Anja Solitária
10 Um peso que tenho que superar
Notas iniciais
Estávamos esperando o trem chegar, então resolvi ir até uma loja de conveniência perto da estação, pois a viajem ia ser bem demorada e eu não ia ficar escutando Natsume reclamar de fome.
Quando estava voltando fui abordada por um colegial de cabelo ruivo e espetado, um pouco mais alto e que devia ter a minha idade. Pelo uniforme, de escola particular, devia ser um riquinho metido a besta.
— E aí gatinha, você parece estar sozinha! Por que não vamos pra um lugar mais legal para nos divertirmos? – disse aproximando-se tanto que me prensou entre ele e o pilar da estação.
O ruivo não tinha cara de quem estava brincando e por mais estranho que pareça, fiquei com medo dele, e só não gritei porque o garoto se afastou de repente. Natsume o puxou pelo pulso e eu até me assustei quando Teito e Ikuto apareceram do meu lado, cada um de um lado. Nem percebi de tão silenciosos que foram.
— O que você quer com nossa amiga? — perguntou Natsume com rispidez. Seu olhar era de quem mataria sem dor na consciência.
O rapaz gaguejou ao tentar responder, mas para sua sorte um policial apareceu. Natsume o soltou e encarou o policial, assim como os dois cães de guarda ao meu lado.
— O que está acontecendo aqui? O que estão fazendo com a moça? — perguntou com uma voz autoritária, mas com o rosto calmo, mesmo sendo um pouco grosseiro do modo que falou ao se referir a mim, ele falou como se fosse minha culpa o ocorrido.
Eu já sabia que se algum dos meninos começasse a falar poderiam ser rudes com o policial e causar um problema ainda maior, então dei um passo a frente e comecei a falar.
— Não foi nada senhor, ao que parece foi somente um desentendimento por parte desse rapaz. — falei e fiz um gesto mostrando o ruivo — Parece que ele está procurando uma pessoa e a confundiu comigo, então eu e meus amigos estávamos tentando ajudá-lo. — Eu me mostrei tão calma e educada que todos, inclusive o policial coraram com minhas palavras.
— B-Bom se foi só isso irei me retirar. — falou o policial saindo constrangido com a maneira com que havia falado antes e depois de me ouvir falar, e logo em seguida o colegial também saiu para não se meter em mais problemas.
— Vamos?— falei olhando para meus amigos que ainda estava em transe e logo assentiram e fomos pegar o trem que logo chegaria.
— Anlu onde foi que você aprendeu a falar daquele jeito?— perguntou Teito e os outros me olharam como se perguntassem o mesmo.
— Isso é algo que você aprende de pequenininho, chama-se "educação" e juntando isso com um pouco de "mentira bem formulada" resulta no que viram. E como eu sabia que se algum de vocês falasse ia gerar mais confusão enorme, resolvi tomar a frente, mas nem eu sabia que iria sair tão convincente. — falei entrando no trem que acabara de chegar.
— Realmente isso foi surpreendente, mas deixando isso de lado... — disse Ikuto parando de forma dramática no final — ...para onde nós estamos indo?— falou e eu desviei meu olhar para a janela, estava uma tarde linda e estávamos passando por um campo de flores.
— Sur-pre-sa! — falei pausadamente para que eles ficassem bem entusiasmados pela resposta ( como se eu fosse falar agora ) e no final se desapontassem, não resisti em dar uma risadinha, mas foi melhor assim pois se eles souberem para onde estamos indo é possível que queiram voltar.
Passadas 3 horas de conversas do tipo, quando meu treinamento ia começar, o que fazer se Kisho aparecer de novo e como Natsume estava parecendo um porco de tanto que ele comia, finalmente chegamos a nosso destino: As Montanhas Mágicas.
Os três olharam para o lugar, que mais parecia um deserto, pois não havia muitas pessoas nem na estação e nem na cidade, era bem pequena e remota, não havia muitos moradores, pois o local se encontravam no pé da montanha e isso fazia com que poucos visitassem o lugar.
Dirigimos-nos para uma floricultura que se localizava próxima da estação, comprei um buquê com tulipas azuis e algumas rosas brancas, os meninos o tempo todo ficavam me olhando com receio de perguntar, aonde íamos.
O tempo estava agradável, estamos no inicio de outono então não estava tão frio assim. Fomos até a parada de ônibus que ia até o topo da montanha, quando chegamos ao final de nosso destino, os meninos, ao descerem do ônibus, arregalaram os olhos ao verem a bela paisagem que se estendia por toda a planície.
— Como isso é possível? Estamos em cima de uma montanha, era para ter neve aqui, e não flores. — disse Teito, assim como os outros de boca aberta.
Apenas os olhei por trás do ombro e pedi para que me seguissem. Caminhamos até o meio de todas aquelas flores e lá havia duas pedras incrustadas na terra, lado a lado. Os garotos leram as palavras entalhadas nas pedras, em voz alta, sendo primeiro a da direita que dizia: "Para um ótimo homem, marido e pai. Que sempre enfrentou as dificuldades de cabeça erguida e trazendo alegria as pessoas mesmo em seus momentos de tristeza. — Tsukyumi Aruto 1979-2013"; e depois a da esquerda que dizia " Para aquela que além de enfrentar seus medos com coragem, foi uma ótima mulher, esposa e mãe. Que nunca desistiu de seus sonhos e sempre deu seu máximo no trabalho, trazendo sorrisos a milhares de pessoas e nunca deixando de ser feliz, nem em seus últimos momentos. — Tsukyumi Utau 1984-2013".
Depois que os meninos leram os entalhes ficaram sem poder dizer nem uma palavra, abaixei-me e coloquei as flores sobre os túmulos dos meus pais e rezei, meus amigos ao perceberem meu gesto, fizeram o mesmo para prestar respeito. Quando pensei que já tinha forças para encarar o túmulo deles de novo, uma lágrima insistente cai, somente respiro fundo e a deixo rolar pela minha face.
Senti alguém colocar a mão em meu ombro, quando me virei vi que era Ikuto e que Teito e Natsume também me olhavam compreensivos. Os olhei e me acalmei, realmente foi uma boa ideia eles terem vindo comigo, para amenizar minha dor e para apresentá-los a meus pais.
— Oka-san, Oto-san; esses são meus novos amigos, Ikuto, Teito e Natsume — falei voltando meus olhos para as pedras, gesticulando para cada um. — Vim aqui para apresentá-los a vocês e dizer que não estou mais tão sozinha como antes e que pretendo controlar meus poderes para não ferir mais ninguém e ajudá-los na luta contra Kisho. — disse com a voz baixa, mas os meninos ainda podiam me escutar.
— É muito bom conhecê-los e prometemos cuidar bem de vossa filha.— disse Ikuto e com Teito e Natsume assentindo em seguida.
Logo já estava ficando tarde e me despedi de meus pais e voltamos pra a estação, para irmos para casa.
— Porque nos trouxe aqui, Anlu?— perguntou Teito, sabia que uma hora ou outra eles iam me perguntar isso.
— Ora, para apresentar-lhes a meus pais e para...— parei, suspirei e lhes olhei com mais tristeza. — ...tentar conter esse medo que tinha de visitar seus túmulos, pois antes não tinha nem coragem de me aproximar deste lugar.
Depois disso, fomos para casa em silêncio, chegando em casa fomos todos tomar banho, jantar e dormir para mais um dia de confusão, pois com esses meus amigos, tudo era possível.
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