco de madeira, sem tirar os olhos do padre questionador.

–... Pode. Teremos outra conversa, então aguarde por outro convite.

– Até mais, padre Estefano.

Se despedindo, saíram Gabriel e Dimitri em direção à floresta. O pequeno arcanjo havia dito que desejava ir até lá antes de voltar para casa do amigo e ao chegarem, o jovem se surpreendeu ao encontrarem diversas variedades de árvores frutíferas em fartura, o fazendo se animar. Agora sabia ele o motivo do loiro ter lhe pedido para trazer a enorme sacola de palha para o encontro do padre Estefano.

– Gabriel, como você sabia que aqui haviam tantas frutas?

– As vi no dia que cheguei a sua terra natal e como disse estar passando por necessidade, achei que seria de ajuda mostrar-lhe.

– Obrigado, isso irá me ajudar muito. Levarei algumas para o orfanato também, eles devem precisar mais do que nós.

Nesse momento, o anjo se surpreendeu com o padre, e o assistia colhe-las com um sorriso cálido nos lábios. Ele sabia que Dimitri era um humano de bom coração e as coisas ruins que fizera, o arcanjo tinha certeza que haviam sido feitas por ignorância, assim como alimentar-se de animais.

– Fico feliz que você se importe com os outros. Não são muitos os humanos que o fazem.

– Do que está falando, Gabriel? Claro que me importo! Todos sabem que o orfanato passa por aperto financeiro.

– Sim, todos sabem, mas poucos são os que fazem algo a respeito.

Neste momento, Dimitri se virou para olhar o loiro e corou ao ver o olhar e sorriso tão carinhosos que lhe eram dirigidos. Não sabia o que dizer, então permaneceu calado, terminando enfim de encher a cesta de palha, que ficara pesada.

– Vamos?

Continua...