Aniquilação Escarlate
6 Artista
Notas iniciais
Kurapika se afastou da multidão que se aglomerava no salão principal. As pinturas ali expostas não eram o que ele procurava. A única exposição que lhe interessava estava escondida aos fundos da galeria, renegada pela própria comunidade artística. Banida, censurada e proibida. Tão abominável quanto os crimes que elas retratavam.
Um aviso estampava a entrada da seção, alertando aos visitantes sobre o seu conteúdo sensível.
O Kuruta entrou no cômodo escuro, cujas luzes propositalmente apagadas criavam um clima sombrio. Apenas dois fortes feixes de luz — um branco e um vermelho — rasgavam a escuridão. As fontes, posicionadas de uma extremidade a outra do cômodo, criavam a falsa impressão de um degradê.
De longe, Kurapika paralisou ao avistar a maior pintura ali exposta. Os olhos escarlates precariamente iluminados pela luz branca o encararam de volta, perfeitamente reproduzidos no enorme quadro que havia sido colocado na parede oposta à entrada. Qualquer um que chegasse na sala se depararia de imediato com aquela imagem. Eles exalavam o fervor de alguém que foi brutalmente assassinado. Expressavam medo, horror e angústia em tons de vinho e carmesim.
O contorno do rosto ao qual os olhos pertenciam, porém, não passava de uma sombra irreconhecível, cujos traços não permitiam descobrir a sua real identidade. Ainda assim, qualquer um perceberia que ele estava em pânico, gritando ao implorar por uma ajuda que jamais apareceu.
O sentimento de melancolia atingiu Kurapika num solavanco violento. Ele se aproximou do quadro, onde o feixe de luz vermelha predominava. Impressionado, se espantou ao perceber que a pintura havia se transformado completamente. O jogo de luz montado para ambientação local criava uma espécie de ilusão de ótica. De longe o quadro era um e de perto era outro.
Seu coração disparou quando ele captou os inúmeros detalhes que antes não estavam visíveis. Entre as camadas de tinta, linhas finas formavam vultos indistintos e abstratos. Figuras envoltas em sombras, maliciosas e ameaçadoras que se mesclavam com o fundo escuro e sinistro da pintura e erguiam as suas mãos espectrais para atacar formas humanas com semblantes congelados de terror. O tom escarlate – que à distância dava cor aos olhos do desenho – de perto parecia respingar manchas vermelhas no que seriam os globos oculares daquelas pessoas. Dali escorriam filetes finos que representavam o sangue derramado de cada um deles.
Junto da raiva e da sede de vingança, Kurapika sentiu náuseas ao ver o desespero retratado ali. Soube da exposição por mero acaso, quando escutou rumores sobre o quanto “os olhos vermelhos eram perturbadores”, e então resolveu descobrir do que aquilo se tratava. Agora já não restavam dúvidas. O quadro contava uma história: o massacre dos Kuruta. Porém, Kurapika não tinha ideia do porquê o autor da obra parecia conhecer tão bem o ocorrido.
No canto inferior direito da pintura, a assinatura do artista, em tinta branca, se destacava na tela escura.
“Ginzo Kurei”.
— Eu não esperava vê-lo aqui.
Kurapika se virou, deparando-se com um jovem alto e magricela, de longos cabelos platinados e lisos que escorriam sobre os seus ombros.
— Desculpe, eu te conheço?
— Não. Mas eu conheço você, Kurapika. É esse o seu nome não é?
— Como sabe quem eu sou?
O humor de Kurapika não estava bom. Seus olhos cintilaram, tão vermelhos quanto os da pintura atrás de si. Qualquer um que entrasse em seu caminho lidaria com as consequências.
O homem sorriu, admirado.
— Fabuloso. Essa cor vibrante é ainda mais impressionante em vida. Não sei se minha obra fez jus à tamanha beleza. Lindo!
Kurapika fechou o punho com força; as correntes se materializando em sua mão.
— Você é Ginzo Kurei? O homem que pintou o quadro?
— Sim.
— Como sabe sobre o massacre dos Kuruta? Você estava lá? Viu acontecer?!
— Vi. Mas não tive qualquer participação no assassinato daquelas pessoas, se é o que está pensando. Assisti o ataque por meio de uma memória.
— Como assim?
— Pelo que vejo, você é usuário de nen, correto? Eu também sou. Consigo acessar três memórias de alguém que já morreu, com apenas um toque em qualquer parte do cadáver. Literalmente qualquer parte. Uma mão decepada, ossos, vísceras…olhos! As memórias são as inspirações para as minhas telas. Gosto de reproduzir a morte. Não sei nada sobre esse povo, os Kuruta. Eu apenas vi a aldeia antes e durante do ataque. Na primeira memória, pessoas tranquilas e em paz. Na segunda, as mesmas pessoas decapitadas. Olhos sendo arrancados, o sangue jorrando dos corpos…
— Já chega! — Kurapika o interrompeu — Então, você viu o massacre por uma memória. E onde estão os olhos escarlates que você usou?!
— Os guardei pela beleza exuberante, mas não coleciono peças humanas. Posso entregá-los após a exposição, se é o que procura. Não sou seu adversário. Sou apenas um artista com uma inspiração.
Kurapika se aproximou de Ginzo, tentando se controlar.
— Sua inspiração é o meu pesadelo — ele disse, se afastando em seguida.
Kurapika esperou até o evento acabar e, em silêncio, acompanhou Ginzo até a sua galeria pessoal, onde uma enorme quantidade de pinturas sombrias eram guardadas. Mas ele não ousou observar nenhuma delas. Os olhos escarlates armazenados em um recipiente de vidro preenchido com um líquido viscoso foi o que deteve a sua atenção.
Sem cerimônias, Ginzo entregou o recipiente a ele, não esperando receber nada em troca. Kurapika não disse nada. Apenas se virou, dirigindo-se à saída da casa.
— Eu ainda não lhe contei sobre a terceira memória. Você estava nela.
Kurapika não voltou atrás, mas também não teve coragem de ir embora. Permaneceu de costas para Ginzo e calado em frente a porta, deixando que o artista prosseguisse.
— Ele dizia o seu nome, o garoto. Curioso que a memória do ataque estava meio embaçada, por isso desenhei os vultos. Mas a sua imagem nas memórias dele era tão clara que eu até pude te reconhecer quando o vi. De qualquer forma, acho que aquele menino não enxergava bem. Talvez estivesse perdendo a visão.
Kurapika estremeceu. Seu corpo inteiro paralisou ao se dar conta de que estava segurando os olhos de Pairo.
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