Anjo

7 Juramento de mentira


Notas iniciais
Se gostou favorite e conheça um pouco mais sobre os seus personagens preferidos.

1

A expressão de Alonso era de total espanto. Começou a gritar tentando se defender, dizendo não ter feito nada e só se calou quando Regina lhe deu um tapa. Aquela mulher nada lembrava a enfermeira devassa e atirada que vivia se atirando para cima dele.

— Estou te devolvendo à bofetada que você me deu hoje pela manhã. – Ela ironizou.

— Ah Regina, qual é. – Alonso decidiu não fingir mais. Usaria a carta que tinha na manga para livrar-se de Regina. – Você nem policial é. Não vai conseguir me prender.

— O que o faz pensar que não sou uma policial? E por que eu não prenderia um monstro que vende seres humanos para que outras pessoas se divirtam torturando-as?

— Pra cima de mim não Regina. – Brincou ele aproximando-se dela. – Que tipo de policial transaria com seu alvo?

Regina sorriu apontando a arma para Alonso afim de que ele parasse.

— Sabe o que é força de vontade? Pois. Essa força tomou conta de mim. E quer saber minha opinião sobre a nossa... Transa? De fato, nunca vou me esquecer daqueles vinte minutos, pois foram os mais horríveis da minha vida. E a cada segundo a minha repulsa era maior.

Não se conteve. Mesmo algemado conseguiu agredir Regina com um soco no rosto.

— Continua Alonso. – Regina continuou provocando. – Dessa maneira eu te destruo mais facilmente.

— Você não vai sair dessa assim. Pode me prender, não sou o único envolvido. Eles vão te encontrar e vão acabar com você!

— Se tem alguém que vai ser pego é você. Eles não aliviam para pedófilos nos presídios daqui.

2

Dentro da ambulância os capangas aguardavam impacientes. Usavam capuz, estavam fortemente armados. Quinze minutos haviam passado desde que Alonso tinha entrado no hospital e desde então nem sinal dele. Alguma coisa havia acontecido. Um deles, Roberto, ordenou para que todos ficassem alerta quanto ao inesperado. Desceu do veículo e entrou no hospital. À medida que adentrava os corredores vazios, chamava por Alonso, entretanto não obtinha resposta. Chegou ao terceiro andar, onde ficava o gabinete dele. Ouviu algo e abaixou-se, arma na mão, engatilhada para o menor movimento. Aproximou-se lentamente e pela janela viu a mulher apontando a arma para Alonso.

“Que droga você fez Alonso?” Perguntou para si mesmo.

Desceu as escadas, correu o mais rápido que podia. Na saída, parou bruscamente. Ao longe podia observar que estavam sendo observados.

— Fujam! – Ele gritou para os outros que estavam no veículo frente ao hospital. – A polícia está aqui!

Ao perceber o que se passava, Josué fez sinal para que os outros policiais que estavam escondidos agissem. Um dos homens que estava ao volante acelerou o carro em cima deles, que começaram a disparar. Um dos tiros o acertou. Desgovernada, a ambulância bateu com tudo em uma árvore. A pancada foi ouvida por Regina. Com a arma sempre apontada para Alonso, foi até a janela e viu o que havia acontecido.

— Levanta! – Aproximou-se dele puxando-o pelo braço. – Acabou! Pegamos todos os seus amiguinhos.

Ouviu-se então o destravar do gatilho de uma arma próximo de sua cabeça. Devagar, virou o rosto. Era Roberto com um olhar frio e um sorriso assustador na face.

— Acabou para a gente? Pra vocês também! – Encostou a arma em sua têmpora direita fazendo com que Regina soltasse sua arma automaticamente no chão.

Ela levantou as mãos para cima, mostrando que estava rendida e sem nenhuma arma.

— Calma. – Ela disse na tentativa de acalmá-lo. – Vamos raciocinar, o hospital está cercado, está cheio de policiais de boa mira.

— Você está me ameaçando sua vagabunda? – Roberto violentamente gritou pressionando ainda mais a arma para a têmpora de Regina.

— Não! Não é uma ameaça. O que eu mais quero é que vocês saiam vivos. Vocês só precisam pensar.

— Nós vamos sair daqui sim. Abre a algema, agora!

Tremendo, Regina ficou de joelhos. Retirou do bolso a chaves e uma por uma tentava abri-la. Na ultima chave, ouviu um tiro. Olhou para Alonso e este tinha sangue espirrado no rosto. Ambos tinham expressões de choque. Virou para trás e viu Josué, com a arma apontada para o corpo de Roberto caído de bruços. O tiro o tinha acertado em cheio nas costas. Josué aproximou-se dela. Ajudando-a ficar de pé, deu-lhe um abraço.

— Calma, foi só um susto. Vai ficar tudo bem. – Ele falou.

3

Médicos, paciente, policiais, a imprensa e curiosos, todos aguardavam do lado de fora. Logo, Regina, Josué e Alonso saiam, este ultimo, algemado e de cabeça baixa.

4

Benedito tomava um café em um botequim naquela mesma cidade. Usava roupas simples e esfarrapadas, cabelos meio despenteados. Ao terminar de beber a cachaça pegou a mochila, pois em suas costas e foi em direção a saída até que parou. Ouviu uma noticia na televisão que o deixou em choque:

“- Um forte esquema foi armado em frente ao hospital Santa Luzia, a chamada operação tráfico humano. Segundo as primeiras informações uma organização criminosa pretendia levar uma paciente de resguardo e seu filho prematuro para fora do país. As suspeitas seriam de que a jovem seria vendida, entretanto não se sabe para que finalidade. Dos sete homens, seis morreram quando ao tentarem fugir, bateram a ambulância em que estavam contra uma árvore. O sétimo rapaz fez a policial Regina Antunes refém e acabou morto pelo delegado Josué Pereira com um tiro na cabeça. O único membro da quadrilha sobrevivente e que pode desvendar os mistérios por trás da venda de seres humanos foi o médico Rafael Bártoli. Ele está neste exato momento sendo levado para a delegacia. Teremos mais informações em breve.”

Pasmado, correu até o orelhão do outro lado da rua. Pôs uma moeda e fez um telefonema.

— Preciso do seu serviço urgente. (...) Sim, estou na cidade. (...) O Alonso fez merda e agora pode colocar tudo a perder. Eu não vou ficar no prejuízo por causa dos caprichos de um capanga. (...) Está sendo levado para a delegacia de Agudos, interior de São Paulo. Faça o melhor que puder e, por favor, sem deixar rastros. Basta um tiro certeiro, e nosso problema estará resolvido.

5

O hospital público parecia que estava abandonado. Pessoas mesmo doentes haviam voltado para casa, por medo devido aos últimos acontecimentos. Os únicos que permaneciam eram médicos e pacientes graves. Após se informar no balcão de atendimento sobre a Anita, Benedito correu até o quarto. Frente à porta, policiais vigiavam-na. Tentando entrar desesperadamente, Benedito foi impedido pelos guardas. Entretanto nesse momento, a enfermeira que acompanhava Anita, Gilda, saiu do quarto.

— Podem soltá-lo. Imagino quem deva ser. Me acompanhe. — Falou seguindo pelo corredor.

Vestido com um avental cirúrgico por questões de higiene, ao entrar não se conteve: Correu e abraçou a jovem em prantos. A culpa o corroía por dentro como ácido pingado na pele.

— Por favor, diga-me! – Voltou-se para a enfermeira. Mal conseguia se expressar. – O meu filho...

— Não se preocupe. Seu filho está bem. Nasceu prematuro então terá que passar alguns meses aqui até que esteja com peso ideal e totalmente recuperado.

— Cometi muitos erros. Um deles foi ter abandonado a Anita, o amor da minha vida, quando ela mais precisava de mim. Entretanto a partir de agora farei um juramento: Nunca mais a abandonarei. Eu juro!

O ditado é claro, quem jura mente. Mas será que jurar pode ser considerado um pecado? Fora acometido pelo calor da emoção. O sangue de seu sangue corria perigo e não pôde evitar. Jurou mais nem ouviu o que sua boca havia dito. Um juramento de mentira.

Notas finais
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