Aniquila-me
2 Violência
Notas iniciais
Sangue.
Aquele líquido vital, quente e espesso cobria meu corpo, deixando minha roupa melada, grudenta.
Eu queria saber quanto tempo tinha se passado, se era manhã ou noite, mas a única coisa que sabia, era que fazia pouco tempo desde o experimento do doutor.
Merlyn assistiu tudo, sorrindo, enquanto eu gritava, sem nenhuma anestesia, sentido o bisturi penetrar minha pele, cutucando meu interior, expulsando sangue de meus órgãos feridos.
O trapo que chamavam de cama, era extremamente desconfortável, minha coluna berrava, no entanto era impossível sair daquela posição; me mover era um luxo que a dor não permitia, estava aprisionada em meu próprio corpo.
Encarava o teto, a tinta desgastada, podia jurar que nas elevações irregulares do gesso tinha silhuetas de rostos desesperados, agoniados, gritando enquanto me encaravam com os olhos de tinta desbotada.
— Parem de me olhar! — Gritei com as silhuetas do teto. A única parte que eu era capaz de mover, era meu rosto, então lutei para fazer uma expressão perigosa, para espantar aquelas silhuetas. — Saíam daqui! Eu também estou sofrendo!
— Lydia, Lydia— A voz doce e decepcionada invadiu meus ouvidos. — Quando vai parar de brigar com o quarto?
— Saía você também! Quero ficar sozinha, Allison! — Gritei com ela, sem sequer me importar em virar a cabeça para olha-la.
— Shh, coitadinha da Lydia, será que você não entende que eu só existo na sua cabeça?
— Se está só na minha mente, estou mandando que desapareça!
— Nem mesmo nessa situação vai deixar sua arrogância? — Pude perceber que a voz se aproximava e então, o rosto de Allison surgiu quando ela encostou na minha cama. — O que eles fizeram dessa vez?
Eu preferia mil vezes quando a Allison estava viva, pois essa caçadora, que se solidificava no meu quarto quando eu estava por muito tempo sozinha, era extremamente irritante.
Ela tinha uma expressão debochada e curiosa, cutucou minha cabeça com o dedo fino e logo em seguida passou a mão pela ferida ainda aberta no meu ventre.
Resmunguei, ainda sem mover, sabendo que só pioraria minha dor e fechei os olhos com força, sem encarar Allison e sem dizer uma única palavra.
— Pelo visto você quer ficar quieta, mas não tem importância, eu tenho mesmo muito o que falar. — Não reagi a sua voz e então escutei seu suspiro. — Você tem que planejar logo como vai sair daqui.
— Você sabe que é impossível.
— É impossível se continuar sendo estúpida, tentando cavar o chão com a mão! Você era mais inteligente, Martin, está me decepcionando muito.
— E você está me irritando.
— Estou te ajudando, é diferente. Você por acaso desistiu de se vingar deles? — Finalmente abri os olhos e os revirei até encontrar Allison, que estava sentada no chão, grudada no ferro da cama. — No início você só falava disso, como ia mata-los.
— Eu ainda vou. — Falei com firmeza e fúria.
Allison sorriu.
— É isso que eu gosto de ouvir, determinação, mas você precisa se planejar. Acha que vai ser fácil matá-los assim? Não podemos esquecer que são seres sobrenaturais.
— Eles são estúpidos, Scott nem sequer vai reagir e depois de matar o Alfa, o resto vai ser fácil.
— Mas para isso precisa sair daqui.
— E o que você sugere que eu faça? — Já estava me irritando com Allison, a ponto de mover minha cabeça de maneira brusca, o que causou uma dor tão lancinante que gritei em seguida.
— Sempre que eu chego aqui a cadela está gritando e falando sozinha, é impressionante! — A voz de Merlyn me fez rosnar imediatamente. — Não tenho medo de você, animal imundo!
— Allison, não me deixa sozinha logo agora. — Murmurei bem baixo, com os dentes trincados, mas era tarde demais, a caçadora já tinha me deixado no momento que o demônio entrou.
— Continua falando com sua amiga imaginária? — A morte sorriu com seus dentes podres e se aproximou de mim.
Tentei me mover, entretanto lágrimas escaparam automaticamente com minha movimentação; eu tinha que permanecer imóvel.
— O que você quer?
— Apenas um exame de sangue e já vou sair, não se preocupe. — O sorriso da velha aumentou ainda mais. — Depois o Kevin vai te ajudar no banho.
— Não, não, por favor, não me deixa com ele! — Implorei já entrando em desespero e senti a agulha penetrando meu braço.
— Você não serve para nada, Lydia, o mínimo que pode fazer é satisfazer os desejos dele.
— Não, não me deixe sozinha com ele! Eu imploro, eu faço qualquer coisa, eu juro! — Gritei e agarrei o braço do demônio que me olhou com fúria.
— Não encoste em mim, garota imunda!
Fiz força para erguer o tronco, tentando ignorar a dor, mas a mão calejada da velha veio no meu rosto. Ela me deu tapa ardente e estalado, que fez com que eu caísse novamente na cama, estremecendo de dor.
— Eu vou deixa-la apodrecendo aqui, sozinha com ele, para ver se aprende a me respeitar! Será que não adiantou ficar sem a anestesia? Vai continuar sendo teimosa? — Ela gritou com tanto ódio que fechei meus olhos, sem controlar as lágrimas de pavor. — Antes os remédios a deixavam dopada, mas agora até a eles você está resistindo! Vou mandar aumentar a sua dose diária e avisar ao doutor que você vai ficar aqui por uma semana por mau comportamento e vou pedir pessoalmente ao Kevin para cuidar de você durante esses dias!
— Não, não, não! — Eu gritei com toda força que me restava, rasgando a minha garganta e perdendo o ar.
Contorci na cama, esperneando, gritando de desespero e consegui me jogar contra o chão frio. O impacto foi duro, minha cabeça explodiu em dor e som do meu sangue gotejando no piso foi grotesco.
Tentei me arrastar até a porta, por onde Merlyn saía, mas antes de alcança-la, ela saiu e me trancou novamente, sem nem olhar para mim.
— Não, não! Me tirem daqui! Por favor, não me deixem aqui!
Os soluços me impediam de respirar e eu não conseguia me virar, então permaneci com a barriga contra o chão, me contorcendo como um peixe prestes a morrer, chorando, gritando e babando em cima daquele piso imundo.
Eu só usava uma espécie de camisola aberta e suja, sem usar nada por baixo e o piso irregular arranhava minha pele. Forcei os dedos abertos contra o chão, tentando me mover, sair daquela posição para não estar tão exposta quando Kevin chegasse, mas só conseguia rasgar meu braço ao esfrega-lo contra as elevações ásperas do piso.
Eu ainda me contorcia, lutando para levantar, quando a porta do cubículo foi aberta novamente.
Era tarde demais, lá estava Kevin, o homem asqueroso de cabelos muito escuros e olhar maldoso.
— Minha princesa, por que você está assim? — A voz dele era melosa, arrastada, me dava ânsia de vômito.
— Não, por favor. — Só consegui choramingar.
Kevin se aproximou e eu parei de me contorcer, encolhendo as pernas, sentindo uma dor alucinante na tentativa de abraçar meu próprio corpo. Ele se agachou a minha frente e eu movi a cabeça para não ter que encara-lo.
— Vamos lá, Lydia, você sabe que só se prejudica sendo tão teimosa. — Não respondi, soluçando baixinho e escutei seu suspiro cansado. — Por que você dificulta as coisas?
As suas mãos, enormes, foram a base de minha coluna exposta, os dedos nojentos pressionaram contra minha pele e com força, impulsionou meu tronco para cima, fazendo com que eu sentasse, desajeitada, ficando com o rosto muito próximo do seu.
— Vamos lá, princesa, se você for boazinha, eu também vou ser.
Gemi baixo de dor e desgosto, desviando o olhar, encarando minhas mãos e com um novo suspiro, fui levantada.
Quando minhas pernas se esticaram, tentando sustentar o corpo, meus joelhos cederam imediatamente e minha coluna arqueou para trás, o ar quente raspou pela minha garganta e escapou pela boca.
Ia desabar no chão novamente, mas o braço truculento do homem de cheiro repugnante agarrou meu quadril e ficou por trás de mim, me mantendo em pé e roçando algo duro em minhas costas.
— Cuidado, princesa.
O homem, suado, encostou a boca na minha orelha, respirando fundo e como um cachorro no cio, se esfregou em mim, o quadril subindo e descendo, se impulsionando contra mim.
Mordi o lábio inferior com força, fechei as mãos em punho, afundando as unhas curtas contra minha palma. Meu corpo tremia com a humilhação, soluços ameaçavam transbordar pela minha garganta e as lágrimas não paravam de despencar nas feridas da minha pele, aumentando a ardência do meu colo e rosto.
— Vamos andando, princesinha.
Eu odiava a palavra princesa, odiava como ele me chamava.
Tive vontade de afundar a unha em seus olhos e arranca-los das órbitas, mas com dificuldade, sendo sustentada pelos braços imundos, andei para fora da minha cela, seguindo pelos corredores escuros e conhecidos.
Kevin não saiu de trás de mim, o tempo todo obrigando o meu corpo a se roçar no dele, sem que eu pudesse fazer nada. Eu já tinha tentado lutar antes, me defender, mas ele me espancou até eu desmaiar de dor e continuou batendo enquanto estava inconsciente.
Depois daquele dia, passei uma semana sem conseguir levantar da cama e aprendi que não podia sequer resistir aos abusos, pois qualquer atitude minha resultava em uma nova cicatriz.
"Não precisa chorar, princesa. Não resista, seja boazinha", foi o que a voz grudenta, sádica, falou durante todo o banho.
Fui jogada para debaixo do chuveiro, ele arrancou minha roupa e ligou a água gelada. Fiquei paralisada de pavor, vergonha e ele me observou por um longo tempo, até dizer que como eu não estava me movendo, ele ia me "ajudar".
Kevin tocou no meu corpo.
As mãos grossas, ásperas, tomaram a liberdade que não tinham, esmagando minha nudez, brincando com a ferida no meu abdômen. Ele passou a mão por cada centímetro, esfregando, apertando, causando dor, me humilhando.
Quando cansou de brincar com meu corpo, ele riu e disse que eu estava magra demais, que já estava perdendo a graça.
Ele não devolveu minha roupa, nem me deu uma toalha para me secar. Enquanto voltava, nua, para a minha cela, ele continuou rindo e reclamando do meu corpo, como se fosse a melhor piada da face da terra.
— Você não tem humor, Lydia? Faz tempo que não escuto sua voz. — Ele entrou no casulo comigo e me colocou na cama. — Vamos, fala alguma coisa.
Continuei com a cabeça abaixada, eu não chorava mais. O horror me deixou muda, sem conseguir nem expressar algum sentimento. — Pelo visto vou ter que fazer você abrir essa boquinha.
Quando entendi o significado por trás de suas palavras, Kevin já estava na minha frente, abrindo o botão e o zíper da calça.
— N-não!— Não consegui fazer nada além de gaguejar.
— Agora você fala, né? Deixa eu resolver seu problema, quero ver se depois disso você não vai me responder toda vez que eu falar!
O nojo que cresceu dentro de mim, o desespero e a adrenalina correndo por meus braços, foi o que me deu forças para gritar.
Comecei a berrar e ignorando toda dor, bati os braços contra o homem que abaixou a calça, expondo a nudez asquerosa.
Kevin não se importou com meus gritos humanos e gargalhou, segurando o cabelo da minha nuca e puxando com força, fazendo minha cabeça pender para trás, obedecendo o comando dele.
— Isso, continua com a boquinha aberta, porque nós vamos nos divertir hoje.
Ele estava prestes a enfiar a parte nojenta do corpo em minha boca. Eu não parava de gritar e me debater, mas algo impediu que aquele pesadelo se concretizasse.
— Lydia! — Um grito desesperado, familiar, clamou o meu nome na direção da porta ainda aberta da minha prisão particular. — O que esse miserável está fazendo?
Só pude enxergar a expressão de pavor de Kevin, que olhava algo que eu não podia ver, devido a mão na minha nuca que me impedia de mover a cabeça. O abusador desgraçado só teve tempo de proferir um palavrão e então, vi somente um punho branco atingindo seu rosto horrendo.
Kevin largou meu cabelo quando desabou no chão, eu gritei por instinto e estava tão nervosa, que não senti a dor ao abraçar minhas pernas e me apertar contra a parede, desejando que aquela cama dura escondesse minha nudez.
E então, finalmente vi o rosto do homem que espancava Kevin.
Ele gritava uma quantidade enorme de palavrões e ofensas, chutando o rosto do desgraçado, socando, pisando, o barulho dos ossos se quebrando me fazia estremecer, apesar de não sentir um pingo de remorso ao ver o homem que me humilhava chorando como uma criança, o rosto sendo desfigurado com uma violência e o ódio exagerados.
Porém, o que me chocou, o que transformou meus músculos em pedras e fez com que eu parasse de gritar, foi o autor de tanta violência, quem me defendeu.
Era ele.
Stiles.
Stiles Stilinski.
O garoto que eu ansiava matar.
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