Anjo Caído
8 Capítulo Sétimo
Notas iniciais
Capítulo Sétimo
- Você mentiu para mim! – Tessa exclama assim que chega à sala onde todos tomam calmamente seus cafés – Mentirosa! – Aponta para Dama, que está sentada entre Jessamine e Jem. Todos os presentes ficam num silêncio sepulcral, todos menos uma.
- Eu não posso contradizer essa afirmação. – Dama replica com a sobrancelha erguida – Porém, desejo ao menos saber o porquê de tal acusação tão repentina... E atrasada.
- Você disse que ele não tomava chá, mas em sua história não dizia nada. – Teresa declara vitoriosa.
- Oh, Resa, por Deus, seja mais racional, mulher! – A moça de cabelo negro resmunga – Se eu nunca disse que ele tomava chá em meu relato, é porque não havia nenhuma jarra de chá.
- E se você não tivesse visto?
- Então eu não o conheceria.
- Você sempre tem uma resposta na língua, não é?
- Não sei. Você vê algo? – Tira a língua para fora, colocando-a novamente para dentro assim que ouve Tessa bufar – Vamos lá, Resa, venha comer.
- Estou sem fome.
- Sei. – Dama levanta, anda até ela, a puxa para a mesa e senta-a no seu antigo lugar – Coma.
- Não sou criança para você me tratar assim.
- Eu sei. Porém, se você não é criança, o que eu sou?
- Tem a minha idade! – Teresa exclama.
- Vampiros? Irmãs Sombrias? Magister? O que é isso tudo perto do que eu vivi? Não se esqueça de que fiquei dez anos vagando por aí, sem rumo, me esquivando de loucos e procurando uma razão de continuar caminhando. – Bate de leve nos ombros da outra – Coma. Charlotte, Jem, Jessamine, senhor elfo, irei me retirar. – Sai do cômodo e vai embora.
- Por que ela te chama de "senhor elfo"? – Charlotte indaga a Will, que apenas resmunga um "bruxa" em resposta.
- Longa história. – Jem comenta.
- Eu não gosto dela. – Jessamine diz.
- Novidade, Jessamine. Quando você gostou de alguém? – Willian retruca.
- Will, você me disse que tinha odiado Dama. – Jem intromete-se na conversa.
- Calado. Ela me dá nos nervos.
- Ei, não é por nada, mas vocês sabem que eu ainda estou aqui, certo? – Tessa perguntou de repente – E que eu considero a Dama a irmã mais velha que eu nunca tive, certo?
- E o seu irmão? Nicolas, ou algo assim? – Will questiona sem pensar.
- Que irmão? Não tive irmãos. – Se levanta – Eu vou atrás de Dama, ela já deve ter fugido.
- Fugido?! – Jem exclama surpreso.
- Oh, sim, ela tem esse costume de sair dos lugares sem ninguém ver. – Suspira – Parece um gato.
- Tessa, eu acho melhor você comer alguma coisa. – Charlotte intervém, um tanto preocupada – Além do mais, não acho que Dama corra algum perigo aqui.
- "Viver é perigoso. Se você caminha, tem a chance de cair num buraco, ou torcer o pé. Se você respira, pode engasgar. Se você vive, pode morrer.", é o que ela responderia. – A jovem conta num murmúrio, um pequeno sorriso surge em seus lábios – E ainda completaria, dizendo: "Se tem tempo para temer o perigo, pode muito bem usar esse tempo para aprender a aceita-lo e, mais tarde, vencê-lo".
O0o0o0o Telhado do Instituto o0o0o0
Dama olha o céu nublado. As nuvens parecem tingidas de tristezas inigualáveis. Puxa o ar profundamente. Fecha os olhos. Solta o fôlego. Inclina a cabeça para trás, sentindo a brisa chamar seus cabelos negros, presos em tão rigorosa trança, para a brincadeira. Mas ela não os liberta. Por que o faria? Apenas para senti-los bailando no nada? O tempo de apreciar isso já havia passado. Todo o tempo que antes ela utilizara para sorrir e sonhar sumira por entre as dúvidas e desgraças. Mais um suspiro vem, mais um suspiro vai.
- Logo eu irei embora, mamãe. – A voz de Dama sai um tanto rouca e num tom bem baixo, quase um sussurro, uma confidência – E aí não precisarei envolver Resa nisso. Nem Resa, nem ninguém. – Um sorriso brota-lhe nos lábios – Nem mesmo o menino de prata. – Abre os olhos – Sabe, ele parece feito da mais brilhante prata. Todo branco, como a neve que antes caía na nossa janela, os cabelos parecem fios de luar e os olhos... Eles são como os meus, mamãe. Não pela cor, pois os dele são claros demais, e sim por parecerem ter visto tanto sofrimento...
Cala-se por um tempo e torna a deixar as pálpebras caírem. Lembranças daquele dia surgem. A raiva que a tomara de repente. A vontade de matar. O medo de morrer. O modo como olhara para seu pai, porém não fora ela quem olhara. Eram seus olhos, mas não seu coração. O veneno no conhaque. O horror. A certeza de que não devia continuar. Os passos lentos. A respiração entrecortada. O punhal fazendo o caminho para sua garganta. A convicção de que não morreria ali de jeito nenhum. O fogo que ardia, devorava. A mão sangrando. Os parentes correndo, gritando, chorando. A última visão da mãe, que, calma e em paz, continuou sentada à mesa, sorrindo ternamente. O pedido desesperado para que ela fugisse. Pedido negado, seguido por outro. "Viva, minha filha. Viva, pequena Dama da Noite, viva como só você poderia viver", e mais um sorriso, antes que as línguas vermelhas tomassem conta de tudo.
- Eu não devo envolver ninguém nisso. – Repete – Eles não merecem.
- Você não tem como saber. – Alguém replica ao lado dela. – Eles podem querer se envolver, afinal, aos humanos foi dado o livre arbítrio. – Jem.
- O que faz aqui, Jem? – Ela indaga para o homem sentado ao seu lado.
- Eu deveria perguntar o mesmo. – Devolve, fixando seus olhos prateados no rosto feminino – Principalmente por causa dessas lágrimas.
- Lágrimas...? – Leva as mãos ao rosto e constata que é verdade. Havia começado a chorar e nem sequer percebera.
- Você não percebeu?
-... Não...
- Aqui, tome. – Oferece um lenço imaculadamente branco.
- Tudo em você é branco? – Aceita o pequeno consolo e seca o rosto.
- Dama, por que estava chorando?
-... Eu nem notei que chorava, como posso saber o porquê disso?
- Eu sei que você está mentindo.
- Parabéns, Oráculo. – Devolve o pedaço de pano.
- Você é, definitivamente, pior que o Will no quesito "Resmungar e replicar".
- Culpada. – Ficam alguns minutos em silêncio.
- Não vai mesmo me dizer o motivo?
- Não.
- Você á muito direta.
- E você é muito curioso. – Mais algum tempo em silêncio. Dama volta a fitar o céu, enquanto Jem continua fitando a mulher que só poderia classificar como incógnita.
- Acha mesmo que meu cabelo parece fios de luar? – Pergunta com um sorriso de canto.
- Cala a boca. – Responde, soltando uma risada bem leve – Até que ponto você ouviu, seu xereta?
- Só a parte que você fala de mim para sua mãe. E eu não sou xereta.
- Acabou de se entregar e ainda diz que não é xereta? – Ergue a sobrancelha – Depois eu é que sou a maluca.
- Tessa está te procurando por todo o Instituto, mesmo dizendo que logo você apareceria do nada.
- Seria péssimo manchar meu histórico. – Comenta matreira – E não pense que eu me esqueci do assunto, senhor Jem. – Se levanta.
- Não pensei. Ah, e Dama?
- Uh?
- Eu ainda quero saber o motivo de suas lágrimas.
- A curiosidade pode não ser um dos pecados capitais, mas também não é uma dádiva. – Anda até a beirada e se vira – Até. – Deixa se corpo cair de modo suave.
- EI! – Ele exclama e levanta-se, porém uma fênix de fogo surge e o rodeia. Dama. Jem corre até a beirada, a tempo de ver Dama acenando para ele e fazendo uma reverência – Maluca. – Murmura, admirado. Ela era maluca, louca, totalmente fora do real. E olha que já havia visto coisas assim.
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