Notas iniciais
Gii Vieira: Gente linda, oi ^^ Ainda estou sem acreditar que finalmente estamos postando essa one *-* Tive a ideia no dia em que o Maroon 5 lançou aquele clipe perfeito pra essa música, e bastou eu falar com a Roberta pra ela topar escrever essa safadeza comigo hasuahusha. Os POVs da Rose ficaram por minha conta e os do Dimitri ficaram com ela. Espero que gostem dessa dinâmica, pois achamos importante mostrar as impressões dos dois. Pra quem não conhece a música, vou deixar o link aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qpgTC9MDx1o Acho que é isso... Não me aguento mais, preciso compartilhar a história com vocês. Fim da ladainha haushauhsau Espero que gostem e que comentem, ok? Vou adorar saber a opinião de vocês ;) Beijos, Gisele

Animals

Rose Hathaway

Meus pés mal haviam se firmado contra a calçada úmida do meu antigo bairro quando desatei a correr a toda velocidade. Ignorando os protestos de meus pulmões, que pareciam fazer coro à torrente de palavrões proferidas por meus músculos, alcancei o meu limite, ignorando deliberadamente a vizinhança que passava ao meu redor como um borrão.

Em outras circunstâncias eu provavelmente teria me sentido nostálgica, teria parado por alguns minutos e me recostado contra uma das muitas cercas da rua, relembrando momentos felizes ao lado da minha melhor amiga, quando éramos somente eu e ela contra o mundo; agora, no entanto, eu não podia me dar ao luxo de me distrair. Não quando a vida de uma pessoa estava em minhas mãos. Não quando o tempo era o meu maior inimigo.

Sentindo meu coração martelar as costelas, fiz o possível para ignorar os chamados insistentes do taxista que me trouxera até aqui, só me permitindo olhar para trás quando já havia dobrado a esquina. Não havia um modo simples de explicar ao pobre homem que os dólares a mais que eu atirara sobre seu painel não eram fruto de um mero erro de cálculo, mas sim de um pedido mudo de desculpas. Se ele ao menos soubesse o que eu estava prestes a fazer, provavelmente teria me cobrado o dobro pela ajuda. Talvez o triplo. Por sorte, dinheiro era o menor dos meus problemas.

Quando fugi da corte, cerca de dois dias depois da tentativa mal sucedida de Dimitri de me encurralar naquele maldito galpão, não me surpreendi com a rápida ― e absurda ― conclusão à qual as autoridades Moroi chegaram: Rose Hathaway havia se tornado cúmplice de um Strigoi. Tá certo que não era de hoje que eu carregava a fama de ser irresponsável e inconsequente, o que só foi agravado pela minha viagem relâmpago à Rússia no meio do semestre, mas daí a me considerarem uma criminosa? Uma adoradora de mortos-vivos? Depois de todo o meu treinamento e todos os Strigoi que matei, aquela ideia soava ridícula até pra mim.

Pena minhas convicções não serem suficientes para calar a boca suja daqueles idiotas.

Bastou que o bando de guardiões designados a resgatar Lissa e Christian do cativeiro improvisado por Dimitri o ouvissem bradar aos quatro ventos ameaças de morte entrelaçadas a juras de amor ― todas obviamente direcionadas à mim ― para que os rumores se espalhassem pela corte e de lá para Deus sabe onde. De repente, todos tinham a explicação perfeita para meu comportamento instável desde o ataque à São Vladmir, e mais uma vez me tornei alvo de fofocas, sendo obrigada a me esgueirar pelos corredores enquanto os desocupados a minha volta apontavam e faziam especulações sobre a minha vida amorosa. Ou ao menos sobre que sobrara dela.

Quantas vezes ele não me alertara sobre isso? Quantas vezes Dimitri não tentou me fazer enxergar que um romance entre guardiões ― entre uma garota menor de idade e seu professor ― jamais seria aceito no mundo em que vivíamos?

Pela primeira vez na vida fui obrigada a baixar a cabeça e aceitar o julgamento dos outros. Eu não tinha forças para enfrentar essa batalha sozinha, mas por sorte ela não durou muito tempo. Quando Lissa veio me procurar, horas depois do sequestro, apenas para me confirmar o que eu já sabia ― que o romance que eu vivera com Dimitri já não era mais segredo pra ninguém ― realmente cheguei a achar que seria capaz de me preparar para o que estava por vir, fosse o que fosse. No entanto, eu não estava.

Meu rosto se retorceu em choque quando descobri que iriam me acusar ter voltado para as margens da sociedade Moroi com a intenção de dar a Dimitri e sua gangue a grande oportunidade de acabarem com a última Dragomir. Naquele momento senti nojo de mim mesma. Uma coisa era eu aceitar que Dimitri fizesse o que bem entendesse comigo, desde me envolver em uma disputa cruel pela minha própria vida até me transformar em uma prostituta de sangue, outra bem diferente era eu lhe entregar de bandeja a vida daquela que sempre jurei proteger. Como podiam achar que eu estava tão desesperada para me unir à ele naquela imortalidade amaldiçoada a ponto de sacrificar a única coisa boa que me restara?

Então, antes que qualquer um deles pudesse sequer pensar em me interrogar, fugi.

Por sorte eu ainda tinha amigos em quem confiar. Apesar de nossa relação ter ficado estremecida após os acontecimentos em Las Vegas, bastou-me encontrar Adrian Ivashkov uma única vez em um sonho para saber que ele não me deixaria na mão. Ele era um dos poucos que realmente entendia a importância da minha missão, e mesmo que não a aprovasse, não se recusou a financiá-la. Quando tudo isso acabasse, minha dívida com ele seria eterna.

De volta ao presente, corri por mais alguns quarteirões antes de sacar a estaca, não querendo correr o risco de ser vista por algum vizinho, muito menos denunciada à polícia. Eu tinha certeza que àquela altura até mesmo as autoridades humanas me consideravam uma fugitiva perigosa.

Sem perder o ritmo, atrevi-me a dar uma espiada rápida no relógio que trazia em meu pulso. O gesto foi o suficiente para me fazer arquejar, e eu quase tropecei nos meus próprios pés. Cinco minutos. Tudo o que me restava eram cinco infelizes minutos! Eu não ia conseguir. Mais uma vez eu não ia conseguir chegar a tempo, mas desistir agora estava fora de cogitação. Em algum lugar no final daquela rua uma garota precisava de mim.

Não havia sido tão difícil assim juntar as pistas depois que o segundo assassinato fora veiculado na TV, com direito a depoimento de testemunhas e flashes de imagens de um corpo coberto por um plástico preto jogado sobre a calçada. Pelo visto os alquimistas não haviam chegado a tempo de impedir que os noticiários humanos soubessem daquele novo ataque, que mais uma vez acabara com uma jovem garota morta de forma misteriosa.

As manchetes eram das mais variadas, desde irônicas até sensacionalistas, mas todas tinham algo em comum: as estranhas marcas de mordida que as vítimas traziam no pescoço. Quando os primeiros relatórios dos legistas começaram a sair, o medo se abateu de vez sobre a população. Não haviam quaisquer outros ferimentos nos corpos e a causa da morte era sempre a mesma: perda excessiva de sangue.

Para tentar controlar a histeria do público, os crimes foram atribuídos a um novo e polêmico serial killer, alguém tão desesperado para atrair a atenção da mídia que fora capaz de articulá-los com tamanha estranheza, quase como se achasse divertido alimentar o imaginário das pessoas, levando-as a acreditar que criaturas sombrias da noite eram reais. E nesse caso, realmente eram.

Meu maior pesadelo voltava para me assombrar — Dimitri. E dessa vez ele estava fazendo questão de deixar bem claro que passaria por cima de quantas garotas fossem necessárias para chegar a mim.

Os indícios de que meu antigo amante e professor era o sádico por trás daquilo tudo se faziam mais e mais evidentes a medida que os corpos de garotas morenas, com idades entre 18 e 22 anos, eram encontrados espalhados pelos Estados Unidos. Primeiro em um galpão na Pensilvânia, depois em um hotel em Las Vegas; no bagageiro de um avião com destino a São Petesburgo e até mesmo nos fundos de um posto de gasolina nas montanhas. Dimitri estava montando uma linha do tempo, cada vítima sendo usada para marcar um momento especial do nosso relacionamento, algo que somente eu seria capaz de entender.

Foi quando saquei o que ele realmente pretendia. Dimitri não queria apenas chamar minha atenção, ele queria que eu fosse até ele, para impedi-lo. Ele me conhecia bem demais para saber que eu não suportaria assistir à morte de garotas inocentes de braços cruzados.

Dois meses depois do início da minha caçada, pensei ter decifrado outro de seus enigmas. Spokane poderia não estar no topo da minha lista de lugares preferidos no mundo, mas ainda assim tinha um grande significado para nós dois. Quando eu o vira de pé na sala daquela casa, chamando por mim, eu soube que seria capaz de superar o trauma de ter matado pela primeira vez, simplesmente por tê-lo ao meu lado; já naquela noite eu me perguntava se seu rosto, pálido e retorcido pela vingança, se juntaria ao de Mason nos meus pesadelos.

Sem saber ao certo como, encontrei a maldita casa na primeira tentativa. Está certo que nós, que treinávamos para sermos guardiões, aprendíamos técnicas que tinham como objetivo estimular a memória fotográfica, mas aquilo havia ultrapassado todas as expectativas. Tinha sido um verdadeiro golpe de sorte, não que eu pudesse contar muito com a minha ultimamente.

A construção, mesmo estando nitidamente abandonada, ainda se camuflava perfeitamente entre as outras casas do subúrbio, nunca chamando a atenção. Era simplória e ordinária, localizada bem no meio da rua, sem qualquer pretensão de exibir rotas de fuga. E conhecendo o gênio Strigoi como eu bem conhecia, eles eram arrogantes o bastante para achar que jamais precisariam de uma.

Com a estaca em punho, pulei o muro pelos fundos, arranhando a palma das mãos no percurso. Nada que me impedisse de segurar com firmeza minha estaca de prata, é claro. Os cômodos estavam vazios, o que não deveria me surpreender. Com o barulho que fiz ao quebrar uma das janelas, era de se esperar que qualquer Strigoi já tivesse se materializado por ali. A náusea que eu usava como alarme tampouco tinha dado o ar da graça, o que podia significar tanto que eu estava no lugar errado como que eu chegara terrivelmente atrasada.

Analisando a linha de raciocínio que Dimitri vinha seguindo até então, concluí que, na pior das hipóteses, só podia ser a segunda opção.

Dessa vez, não me esqueci das lições sobre checar minuciosamente o perímetro antes de dar as costas à sala espaçosa e rumar para o porão. Lembranças terríveis me tomavam de assalto a todo momento, imagens do corpo de Mason estirado no chão, em meio ao sangue dos outros Strigoi, inerte, os olhos arregalados e sem vida... Sacudindo a cabeça, espantei tais memórias e as trancafiei, controlando-as da mesma forma que fazia com os fantasmas. Quando estivesse bem longe dali, de preferência em segurança, lidaria com todos os meus problemas.

Mesmo sabendo que era desnecessário, dei cabo de todas as divisórias até por fim rumar para a última, na qual eu, Eddie, Mason, Mia e Christian havíamos sido mantidos presos. Dez minutos já haviam se passado desde a meia-noite, o que só me fazia rezar para que não fosse tarde demais. Todas as vítimas noticiadas até agora recebiam do legista meia-noite como hora provável da morte, mas eu sabia que nem Dimitri poderia ser sempre tão pontual assim, ainda mais se seu objetivo fosse me fazer seguir seus passos. Abandonar o carro que eu roubara na cidade vizinha me atrasara um bocado, mas me aliviava saber que não havia Strigoi no local. Era minha vez de armar uma emboscada!

Exceto por eu estar completamente errada. Minha audição aguçada não tardou a captar um ruído vindo de detrás da última porta, o que me fez mandar a cautela às favas e invadir o local. Com um chute a porta se abriu, batendo estrondosamente contra a parede lateral. Não parei para avaliar o estrago. Meu alvo no momento era a garota amarrada a uma cadeira, amordaçada e ― pasmem! ― com os pulsos presos por algemas de plástico. O universo tinha mesmo um senso de humor perverso.

Sem a náusea para me fazer hesitar, corri até ela, quase desmaiando de alívio ao notar que ainda respirava. Mas não por muito tempo.

A garota, como o esperado, tinha a pele bronzeada, enormes olhos castanhos e cabelos tão escuros que poderiam ser confundidos com preto. Era como admirar um reflexo macabro em um espelho. Engolindo em seco, ergui uma das mãos ― nunca soltando a estaca ― e toquei-lhe o rosto, livrando-a da mordaça. O que vi a seguir me fez sentir náuseas de verdade, dessas causadas quando alguma coisa te enoja.

Ela trazia uma ferida ainda fresca no pescoço, o sangue brilhando agourentamente graças a iluminação fraca vinda das luzes de emergência. Tentando não me ater à palidez de sua face ou no olhar vidrado que ela me dirigia, fiz a pergunta mais estúpida de todas:

― Você está bem? ― Sério, eu merecia ganhar uma medalha por isso.

― Você não devia estar aqui ― foi tudo o que ela me respondeu, com a fala débil e enrolada de uma pessoa dopada.

Eu não tinha como precisar quanto sangue ela já tinha perdido, mas por ainda estar falando, resolvi insistir enquanto maquinava um modo de tirá-la dali.

― É claro que eu devia. Vim salvar você. Vou dar um jeito de te soltar e então...

― Não.

― O que foi que disse?

― Não. Você não deve me salvar.

― E por que não? ― O que diabos estava acontecendo com aquela garota? ― Você precisa vir comigo. Precisa, ou vai acabar morrendo!

Era fato que humanos tinham uma menor resistência às endorfinas do que os Dhampirs, mas não era possível que ela já estivesse viciada a ponto de não querer escapar daquele covil.

― Eu sei. Eu mereço isso.

― O quê? Por quê? ― Ta aí, essa era novidade.

Fornecedores quase sempre tinham sua cota de esquisitices e excentricidades, principalmente por viverem chapados a maior parte de seus dias, porém, nunca, em meus 18 anos de vida, vira um deles desejar morrer. Muito pelo contrário, se pudessem viver pela eternidade, apenas pelas mordidas, eles viveriam.

Havia algo de muito errado ali, eu só não estava conseguindo descobrir o que era. Até que sua resposta me deu uma tremenda pista, além de fazer meu sangue gelar até os ossos:

― Porque ninguém deve se parecer com a Roza dele.

Roza... Meu antigo apelido.

Mas como uma desconhecida, ainda mais em um estado tão debilitado, poderia saber uma coisa dessas? A menos que... A menos que Dimitri tivesse usado compulsão. Ele nunca usara em mim, por todo o tempo que me manteve refém na Sibéria, entretanto não tinha porquê se ressentir de usar tal habilidade com uma humana.

Estava prestes a fazer outra de minhas perguntas imbecis, desesperada pela comprovação da minha teoria, a teoria que dizia que ele estivera mesmo ali e que mais uma vez eu o deixara escapar, quando percebi que aquelas seriam suas últimas palavras. Um último suspiro entrecortado ecoou pelo ar antes de ela tombar a cabeça para frente, os olhos abertos e vidrados. Sem vida.

Com o soluço horrorizado prestes a irromper por minha garganta, percebi o óbvio: Dimitri não fazia aquilo com o objetivo de me atrair, ele só queria me torturar.

A culpa então me fez cair de joelhos conforme eu contabilizava mais uma morte nas minhas costas.

"Não hesite", era o que ele sempre me dizia. Dessa vez, eu não hesitei.

Ao avistar a casa em que Lissa e eu moramos quando vivemos um tempo entre os humanos, passei a me esgueirar pelas sombras, tentando caminhar o mais silenciosamente possível. O sangue martelava freneticamente em meus ouvidos, abafando os sons ao redor, muito embora eu ainda tivesse impressão de que meus passos podiam ser ouvidos à quilômetros de distância. Por meio segundo, tentei me convencer de que a paranoia exagerada era culpa da adrenalina e da tensão por tudo o que eu estava prestes a fazer, logo depois, desisti. Tanto melhor encontrá-lo ali na rua, onde eu poderia correr caso as coisas ficassem feias pro meu lado (e eu tinha certeza de que elas iam ficar), do que em um espaço fechado e abarrotado de potenciais armadilhas.

Olhando constantemente por sobre os ombros, contornei a construção pela lateral até encontrar um ponto de onde escalar para segundo andar não parecesse suicídio. Se eu bem me lembrava, havia uma janela por lá cuja a tranca estava quebrada e essa era minha melhor alternativa até o momento. É claro que sempre havia a opção de o proprietário ter percebido o risco que seus adoráveis universitários corriam e consertado o problema, no entanto, se fosse esse o caso, eu daria um jeito de me virar depois. Uma coisa de cada vez. Primeiro: escalar, depois: não morrer e por fim: continuar viva. Viu? Parecia bem simples.

A fachada de madeira possuía reentrâncias mínimas, o que dificultava um pouco as coisas, mas não muito. De repente, desejei poder voltar no tempo e prestar atenção às aulas sobre técnicas de invasão apropriadas. Sério, o que me custava ter calado um pouco a boca e ouvido a infinita ladainha sobre grampos de cabelo e os mais variados tipos de fechaduras? Parecia que tudo o que eu conseguia me lembrar agora envolvia chutes, pedras e vidros estilhaçados, o que com certeza me faria ser presa por invasão de propriedade. A sorte já havia sido muito boazinha comigo tirando todo mundo de casa naquela noite, eu também não precisava abusar.

Uma vez dentro, pude respirar aliviada, mesmo que por pouco tempo. O quarto já não parecia o mesmo que Lissa e eu dividimos quase um ano atrás, com suas paredes forradas por pôsteres de bandas de rock e pilhas e mais pilhas de roupa suja espalhadas pelos cantos. Quem quer que vivesse ali agora tinha um senso de higiene bem duvidoso.

Meus dedos latejavam, tamanha a força com que empunhava a estaca, e os nós estavam brancos ― nada que eu não pudesse aguentar. Tremendo da cabeça aos pés, abri a porta devagar e espiei o longo corredor a minha frente, que permaneceu escuro e silencioso. Com a coragem renovada, explorei o espaço com atenção triplicada, não deixando passar um mísero canto sequer. Invadi quartos, abri armários de desconhecidos, e por mais ridículo que possa soar (acredite, disso eu entendo), olhei embaixo de todas as camas, apenas para constatar o óbvio: eu estava sozinha. Ainda.

Confiando na náusea costumeira para me alertar, dei as costas ao corredor e segui para as escadas, sentindo-me confiante a ponto de acender as luzes pelo caminho. Com as cortinas da sala fechadas como estavam, seria burrice confiar somente na minha visão. Ela podia ser mais aguçada que a de qualquer humano, isso eu não tinha dúvidas, mas não significava que eu podia bancar o super-homem.

Outra ronda sem revelar nada e o pânico começou a me dominar. Aquele era o único lugar que restava, bem, aquele e a cabana na São Vladmir, mas nem Dimitri tinha poder para invadir a escola e largar um corpo na propriedade. Ele já tinha feito muito ao abandonar um nos arredores, o que voltou a colocar os guardiões em alerta máximo. Ninguém vacilaria novamente, não depois do ataque no início do ano.

Dei-me mais alguns minutos antes de começar a ponderar minhas possibilidades. Eu obviamente não podia simplesmente sentar-me no sofá e montar guarda por ali o resto da noite, mas também não podia arriscar deixar que Dimitri fizesse mais uma vítima por minha causa. Estava quase certa que o melhor que eu tinha a fazer era voltar para a rua e procurar um bom ponto de observação quando a senti. A náusea.

Eu havia sido treinada para reconhecer o perigo, para reagir diante dele e não me tornar uma presa fácil, por isso permiti-me meio segundo de choque e então saltei por sobre o sofá, lançando-me contra o interruptor. De acordo com Dimitri, para os Strigoi o escuro era como dia claro, mas nem por isso eu precisava facilitar as coisas.

Torcendo para que ele estivesse distraído com a humana, engatinhei até o portal que se abria para a cozinha e escorei-me contra a parede, esperando.

De repente, outro pensamento me ocorreu: e se não fosse Dimitri? Não eram poucas as histórias de ataques Strigoi a campus universitários, onde os estudantes que cambaleavam bêbados pelas ruas se tornavam presas fáceis. Deus, era só o que me faltava.

Com a respiração presa, ouvi a porta dos fundos se abrir, mas nenhum passo ecoar pelo linóleo frio. Estranho...

Praticamente paralisada pelo medo de acabar revelando minha posição, mas ainda assim odiando a ideia de ser pega de surpresa, inclinei minimamente a cabeça para o lado na tentativa de enxergar alguma coisa. Tudo o que consegui foi o vislumbre de um par de botas masculinas e a barra de um longo casaco de couro, como os usados em filmes de caubói. Um guarda-pó. Ah, e nada de humanas, por enquanto.

Engolindo em seco, puxei as mãos para junto do peito, pressionando-as com força, como se pudesse abafar os protestos loucos do meu coração. Ele sabia a quem pertencia, aquele traidor.

― Sabe, esconde-esconde nunca foi minha brincadeira preferida, mas tudo fica mais divertido com você, Roza.

Ao ouvir sua voz, meu sangue gelou. Eu não estava preparada pra isso, não ainda, mas dessa vez não vacilei. Como se tivessem vontade própria, meus pés tomaram a dianteira e eu disparei para o outro lado da sala, desviando como podia dos móveis em meu caminho. Quando tornei a me virar, o encontrei parado onde antes eu me encontrava.

Apesar de estar envolto em sombras, eu reconheceria aqueles traços em qualquer lugar. Os cabelos compridos amarrados na nuca, os ombros largos, imponentes, completando o visual intimidador proposto por sua altura, o queixo forte, e os olhos, ah, os olhos que em outra vida foram castanhos e profundos, hoje contornados por uma fina linha escarlate.

Um misto de temor e desejo correu por minhas veias, confundindo meus sentidos. Eu sempre me aterrorizaria diante da sua nova aparência, mas nem por isso deixaria de dejejá-lo.

― Dimitri... ― E isso foi tudo o que consegui dizer.

Depois de tantos meses em seu encalço, depois de acabar em tantos becos sem saída e tantas perseguições furadas, ele estava aqui, bem na minha frente.

Era até irônico pensar que tudo iria acabar exatamente onde começara.

― Surpresa?

Eu já deveria saber que ele não seria o primeiro a atacar. Dimitri gostava de brincar com suas presas antes de dar um fim nelas, e ainda que eu achasse isso um tanto irritante e debochado, não pude reclamar. Eu precisava mesmo de um tempo pra bolar meu plano de ação.

― Um pouco. Não achei que você fosse do tipo teatral.

― Eu precisava dar um jeito de impressionar você, fazê-la vir até mim.

― E pra isso achou que não teria problema usar a vida de garotas inocentes, certo? ― falei, mal controlando meu tom de voz. Estava nítido que um de nós morreria esta noite e se esse alguém fosse eu, morreria ao melhor estilo Rose Hathaway.

― Já lhe disse uma vez, ninguém é totalmente inocente.

― Isso ainda não lhe dá o direito de escolher quem deve viver ou morrer.

― Não é uma questão de escolha, Roza. É simplesmente o fato de se estar no lugar errado, na hora errada. Presa e...

― Predador ― completei, ganhando um olhar que era um misto de orgulho e irritação. ― Eu já sei.

― Todas elas morreram em êxtase, e fiz isso por você! Se não fosse tão teimosa e me deixasse despertá-la, veria que tenho razão. Seríamos como deuses, Roza. Ele viriam até nós, implorando por isso.

― No lugar de onde eu venho, implorar para morrer não é motivo de glória.

― Você diz isso porque não sabe o que é ter a vida de alguém sendo drenada para você, não entende o que é ter o poder de controlar todos ao seu redor.

― Não sei e nem nunca irei saber. Isso acaba hoje, Dimitri. Não vou hesitar dessa vez.

― É mesmo uma pena que eu também esteja disposto a lutar pelo que quero. E o que eu quero é você, Roza. Ao meu lado, por toda a eternidade.

Ao menor sinal de movimento seu, me posicionei. Fora pra isso que eu me preparara a vida toda, para lutar. Com medo de acabar encurralada contra uma das paredes, abandonei a defensiva, adiantando-me para encontrá-lo no meio do caminho. Sua força e velocidade ainda eram impressionantes, mas por estar em alerta, consegui esquivar-me de seu golpe, girando para encará-lo novamente. A estaca de prata brilhava entre nós, iluminada pela parca luz vinda da janela da cozinha, que nos transformava em meros vultos sombrios.

Não paramos por aí. Era mesmo um inconveniente e tanto ele ter sido meu instrutor em sua vida passada, o que tornava quase impossível pegá-lo desprevenido, assim como acontecia comigo.

Em meio a minha gana de incapacitá-lo, algo que facilitasse minha trajetória até seu peito, apelei para todos os golpes baixos que eu conhecia, afinal aquela não precisava ser uma disputa justa. É verdade que consegui acertar-lhe alguns socos e até mesmo uns poucos chutes, porém recebi muitos mais, o último me lançando de costas sobre os degraus da escada. Lá em cima se encontrava a minha única rota de fuga decente, de modo que conduzir-nos até o segundo andar me parecia uma boa ideia. Eu tinha falado sério sobre preferir morrer a me tornar uma Strigoi, no entanto, depois de tantas experiências de quase-morte, era como se meu subconsciente se agarrasse à vida com unhas e dentes.

Só quando já estávamos na metade do caminho foi que percebi o quanto aquilo era insano. Apesar de estar em uma posição vantajosa, bastaria um único descuido meu para me fazer rolar as escadas em queda livre, o que daria a Dimitri a chance perfeita de me subjulgar. Por mais que eu saísse ilesa, sem uma perna ou um pescoço quebrados, ele teria tempo suficiente para me seguir e fazer o que bem entendesse. Mas não se eu o derrubasse primeiro.

Um chute em seu estômago foi o que bastou. Já estávamos próximos do topo e quando o vi se desequilibrar, não esperei mais. Podia ouvi-lo praguejar alto enquanto eu corria acima da velocidade permitida, os olhos semicerrados em concentração. Daquela distância o corredor me parecia infinito, o pequeno filete de luz brilhando como minha linha de chegada afastando-se a cada passo que dava em sua direção. A falta do estrondo ensurdecedor foi o que o denunciou ― Dimitri não rolara até o térreo. O quarto que eu almejava ficava na outra extremidade, a metros e mais metros de distância, sendo então arriscado tentar alcançá-lo com Dimitri bem atrás de mim. Com uma curva fechada para a esquerda, enfiei-me dentro de um quarto qualquer, até estar atrás da porta.

Tudo aquilo era inútil, eu bem sabia, mas na minha atual situação, qualquer segundo a mais que eu pudesse conseguir me deixava no lucro. Com a estaca praticamente fundida a palma da minha mão direita, usei a esquerda para abafar os sons da minha respiração.

― Será que não percebe? ― Sua voz ecoando através das paredes. ― Esconder-se é perda de tempo pra você. Posso sentir seu cheiro daqui, a maneira como o perigo te excita.

― Não tenho medo de você ― respondi petulante, rezando para meus cálculos estarem corretos.

Assim que entrasse no cômodo, eu torcia para que Dimitri rumasse direto em direção a porta entreaberta do armário, no extremo oposto de onde eu estava. Essa não era bem a dianteira que eu queria, mas se desse o máximo de mim, era possível que alcançasse a saída antes de morrer pelo caminho.

― Ainda, mas quando eu acabar com você, vai ter

Tentando permanecer o mais silenciosa possível, ignorei o arrepio que me atravessou graças àquela ameaça, correndo e batendo a porta atrás de mim no instante em que ele apareceu no meu campo de visão. Quando a porta tornou a se abrir, eu já podia avistar a janela. No quintal eu pensaria numa forma de armar-lhe outra emboscada.

Prendi a respiração ao sentir a brisa morna vir de encontro ao meu rosto, sempre me recusando a olhar para trás. Eu estava perto agora, só mais um passo e...

― Peguei.

Seu sussurro baixo, vitorioso e convencido, foi a última coisa que ouvi antes de o pequeno cômodo ser preenchido pelos meus gritos abafados. Em uma espécie de meio abraço, Dimitri rodeou com firmeza minha cintura, usando um braço para manter minhas costas coladas contra seu peito enquanto o outro se encarregava de calar meus protestos e injúrias desesperados. Meus olhos se arregalaram de horror assim que senti a umidade contra o meu nariz, acompanhada de perto pelo cheiro acre de algo que só podia ser nomeado como clorofórmio.

Por puro instinto, já completamente dominada pelo terror, tentei me debater ou mesmo acertar-lhe alguns chutes, o que se mostrou uma grande estupidez. Pelo amor de Deus, aquele já fora o homem capaz de derrotar sozinho um exército de Strigoi! Que chance eu tinha agora que ele havia passado para o lado negro da força?

Eu não podia desistir, simplesmente não podia. Ainda tive tempo de cuspir uns dois palavrões contra o pano que ameaçava me sufocar enquanto lutava para afastar sua mão do meu rosto, mas um segundo depois comecei a perder a consciência. De uma hora pra outra meus reflexos se tornaram lentos ― quase inexistentes ― e meus membros passaram a pesar o dobro do normal, obrigando-me a desistir. Assim que me sentiu amolecer, Dimitri afrouxou um pouco o aperto, aconchegando-me melhor contra si. Ele nitidamente não tinha a intenção de me machucar, ao menos não ainda, e eu o odiava por isso. Eu o odiava por se parecer tanto com o meu Dimitri, por despertar em mim os mesmos sentimentos de antes, quando, na verdade, tudo o que eu mais queria era enxergar o monstro por trás daqueles olhos escuros que eu tanto amava.

Preciso esquecer você. Preciso...

Dopada e liberta de qualquer pensamento coerente, um pequeno sorriso de satisfação surgiu em meus lábios antes de a escuridão finalmente se abater sobre mim.

Nada mais no mundo importava agora. Não quando eu estava mais uma vez em seus braços.

***

Dimitri Belikov

Assim que senti Rose se desfalecer contra meu corpo, permiti-me sorrir.

Era isto, finalmente. Depois de quase sete meses focado na tarefa de arquitetar um novo plano para chegar até ela sem adquirir sucesso algum, confesso que estive prestes a colocar um fim a esta história sem sentido. Rose era uma garota compenetrada e de fortes ideais, e embora eu a admirasse imensamente por isso, não poderia negar que sua insistência em seguir as regras e valores antiquados dos Moroi me irritava ao extremo. Eu lamentava o fato de que seus princípios fossem tão mesquinhos em comparação ao que ela poderia adquirir caso se juntasse a mim. E isso, somado a sua recusa em compartilhar a vida imortal que eu almejava para nós, apenas atrasava meus planos.

Também me recusei a acreditar em minhas próprias atitudes quando finalmente percebi a estupidez que estava fazendo. Eu simplesmente deixara que o meu ódio e sede de vingança dominassem meus pensamentos, perdendo toda a racionalidade em minhas ações quando decidira ir atrás de Rose para matá-la. Eu costumava desprezar tanto os Strigoi que criavam impérios com base nesses argumentos estúpidos, como se sua simples vontade não fosse o suficiente. E de fato, não era. Só que eu não notara isso até então.

Eu precisava de um império pelo simples fato de querer o poder todo em minhas mãos, almejando governar sem ser questionado por ninguém. Mas isso não seria possível sem que houvesse ao meu lado uma pessoa em quem eu confiasse – mesmo que eu jamais faria isso cegamente. Rose era essa pessoa. Ela era a única que pensava e agia da mesma forma que eu. Nós trabalhávamos tão bem em conjunto que parecíamos a extensão do outro. E o fato de que ela fora treinada por mim, além, é claro, de seus sentimentos afetivos que nos fizeram envolver no passado, apenas me oferecia uma vantagem a mais.

Rose morta seria um enorme desperdício. Havia algo nela que eu não era capaz de me desprender: talvez seu cheiro doce ou o gosto de seus lábios, até mesmo a postura altiva que exalava seu poderio e que eu considerava essencial a alguém que eu escolhesse para me servir. Eu absolutamente não saberia dizer. Apenas que argumentos como ameaças ou singulares riscos que outros Strigoi ofereciam não eram suficientes para me convencer tão facilmente a abrir mão de alguém tão valioso. Sim, ela era um desafio e apresentaria perigos incalculáveis quando se tornasse como eu, mas a cada dia que se passava eu me encontrava mais forte e poderoso, podendo acabar com ela em segundos sem me preocupar.

Além disso, eu acabei não cogitando que sua ausência no mundo tornaria minha vida monótona e pacata. Desde que me tornei um Strigoi, passei a perseguir sua imagem como um morto de sede procura água no deserto. Matei tantas garotas que me lembravam sua fisionomia que já não era capaz de me lembrar, senti falta de seu cheiro e de sua voz, algo que fazia parte de minha rotina e eu estava mais do que acostumado a lidar. Embora eu odiasse admitir coisas sobre minha antiga vida como Dhampir, eu não tinha forças para negar nada que a envolvesse. Acreditava, inclusive, que a única coisa que o antigo Dimitri fizera de bom foi encontrar e proteger alguém como Rose.

E foi por isso que, durante quatro meses depois de meu último ataque desastroso, eu foquei-me simplesmente nela. Não envolvi nenhum humano, muito menos outros Strigoi, ao contrário, assim que fiquei sabendo que ela optara por fugir da corte mais uma vez, dei um jeito de me livrar de todos os empecilhos em meu caminho o mais rápido possível. Passei dias apenas seguindo seus poucos rastros, pensando em uma forma eficaz de fazê-la acreditar que eu havia desistido de persegui-la. Tive a oportunidade perfeita quando um noticiário local reportou meu primeiro assassinato, que eu evidenciara propositadamente, e segui na mesma linha até que ela compreendesse minhas reais intenções. Rose era esperta e parecia me ler como ninguém, e eu jamais agradeci tanto aquela habilidade como no momento em que percebi sua corrida desenfreada por meus passos silenciosos.

Eu adorava um bom jogo, e não faria de outra forma com ela – ainda mais pela perspectiva de que seria Rose bem atrás de mim. Eu me divertia ao inverter os papéis e me sentir como uma presa de vez em quando, mesmo que isso estivesse muito longe de ser a verdade. Gostava particularmente de dar uma falsa impressão de vitória e segurança àquele que estivesse a minha caça, uma esta que, na verdade, ele não possuía. E sem perceber, ele se encaminharia por vontade própria ao abate provocado por mim.

E claro, isso não foi diferente com Rose.

Fiquei um pouco pasmo quando percebi que fora tão fácil atraí-la. Bastaram-me algumas mortes para que Rose se sensibilizasse e seu altruísmo falasse mais alto do que a própria preservação, mas como ela sempre foi ensinada a colocar sua vida em segundo plano, não seria eu a impedir tal hábito. Ela seguiu meus passos lentamente no começo, não muito certa sobre aonde eu queria chegar com aquilo. Porém, conforme eu seguia sempre o mesmo padrão, matando as jovens garotas em um mesmo horário e em um determinado local que fizesse relação com nossos melhores encontros românticos do passado, tudo pareceu fazer sentido a ela. Eu a acompanhei correndo contra o tempo para salvar a vida de pelo menos uma das moças, mas eu não estava disposto a facilitar seu trabalho – muito menos ceder a sua vontade –, deixando algumas pistas em seus corpos feridos pouco antes de abandonarem este mundo.

A última delas me pareceu a mais complicada. Eu não sabia se Rose teria condições de seguir com a busca frenética a alguém como eu, portanto, facilitei sua vida de forma sorrateira, ajudando-a a encontrar meios mais práticos para chegar até mim. Portland, por fim, foi o destino que escolhi para nosso encontro tão esperado. Seria como colocar um fim a uma história bem em seu ponto inicial.

Aquilo me excitava ao extremo. Eu me sentia mais e mais ansioso para tê-la de uma vez em meus braços, só que da maneira certa. Eu não a deixaria escapar como das últimas vezes. Estava disposto a esperar o que fosse preciso por sua decisão, que mudaria o rumo de nossas vidas até a eternidade. Porém, passei tanto tempo traçando planos, caminhos e meios em minha mente que, quando percebi, a materialização de tudo já acontecia bem diante de meus olhos, não me dando tempo sequer para aproveitar as coisas como eu gostaria.

Foi inevitável comparar aquele encontro com o primeiro ocorrido naquelas ruas, quando eu mal suspeitava sobre o que o destino me guardava. Sorria sozinho ao lembrar de como eu fora ingênuo, perdendo noites de sono na esperança de não decepcionar mais ninguém, quando na verdade eu deveria estar pensando em mim mesmo. O lado bom de tudo foi que, com isso, Rose entrou na minha vida. Creio que, caso eu soubesse que tudo acabaria de tal forma, teria ao menos feito as coisas de outra maneira – talvez aproveitado mais as oportunidades que tive para sucumbir aos meus desejos, ou mesmo fugido com ela quando tive a chance. Eu sabia que o antigo Dimitri jamais quereria ser um Strigoi, mas, se tudo se concluísse dessa maneira no fim das contas, não me custaria nada ter um par de histórias interessantes para recordar.

Um baixo resmungo vindo de Rose foi o que chamou minha atenção para ela mais uma vez, alarmando-me. Não seria nada agradável se ela acordasse antes da hora programada. Eu sabia que ela estaria pronta para acabar comigo na primeira oportunidade que obtivesse, e que, diferentemente da primeira vez em que nos confrontamos aqui, ela saberia exatamente o que fazer para me matar. Por isso, apressei-me em levá-la até o carro furtado que adquiri algumas noites antes e a amarrei com força, cuidando para que nada pudesse ajudá-la na sua suposta fuga. Aproveitei meu tempo e amordacei sua boca para que ela não gritasse, afinal, chamar atenção de algum policial humano seria um inconveniente que eu não estava disposto a tratar.

Quando me certifiquei de que tudo estava em seus conformes, ajeitei-me no banco do motorista e dei a partida no carro, pronto para iniciar meus movimentos. A viajem seria longa devido ao destino que escolhi, porém, eu não me importava. Tempo era algo relativo a mim uma vez que eu era imortal, e agora que tinha posse de meu bem mais precioso não havia mais nada a temer. Dirigi com mais cuidado do que o usual, no entanto. Eu não queria correr o risco de sofrer um acidente, mesmo que meus reflexos fossem perfeitos, pois seria imperdoável perder Rose de tal forma depois de tudo. Fora isso, permiti-me desligar de quase tudo ao meu redor e me focar na adrenalina que corria por minhas veias sempre que lembrava do fato de estar com ela bem ali, no banco de trás. De segundo em segundo, eu espiava pelo espelho retrovisor sua silhueta dormente e bela, que respirava profundamente em um sono tranquilo.

Aquela era uma ótima visão, eu tinha de admitir, mas nada era melhor do que tê-la em movimento, pronta para o ataque, selvagem e determinada. Tinha algo de excitante em assisti-la se preparar para enfrentar algum inimigo, e mais ainda quando esse era eu. Havia algo em seus olhos que me atraía, talvez aquele brilho assassino ou sua postura valente, eu não saberia dizer. Apenas que seus movimentos precisos como Dhampir seriam ainda mais letais em sua vida imortal, e eu estava resignado em tentar de todas as formas convencê-la, nem que me levasse anos. Afinal, agora que ela estava longe da corte e de Vasilisa, nada me impedia. Ela era minha para eu fazer o que bem entendesse.

Horas depois, quando finalmente atingi a pequena estrada de terra íngreme que me levaria até nosso destino, Rose demonstrou alguns sinais de estar despertando. Como eu havia colocado a quantidade exata de clorofórmio para que ela dormisse apenas durante o percurso, era natural que o efeito estivesse passando, mas não me preocupei. Ela ainda estaria grogue por mais alguns minutos e eu tinha certeza de que não tentaria nada para me ferir, ainda mais quando ela não sabia onde estávamos e também que eu era sua única fonte de informação. Por isso, relaxei ainda mais no banco e esperei, ligando a rádio naquela estação que ela odiava, apenas para vê-la irritada.

Meu esporte favorito era brincar com ela.

A lomba seguiu por mais alguns quilômetros e Rose finalmente acordou, olhando ao redor com curiosidade e fazendo força para manter seus olhos abertos.

– Bom dia, bela adormecida. – Eu disse com um sorriso malicioso. Rose arregalou os olhos e começou a se debater, murmurando algo que eu suspeitava ser um xingamento bastante grosseiro. Gargalhei alto com sua reação. Era tão a cara dela fazer isso que eu não estava surpreso. Sorte a minha que eu a prendera bem antes de sair, já que se ao contrário fosse eu estaria perdido. – Acalme-se. Assim você vai se cansar antes da hora. Espero que goste da surpresa que eu preparei para você.

Seus olhos cerrados na minha direção foram a minha resposta.

Ri comigo mesmo e me virei mais uma vez para frente, tentando me focar no caminho. Era irritante fazer isso enquanto Rose resmungava e se debatia no banco de trás, mas eu não me importava, ao contrário, aquilo apenas me animava mais. Significava que ela estava a minha mercê. Por isso, fingia categoricamente que não me afetava com a sua presença, dirigindo despreocupado pelo terreno cada vez mais irregular e denso de árvores. A caminhonete que eu escolhera era perfeita para a missão, passando pelos buracos do caminho suavemente, apenas algumas ondulações atrapalhando conforme eu dirigia. No entanto, não demorou muito para que a mata se abrisse aos poucos, dando lugar a um gramado exuberante que, mesmo à luz do pôr do sol, brilhava intensamente.

Mais ao longe, havia uma trilha de paralelepípedos bastante extensa, ladeada por árvores de troncos finos e copas modestas. A estrada seguia por mais alguns metros até que a ponta de uma construção fosse aparente, e conforme eu me aproximava, mais era possível distinguir o tamanho do lugar. A bela mansão em estilo rústico se estendia em uma enorme área logo a frente, cobiçando meus olhos a cada centímetro que eu avançava na sua direção. O lugar era ainda mais bonito do que eu me recordava ter visto no catálogo quando o aluguei, e seria um belo investimento quando eu e Rose construíssemos nosso novo império. A localização era isolada e não havia vizinhança alguma no raio de trinta quilômetros, ou seja, perfeito para os planos que rodeavam minha mente.

Estacionei o carro próximo a garagem, ainda do lado de fora, e me permiti respirar fundo pela primeira vez. O cheiro de Rose estava alastrado pelo carro e combinava tão bem com o ar puro e levemente amadeirado de fora que eu fiquei parado por longos minutos apenas apreciando a sensação. Como a noite estava quase surgindo por completo e em breve eu poderia sair sem correr o risco de me queimar, permaneci apreciando a linda paisagem que se estendia diante de mim através do vidro pintado.

– Você não acha esse lugar perfeito? – Eu perguntei. – Não seria nada mal para um começo. Talvez eu o compre, mas só se você quiser. Precisamos de um imóvel apenas nosso para dar início aos meus planos.

Olhei para trás a fim de observar a reação de Rose e me deparei com seu balançar de cabeça frenético, como se ela discordasse piamente do que eu estava lhe propondo. Suas narinas se dilataram e ela respirava com força. Parecia estar com raiva.

– Eu sei o que você está pensando. – Sussurrei com um meio sorriso. – Mas não vai adiantar de nada desta vez. Nós dois estamos sozinhos aqui, ninguém está a sua procura. Na verdade, você é uma fugitiva agora. – Rose revirou os olhos. – Nada do que você disser me fará mudar de ideia.

Continuei olhando para ela, varrendo todos os detalhes de seu rosto e corpo. A visão era a mais extasiante de todas. Com ela ali, completamente indefesa e submissa, eu me sentia o ser mais poderoso de todos, já que nenhum outro conseguira o que fui capaz: domar Rose Hathaway. No entanto, meu monólogo começou a ficar monótono sem as suas réplicas. Eu adorava as piadas irônicas que ela tentava usar para escapar de qualquer situação de perigo que estivesse, não sendo diferente nesta. Por isso, em um rápido movimento, desatei o nó que prendia seus lábios separados e o retirei dela sem hesitar.

– Melhor? – Questionei.

– Se você acha que estar completamente amarrado e com dor de cabeça é algo bom, então sim, estou ótima. Obrigada.

Sorri de lado.

– Uma pena você dizer isso. Mas a escolha foi sua, sabe. Eu ofereci uma grande oportunidade em Portland, só que você sempre se recusa a me dar ouvidos. Já pensou se tivesse aceitado minha proposta ainda lá na Rússia? Nós poderíamos muito bem estar juntos agora, um nos braços do outro, mas o que foi que você fez? Ah, sim, tentou me matar. Várias vezes. – Olhei-a de esguelha. – Não foi algo muito sensato de sua parte.

– Eu tive que fazer aquilo. – Ela disse com um suspiro. – Ainda não consigo acreditar que falhei – três vezes. Mas se não fossem Lissa e Christian me empurrando para longe lá naquele depósito você estaria da maneira como deveria estar. Morto.

O sorriso sumiu de meus lábios.

– Se eu fosse você, não ficaria tão confiante de si mesma. Ou esqueceu que eu consegui capturá-la sem nenhum esforço?

– Não.

– Ótimo! Que isso fique bem claro então. – Olhei-a profundamente, vendo-a assimilar o que eu acabara de dizer e, com prazer, pude captar uma centelha de medo, ainda que ela lutasse para esconder isso. – Mas agora, onde eu estava? Ah, sim. O que achou da casa? Muito modesta para você? Ou não? Conhecendo você da forma como conheço, sei que vai achar um tremendo desperdício do meu dinheiro, mas eu tenho que discordar. Este é um excelente investimento.

Rose permaneceu em silêncio, mas, depois do meu olhar irritado, pareceu pensar duas vezes.

– Se você diz, quem sou eu para discordar? – Ela exclamou simplesmente.

Franzi as sobrancelhas.

– Concordou assim, tão rápido? Eu pensei que você não quisesse nada a ver com um Strigoi. – Um novo sorriso extenso se abriu em meus lábios. – Será que mudou de ideia? Espero que você permaneça com esses pensamentos para quando eu despertá-la, mas… O que foi que aconteceu? Finalmente perdeu a força de vontade?

Ela riu sem humor e passou a admirar a vista de fora.

– Isso nunca. Apenas aprendi que não adianta discutir com um Strigoi.

– E por que acha isso?

Ela suspirou.

– Porque eles são teimosos e não aceitam perder. E você não é diferente.

– Está admitindo a derrota? Assim não tem a menor graça. Eu quero jogar.

Continuei encarando-a a procura de uma resposta, mas ela nada disse. Aquilo era estranho. Eu tinha duas opções rondando minha mente: ou ela realmente estava cansada daquela situação, ou matutava um plano para fugir.

Eu me inclinava mais para a segunda.

– Mas eu não. – Ela disse finalmente. – Nós já jogamos isso antes, lá na Rússia, lembra? E, depois, em Las Vegas e também naquele depósito perto da corte. Você nunca vai ficar satisfeito? Não compreendeu que não vai ser possível continuar assim?

– Eu não vejo desse modo. – Repliquei. – Apenas que falhei em todos os métodos que escolhi. Nas outras vezes, nós estávamos sempre envolvidos com mais alguém: Galina na Rússia, Eddie em Las Vegas, Lissa e Christian no depósito… Vê? Alguém sempre no caminho. Mas agora eu não vou cometer esse erro. Não há mais ninguém além de nós dois aqui.

Rose suspirou, vencida. Parecia cansada.

– Você não entende… Eu não quero nada disso. Você me disse uma vez que eu era uma ameaça e que não deveria viver, então, já que eu não consegui nenhuma brecha para te matar, faça isso você mesmo comigo. Ou então, me solte e me deixe ir embora.

– Eu não quero matar você, Roza. Já disse isso. – Revidei.

– Mas e por que não?! – Ela berrou. – O que fez você mudar de ideia?

Encarei-a por um tempo e coloquei meu cotovelo sobre o encosto do banco. Eu tinha muitos planos pensados para quando a despertasse, mas não achava sensato citar nenhum deles agora. Por isso, simplesmente tentei desviar o assunto para outro lugar, colocando em minha voz o tom mais sombrio que eu possuía:

– Porque você fica praticamente irresistível quando está amarrada, e seria um desperdício matá-la quando tenho coisas bem mais prazerosas em mente.

Com deleite, observei-a engolir em seco.

– Eu não sei se essa é uma boa ideia. – Ela disse, fazendo-me rir.

– Uma pena que sua opinião sobre isso não me importe muito.

Em um salto, abri a porta da caminhonete e me impulsionei para fora, sentindo a golfada instantânea de odores me atingir. A lua já era visível no céu escuro, mas isso em nada me impedia de enxergar cada detalhe com primor; porém, ao invés de permanecer compenetrado na paisagem, dirigi-me até a porta a qual Rose estava e a abri. Ela automaticamente se encolheu para longe, afastando-se de mim.

– Rose, fugir não vai adiantar de nada na sua situação.

– Pelo menos minha consciência estará tranquila.

Coloquei minhas mãos sobre o capô e me abaixei até que eu pudesse vê-la por inteiro. Balancei a cabeça para os lados e mordi o interior das bochechas levemente.

– Vai ser do jeito fácil ou do jeito difícil. – Eu disse. – Escolha.

Rose encostou a cabeça contra o banco.

– Prefiro que me deixe aqui. É uma boa escolha para você?

Revirei os olhos e suspirei longamente.

– Pelo visto, vai ser do difícil.

– Dimitri, o que quer dizer com…?

Suas palavras foram interrompidas quando alcancei seu corpo diminuto e a puxei com força na minha direção, arrastando-a até a borda do banco e virando-a de frente para mim. Segurei suas pernas firmemente antes de erguê-la de uma vez e colocá-la sobre meu ombro esquerdo, seus membros se debatendo conforme eu caminhava para dentro da casa.

– Dimitri! – Ela esbravejou. – Me ponha no chão!

– Calada. – Disse calmamente, meu tom baixo um pouco ameaçador. – Se você ficar se mexendo será pior.

Com uma obediência absurda, Rose se deixou ser carregada até a sala principal da mansão, onde tranquei as portas logo depois de passar. Nem me preocupei em ligar as luzes – afinal, além de minha visão ser apurada, eu conhecia cada canto dali como a palma da mão – e subi diretamente para o quarto principal, onde a coloquei sentada sobre a enorme cama de casal. Sua irritação era palpável e apenas me fazia divertir; eu não poderia estar mais feliz do que naquele momento.

Sem mais resistir a sua presença tão próxima a mim, lentamente caminhei em sua direção até que me encontrasse bem perto, inclinando-me sobre ela. Seu tronco ia para trás na mesma intensidade com que o meu ia para frente. Eu sabia que ela se esquivava do meu toque, mas também que era apenas por medo de não resistir a mim. Depois de nossas noites na Rússia, eu descobri que tinha uma influência maior do que a esperada sobre seu corpo, que parecia responder bem mais positivamente do que suas feições indiferentes queriam demonstrar. Por fim, inalei seu perfume intenso de rosas, sobrevoando sua jugular com um dos dedos. Tive que lutar muito para não sucumbir ao desejo de enfiar minhas presas ali.

– Ah, Roza. – Sussurrei perto de seu ouvido. – Você não costumava fugir de mim um tempo atrás, principalmente quando havia uma cama por perto.

Tive o prazer de observá-la ficar sem palavras.

Aquilo era raro em se tratando dela, mas não completamente impossível, o que se provava naquele momento. E conforme eu continuei investindo sobre ela, arrastando-a para o meio da cama lentamente, seus olhos se arregalavam mais e mais na minha direção. Rose sabia que estava completamente rendida e submetida a qualquer vontade que eu pudesse exprimir e aquilo me excitava ao extremo.

Suas mãos ainda estavam amarradas para trás do corpo e ela me olhava com evidente pavor, mas havia outra coisa ali, algo mais denso e fervente: seu desejo. Fitei com interesse seus olhos, em busca de uma confirmação para o sentimento, mantendo o contato visual por longos minutos de agonia. Eu tinha, a todo momento, que relembrar a mim mesmo que tínhamos todo o tempo do mundo, que eu não precisava me apressar, mas era complicado ao nível além das expectativas. Então, depois de finalmente me render a minha própria vontade e ao desejo cru de ambos, deslizei minhas mãos pelas laterais de seu corpo, sentindo-a depois de tanto tempo, mesmo com o tecido incômodo de sua roupa atrapalhando meu caminho.

Ela se retesou no mesmo momento e, conforme eu abria o fecho de seu casaco, separando-o e o descendo um pouco pelos ombros, ao mesmo tempo em que deslizava meus lábios pela pele quente e pulsante de seu pescoço, mais impaciente ela parecia. Rose se remexeu como pôde sob minhas mãos, impedindo-me de fazer um bom trabalho com a roupa ainda entre-aberta.

Olhei-a com raiva.

– Quer parar com isso de uma vez?! – Grunhi, mas ela não me deu ouvidos. Continuou a se esquivar do meu toque, usando os pés para aplicar chutes em minhas coxas. Segurei-as no lugar impacientemente, encarando-a com uma vontade tremenda de lhe dar uns tapas.

– Se não vai me matar, o problema é seu. – Ela expeliu de volta, as feições enojadas. – Mas eu não vou ficar aqui servindo como sua prostituta novamente.

– Oh. É isso que você pensa? – Inquiri, surpreso. – Que quero transformá-la em minha prostituta particular?

– E não é o que você quer? – Disparou.

Cerrei os olhos na sua direção, irritado pela sua teimosia.

– Claro que não. – Ela riu.

– Claro. E por que mesmo estou aqui amarrada na sua cama? Decoração de ambientes?

As frases saídas de sua boca tiveram o efeito de explodir minha paciência. Com movimentos rápidos, tanto que ela mal percebeu até ser tarde demais, usei minha força para erguê-la com brutalidade até a ponta da cama, onde a virei de bruços com o tronco inclinado sobre o colchão. Seus joelhos firmemente presos entre minhas pernas contra o chão de madeira. Eu sabia o quão desconfortável era a posição, mas não poderia me importar menos. Em um impulso, agarrei seus cabelos para virar seu rosto na minha direção. Ela arregalou os olhos em surpresa, tentando inutilmente voltar o corpo à posição original. Sem sucesso, claro.

– Quieta! – Ralhei com ira. – Cansei das suas piadas. Também do fato de você se fazer de difícil quando ambos sabemos que você está doida para me ter por perto.

– Isso não…!

– Calada. – Cobri sua boca com minha mão, usando a outra para abrir o botão e o fecho da calça jeans, deslizando-a rapidamente para baixo. – Vou lhe ensinar boas maneiras como se deve: do jeito tradicional e infalível que meu pai fez o favor de me mostrar.

Um arrepio denso cobriu seu corpo e isso bastou para que um sorriso de vitória se abrisse em meus lábios. Aquele era o meu momento de glória, a parte em que eu demonstraria que, não importando o que acontecesse, sempre voltaríamos um para o outro.

– Não sei se você sabe, mas desenvolvi uma habilidade imensa de subjugar minhas presas. – Tagarelei enquanto deslizava a palma de minha mão pela pele quase desnuda de seu traseiro, deliciado com a textura macia. – Quando ouço seus gritos, então, é alucinante. Nunca poderia adivinhar o quão excitante seria usar minhas mãos dessa forma.

– E como é que você… Au! – Rose soltou um grito assim que minha palma entrou em contato com sua pele, um vergão vermelho automaticamente surgindo. – Cacete, Dimitri!

Gargalhei em meu lugar.

– É isso que você ganha por me desafiar. – E mais um tapa se adicionou ao anterior, só que na outra nádega. Em seguida, usei a frieza de minha mão para massagear a pele irritada. – Se eu fosse você, não faria isso de novo.

Um rubor intenso tomou conta de suas bochechas assim que concluí minha frase. Eu suspeitava ser devido à posição na qual estávamos, afinal, Rose não gostava do fato de ser controlada por alguém, mesmo que essa pessoa fosse eu. Só que minha confiança não me permitiu ficar irritado com seu silêncio, já que eu possuía o controle da situação. Ao contrário, isso apenas fez com que o sorriso – já extenso – apenas se alargasse mais em meu rosto.

– E então? – Perguntei, sem nunca parar com minhas carícias por sua pele. Meus dedos estavam se deliciando ao senti-la tão eroticamente outra vez. – Vai continuar lutando?

Ela engoliu em seco.

– Não. Eu não vou.

– Hum… Será mesmo? Posso confiar em você? Ou será que preciso provar que, na verdade, seu corpo não está nenhum pouco disposto a escapar de mim?

Sem dar tempo para qualquer resposta, movi minha mão em direção ao meio de suas coxas, subindo lentamente enquanto sentia seus pêlos se arrepiando. Foi um alívio – não sei se mais para ela ou para mim – quando finalmente rocei meus dedos na pele macia de seu sexo, atestando quase que imediatamente o quão molhado ele estava.

Ela praguejou ao mesmo tempo em que eu ri em seu pescoço.

– Está vendo isso? – Disse enquanto levemente aplicava uma pressão em seu clitóris, para logo após descer e, em seguida, voltar. – Tão rápida em negar, mas seu corpo te trai. Sempre estive certo ao dizer que o perigo excita você.

Rose nada disse, mas foi impossível para ela permanecer em silêncio enquanto eu cobria sua entrada com dois dedos, meu polegar complementando os movimentos em seu clitóris. Quando ouvi seu primeiro gemido, então, não pude me segurar. Permaneci naquele vai e vem durante um bom tempo, até que, enfim, senti suas paredes se contraindo, sua cabeça repousando em meu ombro e os olhos fechados complementando sua expressão de prazer.

Mas eu não deixaria que ela o obtivesse.

De súbito, retirei minhas mãos de seu corpo, deixando-a atônita e sem rumo. Ela me encarou com os olhos arregalados e enegrecidos, piscando rapidamente como se quisesse se situar da realidade outra vez. Não precisava ouvir nenhuma reclamação dela para saber que se perguntava os motivos que me levaram a parar com tudo.

– Esse foi o seu castigo. – Expliquei com os olhos cerrados e, para provocá-la, coloquei meus dedos indicador e médio na boca, chupando-os com força e automaticamente sentindo o sabor salgado e exótico de sua excitação. – Hum… Você tem um gosto bom. Não pude prová-lo da outra vez. Gostaria de fazer isso agora.

– O quê? – Ela exclamou, confusa. Sorri.

– Isso mesmo que ouviu. Sente-se ali. – Apontei para a cama.

Muito relutante, Rose seguiu minha ordem. Eu podia ver a dúvida cercando seus olhos, a batalha que ela travava naquele instante. Seria tão mais fácil se ela simplesmente se deixasse levar! Mordi meu lábio inferior para conter a repreensão que estivera a ponto de sair, pois não queria deixá-la ainda mais esquiva. Aquilo era tão estranho. Eu usualmente não media palavras em minha vida como Strigoi, porém, havia algo em Rose, mesmo depois de minha transformação, que não me permitia tratá-la como outra pessoa qualquer. Talvez fossem as lembranças dos momentos de cumplicidade mútua que vivenciamos, tão ágeis em batalha, tão bons juntos. No entanto, por mais que eu quisesse encontrar uma razão, nada aparecia. E eu não estava muito disposto a perder meu tempo com isso.

Balançando a cabeça para espantar minhas preocupações acerca do assunto, rapidamente me distraí com a visão de seu corpo seminu sobre o colchão. Seu cheiro era intenso dentro do quarto fechado, e me permiti uma longa respiração antes de esticar a mão até o bolso de meu casaco, tirando de lá um estilete que estivera guardando. A luz minguante do crepúsculo que ainda conseguia adentrar o cômodo mergulhado na penumbra fez a lâmina refletir diante de nossos olhos, e Rose automaticamente arregalou seus próprios ao avistá-la, provavelmente apavorada com o que eu estava prestes a fazer.

Eu apenas sorri.

– Não se preocupe, Roza. – Disse com a voz suave, sentindo a conhecida onda de poder tomar minha mente conforme eu aplicava uma leve compulsão em minhas palavras. – Não é nada do que você está pensando. Que tal relaxar e simplesmente… Aproveitar o momento?

Para demonstrar que eu não queria nada demais, estiquei a gola de sua camiseta com o dedo indicador, posicionando a navalha do estilete sobre ela e, com um movimento rápido, cortei o tecido de cima a baixo. Ela retesou todos os músculos e desviou o rosto no mesmo momento, mas eu não estava olhando para ele. Meus olhos cobiçosos sobrevoavam calmamente os desenhos de seu dorso e os contornos abundantes de seus seios, que estavam cobertos por um sutiã de cor preta. Eu já os havia visto tantas vezes, mas assim, olhando-a, parecia ser a primeira.

Meus dedos, por vontade própria, deslizaram pela pele de sua barriga, sentindo a textura macia e rígida da pele, ouvindo-a ofegar por entre seus lábios abertos, provavelmente devido à frieza de minha mão. Eu contornei seu umbigo, subi pelo abdômen e alcancei com delicadeza a parte inferior do bojo, sentindo-a se arrepiar mais a cada momento, mas não parei. Com um movimento rápido e repentino, rasguei o restante das peças de cima, atirando-as em qualquer canto. Depois, deslizei as alças do sutiã para baixo, enfiando minhas duas mãos dentro dos bojos e tomando posse dos seios fartos, cujos mamilos ficaram rijos sob meu toque. Lancei-lhe um sorriso lascivo antes de inclinar a cabeça na direção de um deles e esticar o mamilo entre meus dentes, depois, chupando-o com um pouco de força, a outra mão nunca parando de massagear o seio esquerdo.

Permaneci naquele processo por longos minutos, repetindo-o em seguida com o outro. Rose já não aguentava mais, chamando meu nome suavemente, mas impaciente, suplicando, grunhindo para que eu sucumbisse com a tortura e me enterrasse nela de uma vez. Porém, permaneci impassível, apenas deslizando meus lábios em sua barriga, descendo lentamente, tão lentamente… Até que eu cheguei ao nível de seus pêlos pubianos.

– Dimitri, por favor… – Ela repetiu.

– Shhh. – Sussurrei enquanto esfregava meus dedos entre as suas coxas. – A pressa, como dizem, não combina com a perfeição.

– Oh, deus. – Ela grunhiu, cerrando os olhos e jogando a cabeça para trás.

Alcancei os contornos de sua cintura, raspando os dedos de um lado a outro de seu quadril. A espera também estava me matando, mas eu sabia que valeria a pena depois. Em seguida, enlacei o cós de sua calcinha, descendo-a para fora de seu corpo. Rose flexionou os quadris para cima, ajudando-me na tarefa de retirá-la. Inclinei-me para trás apenas para tirar os seus tênis em conjunto com as meias a fim de poder atirar as peças faltantes, finalmente, para algum canto.

Meus olhos escanearam seu corpo seminu com desejo e veneração. Rose parecia uma antiga obra de arte, moldada com tamanha perfeição que chegava a me abismar. Seus longos cabelos estavam revirados de uma maneira sexy e ela respirava em doses curtas, difíceis. A lingerie escura retocava sua pele maravilhosamente bem, realçando cada detalhe. Eu permiti-me deliciar com a visão antes de finalmente me render, rasgando o tecido do sutiã e o jogando como companhia ao restante das roupas. Firmei o aperto de meus dedos ao redor de seus tornozelos, os olhos cerrados, meus lábios contornando cada pedaço de pele, subindo pela panturrilha, chegando aos joelhos e coxas, onde levemente arranhei com os dentes, ouvindo-a gemer entre murmúrios. Um sorriso escapou de meus lábios, mas continuei com a brincadeira até que, por fim, eu estava com o rosto pairando sobre meu objeto de desejo. Rose se contraiu em expectativa, mas firmei o aperto em suas coxas, impedindo-a de se mexer.

– Quieta. – Ralhei. – Se você continuar se mexendo, vou amarrar seus pés também.

Ela gemeu em frustração outra vez, mas não me detive a isso, pois estava aproveitando sua distração para deslizar a língua ao longo de toda a extensão de sua abertura. Como o previsto, Rose se retesou com o choque, soltando um grito de surpresa. E enquanto minhas mãos voavam livres por onde pudessem encontrar pele – quadris, barriga, seus seios –, minha língua trabalhava avidamente em seu clitóris, circulando, chupando, mordendo… A esta altura, seus gemidos estavam mais altos, mais pedintes, e cedi à tentação de introduzir um de meus dedos dentro dela, atestando o quão molhada ela ainda estava, mas sem interromper o vai e vem, lentamente.

– Puta merda. – Ela grunhiu. – Isso é… Ah, Dimitri…

– Eu sei, eu sei. – Sussurrei lascivamente, desviando meus olhos para cima até encontrar seu rosto revirado em uma careta de prazer. Introduzi o segundo dedo apenas para conferir qual seria sua reação, deliciando-me ao vê-la se desfalecer aos poucos.

Voltei minha atenção para o doce feixe de pele mais abaixo, rendendo-me à impaciência mais uma vez, intensificando os movimentos, meus lábios sugando com força e destreza o clitóris rígido enquanto meus dedos aplicavam giros complementares. Rose já não poupava seus palavrões, gemendo, arfando, gritando. Até que senti seu interior se contrair, seu corpo todo estremecer e ela finalmente se render ao orgasmo arrebatador que a acometeu.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Observei ao espetáculo com deleite e satisfação, aguardando até que aquele frenesi intenso lentamente deixasse seu corpo. Seu lábio inferior estava levemente inchado, provavelmente por causa das mordidas que ela dera para conter os sons de sua boca, e não pude resistir à tentação de me inclinar sobre eles e sugá-los eu mesmo, passando minha língua da mesma forma que fizera antes, fazendo-a sentir seu próprio sabor. Rose atacou minha boca de volta, beijando-me com fúria e tesão, nossas línguas duelando sensualmente em um movimento fugaz.

Repentinamente, inclinei-me para trás, levantando-me de frente para ela e arrancando minhas peças de roupa com impaciência. Seus olhos acompanhavam cada movimento meu, observando-me com fascinação. Assim que me livrei do último item, encarei-a com atenção, tentando me decidir sobre o que fazer primeiro.

– Vire-se de costas. – Eu ordenei finalmente.

Ela franziu o cenho.

– Como?

– Aqui, levante-se. – Segurei em seus braços, tomando o cuidado para que suas mãos amarradas não lhe machucassem, e a puxei de encontro a mim. Estávamos parados diante da ponta da cama agora. – Vou comer você de quatro.

Rose abriu seu melhor sorriso safado, os olhos brilhantes pela surpresa.

– Quando foi que você aprendeu essa linguagem tão chula?

Acompanhei seu sorriso, traçando seu queixo com meus dedos.

– Ah, Roza, há tantas coisas sobre mim que você desconhece…

– Mostre-me, então.

Mal fui capaz de assimilar suas palavras quando, em um movimento rápido, Rose já estava de costas para mim, seu corpo tencionado com a expectativa do que eu faria. Admirei seu corpo por um novo ângulo, ansioso para tocar cada parte que eu pudesse, enfim me rendendo ao desejo quando passei uma das minhas mãos por debaixo do manto espesso de seus cabelos, agarrando-os em meus dedos e os puxando a fim de inclinar seu pescoço na minha direção. Salpiquei diversos beijos e suaves mordidas na região, provocando-a com meus dentes para logo depois lamber suavemente. Minha mão livre se aventurava por seu corpo, massageando a pele de seus braços, costas, bunda e pernas, nunca pressionando por completo, mas sim explorando.

Até que eu não fosse mais capaz de segurar meu desejo ardente de possuí-la. Fiz com que ela se ajoelhasse outra vez e abri suas pernas em um único movimento, posicionando-me rente atrás dela, mas apenas isso. Seu corpo se contorcia logo abaixo, Rose inclinava a cabeça contra o colchão e seus cotovelos estavam esticados ao máximo, suas mãos loucas para me tocar. A expectativa era evidente em sua expressão, seus lábios se abrindo levemente com a respiração difícil.

A visão de seu corpo daquela maneira me excitava como o inferno e eu me sentia tão quente que poderia muito bem explodir a qualquer momento. Porém, mantive-me firme. Eu queria gravar na memória cada traço de seu rosto e todos os movimentos de seu corpo quando eu a preenchesse. Por isso, mantive meus olhos fixos nela com atenção, deslizando meu membro para dentro dela com uma calma assombrosa, sentindo suas laterais se fechando ao meu redor, quentes, macias, envolventes. Gememos em uníssono assim que me coloquei inteiro para dentro e, em seguida, quando repeti o movimento, saindo quase por completo para logo depois voltar.

Permaneci nesse vai e vem lento por alguns instantes, ditando um ritmo tranquilo, acostumando-me com a sensação. Era diferente de tudo. Como Dhampir, meus sentidos não foram aguçados o bastante para captar a essência colossal de seu perfume, meus olhos, não tão competentes para atestar todas as suas curvas e expressões faciais de prazer. Mas agora? Tudo mudou. Eu a via de forma diferente, sentia seu corpo tão bem como nunca antes. E eu mal podia acreditar que esperara tanto tempo na esperança de despertá-la.

– Dimitri… Mais, mais… – Rose gemeu outra vez, impulsionando seu quadril de encontro ao meu da melhor maneira que pôde, exigindo mais de mim.

Não pude me conter muito depois disso. Agarrei ambos os lados de sua cintura firmemente e iniciei minhas investidas com estocadas implacáveis, fortes, observando abismado a junção perfeita de nossos corpos, o som do roçar de peles, seu suor escorrendo pela nuca e seguindo para a coluna. Com deleite, embriaguei-me no som de sua voz gemendo meu nome, inclinando meu corpo para mais perto do dela a fim de sugar o lóbulo de sua orelha com volúpia. Enterrei mais firmemente minha mão em seus cabelos escuros para impulsionar seu rosto para cima, expondo-me seu pescoço moreno outra vez. Novamente, o desejo de enterrar minhas presas ali me consumiu, mas decidi deixar isso para mais tarde.

– Oh, oh… Porra, Dimitri! – Ela exclamou repentinamente. Sorri contra a curva de seu pescoço, firmando meu aperto em seus quadris e fazendo movimentos circulares, penetrando-a outra vez, depois mais alguns círculos…

Como um sedento, fixei meus olhos nela outra vez assim que senti suas paredes internas se contraindo, um longo e potente gemido escorrendo por seus lábios quando gozou uma, duas vezes. Eu mesmo não consegui me segurar muito mais depois disso, ouvindo mais do que sentindo um grunhido rouco escapar de minha garganta enquanto aquela onda conhecida de prazer me preenchia, nublando meus olhos, aturdindo meus sentidos.

Minha respiração estava ofegante, mesmo que meu corpo não estivesse cansado. Esperei durante alguns minutos e delicadamente saí de dentro dela assim que voltei parcialmente ao normal, pegando-a em meu colo e a colocando sobre o colchão. Estirei-me sobre um dos cotovelos ao seu lado enquanto a observava com um sorriso nos lábios. Rose estava mole e entregue, completamente escorregadia de seu suor e com um próprio sorriso satisfeito no rosto. Deslizei meu dedo indicador por sua jugular, os olhos cerrados, avaliando se seria seguro desamarrá-la. Seus ombros estavam tensos e eu sabia que ficar muito tempo naquela posição poderia ser doloroso para ela, e absolutamente não era aquilo que eu queria que ela sentisse.

– Acho que eu vou te soltar agora. – Eu disse calmamente, avaliando sua expressão. – Se você fugir, não vai fazer a menor diferença, mas pouparia meu trabalho de te pegar outra vez. – Sorri de lado, encarando-a. – Só que, se isso acontecer, pode ter certeza de que eu não vou ser tão bonzinho como agora.

– Tudo bem. – Rose respondeu. – Eu prometo não fugir. Não depois disso.

Havia um toque de malícia e verdade em suas palavras, o que me convenceu. Segurei seus ombros a fim de incliná-la para frente, desatando o nó da corda que a segurava e libertando seus pulsos. Rose automaticamente os esfregou, esticando os braços para testar as articulações.

– Melhor? – Perguntei com desdém. Se ela estivesse transformada, não precisaria de nada disso, pensei com mau humor.

– Sim. Obrigada.

– Não por isso. – Respondi simplesmente, avaliando qual seria sua próxima reação.

Porque, vindo dela, eu poderia esperar absolutamente qualquer coisa.

***

Rose Hathaway

Ao me deixar cair de costas sobre o colchão, segurei o gemido de dor e passei a encarar o teto suntuoso que se erguia acima de mim, recusando-me a demonstrar fraqueza. Meu corpo todo doía, principalmente os pulsos ― que estiveram tão fortemente amarrados ―, e as costas, porém a dor não era incomoda o suficiente para sobrepujar a decepção e o desespero que se abatiam sobre minha mente confusa. Em paralelo, por mais que sua respiração chegasse até mim em ondas calmas e suaves, eu sabia que Dimitri me observada, tentando antecipar minha reação.

Dessa vez um suspiro cansado me escapou. Por Deus, se eu ao menos pudesse explicar a mim mesma o que acabara de acontecer, talvez pudesse proporcionar o espetáculo que ele tanto almejava. Em vez disso, permaneci em silêncio enquanto memórias recentes me assolavam a cabeça.

Eu acabara de transar com um Strigoi! Uma criatura maligna da noite de verdade, com a pele pálida como o branco da morte e olhos vermelhos e ameaçadores, e o pior de tudo: eu não fora forçada a isso. Muito pelo contrário. Eu o desejara, mais até do que uma mordida em minhas épocas de abstinência. A diferença é que eu não estava acostumada a contemplar meus desejos se tornando realidade.

Dois segundos depois percebi como tinha sido estúpido trazer tal sentimento à tona. Tudo o que eu não precisava agora era me lembrar da sensação de ter seus caninos enterrados na carne tenra do meu pescoço, as endorfinas adentrando minha corrente sanguínea e apagando qualquer problema, qualquer pensamento racional, deixando somente aquela doce, doce névoa de ignorância e felicidade...

Quando dei por mim, meu corpo inteiro já estremecia inquieto, prestes a arquear-se na direção de Dimitri, como se implorasse para sentir tudo aquilo de novo.

Diabos, eu só podia ter perdido o juízo. Não, mais do que isso, eu precisava ter perdido o juízo. No passado, a ideia de estar enlouquecendo, como Anna, a outra guardiã beijada pelas sombras, me aterrorizara até a morte. Eu temia que a escuridão do espírito tomasse conta de mim e me fizesse perder o controle, que me arrastasse para o limiar da insanidade a ponto de eu almejar acabar com a minha própria vida, agora, porém, seria um alívio poder atribuir minhas decisões e fraquezas à loucura.

Era isso, eu definitivamente preferia acreditar na minha loucura iminente do que sequer cogitar a possibilidade de que fizera sexo com um vampiro morto-vivo por livre e espontânea vontade.

Deveria eu ser acusada de praticar necrofilia? Eca!

Por outro lado, uma parte de mim ― a parte que costumava perder a razão quando o assunto era minha vida amorosa conturbada ― não parava de gritar a plenos pulmões que aquele era Dimitri, o homem com quem eu sempre quisera bagunçar os lençóis de uma cama, o mesmo homem que um dia dissera me amar e prometera me proteger. As únicas diferenças eram a palidez e frieza de sua pele e o tom gélido de sua voz. Coisas fáceis de se ignorar quando se estava no auge da paixão, como nos encontrávamos minutos atrás.

Eu bem sabia que de todas as idiotices que já cometera na vida, aquela merecia um prêmio de honra ao mérito, mas como controlar algo que está além de você? Se pudesse, jamais teria me apaixonado por alguém como ele, pra começo de conversa. Minha vida já era um bocado complicada com Lissa e todos os efeitos colaterais do espírito; eu definitivamente não precisava de uma complicação como um amor épico e proibido para me distrair. Talvez aquele fosse meu castigo divino por ter faltado a tantas missas aos domingos, não sei. De todo modo, se Deus realmente existia ― algo de que eu já voltava a duvidar ― era melhor nem pensar no que estaria me esperando depois dessa noite luxuriosa ao lado de um Strigoi.

Não seja tola, ralhei comigo mesma. Não haverá uma segunda chance pra você. Você só sai daqui morta ou transformada, não precisa perder tempo planejando o futuro.

Droga! Às vezes eu odiava saber que tinha razão.

― No que está pensando? ― Dimitri perguntou, atraindo minha atenção de volta para si.

Não fosse pela náusea, que apesar de controlada continuava presente como um ruído de fundo, eu até teria sido capaz de me esquecer de sua presença ali.

― Nas minhas escolhas ― respondi com sinceridade, sem me preocupar em entender o porquê. Já não importava mais. ― Ou melhor, nas minhas alternativas.

― E quais seriam elas?

Apesar do tom curioso, havia ainda um toque de impaciência em sua voz, um tom desdenhoso que acompanhava a fala de qualquer Strigoi. Era como se ele não estivesse realmente interessado, mas tal qual um adulto faria com uma criança, me instigava a falar, mesmo que já considerasse uma asneira.

― Morrer ou me trans... despertar.

― Acha mesmo que se quisesse matar você, a traria até aqui? ― Acho. Você iria querer me torturar primeiro. ― Não, matar você não é uma opção. Nunca foi.

― Isso não é verdade ― revidei antes que tivesse tempo de me deter, recebendo um olhar raivoso em troca. Por que diabos eu fora nascer sem um maldito freio na língua?

Ah, que se dane.

― No bilhete que me enviou no dia da minha formatura você dizia que teria de levar minha vida desse mundo. Soa como uma ameaça de morte, não?

― As coisas mudaram, Roza. Você insiste em se preocupar comigo, quando na verdade existiam dezenas de Strigoi disputando a sua cabeça. Eu falei sério quando disse que se queria tanto morrer, que fosse pelas minhas mãos.

A maneira casual como ele tratou do meu assassinato me revirou o estômago e eu quase me encolhi como uma bola quando ele tornou a se virar para mim, passando um braço por sobre a minha cintura. Sua pele era fria como gelo contra a mim ainda quente, provocando arrepios que ficavam a meio caminho de serem repelentes e excitantes. Era como tentar escolher um lado dentro de uma batalha travada consigo mesmo. E em meio a tantos conflitos, a mesma voz que me impelira a ficar com ele agora sussurrava mansamente em minha cabeça, mostrando-me um ângulo que eu não era capaz de enxergar sozinha. Ainda que fosse de um jeito torto e doentio, Dimitri estava cumprindo a sua promessa, ele estava cuidando de mim. E apesar de minhas provocações, morrer por suas mãos seria muito melhor do que cair da emboscada de qualquer Strigoi. Eu sabia disso e ele também.

― Agora que grande parte do grupo foi morto naquele galpão, não há mais perigo. Dos que sobraram, poucos tem motivo para querer chegar até você, e os que o têm não são tolos o suficiente para se colocar no meu caminho.

A certeza arrogante em suas palavras me acalentou e aterrorizou ao mesmo tempo. Eu queria muito, muito me sentir segura ao seu lado, como tantas outras vezes quando ele ainda era um Dhampir, e por breves segundos até consegui, deixando-me levar pela ilusão de que o que tínhamos ainda era amor, puro e recíproco, mas bastava olhar em seus olhos, os mesmos olhos que um dia eu tanto amara, para ver que eu não passava de uma boa aquisição.

Exceto que... exceto que dessa vez parecia haver mais alguma coisa ali. Era ínfimo, e podia muito bem ser fruto da minha imaginação perturbada, mas eu não podia ignorar. Aquele brilho que iluminava seus olhos e o deixava menos amedrontador definitivamente era admiração. Eu já vira aquele olhar tantas vezes... Em nossos treinos de combate, nos momento em que lutava para estabilizar a mim e a Lissa, na noite que passamos juntos na cabana...

A cabana. Merda, aquele não era um bom momento para ter recordações desse tipo. Não quando eu não poderia ter toda a magia e o encanto de volta; e ainda que transar daquela maneira carnal e arrebatadora fosse incrível ― meus orgasmos podiam muito bem falar por mim ― nunca seria a mesma coisa. Por outro lado, eu não estava disposta a desperdiçar o agora. E depois de ter perdido Dimitri tantas vezes, só o que eu queria era estar em seus braços outra vez, mesmo que por apenas mais uma noite inconsequente.

― Você sabe que seria uma idiotice lutar contra mim ― Dimitri sussurrou contra meu rosto, uma mecha do meu cabelo presa entre os dedos, quando eu o encarei resoluta.

― Eu sei ― menti, engolindo todas as respostas malcriadas que me vieram a mente. Eu sabia que era páreo para ele e era isso o que importava. ― Eu não vou.

Acabei por pegar a nós dois de surpresa quando, ao me inclinar para frente, passei um braço ao redor do seu pescoço e o beijei. Dessa vez quase não notei a frieza de seus lábios, mais preocupada em me entreter com as mãos atrevidas que corriam soltas por minhas coxas e quadris, provocando-me, instigando-me a continuar com aquela loucura. Por não ter que duelar contra seus próprios conceitos de certo e errado, era mesmo de se esperar que ele fosse retribuir o carinho sem nenhuma hesitação, e com muita, muita vontade.

Dimitri provou isso ao puxar-me ainda mais para si, pressionando-me contra o seu peito. Aquele impulso era tudo o que eu precisava para me posicionar em cima dele, minhas pernas escorregando pelas laterais do seu quadril, porém minha conquista não durou mais do que breves segundos. Sem quebrar o beijo ― sua língua brincando com a minha de forma obscena ― ele nos rolou pela cama, prendendo-me contra o colchão. Quando abri os olhos e me deparei com sua expressão ferina e ameaçadora, aprendi outra de minhas importantes lições: Strigoi não gostam de ser dominados.

― Desde quando gosta de brincar com o perigo? ― ele perguntou, uma sobrancelha erguida e uma rouquidão sexy permeando a sua voz.

Senti-me subitamente enrijecer, em expectativa.

― Desde que conheci você.

E sem mais delongas, sua boca devorava a minha novamente.

A excitação, àquela altura, já me assolava como uma necessidade primitiva, o tesão assumindo por completo controle do meu ser, preenchendo-me da cabeça aos pés. Eu era sua, simplesmente sua, pra ele fazer o que quisesse.

Pensei que fosse sair de órbita quando o vi se agigantar em cima de mim, os músculos tensionados de seus braços ocupados em sustentar-lhe o peso, as mechas daquele cabelo macio caindo pelo rosto bem desenhado, os olhos famintos, daquela distância escuros, infinitos...

Meu grito ecoou pelo quarto quando ele me penetrou, sem aviso. Eu ainda estava sensível e dolorida devido à nossa primeira transa, de modo que não sabia dizer se os sons que me escapavam pela garganta eram de dor ou prazer. Talvez dos dois. Dessa vez Dimitri não perdeu tempo, movendo-se com firmeza e rapidez, empurrando contra mim e recuando antes mesmo que eu tivesse a chance de tentar acompanhá-lo.

Deus, aquilo era maravilhoso.

Esforçando-me para manter os olhos abertos, foquei-me nas expressões extasiadas que lhe contorciam a face, nos grunhidos que ele emitia a cada vez que chocava os quadris contra os meus, nas espiadas lascivas e cobiçosas que ele lançava sobre meus seios, e principalmente na forma como ele me olhava. Era duro e sexy, como se tentasse decidir entre me dar mais e mais prazer ou buscar o seu próprio.

Minhas unhas curtas, atraídas pela pele pálida de suas costas, desenhavam marcas e vergões que desapareceriam em minutos, diferentemente dos hematomas e escoriações que ele me deixava pelo corpo. Quando tinha a boca livre de seus beijos gloriosos, palavras ininteligíveis e torrentes de palavrões preenchiam o ar, bem como seu nome e pedidos cada vez mais desesperados por mais. E ele atendia, investindo contra mim sem piedade, dando-me mais de si do que eu poderia aguentar.

Meu fim estava próximo, eu podia sentir. Como se lesse meus pensamentos, Dimitri fez a única coisa que poderia me desestabilizar ainda mais: em meio a uma carícia ousada no meu pescoço, roçou seus caninos contra minha jugular.

Foi como a detonação de uma bomba!

Anseios e desejos, até então adormecidos nas profundezas do meu ser, voltaram à tona, exigindo o que há tempos lhe era negado. De repente, eu precisava daquela mordida, precisava do prazer alucinógeno que só as endorfinas vampirescas eram capazes de criar, e precisava agora. Nada mais importava no mundo, apenas Dimitri e a satisfação que ele podia me proporcionar.

― Dimitri, oh... Dimitri, por favor. Eu preciso... eu preciso sentir...

― O que, Roza? ― perguntou ele ofegante, sem se deixar perder o ritmo. ― Posso lhe dar o mundo, se quiser.

Eu não queria o mundo. Não ainda.

― A mordida. A sua mordida, por fa... Ah...

Por um segundo cheguei a arregalar os olhos, a dor fazendo com que eu me contraísse ao seu redor antes de desfalecer naquele mar de júbilo e felicidade. Eu estava voando novamente, como uma pluma carregada pelo vento conforme sua saliva penetrava a minha corrente sanguínea.

No passado, eu costumava me desligar da realidade ao curtir a onda que as endorfinas me proporcionavam; relaxava e me deixava levar, hoje, porém, tudo parecia diferente. Meu corpo não amoleceu pesado sobre o colchão, não perdi a sensibilidade nos pés e nas mãos e muito menos me esqueci de onde estava e de quem eu era. Era como ter todos os seus sentidos triplicados.

Rapidamente me perdi em meio a tantos membros entrelaçados, corpos suados e escorregadios, gemendo sofregamente o quanto tudo aquilo era maravilhoso. E enquanto ele ainda se alimentava do meu sangue, gozei, como nunca antes.

Eu ainda tremia quando ele me alcançou, gozando com tanta intensidade quanto eu. Seus dentes há muito haviam abandonado minha garganta, e por mais que já houvesse recuperado um mínimo da minha sensatez, me sentia completamente dopada. Mal notei quando seu corpo abandonou o meu, exceto pelo breve alívio de meus músculos cansados. Sem forças, virei-me como pude na sua direção, o sorriso satisfeito nunca deixando meus lábios inchados e dormentes.

― Você está bem? ― Dimitri perguntou, soando como se estivesse realmente preocupado. Eu mesma já não estava em condições de decidir.

― Melhor impossível, apesar de exausta.

― Hum... Não acho que já tive o suficiente de você ― comentou ao correr os dedos sugestivamente pelo meu pescoço, próximo a mordida que eu acabara de receber.

― Então venha e pegue mais ― ofereci, na esperança de mais uma vez dormir embalada pelas suas endorfinas. Elas sempre me proporcionavam os mais belos sonhos, a fuga perfeita que eu precisava da realidade.

― Eu irei, assim que a colocar para dormir.

― Vamos ficar até amanhã? Você vai ficar comigo até amanhã?

― Não se preocupe, Roza. Quando você despertar, estarei aqui.

E sem mais delongas, suas presas tornaram a encontrar o caminho da minha jugular, levando o que restava da minha consciência, desse mundo.

***

* Gii Vieira Fanfics

https://www.facebook.com/groups/225649587624077/

* Fanfics Roberta Matzenbacher

https://www.facebook.com/groups/242187785977722/

Notas finais
Roberta Matzenbacher: Olá, gente! Espero que tenham gostado de Animals tanto quanto eu ao escrevê-la. Foi uma experiência emocionante e reveladora (eu não sabia que poderia ser tão safada assim, hahahahaha), mas que eu amei. Peguei o jeito da coisa, acho, e já fiquei com vontade de escrever mais e mais, mas como eu sempre tenho esse desejo, então, nem conta. Como fiquei com as notas finais, não me resta muito a dizer, apenas torcer para que a recepção seja boa e vocês se dignem a nos dar uma opinião. Trabalhamos duro, mas sempre há algo a ser melhorado, certo? Quero que nos digam, por exemplo, o que acharam desse Dimitri molhador de calcinhas (mais do que o normal) ou a forma de abordagem, se acertamos como Strigoi ou na narração da Rose. Não tenham preguiça, ok? Então, dados os recados, vou me retirar. Obrigada por lerem! Beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!