Aniquilação Escarlate
3 Médico
Notas iniciais
Kurapika sentiu a cabeça latejar devido ao forte cheiro de formol impregnado no laboratório. Sem acender a luz, aproximou-se das prateleiras com cautela. Nelas, os mais diversos órgãos humanos estavam armazenados e etiquetados, de acordo com o seu nome, origem e data em que foram adquiridos. Um cianótico coração pulsante e um fígado repleto de protuberâncias chamaram a sua atenção. Ao lado deles, outros exemplares únicos encontravam-se expostos. Aquilo era uma coleção de excentricidades e, apesar de saber que estava no lugar certo, Kurapika não achou o que procurava.
Vasculhando os armários, encontrou um acervo de registros médicos. Em busca de pistas que o levassem até o seu objetivo, ao relancear rapidamente uma pasta, Kurapika quase deixou-a cair, espantado com a identificação nela contida. “UVOGIN”, ele leu novamente a etiqueta, só para ter certeza de que não havia se confundido. Vencido pela curiosidade, e certo de que aquilo não passava de uma coincidência, ao abrir o arquivo, deparou-se com inúmeras fotos do cadáver do ex-membro da Genei Ryodan.
Num impulso, Kurapika jogou a pasta no chão, tentando se livrar das lembranças de sua luta em York Shin, que agora inevitavelmente ricochetearam em sua mente. Primeiro veio o ódio, junto à culpa que carregava pelo extermínio de sua própria tribo. Depois veio a dor, tanto da sua perda, quanto do assassinato que havia cometido por vingança. Assassinato esse que não aliviou a sua fúria. Do contrário, somente o deixou ainda mais atormentado.
Ao sentir uma pressão em suas costelas, Kurapika endureceu como pedra.
— Não se mova — o cano de uma arma afundava em suas costas — Quem é você? O que quer aqui?
Ignorando a advertência, ele girou o pescoço tentando vislumbrar quem o ameaçava.
— Eu mandei você ficar parado!
Antecipando o tiro, o Kuruta reagiu velozmente de modo que, ao puxar o gatilho, o médico se surpreendeu com a corrente que lhe envolvia o braço. O disparo atingiu a tubulação de gás, fazendo-o vazar descontroladamente pelo ambiente, enquanto que o homem desarmado era arremessado contra a parede.
Ao se aproximar, Kurapika o agarrou pelas vestes. Forçando-o a levantar do piso, teve certeza de que estava diante do alvo correto: Todd Yang, médico legista que teve a licença caçada após os seus crimes de tráfico de órgãos no mercado negro terem sido descobertos. Antigamente, ele aproveitava-se de sua posição no maior necrotério do país para poder roubar os mais diversos órgãos dos cadáveres com que trabalhava. Anunciado como fugitivo, parecia ter simplesmente desaparecido sem deixar rastros e jamais foi encontrado pelas autoridades. As buscas de Kurapika — muito mais aprofundadas e precisas — o levaram até ali, após descobrir que Yang era conhecido no submundo como um excêntrico colecionador de espécimes humanos raros.
— Onde estão os olhos escarlates da tribo Kuruta? — Kurapika foi direto ao ponto.
— Não sei do que está falando...
— Não minta. Sei que um dos exemplares ficou com você. Se me disser onde está, você sobrevive.
Rangendo os dentes num surto repentino, as feições do legista se transformaram.
— Quem te mandou aqui?! Foi ele? Não pode levá-los! Não é justo...Chrollo me deu em troca dos meus serviços!
— Chrollo te deu? — Kurapika indagou confuso — De que serviços está falando?!
— N-no extermínio — o médico gaguejou — Ele precisava de alguém que ajudasse a remover os olhos dos corpos sem danificar a estrutura neural, senão não conseguiria vendê-los pelo preço desejado. São muito frágeis e aqueles idiotas não conseguiriam fazer direito. Não sem a minha instrução! Ele me ofereceu um dos pares como forma de pagamento para que eu os ajudasse. Mas por que isso agora? Por que te mandou aqui pra pegá-los de volta?!
— Está me dizendo que você foi cúmplice da Genei Ryodan?!
Ao pronunciar aquele nome, o Kuruta instintivamente pressionou o pescoço do médico que, ao ver os seus olhos se converterem num vermelho cintilante, engasgou-se com a resposta. O terror explícito em suas expressões indicava já ter compreendido a situação, e o sabor do arrependimento pelo que havia acabado de revelar amargou a sua boca.
— Co-Como...?! Estavam todos mortos. Como você sobreviveu?
Negando-se a acreditar que estava diante do homem que ajudou a arrancar sem nenhum remorso os olhos dos falecidos membros de sua família, Kurapika dispensou a sua própria civilidade. Assim, sem muito pensar, fechou o punho, desferindo-lhe um soco no rosto.
— O que fez com eles?!
— N-nada — filetes de sangue manchavam o seu jaleco — Eu só os estava estudando para saber como funciona o mecanismo. Talvez implantá-los e...
Kurapika não quis ouvir o resto. Enojado, o atingiu com um chute e, somente após ver Yang agonizar naquele piso frio, respirou fundo, tentando dominar a fera que protestava furiosa dentro de si.
— Onde eles estão?
Incapaz de falar, Yang esticou a mão trêmula, apontando para uma estante de vidrarias. Ao se aproximar do móvel para examiná-lo, Kurapika então notou que a sua estrutura não estava fixa na parede. Com exacerbada violência, a empurrou para o lado, derrubando algumas peças no chão, que se estilhaçaram instantaneamente com a queda, e revelou, ao mesmo tempo, o compartimento que se escondia por detrás dela.
Ele imediatamente resgatou o reservatório que continha os olhos escarlates imersos num fluido gelatinoso, ignorando os demais itens ali presentes. Decidido a ir embora, porém, voltou-se para o legista quando um súbito pensamento o deteve.
— Chrollo sabe que você desenterrou Uvogin?
Yang escancarou um sorriso insano.
— Chrollo sabe que a minha coleção é o que tenho de mais valioso. Um dia, talvez, ele também fará parte dela.
Kurapika o fitou com asco e desprezo.
— Não — retrucou, pegando o isqueiro que trazia em seu bolso. Ao girar a ignição, observou a chama que dele se desprendia — Está na hora de deixar os mortos em paz.
Ele se aproximou da saída e, num lançamento brusco, incendiou o laboratório infestado pelo vazamento de gás. Somente após ver fogo engolir o médico, Kurapika foi embora sem esboçar sinais de arrependimentos. Saciada, a fera que rugia dentro de si enfim se acalmou.
Aquilo seria o suficiente. Pelo menos por enquanto.
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