Anima
3 Um estranho na escuridão
Notas iniciais
Nathan e Viollet haviam me dado uma carona, disseram que pegariam o mesmo caminho então aproveitei a oportunidade. Cheguei em casa e subi direto pro meu quarto, não queria ter que dar explicações para os meus pais sobre aquele olho roxo, se eles soubessem que eu estava metido em briga na escola com certeza eles estranhariam e depois me colocariam de castigo por um mês ou mais. Joguei a mochila no chão e despenquei na cama, o efeito do analgésico que eu tomara na enfermaria estava fazendo efeito, a dor havia sumido completamente.
Tinha uma coisa que eu estava esquecendo completamente, fiquei olhando o teto do meu quarto por alguns minutos, não era nada sobre a briga. Lembrei-me do cara que eu vira no metrô antes de desmaiar, um frio percorreu pela minha espinha. Eu havia esquecido o acontecendo depois do dia conturbado que tive. Quem ou o que era aquele cara? Aquelas vibrações negativas que vinham dele, não podia ser humano. Será que realmente eu estava voltando a vê-los? Senti um nó na garganta.
Puxei a cadeira e sentei-me, fazia um tempo que eu não usava aquela mesa que estava localizada no canto do meu quarto ao lado da minha prateleira de livros, lá era onde eu fazia minhas tarefas e estudava. Tirei da mochila o caderno de anotações de Nathan, por incrível que pareça, nós estávamos nas mesmas aulas e eu tivera perdido assuntos então ele me emprestou suas anotações. Comecei a escrever os conteúdos que eu havia perdido, não era muita coisa então acho que em uma hora eu acabaria tudo.
“Toc. Toc. Toc.” Ouvi baterem na porta.
– Quem é? – Perguntei.
– O jantar está na mesa. – Respondeu minha mãe.
– Não estou com fome, se eu sentir fome mais tarde eu desço e como qualquer coisa. Ok?
– Tudo bem querido.
Depois de uma hora eu finalmente acabara de passar todos os conteúdos a limpo, guardei as coisas tudo na mochila e liguei a televisão, estava passando o noticiário.
“Saiu o laudo médico do corpo do zelador encontrado sem vida na última sexta feira no colégio St. Agnes. Os resultados afirmam que seus olhos simplesmente explodiram em suas órbitas, isso foi o resultado do aumento desenfreado da pressão em sua cabeça ocasionando essa tragédia. Fique atento para mais informações. Obrigada.”
Deitei novamente na cama com essa notícia martelando na minha cabeça, aquilo era muito estranho. Qual a causa que levara os olhos de uma pessoa explodirem? Não tinha nada de natural naquela morte pensei comigo mesmo, o zelador era cheio de saúde e tinha no máximo uns 30 anos como eu vira ontem no noticiário. Estava mais do que na cara que tinha um mistério por trás daquela morte, e apesar do medo eu estava louco para descobrir o que era. A resposta estava bem debaixo do meu nariz, mas eu fingia não enxergar, tentava me conformar que tudo ainda estava naturalmente bem e que essas coisas de espíritos teriam ficado no meu passado, um passado triste e sombrio da minha vida que eu queria esquecer para sempre.
Levantei-me e fui em direção do espelho rever o estado que o meu rosto ficara depois do “pequeno incidente” no refeitório, não sentia mais dores, mas me recusava olhar no espelho com medo dos resultados. Não sou um garoto vaidoso e nem me preocupo tanto com a minha aparência, sou mais do tipo relaxado que não se preocupa tanto com essas coisas fúteis. Como pensei, um hematoma roxo bem ao redor do olho direito gritava no meu rosto em contraste com minha cara pálida e sem um pingo de sangue, meus olhos negros praticamente se camuflavam com aquele tom arroxeado estampado em meu rosto. Um ferimento pendia no canto da minha boca, não era coisa grande demais e que precisasse de cuidados especiais, era só um pequeno corte, tive a ideia de passar o dedo sobre o ferimento. Que gênio. Aquilo ardeu bastante. Mordi a língua de dor.
Olhando pelo reflexo do espelho avistei um vulto no canto do meu quarto. Como meu quarto estava apenas iluminado pela televisão pensei ter sido impressão minha, não liguei afinal muitas das vezes minha imaginação fazia eu ver coisas onde não havia nada, talvez meu cérebro estava acostumado ver aquelas aparições grotescas e perturbadoras e me fazia confundir toalhas atrás da porta no escuro com espíritos me observando. Era impossível, iria fazer exatamente Q U A T R O anos que não acontecia nada semana que vem, mas se eu ligasse os fatos que aconteceram durante o dia os resultados seriam não muito maravilhosos. Balancei a cabeça tentando escapar daqueles pensamentos.
As horas estavam passando rápido demais, o relógio marcava 15 minutos para 22 horas e eu estava entediado naquele momento, não estava afim de mexer na internet, depois de conferir os hematomas fui conferir meus livros na estante que eu deixava impecavelmente bem arrumados em ordem de compra, da esquerda para direita, os livros mais antigos começavam na esquerda e por fim na ponta da direita na terceira e última prateleira o último livro que eu havia comprado, havia três dias que eu já tinha terminado de lê-lo.
Um frio percorreu pelo meu corpo quando virei-me e dei de cara com uma senhora que flutuava a poucos metros de mim, fiquei imóvel com os olhos arregalados de espanto. Respirei fundo. Fechei e abri os olhos e nada deu certo, a senhora ainda permanecia ali não importava quantas vezes eu abrisse ou os fechasse, não mudaria em nada.
– Não fique com medo Jamie – disse enquanto sentava na ponta da minha cama. – Venha, sente-se aqui.
Ordenei as minhas pernas para correrem dali o mais depressa possível, mas elas não obedeceram, engoli um nó seco que me incomodava na garganta e meu corpo se moveu sozinho para cama, por fim sentei-me do lado oposto da cama, o mais longe possível.
– Normal você sentir medo. Eu mesma fiquei apavorada por alguns meses quando soube que não vivia mais.
Respirei fundo, eu estava conversando com um espírito. Quando criança eu os via mas nunca tentei maior aproximação com algum deles como agora. Na verdade eles me ignoravam o tempo todo, não que eu tentasse falar com algum deles, mas eles não percebiam que eu pudia os ver.
– O q-que você quer comigo? – gaguejei ao perguntar.
– O que eu quero? Não quero nada querido, mas creio que você precisa de algumas explicações, certo? – Agora ela olhava em minha direção.
Balancei a cabeça fazendo um sim.
– Jamie, vá na sala e olhe numa gaveta que está debaixo da televisão. Traga um álbum de fotos que está lá no fundo.
Precisei de um minuto para analisar o seu pedido, ela estava pedindo para eu buscar um álbum de fotos que nem eu mesmo sabia da existência de tal objeto na sala da minha casa, tínhamos alguns álbuns de fotos porém todos estavam guardados na escrivaninha no quarto da minha mãe. Por fim, desci para sala de estar, ninguém estava lá em baixo pra minha sorte, ainda estava tentando evitar encontrar alguém com aquele rosto machucado.
Vasculhei a gaveta que ela havia mencionado e bingo! Como ela disse, existia um álbum de fotografias meio velho e empoeirado naquela gaveta, peguei-o e subi o mais rápido possível.
– Está aqui, como você pediu – joguei o álbum sobre a cama entre nós dois. – Mas como você sabia dele?
– Pegue o álbum e olhe a quinta foto do inicio para o fim.
Fiz como ela pediu, era uma foto meio antiga e desgastada pelo tempo. Pronto, esta aí.
– Consegue reconhecer os dois da foto? – Perguntou-me.
Olhei por alguns minutos a foto em silêncio e tentei vasculhar nas minhas memórias algo sobre aquela foto, de fato eu não conhecia os dois, mas se eu não me enganava minha mãe teria me mostrado aquela foto há muito tempo atrás. Lembrei-me.
– Não os conheço, mas sei quem são. Porquê?
Minha voz falhou ao perceber o que estava acontecendo, aqueles dois na foto... Aqueles dois eram... Aquela senhora. Suei frio.
– V-você é... V-você. – minha voz vacilou.
– Sim querido, sou sua avó.
Ela não mudara muita coisa se comparada àquela foto, minha mãe dissera que a fotografia era recente na época em que minha avó teria morrido. Nunca cheguei a conhecer ela ou meu avô, apenas os via em fotografias velhas, quando meus avós morreram eu ainda era um bebê então não tinha nenhuma lembrança deles.
– James querido, escute. Não tenho muito tempo.
– Ok. – Respondi mostrando o máximo de atenção possível.
– Como você percebeu você já está voltando a vê-los. Quando você completou doze anos estava saindo da infância e se tornando um adolescente. A adolescência é muito complicada e eu tinha medo do que poderia acontecer com você com aquilo tudo que você estava passando sozinho, por mais que eu passasse todas as noites com você eu não podia fazer mais do que ficar vigiando você...
– Você tinha medo que eu enlouquecesse? – interrompi. – Que eu tirasse minha própria vida?
– Sim querido, eu via o que você passava constantemente na infância e eu usei o restante da energia que me restava e consegui trancar a sua habilidade por esses quatro anos. Seu décimo sexto aniversário está chegando e tudo voltará como era antes.
– Como você sabe de tudo isso? – perguntei confuso.
– Não tenho mais tempo meu amor, mas você é igual a mim. Temos a mesma habilidade, isso é passado de geração em geração. Queria poder explicar tudo a você, mas minhas energias estão acabando. Estou tão orgulhosa de você, como você está grande! Logo você saberá de tudo, eles irão encontrar você e você poderá confiar neles. Mais uma coisa querido, o medo será o seu maior inimigo, tome mais cuidado em tudo que você for fazer ou onde você for. Eu amo todos vocês.
Não sabia se espíritos choravam, mas se eles pudessem o que eu vira realmente eram lágrimas que caíam do rosto de minha avó antes dela se desfazer e ser levada pelo vento. Levei a mão aos olhos e interrompi que as minhas lágrimas molhassem a cama, tive um encontro com minha avó e aquela experiência esclareceu muitas coisas que eu me questionava ao longo da minha vida, agora eu sabia que o quê eu tinha era uma espécie de dom passado de geração em geração, mas antes dela ir deixou mais algumas questões pendentes.
Quem iria me encontrar? Será que eu realmente poderia confiar nessas pessoas? E o mais importante de tudo, o quê eu era? Qual propósito? Senti algumas pontadas em minha cabeça. Deitei na cama e um vento frio entrou pela janela que estava aberta todo esse tempo. Levantei-me e fui fechar a janela, a noite estava calma e as árvores próximas a minha residência dançavam com o vento forte que soprava entre elas, mas algo chamou minha atenção entre as árvores, estava escuro e não pude distinguir o que realmente era, mas tive a impressão de estar sendo observado de fora de casa. Uma sombra se mexeu no meio das árvores e mergulhou escuridão adentro. O que seria aquilo? Pensei em ser mais um fruto da minha imaginação, mas lembrei-me do que minha avó teria mencionado minutos antes. “O medo será o seu maior inimigo”, e logo percebi o que eu estava sentindo era medo. Mordi o lábio inferior.
De fato eu estava sendo vigiado, quem seria? Mais dúvidas rondavam minha cabeça, será que eu estaria seguro ali na minha casa? Preferi acreditar que sim, todo esse tempo nada tinha me acontecido, mas ultimamente as coisas ficaram tão loucas que eu não sabia se as certezas que eu tinha ainda eram confiáveis, dei um longo suspiro.
Já estava tarde da noite e eu não conseguia dormir de jeito algum, minha mente estava perturbada com tudo aquilo e eu não parava de pensar nas coisas que me aconteceram naquele dia. Rolei várias vezes na cama. Eu teria que acordar daqui algumas horas para ir para mais um dia de aula e os pensamentos em minha cabeça eram os mesmos. Desci para cozinha e fui ver um velho amigo que me fazia companhia todas as noites de insônia, não que ele resolvesse o problema, na verdade ele contribuía ainda mais com a insônia. Dei um leve sorriso ao chegar à cozinha, balancei a garrafa com esperança de ela estar cheia e para minha felicidade estava. O bom e velho café. Peguei uma xícara e a enchi praticamente até a boca. Abri um grande sorriso.
Ouvi passos na escada, quando vi minha mãe com roupão e pantufas ainda um pouco sonolenta. Ok, eu estava ferrado.
– Jamie, o que ainda está fazendo acordado a essa hora? – Perguntou-me coçando os olhos. Minha mãe era linda, eu era bastante parecido com ela fora a beleza é claro, ela tinha longos cabelos negros e lisos assim como os meus, os mesmo olhos tão negros quanto os cabelos que eu também herdara dela, a única diferença era a pele bronzeada que ela possuía e a minha que parecia um palmito de tão pálida.
– Ah mãe... Eu estava sem sono então decidi vir tomar um café... – Falei virando de costa para ela não perceber os hematomas em meu rosto.
– E você acha que tomando café lhe daria sono?
– Não, mas senti vontade... Enfim.
– James? Por que está de costas para mim? Vire-se.
– Ah... É. Bom, ok. – Não tinha como esconder por mais tempo, mais cedo ou mais tarde alguém veria então decidi não adiar mais... Virei-me.
– Querido, o que aconteceu com seu rosto? Você se meteu em alguma briga senhor Salazar?
Contei o que havia acontecido para ela, ela ouviu tudo com atenção e acreditou em mim.
– Por que não me disse antes meu filho? Você quer que eu escreva um bilhete para os pais desses garotos? – Disse ela com um ar de preocupação.
– Não mãe, está tudo bem e eu já sou bem grandinho. Foi só um infeliz incidente, e duvido que eles voltem a me procurar depois... – Expliquei.
– Tudo bem, mas se você tiver algum outro problema é só falar comigo ok? – Ela coçou o meu queixo como fazia de costume.
– Mãe, fale-me um pouco sobre a vovó.
– Sobre a sua avó? Ok. Sua avó era magnífica, protetora e transmitia uma tranqüilidade tão grande a qualquer pessoa que fosse. Apesar de ela passar mais tempo fora de casa do que conosco, não que ela preferisse, mas o seu trabalho exigia muito dela e às vezes ela ficava dias sem vir em casa.
– Ela trabalhava em quê?
Minha mãe ficou em silêncio por alguns segundos, parecia que ela vasculhava alguma coisa em sua mente.
– Eu não me lembro totalmente, mas se eu não me engano ela trabalhava com vendas, viajava muito, mas quando estava em casa era um amor.
– Hum... Entendo.
– Mas por que essas perguntas tão repentinamente?
– Ah, como eu não a conhecia queria saber um pouco mais sobre ela.
– Como eu disse querido ela era maravilhosa em todos os sentidos, ainda sinto muita falta dela. Não lembro se já disse isso a você, mas você me lembra muito mamãe.
Notei que uma lágrima queria escapar do olho esquerdo da minha mãe, ela fechou os olhos e por fim ergueu a cabeça.
– Agora vamos, já para cama que amanhã cedo você tem aula.
– Ok. – Concordei.
O sono finalmente havia chegado, cambaleei para o meu quarto sonolento e me joguei na cama por fim adormecendo. Foi a melhor noite que eu tive em meses, dormi feito um anjo apesar de ser altas horas da madrugada.
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