Anjo Caído
3 Capítulo Segundo
Notas iniciais
Capítulo Segundo
- Vamos, Tessa. Você tem que comer. – Henry tenta convencer a moça.
- Não se preocupe, estou bem. – Mas Tessa, até o momento, rejeitara o jantar feito por Sophie – Acho que devo explicar algumas coisas, não?
- Com "algumas" você quer dizer "muitas", certo? – Will comenta.
- Will! – Charlotte repreende.
- O quê? Oras, de repente aparece uma moça, aparentemente conhecida da Tessa, sendo perseguida, provavelmente ela é o "ingrediente" que os Bottomless falaram. A garota desmaia, depois de quase escorrer ironia da boca dela, é carregada pelo Jem e está dormindo aqui no Instituto. E ainda por cima vai usar minhas roupas de batalha. O que você quer que eu faça? – Will diz meio indignado.
- Tudo bem, apenas tente não desmaiar de tanto nervosismo. – Tessa retruca.
- Por favor, não comecem. – Jem pede, cansado. Já fazia um mês que a Gray estava lá oficialmente e ela e Will viviam brigando – Mas Will tem certa razão, Tessa. Você nos deve explicações.
- Sim, sim, eu sei. Espero que a Dama não se importe. Podem perguntar.
- Quem é ela? – Jessamine pergunta com desdém.
- Uma amiga de infância. Não a vejo faz uns dez anos, eu tinha sete quando ela foi embora.
- Por que o nome dela é "Dama"?
- É um apelido carinhoso. Na verdade, esse nome veio de uma ironia: Ela, que veio de uma família de status, nunca gostou de vestidos, casamentos, romances e esses tipos de coisas. Nunca quis, e nem se esforçava para isso, ser uma dama da corte ou algo assim. Então um amigo dela começou a chama-la de "Pequena Dama", "Daminha da Corte" e "Dama da Noite". Esse último por causa do cabelo dela, tão negro quanto o céu à noite, e de seus olhos, tão cinzas que parecia prateados como a Lua. Ela gostou, então todos nós começamos a chama-la de "Dama".
- Por que você deu minha roupa para ela?
- Porque ela se sente mais confortável numa calça que num vestido. Quando era pequena, sempre achavam que era um menino. Mais alguma pergunta?
- Por que a Dama foi embora? – A curiosidade de Jem foi maior.
- Não sei. Ela simplesmente se despediu de mim e foi embora. Isso aconteceu logo depois da... – Tessa hesita. Há algumas coisas, meu caro leitor, que assustam ou doem demais para falar. E, neste caso, as duas coisas ocorrem – Daquilo. – Completa por fim.
- Daquilo? Daquilo o que? – Jess, por mais que quisesse, não conseguiria conter a curiosidade nunca. Creio que eu e você também não.
- Jess, há coisas que nós não contamos nem para nós mesmos. Preferimos fingir que não aconteceu e enganamos a nós mesmos com palavras e imagens bonitas. – Ela se cala, como se estivesse fazendo um esforço tremendo para esquecer. "Mas esquecer do quê? Esquecer por quê?" Jem reflete.
- Sabe, não é muito educado falar das pessoas pelas costas. – A porta da sala de jantar se abre, dando passagem à Sophie e Dama. Essa última usando uma calça negra, camisa também negra, blusa (Adivinha de que cor.) e botas. Seria um homem perfeito, se não fosse o corpo feminino e o longo cabelo trançado.
- Dama! Você acordou!
- Não, eu sou sonâmbula e resolvi vir aqui te contar as aventuras do meu querido Sherlock.
- Sherlock? – Henry indaga intrigado.
- Um personagem que ela inventou.
- Sherlock Holmes! Meu querido amigo!
- Ele não existe. É coisa da sua cabeça.
- Mas eu não entendo, oras. Por que o fato de ser coisa da minha cabeça faz com que ele não exista?
- Por que não existe, não há nenhum Sherlock Holmes nesse mundo.
- EXATAMENTE! – Dama exclama – Nesse mundo, colocou muito bem! Nesse mundo, logo existe em outro mundo, certo?
- Não sei nada sobre outros mundos.
- Mas a sua mente já não é por si só um mundo?
- Que não existe.
- Existe. Existe dentro da sua cabeça.
- Justamente por isso que não... Espere um minuto... O quê? Você me deixou confusa.
- Mas é tão simples: Existe na minha mente, que é um mundo. Minha mente fica na minha cabeça (Jura?), logo existe em minha cabeça. Minha cabeça, por sua vez, existe nesse mundo, logo o Holmes existe aqui também.
- Você é confusa, pelo menos pra mim. Demais, até.
- Quem sou eu? – Abre um sorriso travesso e ergue uma sobrancelha.
- Você é a Dama. O ser lúcido mais louco que existe.
- Ou seria o ser louco mais lúcido que existe?
- Não comece! – Tessa ri. Ela sempre adorou o jogo de palavras de Dama. Era sempre assim: Alguma coisa acontecia, alguém falava e/ou fazia algo e Dama adicionava ironia e explicava suas ações com uma lógica extremamente louca, mais louca ainda que a lógica de "Alice no País da Maravilhas", mas sempre fazia sentido no final. Ou quase sempre.
- Creio que ainda não me apresentei devidamente. – Faz uma pequena mesura, como os orientais – Podem me chamar de Dama. Todos me chamam assim. (Dama só no #VovózonaFeelings).
- Olá, Dama. Eu sou Jem, esse é Will, e aqueles são Henry, Charlotte e Jessamine. Creio que já conhece a Sophie.
- Oh, sim. Sophie, um nome bonito e uma alma boa, que raridade! Meus agradecimentos serão eternos.
- Pare de tentar bajulá-los com suas palavras, Dama.
- Kuáng. (Tradução: Louca) – Jem se surpreende.
- Nǐ huì jiǎng zhōngwén ma? (Você fala chinês?)
- Wǒ shuō zhōngguó hé rìyǔ. Dōngfāng yǔyán de wèidào. (Falo chinês e japonês. Gosto das línguas orientais.)
- Ei, o que você disse sobre mim?
- Não disse nada sobre você, Resa.
- Mas você disse olhando para mim.
- Então quer dizer que se eu xingar alguém olhando para cima, quer dizer que estarei xingando Deus.
- Não, não precisa demonstrar a sua lógica.
- Mas, Resa, essa lógica é sua! – Novamente o sorriso travesso e a sobrancelha erguida enfeitam seu rosto.
- Esquece. Fome?
- Ainda pergunta? – Seus olhos brilham com divertimento. Olhos cinza. Novamente, Jem não consegue desviar o olhar deles. Estava hipnotizado por eles desde o momento que os vira em seu sonho – Nós temos longas histórias para contar, não?
- Sim, mas é melhor jantarmos primeiro.
- Mas, Tessa, você disse que estava sem fome. – Will resmunga e recebe um chute na canela dado por Theresa – Ai!
- Algum problema? – Resa pergunta com falsa inocência.
- Não, nada.
- Certeza? Tive a impressão de ver algo batendo em sua perna. – Dama pergunta. "Ah, ela é uma raposa." A Gray resmunga em seus pensamentos – Bom, se está tudo bem, vamos jantar. Afinal, como posso alimentar as histórias com palavras sem antes alimentar meu corpo com o alimento?
Notas finais
Ass.: Kurara Black
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