Anjo Torto
1 Conto: Anjo Torto.
Notas iniciais
Muito agradecido:
O Lorde.
Era o silêncio ensurdecedor antes da batalha, o cambo estava coberto de corvos sedentos para se alimentar do que viria a seguir. Homens comuns, armados com mosquetes velhos e facas enferrujadas estavam prestes a se dilacerar, lutando por generais que estavam em seus respectivos comandos, protegidos e bem alimentados. Não importava se lutava pelo império ou pela revolução, aristocratas ou populares, burgueses ou político no fim.
Eram todos iguais em uma coisa, na morte. Uma voz era ouvida entrando na barraca do acampamento sete. Usava um uniforme de oficial e portava uma prancheta.
— Atenção, cinco homens do acampamento devem se apresentar na linha de frente. São eles, Rafael, Bernardo, Daniel, Davi e… — O homem olhou para a prancheta uma vez mais e disse. — Victor.
Os homens se levantaram, o ruivo de dentes tortos, o moreno de olhos sonhadores, o estrangeiro de língua enrolada e o jovem revolucionário derrubar o pai aristocrata.
Quatro homens…
Mas faltava um…
— Victor! Onde está o Victor Valoir! — Gritou o comissário furioso. — Não apresentar-se ao oficial é deserção punida com fuzilamento!
O policial bradava pegando uma espada amedrontando todos os homens menos o revolucionário.
—Victor está trazendo suprimentos senhor. —Falou Davi, filho de nobre. —Ele virá.
O oficial tremeu na base, pois mesmo em uma revolução que fingia ser igualitária o Estado sempre tem formas de poder.
—Sim sargento. Você será o oficial deste esquadrão. — Falou o oficial se retirando.
Assim que o oficial saiu entrou um homem velho, muito mais velho que os outros, cabelos brancos, com aparência cansada.
—Senhor Victor, que bom que se uniu a nós! —Disse o oficial com escárnio retirando-se.
Os homens ainda preocupados prepararam-se para o combate. Indo para a trincheira. Todos com rifles manuais com baionetas esperavam o amanhecer para mais uma investida contra o exército monarquista.
Um oficial revolucionário bradava sobre os direitos do povo e a necessidade de expandir a revolução contra os inimigos do povo. Rafael parecia assustado, Bernardo apático, Daniel raivoso e Davi inspirado.
—“Balela…” —Pensava Victor olhando para o chão. Ele era um conscrito, se recusasse seria metralhado pelo exército revolucionário. Um antigo fazendeiro das Estepes de Kaladum forçado a lutar por uma revolução que não creditava. Ele foi um plantador de nabos e batatas a vida inteira, cuidou de seu pai até a velhice, casou-se com uma boa moça e teve uma linda filha. Pagava seus impostos para a coroa imperial, mesmo que ele não gostasse, mas a vida era boa.
Até que a revolução veio e coletivizou os campos… Ele foi “alistado” e suas meninas foram levadas para “casas de produção” onde o Estado exigia que fizessem roupas, munição e equipamento para as tropas.
Ele só queria conseguir sair dali, encontrar suas meninas e fugir.
—Agora! —Um homem vestido com uma bandeira vermelha gritava apontando a espada e os pobres coitados eram obrigados a marchar em direção da outra trincheira.
Foi tudo muito rápido, ele avançava com o rifle em pulho, tiros ensurdecedores eram ouvidos, explosões de canhões eram sentidas na terra, membros e gotas voavam pela pianice. Foi tudo muito rápido, em um minuto ele estava no fundo da linha, no outro estava em combate. Um jovem, deveria ter uns dezoito anos o atacou, usando o uniforme monarquista.
As facas batiam uma contra a outra. Aos poucos homens caiam dos dois lados e quando perceberam um tiro caiu ao lado deles fazendo-os voar… Victor caiu no chão…
Inconsciente…
Pareceu um segundo, mas quando seus olhos abriram a escuridão havia se tomado, a terra desolada para os dois lados, a guerra batalha tinha encerrado.
Mas quem tinha vencido?
Não importa…
Cinco mil homens haviam perdido…
Sangue, liberdade, sonhos, futuro… Vida…
Victor levantou-se com cuidado, sua perna estava ferida e sangrando, mas ele estava vivo. Começou a caminhar desesperadamente na clareira para fora do campo em direção da floresta.
—S… Socorro… —Ele ouviu uma voz fraca, vindo de uma pilha de mortos… Ele teve medo, mas como um bom religioso não podia não ajudar.
—Estou indo… —Victor aproximou-se até a pilha e quando chegou viu o jovem monarquista que o enfrentara.
Sem uma perna e extremamente ferido. Com uma foto nas mãos ensanguentadas onde ele e uma mulher sorriam.
—Por favor… Não me machuque… —Disse o rapaz moribundo.
—Não vou te machucar… Vou te levar a um hospital. Tem uma cidade próxima daqui. — Ele disse apontando para o norte.
O homem tossiu sangue impressionado com a gentileza de Victor.
—Mas é uma cidade Monarquista. —Disse o jovem soldado. —Está a mais de vinte quilômetros, você não vai conseguir me levar…
Victor o ignorou, o levantando nas costas e o carregando. Foi uma caminha extenuante, trinta minutos floresta densa a dentro. Nenhuma ama viva era vista.
—S… Senhor… — O menino disse muito fraco. —P… Poderíamos parar um pouco… Estamos diante de um lago tão lindo...
—Mas ainda temos horas de caminhada e… —Victor olhou para seu ombro e viu o rapaz azul de frio e fragilidade.
Era claro para os dois a realidade, mas o menino precisou dizer.
—Eu não vou conseguir… Eu… Gostaria de ir em um lugar bonito… —Disse o jovem soldado.
Victor concordou e colocou ele em uma arvore de cerejeira que brotava, Victor em vez de seguir sentou-se ao lado do homem para descansar também. Ficaram alguns segundos em silêncio.
—Qual é seu nome? —Disse o jovem soldado.
—Victor… Victor Valoir… —Disse o homem de barba branca. — E você?
—Igor, Igor Karkarov. —Disse o jovem sorrindo gentil.
Victor arregalou os olhos em espanto.
—Parente de Dimitri Karkarov? — Disse Victor assustado. —Lorde das estepes?
O jovem sorriu tossindo sangue, cada vez mais azul.
—Sim… É meu pai. Ou melhor… Era até os revolucionários matarem… Minha mãe e minhas irmãs… —Disse o jovem triste olhando para a água. —Foi a dois anos… Eu tinha 16… Eu só sobrevivi porquê um homem me encontrou e me acolheu com sua esposa e filha recém-nascida. Orei por eles desde então… —Disse o jovem sorrindo.
Victor arregalou os olhos.
Poderia ser?
—Seu pai era um homem bom… —Disse Victor, sendo mais velho sabia a virtude do silêncio.
Entretanto o jovem moribundo não sobreviveria muito mais, quando estão próximos do fim… É normal que as pessoas queiram conversar.
—Graças a ele consegui voltar a capital em um caminhão de batatas. Quando cheguei consegui me estabilizar e me alistei no exército. Quando conseguimos reconquistar as Estepes dos revolucionários eu encontrei as duas em uma casa de produção. Eu reconheci a mulher do bom senhor… Ela tinha olhos verdes inconfundíveis… Disseram que o homem foi “recrutado” pelos revolucionário… Eu não podia fazer muito, então ofereci elas um emprego. Estão morando em minha casa jungo com minha noiva Ania. Fazendo tarefas domésticas. —Disse o jovem sorrindo. —Acho que meu pai teria orgulho.
Victor sentiu seu coração apertar. Lágrimas caíram em seus olhos.
—Seu pai teria muito orgulho… Obrigado por cuidar de Marri e Luna. — Disse o homem sorrindo.
O jovem arregalou os olhos, não podendo acreditar no que ouvira. O nome das duas que ele salvara.
—Você é aquele homem? —Disse o jovem espantado sorrindo. —Obrigado… Obrigado por me salvar duas vezes… Faça um favor para um moribundo… Diga a minha noiva Ania… Que eu a amarei para sempre… —Disse o jovem mexendo no paletó e tirando uma foto deles, um endereço e um relógio de ouro e entregando para o homem.
Assim que Victor pegou as coisas viu o brilho dos olhos do rapaz sumir… Sua alma tinha sido levada.
—Descanse em paz meu jovem… Nós nos encontraremos todos um dia… Nas Estepe de Ouro. —Disse o velho fechando os olhos do rapaz. Triste pela morte de um jovem em lugar da sobrevivência de um velho. Para o velho Victor não era natural.
O homem levantou-se e voltou a caminhar em direção da cidade, apenas caminhava firme no objetivo de cumprir sua promessa. A noite fria caia mais, tornava-se mais escura, a ponto de não ser mais possível ver a lua.
A escuridão começou a se tornar opressiva… Depressiva…
Barulhos estranhos eram ouvidos da mata…
Victor ficou preocupado que fossem soldados…
Mas percebeu que pareciam…
Sussurros...
Um grito feminino foi escutado a sua frente o homem começou a correr. O mais rápido que podia, o mais desesperado que podia… Alguém parecia estar em apuros.
Correu, correu e correu…
Até que chegou a um lago…
Outro lago? O cheiro de podre invadia suas narinas. Ele pegou o rifle, sentiu de imediato que algo estava errado quando viu um corpo encostado em uma árvore morta.
Já putrefato e carcomido… Apenas visível uma estrela de ferro, símbolo do exército monarquista.
—O que está havendo aqui… Não pode estar morto a tanto tempo… —Disse Victor resolvendo não se aproximar. Apenas procurar novamente o norte para seguir caminho…
Mas não havia norte…
Não havia lua…
Estava escuro…
Frio…
Foi quando na outra margem uma figura surgiu. Ele não sabe porquê, mas sentiu como se olhasse sua filha no balanço.
Mas não era ela, a criatura era linda e ao mesmo tempo ameaçadora, delicada e opressora, odiosa e encantadora.
—Quem está aí? Quem é você? O que é você? —Disse o homem apontando o rifle para com medo, pois não sabia o que ela era, mas sabia que não era humana.
—Ainda não era a hora dele… Era a sua… —Disse a voz serena e aflitante.
—Que bobagem é essa! Eu tentei salvá-lo. —Disse homem tentando entender o que era que aparecia a sua frente, mas ele não conseguia enxergar o que via. Era como olhar para gás, sabemos que há, mas não podemos vê-lo.
Sua visão embaçou, seus pés pararam de funcionar e ele de imediato caiu, derrubando seu rifle na água.
Quando seus olhos voltaram a regular ele via diante dele pés pequenos e brancos, delicados como de uma jovem, ele tentou levantar o rosto para vê-la face a face, mas algo o impediu. A voz falou suplicante.
—Em tantos milênios… Posso contar nos dedos de uma mão os que escaparam de mim… —Disse ela com uma voz doce. —Por sua bondade foi-te dado mais tempo… Isso não é comum… Por isso te ofereço um desejo…
O homem humilde falou.
—Nada desejo, nada peço, apenas vou seguir meu caminho com meus próprios pés… — Disse o homem com medo, não tendo coragem de envolvesse com seja lá o que for.
—Negando meu presente? Que insolente! O que acha que eu sou? —A voz falou agora com um grito sombrio fazendo seu espírito gelar.
Sua boca ficou seca e o pânico tomou conta, mas seu coração tinha só uma palavra e sua mente proferiu.
—Um anjo… —Ele falou baixinho.
—Oh… —Ela falou em um tom surpreso. —Os outros sempre me chamaram de outra coisa… Eu gostaria de vê-lo uma vez más… Mas temo que ao vê-lo será a última… Que dilema… Gostei de você como de ninguém gostei antes… Mas se mais uma vez vê-lo nunca mais verei… Até lá gostaria de te observar de longe… Até um dia que queira te ver mais uma vez… Talvez… —Ela se foi deixando-o sozinho.
O homem suspirou aliviado, sem perceber… Que neste pequeno elogio a um anjo torto, ele conseguiu o que muitos homens almejaram… A imortalidade…
O amor de um anjo que tirava vida...
Que não mais tiraria sua vida.
O que todos almejavam, mas que poucos sabiam…
A maldição da imortalidade...
Fim?
(Espero sinceramente que tenha gostado deste singelo conto, se gostou por favor, divulgue, comente, recomende e favorite isso ajuda demais a história e me deixa muito feliz, motivando-me a escrever mais. Muito agradecido: O Lorde.)
Notas finais
Muito agradecido:
O Lorde.
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